ANO 4 Edição 63 - DEZEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: Efeméride

Eu curto efeméride. Essa coisa de se celebrar um fato ou acontecimento importante que ocorreu em determinada data tem um sabor muito especial para mim. Concordo com aqueles que afirmam serem as lembranças um estímulo para a vida, precisamos olhar para frente, mas, às vezes, entortar o pescoço e vislumbrar o passado pode ser saudável. Recordar é viver. Não chega a configurar um comportamento obsessivo, porém, volta e meia, me pego fazendo contas, querendo descobrir o aniversário de um evento famoso. Amanhã, por exemplo, escrevo no dia 02 de dezembro, comemora-se cinquenta anos do primeiro transplante de coração realizado no mundo. Meio século! No dia três de dezembro de 1967, um médico sul-africano, cidadão charmoso e de fala fácil, o Dr. Christiaan Barnard, pegou o coração de Denise Durvall, que havia sofrido um acidente de automóvel e tido morte cerebral, colocou no peito de Louis Washkansky, doente crônico cardiopata com cinquenta e três. A imprensa fez festa, logo disseram que o transplantado era um homem com coração de moça. Vejam só! Ela tinha apenas vinte e cinco. Embora tenha havido uma sobrevida de somente dezoito dias, já que Washkansky acabou morrendo de pneumonia, imunidade fragilizada pelas drogas necessárias para impedir a rejeição do órgão, lembro-me perfeitamente bem do sucesso de mídia da empreitada.


Já houve um tempo da lua na televisão. Quando Neil Armstrong colocou os pés em solo selênico, estávamos todos grudados na telinha em branco e preto. Existia tecnologia para colocar no lugar preferido dos namorados um cidadão americano, mas ver isso colorido já era demais. Em vinte de julho de 2019 também comemoraremos cinquenta anos desta façanha épica, quando foi dita a célebre frase pelo comandante astronauta da missão: “Este é um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade”. De lá para cá, fica-me a impressão, a humanidade especializou-se em dar gigantescos passos para trás. O que não vai me impedir de observar daqui a dois anos o calendário e recordar-me de Alice, uma senhora que trabalhava na casa dos meus pais. Não houve quem a convencesse da realidade da chegada da aeronave no satélite. Para ela se tratava de propaganda política, coisa para enganar otários. Alice, certamente, não vivia no país das maravilhas.
E outras efemérides poderiam ser mencionadas. Ficaríamos aqui um bom tempo enumerando momentos especiais caso a paixão por observar tais acontecimentos não se tornasse inconveniente demais. Só em 2017 existe uma série deles. Há quinhentos anos, por exemplo, Martinho Lutero afixou na porta de uma igreja alemã suas 95 propostas para a revisão do catolicismo, iniciando a reforma luterana. Não há muito o comemorar, creio, graças ao seu esforço temos hoje no Brasil evangélicos. Gente, ou quase gente como Malafaia e Crivella.  Parece incrível, mas há apenas dez anos a Apple lançou o iPhone. Há cento e cinquenta anos foi criada a dinamite e publicado o primeiro volume de “O Capital”, de Karl Marx, eventos que na minha opinião se equivalem. E apesar de dizerem que ele não morreu, há exatos quarenta anos falecia Elvis Presley. E como a nossa querida língua portuguesa é muito rica, existe um antônimo para efeméride: esquecimento. Penso que poderíamos esquecer os cem anos do nascimento de Jânio Quadros, por exemplo.


Contudo, efeméride pode ter característica totalmente pessoal. Existem momentos de nossa vida que, embora nada signifiquem para o mundo, são importantes para nossos umbigos particulares. No ano que vem, logo no comecinho dele, em janeiro, completarei sessenta e quatro anos de vida. Desde a primeira vez em que ouvi When I'm Sixty-Four, a música dos Beatles, banda mais importante de todos os tempos se levarmos em consideração passado, presente e futuro, aguardo o momento esperado. Quanto eu tiver sessenta e quatro, for mais velho, perdendo os cabelos. Tal expectativa acompanhou a frase cantada por Paul McCartney durante quase toda minha existência, amedrontando-me. E agora quase chegou o momento. Só espero que minha mulher, sentada lá na sala, ainda precise de mim. Será que ela irá me alimentar quando eu tiver sessenta e quatro? Ainda ganharei presente no dia dos namorados? Alugaremos aquela cabana na ilha de Wight? Netos no joelho. De minha parte espero continuar sendo útil trocando fusíveis. E embora tais dúvidas e desejos sejam apenas versos da composição, a poesia do conjunto de Liverpool ainda está aqui, mesmo não sendo mais assustadora.  Sessenta e quatro, finalmente sessenta e quatro, e sem medo.
Dez. 2017

 

Ricardo Ramos Filho é escritor com livros editados no Brasil e no exterior, publicados em Portugal e nos Estados Unidos. Mestre em Letras no Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, doutorando no mesmo programa. Desenvolve pesquisa na área de literatura infantil e juvenil, onde vem trabalhando academicamente Graciliano Ramos, privilegiando o olhar sobre seus textos escritos para crianças e jovens. Ministra diversos cursos e oficinas literárias na Escola do Escritor (literatura infantil, roteiro de cinema, poesia, conto e crônica). É roteirista de cinema com roteiros premiados, tendo ministrado curso de extensão na ESPM. Atua como coach literário, orientando clientes na elaboração de seus livros. Cronista da revista literária eletrônica Escritablog, onde publica mensalmente. Participou como jurado de concursos literários: Proac, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura, Prêmio Mato Grosso de Literatura, Paulo Setúbal de Tatuí. Curador do 1º Prêmio Nelly Novaes Coelho UBE de Literatura Infantil.  Sócio proprietário da empresa Ricardo Filho Eventos Literários, onde atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

 

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