ANO 4 Edição 63 - DEZEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Rosângela Vieira Rocha


Nunca mais é Junho

Pela vigésima vez, Muriel olha o menino dormindo no berço. A cada dia ele lhe parece mais robusto e menos cabeludo. Dario nasceu com muito cabelo, mal se via o seu rosto. Agora, já com três meses, o excesso desapareceu por completo. O nariz largo e vermelho tornou-se mais fino e comprido. Não é mais um bebezinho ruivo: adquiriu jeito de menino, os contornos da boca em formato de coração se firmaram, o choro ficou mais grosso e rouco.


O nascimento do primeiro neto ocupou-a completamente nos últimos meses. Dedicou-se a bordar colchas, tecer mantas, fazer bicos de crochê em casaquinhos. Ela – que nunca foi fã de trabalhos manuais - fez um esforço enorme para lembrar os pontos que a mãe, morta há muito, lhe ensinara na infância. Não se lembrou de tudo e por isso teve aulas particulares com a dona do armarinho da sua rua.


Desde o casamento de Lúcia, sua única filha, sonhou ser avó. E agora este presente: o menino encantador está ali levantando os bracinhos para ela e dando risadinhas. Sim, sempre fora sortuda.
A mulher de sorte olha o neto e não consegue segurar as lágrimas. A mulher de sorte sente vontade de morrer por causa das palavras que ouviu há dois dias. Olha o aparelho telefônico e deseja quebrá-lo em pedacinhos, espatifá-lo até transformá-lo em nada. Sim, foi através dele aquela conversa definitiva, meia dúzia de frases que a deixaram perplexa e impotente.


A culpa não foi de Dario, é claro. Um bebê não pode ser responsabilizado por coisa alguma. Mas seu nascimento não a deixou pensar em nada mais, transformou-a numa mulher desinteressada e numa amante negligente. Há quanto tempo não falava com Juan Pedro? Como não foi capaz de perceber que suas mensagens haviam rareado, seus telefonemas foram escasseando, os sinais que ele enviava à distância se desbotando há semanas, meses?


Esforçou-se para se lembrar quando ouviu (pessoalmente) pela última vez o castelhano duro e seco de Navarra, o inconfundível sotaque que é capaz de reconhecer em qualquer lugar. Juan Pedro fala como se tivesse um ovo dentro da boca e a pronúncia das palavras lhe fosse extremamente custosa. O homem com quem passava longas temporadas há quase dez anos. Ele vinha ao seu país, ficava um mês ou dois em sua casa, às vezes viajavam para o litoral. E daí a algum tempo era a sua vez de ir ao encontro dele. Passeavam juntos, conheciam regiões exóticas, visitavam vilas medievais, museus, jardins, exposições, assistiam a concertos. As noites eram excelentes, os dias voavam quando estavam juntos.  Falavam sobre tudo, o repertório de assuntos parecia infindável, assim como as taças de vinhos deliciosos.


Lúcia gostava de brincar que Juan Pedro era o seu “ficante”. Não se tratava disso, decerto, mas como explicar a uma filha jovem que eles decidiram viver assim por conveniência? Ele tinha filhos e netos e não queria mudar de país. Muriel nunca pensou em renunciar à sua cidade, à sua casa e suas árvores frutíferas, especialmente à pitangueira que plantara com as próprias mãos, nem sequer examinou a hipótese de morar longe de Lúcia. Tinham feito a combinação desde o início: cada um em sua casa, cada um em seu país. Um namoro por temporadas. Pareceu-lhes natural que fosse assim, ou menos penoso para ambos.


Nas primeiras viagens ela ficava meio acanhada nos saguões dos hotéis, onde os dois eram tratados como casados. Sempre aquela estranheza: como dois amantes de mais de sessenta anos se apresentam? Ela se referia a Juan Pedro como namorado, embora se sentisse um tanto ridícula. Namoro nesta idade ainda é possível? Não seria infantil demais o termo namorado? Ele ria dela, achava tola demais a sua preocupação com palavras. Dizia que ela era melindrosa e detalhista. Mas ela sabia – leu isso no rosto do rapaz da alfândega – que o termo namorado, para eles, era considerado meio risível.


Ele foi o seu único homem nos últimos dez anos. O melhor amigo, a pessoa mais próxima, com quem tinha coragem de se abrir e mostrar as fraquezas mais ocultas. Nunca o negligenciara antes da complicada gravidez da filha. Sobretudo nos últimos meses, quando Lúcia teve de fazer repouso para controlar a pressão arterial, Muriel não teve olhos para ninguém que não fosse a sua cria. Foi muito solicitada depois do nascimento de Dario. No início, o bebê chorava demais, queria mamar no peito e a mãe não tinha leite. Lúcia chorava o tempo todo, junto com o filho. Ela se viu na obrigação de tomar as rédeas, apaziguar os ânimos, cuidar de mãe e filho, sem falar no genro nervoso e imaturo, que ainda tinha de aprender a lidar com a nova situação.


Mas em certo momento, debaixo do chuveiro, ensaboou as costas e o gesto a fez pensar em Juan Pedro, na suavidade com que a esfregava, nos longos banhos que tomavam juntos depois dos passeios, e estremeceu. O que teria ocorrido, onde estaria ele, antes tão loquaz, fazendo-se presente mesmo à distância? Desde quando começara aquele sumiço? Enxugou-se rapidamente e foi buscar a agenda para ver se havia alguma anotação, alguma pista. Desapontada, descobriu que não havia nada referente a ele. Todas as notas diziam respeito a consultas médicas do neto, pontos da cesárea da filha a tirar, horários de papinhas. Até mesmo o seu checkup ginecológico anual estava atrasado.
Tinha sido um processo, então? Juan Pedro desaparecera aos poucos, deliberadamente, como se cumprisse um script? Mas por quê? Conhecera outra, se interessara por alguma mulher? (Mas sabia que não era fácil para um homem de setenta e três anos encontrar alguém tão interessante a ponto de valer a pena trocar aquele relacionamento seguro, ainda que intermitente, pelo desconhecido). Ou seria uma opinião preconcebida? Não combinava com ele essa maneira de agir. Sua franqueza basca, quase rudeza, não se coadunava com tal comportamento.


Saiu do banheiro esbaforida, ainda meio molhada. Tinha de telefonar rápido, descobrir o que havia ocorrido. Sentiu tremura nas mãos ao digitar. O telefone tocou muitas vezes, até que uma voz masculina jovem atendeu. Notou certa hesitação no ar, quando perguntou por Juan Pedro. Quem seria aquele rapaz? Um dos netos? Depois, a demora. Ou a ligação tinha caído?


E então a voz de sotaque carregado: Sim, sou eu. Como vai? Estou doente, Muriel. Muito doente. O rapaz com quem você falou é o Paco, auxiliar de enfermagem. Está cuidando de mim. Mas doente, Juan Pedro? Há quanto tempo? O que você tem? Há um mês e meio, mais ou menos. Estou mal, Muriel. Fui diagnosticado com câncer no pulmão, de um tipo muito agressivo. Já fiz quimioterapia, mas não adianta. Estou morrendo. Mas Juan Pedro, como é possível? Vou comprar passagens imediatamente. Quero lhe fazer uma visita. Não, não venha, Muriel. Eu não quero vê-la mais. Proibi todas as visitas, nem meus filhos e netos têm permissão para vir aqui. Não quero que ninguém me veja morrendo. Estou irreconhecível, envelheci anos nos últimos dias, magro demais, tremendamente feio. Não sou mais Juan Pedro, será que não entende? Sou apenas um homem morrendo. Sem nome. Um homem qualquer. Não permito que ninguém assista a essa deterioração do meu corpo. Mas eu preciso vê-lo, Juan Pedro, meu amor. Sou eu, a sua Muriel. Eu sei quem você é. E é por saber mesmo que não quero vê-la, para poupá-la dessa dor. Adeus, obrigado por tudo. E por favor, não insista. Não telefone mais. Considere-me morto desde agora. Já morri, Muriel. É uma questão de dias.
Silêncio completo. Ele desligou. Ela começou a dar voltas pela casa, com o aparelho na mão. Querido Juan Pedro! Como pôde ter se esquecido dele, nos últimos meses? Por que não o procurou, não telefonou, não fez nada? Por que aceitou o seu sumiço, sabendo que não era o seu comportamento usual? Por que foi tão egoísta e só pensou na sua família, na sua filha, no seu neto? Como perdoar a si mesma pelo narcisismo, por ter levado em conta somente os seus descendentes diretos, que têm o seu sangue? Por que relegara os seus sentimentos por ele a um lugar secundário, a um limbo impensável? Por quê? Por quê?


Ano após ano, eles se encontravam na Europa em junho, pois ela gostava de ver a colheita das espigas douradas, brilhando ao sol. Podia acontecer o que acontecesse, os planos de viagem sempre foram flexíveis, mas junho era sagrado para o passeio ao Sul da França. O mês mais bonito do ano. A época da colheita do trigo. Eles desciam nas paragens no meio do campo, tomavam vinho e comiam queijo. E riam, esquecidos do peso dos anos, ignorando solenemente as expressões relativas à “terceira idade”, especialmente a mais nova delas, a preferida das tripulações dos voos, a hipócrita “melhor idade”. O passado desaparecia, o futuro se transformava em uma interrogação despreocupada e sem consequências. O cheiro do trigo entrava pelas narinas e sua cor invadia os olhos. O mundo inteiro era amarelo, deslumbrante como um quadro de Van Gogh.

 

O choro de Dario vem tirá-la das lembranças. Ele grita, exigente, acaba de acordar e deve estar molhado. Muriel olha o relógio de pulso – presente de Juan Pedro – e vê que está na hora da sopinha do neto. Ele puxa o seu cabelo, quer arrancar-lhe os brincos. Pacientemente, prepara-lhe o banho. Mesmo com as lágrimas caindo, não pode deixar de sorrir ao olhar para o menino. Pensando bem, Lúcia fora feliz na escolha. Dario é mesmo um lindo nome.

 

Rosângela Vieira Rocha é brasileira, mineira de Inhapim e radicada em Brasília. Jornalista, escritora e professora aposentada do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UnB, é advogada e Mestre em Comunicação Social pela ECA/USP. Tem doze livros publicados. É colunista das revistas culturais e literárias Germina e Flor de Dendê, tendo sido colunista da Verbo21.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2017


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Paginação:

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