ANO 4 Edição 63 - DEZEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Bruna Mitrano ; Natasha Felix


Isso não é poesia como esperam que seja: sobre Natasha Felix

O inesperado é a matéria da escrita de Natasha Felix. Desarranjos nada inocentes, como no poema A Estrutura, essa sequência de fragmentos afinadíssimos, cortes pouco óbvios, mas precisos, e a repetição que não basta em si. Uma 'estrutura' que escapa de ser, que a poeta ergue pra fazer ruir ao retornar ao ponto mínimo de toda construção.

 

o que não é estrutura é sedimento

 

É possível observar, na produção poética de Natasha, uma ânsia de reestruturação. Sim, "as pessoas precisam se agarrar a objetos fixos", mesmo que, como a cigarra humana, elas se choquem contra os baobás, já que em toda ação há um embate, já que não somos copos americanos.

 

Quando leio ou quando vejo a poeta ler com o corpo todo - num movimento de perversão de linguagens -, penso que ela [não] encontrou um lugar. Natasha tem o inconformismo de quem não quer chegar a lugar algum, mas experimentar vários - nunca todos, pois escolhe - lugares e diferentes maneiras de estar neles. 

 

isso não é um poema
não como esperam que seja

 

É a poesia como luta com a própria poesia ou com o próprio da poesia, seja no choque contra os baobás, seja pelo que não se tem: a luta pela sobrevivência, um cálculo de vazio - "sobrevivência pede uma casa/ eu não tenho uma casa". Não ter uma casa e não ter pernas [como ter um filho, j?] é também um sintoma de liberdade. Essa liberdade que chega à plenitude [se é que há] quando casa e pernas não bastam, é preciso recuperar "o que há entre a casa e as pernas".

 

poema:

 

A ESTRUTURA

 

1


 
 o comprimento de uma cigarra varia entre 6 e 15 cm
        equivalente ao tamanho de uma lâmpada ou de um copo americano.
 
 em algumas áreas do brasil ela é chamada de gafanhoto
 o que não significa que seja o mesmo inseto
 o que não significa que não possa ser o mesmo inseto
           ou outra coisa
 como uma lâmpada ou um copo americano.
                                                     [dependendo do ângulo de observação.

 

 no sudeste asiático esse desarranjo não existe
 mesmo se tratando de um local com gafanhotos e cigarras.

 

 mas isso não implica a ocorrência de outros tipos de desarranjo
      entre os animais.

 

 também não é raro a cigarra chocar-se contra os baobás
 em parte porque não é uma lâmpada ou um copo americano
 em parte porque voa mal
 mesmo com seus dois pares de asas
 bem articulados.

 

2

 

  o observador w nota uma cigarra e nomeia gafanhoto
  o observador x nota uma cigarra e nomeia cigarra
  o observador y nota uma cigarra e nomeia a fuga
  o observador j olha uma cigarra e nomeia outro bicho

 

3

 

 quando eu falo estou esperando o sol
 voltar de novo ao sol mesmo que estou me referindo
quando eu falo estou esperando a casa
 voltar de novo à casa mesma que estou me referindo
 quando eu falo estou esperando o termômetro
 voltar de novo ao termômetro mesmo que estou me referindo
quando eu falo de você estou esperando incendiar
 de novo o corpo mesmo ao qual estou me referindo
 quando eu falo de você estou esperando recupar
 de novo na mesma perda a queimadura de amanhã.

 

4


 
 o observador j não é observador.
 não como esperam que seja.
 isso não é um poema
 não como esperam que seja.
 o tempo permanece estável durante a tarde
 apesar das nuvens.

 

5

 
 a gengiva sensível reclama a dificuldade em
 mastigar determinados resíduos.
 
 lembrete: o que não é estrutura é sedimento;
 as pessoas precisam se agarrar em objetos fixos
                           não há mal nenhum nisso
 sobrevivência pede uma casa
                           eu não tenho uma casa
 sobrevivência pede    quite suas dívidas
                           eu não quito minhas dívidas
 sobrevivência pede pernas
                            eu não tenho pernas
 
 j. me olha demorado e me nomeia cigarra
 enquanto simulamos o suor da linha do equador
               ele me permite gritar
 um pouco

 

6

 

j. me pede
       faz um filho comigo

 

 pobre j.
       para isso você tem que cantar.   
 antes de mais nada você tem que cantar &
 eu tenho que recuperar o que há entre a casa e as pernas.
 o comprimento das asas e dos nomes.

 

 

BRUNA MITRANO (1985) nasceu e vive na periferia do Rio de Janeiro/Brasil. É escritora, desenhista, articuladora cultural, professora da rede pública e mestre em literatura portuguesa pela Uerj. Publicou em revistas e jornais, impressos e eletrônicos. Teve textos traduzidos para o inglês no projeto Contemporary Brazilian Short Stories (Califórnia). Participou das antologias Algum vazio nesta paz fajuta (ed. Edital), Clube da Leitura Vol. III (ed. Oito e meio) e Escriptonita (Ed. Patuá). Em setembro do ano passado, lançou seu primeiro livro, intitulado Não, pela Editora Patuá.
Natasha Felix é escritora. Nascida em Santos, litoral paulistano. Em 1996. Tem textos publicados em revistas e jornais digitais e físicos. Publicou o zine Anemonímia (2016) e J. não é um nome (2017, selo manga).

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2017


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Colaboradores de Dezembro de 2017:

Henrique Prior, Beatriz Leal, Bruna Mitrano ; Natasha Felix, Caio Junqueira Maciel, Carlos Orfeu, Carol Piva, Cecília Barreira, Cinthia Kriemler, Cláudia Cassoma, Eduardo Waack, Flávia Fernanda Cunha, Gil Cleber, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jean Narciso Bispo Moura, José Ángel Valente ; Sandra Santos, trad. e org., José Gil, Laís Barros Martins, Laura Szwarc ; Rolando Revagliatti, Maria Amélia Elói, Maria Estela Guedes, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Ricardo Ramos Filho, Rosângela Vieira Rocha, Saulo Henrique Nunes


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Paginação:

Nuno Baptista


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