ANO 4 Edição 62 - NOVEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Henrique Dória


A ÚLTIMA VIÚVA DE ÁFRICA

Há memórias que roem os homens a partir de dentro quando o que eles sabem, ou o que eles viram, lhes dilacera a alma como os dentes das hienas dilaceram os corpos das suas vítimas. Era assim a memória de Miguel Barros, um homem que soube de tudo, um homem que viu tudo o que havia de pior na cloaca no mundo.

 

A ÚLTIMA VIÚVA DE ÁFRICA é um romance sobre a colonização e sobre a memória. A memória da crueldade sem limites que Miguel Barros, o narrador, carregava dentro de si como os fotogramas de um filme, para além de lhe dilacerarem a alma faziam com que ele não só se tornasse testemunha de imensos crimes mas também se sentisse cúmplice desses mesmos crimes porque, no fundo, demonstrou uma compreensão pelas figuras extraordinárias dos colonizadores que, muito para além da miserável fome de riqueza, sentiam África como a sua pátria, a sua casa, o único lugar do mundo onde eles se concebiam viver, gente como Jean Scrame, o colonizador belga do Congo de Lumumba, de Tschombé, de Mobutu; gente como o inspetor da PIDE Albano Martins que, nas Terras do Fim do Mundo, acalentava o sonho de um Portugal do Minho a Timor como um bom pai de família que conserva a sua herança porque é esse o seu dever e o seu destino; gente como Alice Oliveira, “A Última Viúva de África” que se recusava a abandonar aquele continente de sangue porque o Congo era a sua casa e nela construiu as mais óbvias estratégias para sobreviver: trabalhar com todos os serviços secretos, colaborar com todos os interesses. Nas palavras de Carlos Vale Ferraz, “Todos eles pertenciam ao pequeno universo de europeus que, como as trilobites, recusaram adaptar-se à evolução do meio ambiente e se extinguiram” ( A Última Viúva de África, pp. 188). Eles “ tiveram a consciência de que seriam vencidos. Caíram numa ratoeira e não quiseram, sair dela.” (pp. 181). Mas todos acabaram por sair: Jean Scrame para o longínquo Brasil onde reproduziu a sua fazenda do Congo. Albano Martins terminou os seus dias na África do Sul porque estava mais próximo do mundo sonhado que tinha ruído, da sua Angola parte do Portugal do Minho a Timor; e Alice Oliveira acabou por se perder no nevoeiro da Nova Zelândia. Todos eles expulsos por esses moedeiros falsos que pregavam a liberdade dos africanos quando o que eles queriam era chupar o sangue das suas riquezas e vender-lhes metralhadoras.

 

Mas, se como escreveu Alfredo Bosi em “Dialética da Colonização” (pp.13) “ … o colonialismo significa não só o domínio económico de um povo sobre outro que permanentemente se pretende neutralizar, entre duas linguagens que são simultaneamente duas formas de compreender o real: a linguagem do dominante e a linguagem do dominado.”, sendo essa a realidade, o que aconteceu na África colonizada pelos europeus foi que não só as formas de domínio económico permaneceram como, e sobretudo, a linguagem do colonizador acabou não só por permanecer como por se impor às sociedades tribais africanas: a língua permaneceu até para unir os povos que antes estavam divididos e se combatiam mas que, artificialmente, o colonialismo juntou sem unir; as casas, as ruas e até as calças que eram as dos colonizadores. A Kinshasa do criminoso Mobutu era a Leopoldeville do criminoso Leopoldo II, da Bélgica. A crueldade dos negros africanos replicava a crueldade dos brancos colonizadores. É esta a visão lúcida da realidade africana que nos transmite Carlos Vale Ferraz, aliás Carlos Matos Gomes, coronel do exército português e militar de Abril que combateu em África e ali viveu o essencial da sua vida.

 

A testa do produtor cinematográfico Miguel Barros era “uma testa alta, marcada por uma cicatriz profunda”, essa testa exibia também a cicatriz profunda que marcava a alma de Miguel Barros. Foi essa cicatriz profunda que, num registo fonográfico, Miguel Barros mostrou a Inácia da Luz, a guionista do filme que Miguel Barros     estava a produzir e onde pretendia relatar a farsa da trasladação dos restos mortais de Alice Oliveira, “A Última Viúva de África”, para a capela de São Tiago, em Vieira do Minho, onde ela fora violada quando ainda jovem. Tendo enriquecido em França a fazer canalizações de rua, o filho de Alice Oliveira decidiu fazer a transladação do corpo da mãe da Nova Zelândia para Vieira do Minho, comprando a capela, o padre da freguesia e o arcebispo de Braga.

 

Quem melhor que a doce Inácia da Luz poderia ser a portadora das memórias de Miguel Barros que lhe são relatadas em jeito de flash-back cinematográfico, ela que era filha de Albano Martins, um inspector da PIDE que criara os lendários flechas usando, para combater as tropas independentistas, uma das tribos primitivas de Angola que tinha sido massacrada por outra tribo inimiga, que agora formava a tropa independentista?

 

A palavra colonialismo tem na sua raiz a palavra colo, que significa eu cultivo a terra. O homem que cultivava a terra era o incola (habitante de um lugar que cultivava a terra desse lugar). Ao emigrar de uma terra para outra o incola, que passou a cultivar outra terra, transformou-se em colonus (colono).

 

Mas a África dos colonos portugueses de Angola ou dos colonos Belgas do Congo, passou a ser o seu novo mundo e não apenas o mundo dos outros, dos íncolas negros que sempre a habitaram. Para conservarem  o seu novo mundo, Alice Oliveira, espia ao serviço de Portugal no Congo Belga, mas também espia ao serviço de outras potências colonizadoras como estratégia de sobrevivência, servia-se de todos os disfarces,  de todos os estratagemas, de todas as cumplicidades. E o belga Jean Scrame, para conservar a sua fazenda no Catanga que era o seu paraíso escondido, tornou-se um mercenário capaz de servir qualquer senhor da guerra que poderia permitir-lhe salvar o seu paraíso, um mercenário capaz de cometer os piores crimes que colonizadores e colonizados sempre cometeram para dominarem num lugar onde dominar significa torturar, matar, esquartejar. “ O que restou de todos estes trabalhos e sacrifícios da minha mãe e de todos esses homens e mulheres que andaram por África?”, pergunta inesperadamente   Miguel Barros a Fernando Oliveira, o filho rico de Alice Oliveira, cujo estatuto de novo rico lhe permitia comprar tudo, incluindo um lugar público e sagrado para sepultar a sua mãe.

 

Essa pergunta deixou-a Carlos Val Ferraz sem resposta ou, melhor, com uma resposta dada no final do romance por Herberto Popovic, o realizador do filme produzido por Miguel Barros para relatar a transladação de Alice Oliveira para o pequeno panteão que fora comprado pelo seu filho: “Isto um dia afunda-se.

 

Mas, afinal, mesmo para Miguel Barros que via o mundo “com temor mas sem esperança”, o mundo não se afundou. O Portugal que o Inspetor Albano Martins pensava  incapaz de subsistir sem as províncias ultramarinas continuava não só a existir sem aquilo que eram, na verdade, as suas colónias, como passou a ser um país incomparavelmente melhor do que o país de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano que ele serviu e em que cegamente acreditara.

 

Contudo, a África move-se. Com avanços e recuos move-se para um mundo melhor.

 

“A Última Viúva de África” deve muito ao cinema e à fotografia. É um romance feito de imagens fortíssimas. E, afinal, a fotografia era o disfarce do espião Miguel Barros. As imagens que dava de África, de um mundo de crueldade inaudita, são as cicatrizes da alma de Miguel Barros.

 

Este romance de Carlos Val Ferraz é todo ele construído a partir de imagens da realidade africana. Não é difícil procurarmos nas suas personagens ficção personagens reais. “ A Última Viúva de África” foi uma personagem real. E não é difícil ligar Miguel Barros, Albano Martins e Fernando Oliveira a personagens reais bem nossas conhecidas.

 

Neste romance de Carlos Vale Ferraz, cuja linguagem chã, sem exercícios de estilo, com imagens fortes que nos levam a lê-lo de um só trago com imenso prazer, de princípio ao fim, como quem lê um excitante livro de memórias, “ A Última Viúva de África” é apenas uma sombra que vive na memória do seu amigo/amante/cúmplice  Miguel Barros. Ela surge, porém, apenas como uma personagem de segundo  plano no romance, depois de Miguel Barros e Jean Scrame. Talvez Carlos Vale Ferraz lance sobre ela a sua luz de romancista numa próxima obra porque, afinal, como a história tem demonstrado, a África também se sente viúva daqueles colonos que a amavam mas foram forçados a abandoná-la.

 

HENRIQUE DÓRIA

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2017


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