ANO 4 Edição 62 - NOVEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Almandrade


Cem anos da fonte de Duchamp

Com a Pop Arte, Minimalismo e a Arte Conceitual nos anos de 1950 e 60 encerrava-se as vanguardas artísticas e formulava-se novas questões em direção ao que foi designado depois de “Arte Contemporânea”. Por trás dessa revolução estava um sujeito discreto, um jogador de xadrez, ou melhor, um artista pensador. Marcel Duchamp é uma referência indiscutível para a arte contemporânea, embora nem tudo que aparece como arte contemporânea tem a ver com ele. Às vezes citado porém pouco entendido. Até parece que tudo ficou mais fácil. Para ele não, tinha consciência que a facilidade era uma armadilha. O deslocamento de qualquer coisa para o lugar da arte é um gesto pensado.

 

Para muitos, e ainda hoje, tratava-se de uma provocação e uma ironia, mas para Duchamp o humor e o riso eram componentes de uma elaboração mental para enfrentar a arte e a vida. Seus experimentos de vanguarda tiveram início em 1913, inventou o “Ready Made”, (objetos prontos), peças industrializadas, escolhidas por acaso pelo artista, extraídas de seus contextos funcionais, inseridas no meio de arte e legitimadas como obras de arte. Uma mistura de picardia e reflexão. O riso era a liberdade que guiava o artista dentro dos limites da razão. Muito mais do que um provocador, era um artista culto, interessado em literatura, que privilegiava a elaboração mental em seus inventos.

 

Ele chegou a participar do Dadá que tinha destaque no cenário artístico da época, era amigo dos surrealistas. A intenção dessas vanguardas eram escandalizar o meio de arte. Os escândalos eram o combustível da vanguarda, mas no caso de Duchamp, pela sua corrente intelectual o questionamento ia mais além, a Fonte colocava de pernas para o ar a condição da criação artística e o sistema da arte, anunciava mais de quatro décadas antes a crise das vanguardas que desencadeou a partir dos anos 50. Ele alterou a forma de pensar a arte, criou o debate entre arte e conceito.

 

2017 é o centenário do mais conhecido e discutido ready made, não foi o primeiro inventado, mas o primeiro a se tornar público, enviado para uma exposição de arte, assinado com o pseudônimo R. Mutt e com o título “Fonte”. Era um mictório de louça utilizado em sanitário masculino. Estava inaugurado um novo procedimento de fazer arte que dispensava do artista o trabalho manual de fazer uma imagem ou um objeto, ele deixou de fazer arte e passou a determinar o que é arte se apropriando de objetos e imagens do cotidiano. O urinol de Duchamp representa nas suas experiências de ready made um marco divisor na história da arte, foi inventado um novo paradigma e deu um xeque-mate na modernidade.

 

A Fonte e os demais ready mades no contexto da vanguarda escandalizavam, sem dúvida, mas eram mais radicais como experiência que alterou o conceito de arte e artista. Sendo assim, a Fonte, em 1917, foi o pontapé inicial da arte contemporânea que eclodiu no final da década de 1960 e meados de 70, o manifesto da Arte Contemporânea. O precedente fundamental para a produção de arte que se iniciou nas décadas de 1960 / 70 e reverbera no século XXI, com as devidas ressalvas. A arte passou a ser qualquer coisa que exige do artista responsabilidade e conhecimento.

 

Almandrade é Artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano, poeta e professor de teoria da arte das oficinas de arte do Museu de Arte Moderna da Bahia. Participou de várias mostras coletivas, entre elas: XII, XIII e XVI Bienal de São Paulo; "Em Busca da Essência" - mostra especial da XIX Bienal de São Paulo; IV Salão Nacional; Universo do Futebol (MAM/Rio); Feira Nacional (S.Paulo); II Salão Paulista, I Exposição Internacional de Escultura Efêmeras (Fortaleza); I Salão Baiano; II Salão Nacional; Menção honrosa no I Salão Estudantil em 1972. Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil e exterior. Realizou cerca de quarenta exposição individuais.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2017


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Colaboradores de Novembro de 2017:

Henrique Prior, Ades Nascimento, Almandrade, Caio Junqueira Maciel, Carla Andrade, Cecília Barreira, Christina Montenegro, Cláudio B. Carlos, Denise Bottmann, Henrique Dória, Hermínio Prates, Joel Henriques, Katia Bandeira de Mello Gerlach, Krishnamurti Goés dos Anjos, Lenita Estrela de Sá, Leonora Rosado, Lisa Alves, M. de Almeida e Sousa, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, Ricardo Ramos Filho, Rodrigo Diniz Sousa, Rodrigo Novaes de Almeida, Ronald Cláver, Sandra Poulson, Sandra Santos, trad., Silas Correa Leite, Vanessa Dourado


Foto de capa:

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Paginação:

Nuno Baptista


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