ANO 4 Edição 62 - NOVEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


Prostituição em oitocentos

A prostituição sempre correspondeu a um espaço de interdição que de algum modo nunca se confrontaria com o espaço convencionado quer da família burguesa, quer da família fidalga.


Contudo, desde tempos imemoriais até aos anos 60 do século XX, a educação sexual dos rapazes fazia-se, em grande parte, nos universos da prostituição ou, em alternativa, na criadagem doméstica.


Em 1844, o Governo Civil de Lisboa, obrigou a matricular as prostitutas desta cidade, proibindo-as de habitar ruas “respeitáveis”, sujeitando-as a uma visita sanitária periódica.
As meretrizes dividiam-se em toleradas e clandestinas.

 

Havia três classes de prostitutas. As que viviam em maior luxo, convivendo com as classes abastadas e com casa própria; uma segunda classe, de prostitutas toleradas, vivendo em casas, cujas proprietárias eram senhoras mais velhas, as quais também tinham sido prostitutas; e as de terceira ordem, clandestinas, que andavam pelas ruas da Baixa da cidade, sempre de braço dado com outras, e que até se atreviam a ir pela Madragoa  adentro, e iam para os cais, à espera dos marinheiros.

 

A mais célebre das prostitutas lisboetas foi Maria Severa, nascida a 26 de Julho de 1820 e, morta por problemas no coração, a 30 de Novembro de 1846, num bordel da Rua do Capelão e, posteriormente sepultada no Cemitério do Alto de S. João, postada numa vala comum.
Ficou sobretudo conhecida como fadista, e como tal a prostituição vivia nas margens com o fado boémio. A sua voz era de tal maneira fulgurante, que desencadeou muitas paixões, entre elas a do famoso toureiro Conde do Vimioso.

 

Eram vulgares os grandes amores marialvas por mulheres do fado e da prostituição, geralmente famosas, como os amores do Conde de Anadia por Cesária ou o amigo do Conde de Vimioso, Sousa do Casacão, apaixonado por Maria de Sousa, proxeneta.


Muitos ditos eruditos, desde finais do século XIX até aos inícios do século XX, vivendo obcecados pela prostituição, escreveram abundantemente, falando de “decadência”, “vício”, “delinquência”, “crime”, “tuberculose social”, etc.


O moralismo puritano era de tal modo vulgar que se vendia aos milhares, sendo que as prostitutas eram o mal a extirpar.


Vejamos um caso interessante de uma dessas prostitutas: Antónia Gomez, espanhola, conhecida por Antónia Moreno, veio de mala-posta de Badajoz para Lisboa em 1857. Após vários amantes endinheirados, em 1869 já era proxeneta e dona duma das principais casas em Lisboa, e, para espanto de muitos, assinava camarote permanente no S. Carlos.
Um dos maiores moralistas, Fernando Schwalbach (1) dizia das casas das prostitutas: “Algumas mulheres preferem para entes queridos, criaturas do seu sexo com quem se entregam com frenesi às práticas mais repugnantes e nojentas da luxúria”.


O articulista Alfredo Gallis, divulgador de escândalos, apreciava, com algum fundamento estes amores “genesíacos” entre estas mulheres, todas elas perdidas e de uma baixeza fora do comum (2). Gallis escreveu sobre as  sáficas, demonstrando uma repugnância invulgar por essas mulheres, no que era seguido por dezenas e dezenas de opinadores. Ainda não se falava de lesbianismo.

 

Mas a maioria das mulheres prostitutas eram clandestinas. Juntavam-se nos cais e nas zonas portuárias ou então pela Baixa lisboeta, sempre de noite, à espera de um qualquer individuo: em 1809, a prostituta Ana Rita foi detida por estar com três indivíduos numa escada da Rua da Prata (3).


Muitas prostitutas eram religiosas, decorando as respectivas casas com todo o género de santos e bentos, como incensos. (4).


Uma boa forma das prostitutas encontrarem marialvas e fidalgos era nas esperas de touros, quer no Arco do Cego, quer no Campo Pequeno,( mas junto ao Palácio das Galveias), quer em Loures, quer no Lumiar, etc.


Os touros eram como que o futebol da actualidade.

 

Os fidalgos trajavam-se como os fadistas: as cocottes, eram as prostitutas mais cotadas, mantendo um relacionamento óbvio com o mundo da aristocracia.


A Severa foi cocotte, embora tenha morrido na miséria. Eram ilustres a Júlia Gorda ou a Joaquina dos Cordões (5).


Havia mulheres, fadistas, que se vestiam de homens, guiavam as tipóias e só gostavam da guitarra e do fado. (6).


Mas a maior parte das prostitutas, passada a juventude, ou tinham um pé-de- meia e faziam-se de proxenetas, ou eram vencidas pela tuberculose, ou ficavam como criadas de casas de prostitutas, ou vendedeiras de roupas, etc. (7).

 

No Passeio Público, as cocotes distinguiam-se pelos decotes, pelos cabelos louros, despertando o olhar cobiçoso dos homens, enquanto as “mulheres decentes” exibiam um cinzentismo burguês que, decididamente, levava ao casamento, mas não à paixão.


Em Lisboa, eram raras as prostitutas que não eram molestadas, ou pelos clientes, ou pelos chulos, ou na rua por quem passasse. Era mais fácil reunirem-se algumas dentro do mesmo tecto, porque se protegiam e, por vezes, encontravam na melhor confidente, não só a amizade, mas a “luxúria”, fenómeno que nos dias actuais é explicável à luz da sociologia, da psicologia e da sexologia.


O que é um facto, é que não era fácil ser prostituta na Lisboa de oitocentos.

 

Notas

(1)Schwalbach, 1912: 52
(2)Gallis, S. D
(3) educar.files.wordpress.com
(4) Pais, 1985: 99
(5) Pais, 1985: 59-60
(6) Pais, 1985: 62-63
(7) Lemos, 1908: 89

 

Bibliografia:

 

Fontes:

Guinote; Paulo e Oliveira (1990) – “Prostituição, Boémia e Galantaria no Quotidiano da Cidade” in Portugal Contemporâneo; Lisboa; Publicações Alfa; VOL. 2; pp 339-382.
Pais (1985); José Machado – A Prostituição e a Lisboa Boémia do século XIX aos inícios do século XX; Lisboa; Querco.

 

Estudos:

Gallis (S.D.); Alfredo - Tuberculose Social. Mulheres perdidas; Lisboa; Livraria Central Gomes de Carvalho)
Lemos (1908); Alfredo Tovar de – A Prostituição. Estudo Antropológico da prostituta portuguesa; Lisboa; Centro Tipográfico Colonial. 89
Schwalbach, O Vício em Lisboa, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1912, 52

Criminosos,         Boémios,    Prostitutas  e        outros         Marginais; educar.files.wordpress.com.

 

Cecília Barreira – CHAM/FCSH

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