ANO 4 Edição 62 - NOVEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Denise Bottmann


Berenice Xavier, um breve perfil

 

Berenice Barreto Xavier nasceu em 20 de fevereiro de 1899, em Granja, no Ceará, filha de Elisa Barreto Xavier e do “coronel” Ignácio Xavier, a segunda entre treze filhos. Muda-se para o Rio de Janeiro em 1932, onde já se encontrava seu irmão Lívio Xavier. Além de tradutora, trabalhou na agência de notícias Reuters, no Instituto Nacional do Livro e na Biblioteca Nacional. Lá permanece até 1969, quando retorna ao Ceará, radicando-se em Fortaleza até sua morte, em 12 de julho de 1986. (Embora a foto acima apresente Berenice Xavier como militante trotskista, afirmam fontes de sua família que ela nunca chegou a se filiar oficialmente à Liga Comunista Internacionalista, de que seu irmão fora um dos fundadores. Neste caso, talvez o mais adequado seja qualificá-la de simpatizante trotskista.)


Berenice inicia suas atividades de tradutora profissional em 1936, na Athena Editora, que fora recentemente criada no Rio de Janeiro pelo ativista Pasquale Petraccone, importante líder antifascista entre as colônias italianas no Brasil e simpático ao movimento trotskista. Como seu irmão Lívio Xavier já vinha traduzindo obras para a Athena, provavelmente foi por intermédio dele que Berenice passou a traduzir para a casa.


É ela a responsável pela primeira tradução brasileira de The Taming of the Shrew, de Shakespeare, inaugurando a coleção Bibliotheca Theatral da casa. O título escolhido para a obra é A megera domada, e como tal acabou se consagrando.
As demais traduções que Berenice realizou para a Athena Editora são:

     - em 1937, outra peça de Shakespeare, O mercador de Veneza, como terceiro volume da referida Bibliotheca Theatral;
     - ainda em 1937, é lançada sua tradução d' As histórias de Públio Cornélio Tácito, em dois volumes, pela coleção Bibliotheca Classica;
     - em 1939 temos sua tradução de Laurence Sterne, Viagem sentimental [na França e na Itália], também pela Bibliotheca Classica da Athena, vol. XXIX.


Em 1938, com a intensa perseguição da ditadura estadonovista sob Getúlio Vargas, Pasquale Petraccone é preso e obrigado a interromper suas atividades editoriais no Rio de Janeiro, que retomará posteriormente em São Paulo, transferindo sua editora para lá em 1939. Aqui cessam as colaborações de Berenice com a Athena.
Passam-se alguns anos sem que Berenice Xavier empreenda novas traduções. Seu retorno à atividade parece ter-se dado a partir de um trabalho de circunstância para a José Olympio. Digo “de circunstância” porque a José Olympio publicava Pequena história do mundo, de H.G. Wells, em tradução de Gustavo Barroso, desde 1937. Em 1944, a editora lança a terceira edição da obra, mas agora ampliada, com três novos capítulos. A tradução desses capítulos adicionais ficou a cargo de Berenice. A partir dessa data, ela volta a traduzir com bastante frequência, sobretudo, até o final dos anos 1950, para a José Olympio, com várias reedições e licenciamentos para outras editoras. Nesses dois decênios, temos:

    

     - H. G. Wells, Pequena história do mundo. 3ª. ed. ampliada, tradução de Gustavo Barroso, agora com os três novos capítulos trad. Berenice. José Olympio, 1944
     - Gwen Bristow, Um romance do sul. José Olympio, 1944
     - Katherine Brush, “Night Club”, in Os norte-americanos: antigos e modernos. Leitura, 1945.
     - Charles Dickens, Uma história em duas cidades. Coleção Fogos Cruzados.  José Olympio, 1946.
     - Kropotkine, Em torno de uma vida   - memórias de um revolucionário. Coleção Memórias, Diários, Confissões, v. 19. José Olympio, 1946 (tradução em parceria com Lívio Xavier).
     - Arthur Koestler, Cruzada sem cruz. Instituto Progresso Editorial, 1948. Ao que parece, essa tradução de Koestler feita por Berenice teria sido indevidamente apropriada pela editora Germinal, em 2000, apresentando-a em nome de “Juliana Borges”. 
     - William Faulkner, Luz de agosto. Coleção Nobel. Globo, 1948.
     - Honoré de Balzac, Comédia humana. Globo, 1948-ss. No empreendimento coordenado por Paulo Rónai, Berenice Xavier traduziu vários dos estudos introdutórios que acompanhavam cada volume. Citem-se: Georg Brandes, “Balzac”; Theodore de Banville, “Honoré de Balzac”; Émile Zola, “Chaudes-Aigues e Balzac”; Henry James, “Balzac”; Marcel Proust, “O caso Lemoine num romance de Balzac”; Anatole France, “Balzac”; Fernand Baldensperger, “Balzac, escritor universal”; Paul Bourget, “Balzac e o primo Pons”.
     - Herman Melville, Moby Dick. José Olympio, 1950. A propósito de Moby Dick, comenta o estudioso Mário Luiz Frungillo: “Sobre a tradução de Berenice Xavier, uma curiosidade: Na primeira edição, de 1950, faltavam as epígrafes sobre as baleias [...]. A falta foi notada por Augusto Meyer, em artigo sobre o centenário do romance (depois recolhido em Preto & Branco). Nas edições seguintes, a José Olympio reintroduziu as epígrafes, em tradução de Olívia Krähenbühl, e aproveitou também para incluir a ‘epígrafe que escapou’ a Hermann Melville, encontrada por Meyer na Descrição da Ilha de Itaparica, do Frei Manuel de Santa Maria Itaparica”.


     - Frank Yerby, Turbilhão. José Olympio, 1952.
     - Theodore Harnberger, Os Estados Unidos através de sua literatura. Os Cadernos de Cultura, vol. 53. MES, Serviço de Documentação, 1953. 
     - Frank Yerby, O tesouro do Vale Aprazível. José Olympio, 1956.
     - A.J. Cronin, Sob a luz das estrelas. José Olympio, 1957. Note-se que a JO vinha publicando essa obra em tradução de Rubem Braga desde 1939, e já estava em sua sétima edição. Por alguma razão que ignoro, a editora resolveu contratar nova tradução, agora de Berenice, para sua oitava e subsequentes edições.

Como se vê, até o ano de 1957, a editora para a qual Berenice Xavier traduz com maior frequência é a José Olympio. Em janeiro de 1959, o crítico e também tradutor Otto Schneider comenta em uma breve nota em sua coluna “Vida Literária”, da revista mensal Vida Doméstica: “Berenice Xavier está traduzindo Absalão, Absalão, romance de William Faulkner, programado por José Olympio”.


Curiosamente, essa tradução – se é que chegou a ser concluída – nunca veio à luz; na verdade, teremos Absalão, Absalão no Brasil somente em 1981, pela Nova Fronteira, em tradução de Sônia Régis. Não sei o que pode ter ocorrido: algum impedimento por razão de saúde, algum desentendimento com a casa, talvez; o que sei é que, a partir de então, Berenice deixou de fazer traduções para a José Olympio.
Nos anos 1960, suas traduções se tornam mais esporádicas, concentrando-se na Civilização Brasileira. Antes de vermos quais são, detenhamo-nos numa ocorrência um tanto obscura, que exponho a seguir.


Berenice traduziu o conto “William Wilson”, de Edgar Allan Poe. Encontro algumas referências (e eu mesma a citei alguns anos atrás em meu blogue dedicado a Poe no Brasil) dando essa sua tradução como integrante de uma antologia chamada Contos fantásticos, pela Nova Aguilar, em 1965. Na checagem dos dados, porém, não consigo encontrar nenhum volume lançado pela Nova Aguilar com o referido título. Ademais, em 1965 a Nova Aguilar já lançara a tradução de Milton Amado e Oscar Mendes de toda a prosa completa, poemas e ensaios de Poe, que a Globo publicara desde 1944. Não sei em que fonte terão se baseado os que citam um volume de Contos fantásticos pela Nova Aguilar para o ano de 1965, mas sinto-me tentada a crer que talvez se trate de um equívoco. De todo modo, o certo e indubitável é que “William Wilson” em tradução de Berenice Xavier consta no volume Histórias extraordinárias da Civilização Brasileira, de 1970.


Passemos agora a suas demais traduções:

     - Ernest Hemingway, O sol também se levanta. Biblioteca do Leitor Moderno, v. 73. Civilização Brasileira, 1966.
     - Henry James, A herdeira. BUP, 1967 (a BUP pertencia também a Ênio Silveira, proprietário da Civilização).
     - Isaac Babel, A cavalaria vermelha. Civilização Brasileira, 1969.
     - Shakespeare, Contos de Shakespeare. Adaptação de Charles e Mary Lamb. O volume traz as seguintes peças em adaptação em prosa para o público infanto-juvenil: A tempestade; Sonho de uma noite de verão; Conto de inverno; Muito barulho por nada; Como quiseres; Dois fidalgos de Verona; O mercador de Veneza; Cimbelino; O rei Lear; Macbeth; Tudo é bom quando acaba bem; A megera domada, A comédia dos erros; Medida por medida; A Noite dos Reis, ou o que quiseres; Timos de Atenas; Romeu e Julieta; Hamlet, príncipe da Dinamarca; Otelo; Péricles, Príncipe de Tiro. Civilização Brasileira, 1970.


Não deixa de haver uma certa justiça poética no fato de que Berenice encerre sua carreira tradutória por onde começou: em que pese serem adaptações, aqui retornam A megera domada e O mercador de Veneza, com que ela estreara na Athena em 1936 e 1937.
Para concluir, eis duas quadrinhas do poema “Ao sol da praia”, de Carlos Drummond de Andrade, que saiu em jornal em 1957, depois apanhado em Versiprosa (1967):
Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa.

É tradução de Berenice
Xavier, sabes? portanto boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.

 

Agradeço a Berenice Xavier, sobrinha homônima, que muito gentilmente forneceu os dados biográficos de apresentação.

 

Denise Bottmann nasceu em Curitiba em 1954Formada em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR,1981). Mestre em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 1985). Doutorado inconcluso em Filosofia (UNICAMP). Tem experiência na área de docência e pesquisa em História e Epistemologia das Ciências Humanas. Atua na área de tradução de obras de literatura e humanidades desde 1984. Atualmente dedica-se a atividades de tradução e pesquisas sobre a história da tradução no Brasil. 

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2017


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