ANO 4 Edição 62 - NOVEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


O trapezista

Sorrir e arriscar, dois verbos que definiam a vida do moleque nascido e criado no rancho de terra batida e teto de palmeiras e outros galhos secos. Pai para chamar de seu ele não tinha, só a mãe e tantos irmãos com tons de pele tão variados, que alguns até duvidavam do parentesco. É que, no ir e vir das empreitadas, os carvoeiros trocavam de pouso e de mulheres. E entre uma fornada e outra, alguns bebiam e trocavam suores e suspiros nos embates do amor apressado. Tantos filhos sem pai, tantas mães com escadinha de filhos diferentes nas barras da saia...


E a serra elétrica, o machado, foices e facões abrindo clareiras no cerrado de árvores resistentes às intempéries, mas frágeis diante da imprevidência dos coletores de safra única. Porque a mata sucumbe e não se renova dos botes da ganância.


E foi ali, numa esteira sobre o chão agreste que o menino nasceu, puxado para a vida pelas mãos da parteira comadre de tantas mães agradecidas. Nome de pia santa e de papel passado o negrinho não recebeu, mas a mãe disse que ele era o Dagoberto, homenagem a um tio esfaqueado e morto em briga de puteiro. Dagoberto era nome de homem feito, não de menino catarrento que chafurdava na poeira. Aí encurtaram para Dagô e assim ficou sendo enquanto confundia seu tom de pele com o carvão que a mãe fazia, ensacava e trocava pelo quase nada de dinheiro que mal dava para o feijão, farinha, arroz, café, toucinho e a cachaça que embalava os sonhos e amenizava o sofrer.
Negrinho Dagô cresceu, adestrou os músculos em piruetas e cambalhotas; e graças ao sorriso e a esperteza escapou dos fornos de carvão e se tornou uma espécie de mascote do patrão. Comia carne todo dia, selava cavalos, se exibia em arriscadas acrobacias nos galhos da mangueira sempre que o patrão queria entreter as visitas. Todos bebiam e riam das macaquices do arisco Dagô; mas ninguém se preocupava com a possibilidade de uma queda, mesmo quando a vaidade empurrava o negro para os galhos mais altos da mangueira.
Dagô vivia as benesses do hoje, mas sonhava com saltos mortais em um trapézio de verdade, como aquele que vira em um filme na única vez que o patrão o levara à cidade. Era aquilo que queria, voar provocando o susto nas pessoas e depois ouvir o aplauso dos que pagariam caro para vê-lo desafiar a morte. E nas noites sempre solitárias, o adolescente Dagô, na força do homem, se imaginava em camas macias e nos braços de brancas belas, que ora era a mulher do patrão, ora era a filha de peitos miúdos que nem olhava pra ele.
Enquanto um sonho é adiado, Dagô realiza outro, mais próximo e possível: ele se esconde no galpão que abriga peças de trator, arreios e sacarias. Dagô força a aniagem, rompe o saco e lambe as mãos cheias de açúcar surrupiado. Ninguém vê, ninguém sabe, todos culpam os ratos, como se os ratos optassem pelo doce quando dispõem de lingüiça defumada e grãos variados.


Felicidade de pobre tem data de validade e ela sumiu no redemoinho das dívidas do patrão. Ele não pagou o que devia, sucumbiu à agiotagem dos bancos e dos particulares e teve que entregar tudo para os credores, até o futuro de quem não tinha nenhum. A mãe de Dagô arrastou os filhos menores para outro eito e os que já se julgavam donos do destino caçaram rumo. Dagô foi ser aprendiz de mecânico e no início até gostou, embora não recebesse nada além de casa e comida. Mas pelo menos estava melhor do que um dos irmãos, o sarará Valtinho, que vivia de biscates e nem tinha onde dormir.
Entre roscas e arruelas, Dagô ficou sabendo da chegada do circo. No final da tarde foi lá no descampado onde a lona já estava sendo empinada, mas se decepcionou com os remendos, o madeirame desbotado, um pessoal magro e triste que não combinava com a mágica mostrada no cinema. Mas circo é circo e nem todos podem ser grandes. Ele também podia começar pequeno e depois ser o grande que sonhava. E nem duvidou em se apresentar ao dono do circo quando anunciaram que estavam procurando novos talentos. Disse que fazia piruetas nos galhos das árvores, mas aceitou tourear no picadeiro improvisado, onde se arriscava diante de chifres e músculos bravos. Não era ainda o que queria, embora tivesse ouvido alguns aplausos e no final do espetáculo recebesse das mãos da auxiliar do mágico um pão de sal com mortadela. Ela teria rido para ele? Talvez sim, quem sabe? O certo é que foi convidado para voltar na noite seguinte e ainda enfiou no bolso algumas notas amassadas. Era pouco, nem dava para uma camisa nova, mas pra ele estava bom. Na segunda noite ouviu mais aplausos, comeu dois sanduíches e recebeu mais notas do que na primeira vez. Na terceira e na quarta noite o público minguou e o patrão reconheceu que a praça estava esgotada e que após a última sugada, iriam buscar leite em outra freguesia.


 Assim foi e Dagô também seguiu, saindo quase fugido, mas logo se esqueceu da provável ingratidão porque nas próximas cidades toureou e montou bois bravos e quando o trapezista Zarco deslocou a coluna, ele se ofereceu para desafiar a morte, mas sabendo que a rede era uma garantia. Zarco não se recuperou e foi deixado em uma pensão sem nenhum dinheiro. O que poderia ter sido um alerta para Dagô serviu mais de incentivo e ele, em cada acrobacia, mais mostrava do que era capaz. Após os shows, negrinhas o esperavam do outro lado da lona, para desagrado de Jandira, que na jaula era Monga, a mulher-monstro, mas que na realidade dividia lençóis com o patrão. Jandira era veterana, mas cheirosa; as escurinhas eram jovens, mas fediam a gordura e cebola. Os hormônios do negro anulavam o olfato e atiçavam outros sentidos. Era gostoso, a glória; era um artista sob a lona remendada.


 E depois de tantas cidades, infindáveis estradas e caminhos em busca do público, o patrão decidiu que a próxima parada seria a cidade onde tudo começara para Dagô. Euforia total para o negro, que retornava à terra com fama e camisas coloridas. Quem o veria cabriolar no espaço? A mãe, os irmãos, algum outro carvoeiro de folga na cidade? Torcia para que todos estivessem lá. E quando os tambores rufassem daria o triplo salto mortal, sem rede de proteção e com o sorriso dos vencedores. Dagô estava de volta, mas ele não era mais o moleque das presepadas, era Dagoberto, o trapezista do impossível, um vencedor, quase um herói de cinema.


A noite de estréia não foi o que esperava, mas nos camarotes as famílias dos graúdos comiam pipocas, chocolates e se exibiam para os que não podiam pagar. No poleiro o povo apreciava a seu jeito, rindo e vaiando sem motivo aparente. E começou a função com o tradicional “respeitável público!” O palhaço, o mágico, o macaco esfomeado capaz de qualquer estrepolia por uma banana e o momento maior, o trapezista de morte prenunciada. Dagoberto, não mais Dagô, começou um leve bailar no espaço, como se apalpasse pulsos e auscultasse corações. Como se médico de emoções fosse. E foi acelerando os movimentos, atraindo e concentrando as atenções de todos em sua musculatura. Na pausa do suspense, olhou ao redor, mas não viu a mãe e nenhum dos irmãos. Nem sequer um conhecido entre tantos rostos atentos. Ao seu sinal, os tambores rufaram, era o momento maior, valorizado pela locução do mestre de cerimônia. O salto foi belíssimo; qual pantera no ar, Dagoberto se espichou em busca do trapézio auxiliar, mas só pegou o vento. Não ouviu aplausos, só um oh de medo. E sentiu a pancada, ouviu o som abafado de um corpo no picadeiro. O desmaio o impediu de ver o futuro; quando acordou estava no quarto de pensão, com algumas moscas voejando sobre a boca ressequida e imaginou ter ouvido alguém dizer no corredor: “Coitado, o pessoal do circo foi embora e ele ficou sozinho”.
      Sofridos e incontáveis dias depois, estava recostado no muro da igreja, bem perto de onde entravam os que se imaginam filhos de Deus. Poucos pingavam moedas no chapéu do pedinte, muitos desviavam o olhar. E ninguém se lembrava do sorriso branco do negro trapezista. Afinal, as cáries eram o preço pago pela doçura do açúcar furtado.

 

Hermínio Prates (herminioprates@gmail.com) é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2017


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