ANO 4 Edição 62 - NOVEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Cláudio B. Carlos


Dois contos

UM HOMEM CHAMADO HOMEM

 

Era uma vez um homem chamado homem e uma mulher chamada mulher. Todos os dias, o homem chamado homem quebrava pedras, desde as primeiras horas da manhã até as primeiras da noite. O quebrar pedras era chamado trabalho. Todas as noites, com exceção de cinco por mês, a mulher chamada mulher, deitada em um catre tosco chamado cama, se oferecia ao homem chamado homem. O homem chamado homem a aceitava naquilo que chamavam amor. O homem chamado homem e a mulher chamada mulher roçavam um no outro os corpos rudes… O que comiam na tábua chamada mesa chamavam nada. O que se seguia no amontoado de horas, que chamavam dia, chamavam vida… Em frente ao rancho que chamavam lar, tinha, na terra seca que chamavam restinga, uma única planta a cada dia mais murcha… Como era mesmo o nome da planta?

 

O NOSSO HERÓI

 

morreu com um balaço de 38, à queima-roupa, o nosso herói. corajoso, enfrentava bandido sem pes­tanejar. hoje descansa em cova rasa, sem caixão, não gostava de luxo o nosso herói e empresta o nome pra uma ruazinha de chão batido na vila de gaia, em pindorama. lá o esgoto corre a céu aber­to, as crianças brincam ranhentas e descalças e são fortes (todas bem gordinhas) e alegres, que afinal de contas a felicidade não tem preconceito ou às vezes erra de endereço. lá não tem água encanada. nem luz elétrica. as verduras, o feijão e as raras carnes apodrecem. alguns morrem pelo clostridium botulinum. c-l-o-s-t-r-i-d-i-u-m-b-o-t-u-l-i-n-u-m. isso não é pra qualquer um não. é tão bonito quanto champanhe, caviar, escargô… mas acho que estou me desviando do assunto, o que eu queria dizer é que morreu o nosso herói. com um balaço. e que era corajoso. e que muito fez pelos fracos. e que hoje empresta o nome pra uma ruazinha de chão batido. nome não, que aquilo é apelido. o nome mesmo dele era… como era mesmo o nome do nosso herói?

 

Cláudio B. Carlos é poeta da nulidade, filósofo do nada, cantor de cabaré, patafísico e editor de livros marginais. Nasceu em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé, Rio Grande do Sul, Brasil. Tem diversos livros publicados.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2017


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Paginação:

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