ANO 4 Edição 62 - NOVEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


Por que não pode?

Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque o dia em que dela comeres terás que morrer.” (Gênesis, II, 16)


Seu Divino é o dono do pomar. As mangas são dele, as bananas são dele, as laranjas são dele, as mixiricas são dele, os pêssegos são dele, também os abacates, os mamões, as jabuticabas, as carambolas, as peras, os caquis. É tudo dele, pronto. Pra quê discutir? Mas você sabe como é que é, moleque é moleque, ninguém segura a fome, a sede, a vontade irrefreável de pular o muro, de abocanhar as frutas, mesmo quando verdes. Se for maio, os gomos das laranjas são mais açucarados; se for novembro, a jubuticaba estala de gostosa em nossa boca. Dezembro é mês de lambuzar com a manga-espada. Não há mês que não ofereça a pele de um pêssego ou a carne farta do mamão ou a volúpia janeira de um caqui. O muro é alto, o cachorro é bravo, a espingarda com tiro de sal é certeira, à espreita, na janela. Mas você sabe como é, moleque é moleque.


Seu Divino fala alto, grita, esgoela, vocifera. Já pôs cacos de vidro em cima do muro. Já botou mais de um aviso apregoando que o cão morde. Para ficar mais autoritário, Cave canem, latino e latindo.Já ameaçou chamar o destacamento policial. Já deixou advertência na casa de cada um de nós. Até na escola já é conhecida a interdição: as professoras sempre acrescentam um lembrete no final de cada lição, deixem as frutas de seu Divino em paz, não bulam com o pomar de seu Divino. Mas você sabe como é que é, moleque é moleque, ninguém explica a gana do desafio, a artimanha de escalar o muro e de vencer os cacos e de jogar alguma coisa pra distrair o cachorro e sair balançando de galho em galho, espalhando jabuticabas, machucando mangas ainda de vez, colhendo mixiricas acariciando mamões, bolinando peras e beijando na boca os caquis rubros de janeiro.


Seu Divino é birrento, não quer nem saber se é criança ou marmanjo ou maritacas: prepara a espingarda e lasca o tiro. Mais de uma bunda já saiu moribunda, buscando o refresco da água do ribeirão. Nada muito grave aconteceu, por mais que a espingarda esticada espie pelas frestas da janela a festa desses invasores do pomar que agem como os alegres companheiros daquela velha floresta de Sherwood. Quanto mais o seu Divino cresce com suas ameaças, a gente também se agiganta em nosso propósito de apanhar aquilo que o sol doura, a lua aclara e a marcha das estações esmera em paladar. Quanto mais a repressão, mais o desejo incontido da violação, mais grita o aroma, mais doce o gume morno dos gomos que são acordes de órgãos convidando nossas bocas ávidas para morder a polpa da noite, celebrar o sumarento festim de gnomos.

Seu Divino que continue com suas providências, talvez até chegando à loucura de decepar todas as árvores, crucificar até o pé de maracujá e sua flor da Paixão, martirizar o pomar em nome de uma Ordem, de uma Lei, de um Código, de um Sistema, de um Poder. Talvez ele faça isso, deixe a terra totalmente nua, ou cimentada, ou carbonizada. Talvez faça no espaço amplo uma construção babélica, uma torre de marfim, um shopping chamado Eden Park, um elefante branco. E dos muros caiados dessa faustosa construção há de aparecer um punhado de desenhos de mangas, cajus, goiabas, bananas, caralhos, mamões, pêssegos, carambolas, bucetas, caquis, melancias, rebeldias, por que você sabe como é, moleque é moleque, e estamos a fim de aprontar no paraíso.

 

 

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2017


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Paginação:

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