ANO 4 Edição 62 - NOVEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Ades Nascimento


Poemas

Parada

 

Parar o tempo por um tempo que seja
Antes que o tarde seja tarde demais
Ao recusar a perda, quem esbraveja
Com a maré baixa, vida parada no cais.

 

Quando o sol quente abre o dia para o mar
Acorda o silêncio de tantas noites em mim.
Sem medo, silencioso, descanso meu olhar
Sobre reflexos prateados das águas sem fim.

 

Um breve mergulho que dera pelo universo
Já sem graça, por causa de tua ausência,
Causa-me espanto... este vazio relutante

 

“Astros pálidos” de uma canção distante
Mesmo tempo, rastros de uma existência,
Retorno ao mar. Cedo ao desejo submerso.

 

 

 

 

 

Repouso

 

Palavra que te quero
sorte!
Errou a palavra
falta ou norte.
No acerto,
oh, palavra abençoada!
Prêmio: a pessoa amada.
melhor brincadeira -
caça palavras.
Escondidas,
uma saía a outra estava.
Lá pelas tantas
um bando de três
palavras, palavras, palavras...
mergulho no rio
bem no revés.
Na sala
horizontal palavra corpo
tranquilo, silencioso, em repouso.

 

 

 

Trilho

 

O silêncio do homem,
o barulho da ave,
a solidão do espaço
que em tudo não cabe.

 

Eu não me lasco –
e l á s t i c o

 

 

 

 

 

Cadê

 

Onde estão aqueles heróis
que nos livravam dos perigos,
arredando os inimigos
para o fundo dos baús?

 

Estariam nas contracapas,
ocultos entre metáforas
ou mais além, atrás das matas,
alimentando urubus?

 

 

 

Biografia

 

O descuido pregou-me uma peça:
sou o primeiro, não o único.
Sou parte, não o todo.
Vento, não sou. Mas, sopro.

 

 

 

In ventos

 

Golfadas de vento puro
na cara, na sacada,
sobre o muro.
Janela entreaberta:
passagem ao sopro oceânico,
estremecedor, atlântico.
Fantasma do mar
não deixa criança dormir:
pesadelo madrigal.
As aves amanhecem o dia,
e o sol ilumina o quarto.
É quando dormem.

 

 

 

 

Rastros

 

Desenrolei os fios
juntei os cacos
amontoei cavacos
reuni os cravos
despreguei os cascos
do acaso

 

 

 

Passa tempo

 

Os tempos mudam
e a angústia é a mesma,
solidão imbatível.
Procuro datas
para quê?
Para localizar
a dor em mim?
Parece verdade,
mas não há tempo.
Dada a mudança
agora é quando.

 

 

 

Ades Nascimento é autor do livro de poemas e letras de canções Chave do verso (Medusa, 2017), atua como professor (SEED/PR), licenciado em Letras/Português (UFPR, 2001) e pós-graduado em Educação pelo Centro Universitário Campos de Andrade (Uniandrade, 2010). Tem poemas publicados no III Concurso de Poesia Helena Kolody – Os poetas: Antologia de poetas Contemporâneos do Paraná (SEEC, 1991). Paranaense, nascido em 1963, vive em Curitiba desde a infância. Plantador de araucárias, cancionista, publicou letras e canções nos cds Supermundo (2001), Nefelibatas (2003) e Néctar (2006). Récitas na websérie Pássaros Ruins (2014) – Curitiba/PR; no Piazzolla Café - Cantanhede/Coimbra - PT (2012) e no Café Leite Quente & Poesia - Paço Municipal/Curitiba - PR (2011). Recebeu prêmios Cultura e Divulgação (2008) da Câmara Municipal de Curitiba e de melhor canção (Bandeira II) no 5º festival da Canção da UFPR (1999), com a banda Nefelibatas.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2017


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Colaboradores de Novembro de 2017:

Henrique Prior, Ades Nascimento, Almandrade, Caio Junqueira Maciel, Carla Andrade, Cecília Barreira, Christina Montenegro, Cláudio B. Carlos, Denise Bottmann, Henrique Dória, Hermínio Prates, Joel Henriques, Katia Bandeira de Mello Gerlach, Krishnamurti Goés dos Anjos, Lenita Estrela de Sá, Leonora Rosado, Lisa Alves, M. de Almeida e Sousa, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, Ricardo Ramos Filho, Rodrigo Diniz Sousa, Rodrigo Novaes de Almeida, Ronald Cláver, Sandra Poulson, Sandra Santos, trad., Silas Correa Leite, Vanessa Dourado


Foto de capa:

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Paginação:

Nuno Baptista


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