ANO 4 Edição 62 - NOVEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Christina Montenegro


Masculinidades, ursos, veados e cornos

Assunto: SÍMBOLOS, MITOS E RITOS SUBMETIDOS, AO LONGO  DA PASSAGEM DO TEMPO,  À INEVITÁVEL TESSITURA DA ALQUIMIA CULTURAL, QUE ORA QUALIFICA, ORA DESQUALIFICA, NOMENCLATURAS E CONCEITOS QUE USAMOS, ESPECIALMENTE POR CONVENIÊNCIAS DE ALTERNÂNCIA DE PODER, E TRANSGRESSÕES DO MESMO.

 

Introdução

 

 

O assunto principal é a curiosa transformação qualitativa  ou de valores que segue havendo na  identificação das Masculinidades com as nomenclaturas que designam especialmente ursos (animais/grupos de homens), veados (animais/grupos de homens), e cornos (adorno honorífico/homens traídos  amorosamente).



Os mesmos símbolos que hoje detêm significados complexos (ora claramente negativos, ora desqualificando a virilidade de indivíduos ou grupos, ora identificando feminilidade e questionando questões de Gênero, ora significando grande familiaridade entre pessoas, etc.), eram - originalmente - direcionados simbolicamente à garantia de virilidade das Masculinidades e titulação de nobreza. Eram nobres hierarquicamente, elogiosos, e seu significado honroso.



Que turbulências vêm havendo de lá para cá com o que rodeia socio-culturalmente o conteúdo desses significados, símbolos e nomenclaturas?

 

O objetivo desse texto é apenas compor uma espécie de breve “cardápio temático” que facilite, aos que se interessarem a desenvolver mais e melhor as questões levantadas, a deflagrar suas próprias possíveis reflexões e/ou pesquisas.



Assim, farei uma espécie de “levantamento comentado” de questões que rodeiam o assunto ( acrescentarei algumas citações de alguns autores), desde Mitos e Ritos que plausivelmente fundam essas questões, até recursos de comunicação que usamos popularmente no nosso dia a dia. “Ceci n’est pas” um livro, e não pretende “explicar”, “esgotar” ou “resolver” todas as questões envolvidas no (creio) suculento tema que provoca o  texto.



Os que não tenham se distanciado dos mitos (e de suas heranças), inclusive em seu diálogo com a Psicanálise, talvez venham a acompanhá-lo melhor.


Os que se sentirem estimulados a se aproximar, ou a se reaproximar deles,  já vão  me deixar suficientemente feliz.

 

Li, há muito tempo, e em mais de uma fonte teórica confiável, que a deusa fenícia Astartê (culto/mito/rito herança de divindades equivalentes em outras culturas próximas: a suméria Ishtar e a Ísis egípcia, por exemplo) não teria sido “suportada” culturalmente pelos gregos, devido a seu “poder excessivo”.

 

 

 

Daí os gregos terem preferido “dividir” sua potência, fragmentando-a entre algumas “novas”divindades, especialmente Afrodite (beleza e sedução, por exemplo), Ártemis (caráter selvagem e destemido mas piedoso – ou -  compromisso simultâneo com a Natureza selvagem e guerreira e com a compaixão civilizada, cuidadora e curativa) Athena (racionalidade e estratégia), e todas as demais (Hécate, Héstia, Deméter, Coré/Perséfone), cada uma delas com suas características-atribuições-poderes-ritos.

 

 

Coisa semelhante, segundo alguns autores aconteceu em outras mitologias, algumas africanas por exemplo, onde a Oyá original teria sido “dividida”, pelos mesmo motivos, em Yansã e Oxum. 

 

 

Para chegar ao que as Masculinidades, os Ursos, Veados e Cornos têm a ver com o desenvolvimento do nosso assunto, vou escolher focar inicialmente, com especial carinho, os significados, mitos e ritos de Ártemis e sua continuidade sob outras formas “pós-Olimpo/Grecia”, sendo compulsoriamente  obrigada a transitar entre esse fluxo mitológico multicultural como um todo, aqui e acolá.



A própria continuidade do texto esclarecerá o porquê da opção (quase poética) por esse ponto de partida, e dos porquês que faço esse aviso.

 

 

Ártemis

 

 

As hipóteses populares sobre o nome de Ártemis dizem que seu próprio nome viria do ilírio “artos”, em grego “árktos”, que significaria “urso”, realçando seu aspecto selvagem/guerreiro, logo supostamente “masculino”.

 

 

 

Já nas hipóteses acadêmicas as origens ilírias ou lídias teriam resultado em “Artemes”, que significaria “são e salvo”, que pontuaria o caráter também protetor-curotrófico da deusa, logo supostamente “feminino”.

 

 

Na Ilíada é chamada “A Senhora das feras”; ursos inclusive, claro.

 

Simultaneamente, protege também as corsas, estando sempre acompanhada delas, sendo – inclusive - o festival de caça ao gamo a ela dedicado, e sendo a corsa mantida também como sacrifício adequado a ser feito a ela em seus ritos, como é contado sobre Ifigênia, substituída por uma corsa na iminência de ser ela mesma sacrificada, no poema trágico troiano que a ela se refere.

 

Os chifres, especialmente os dos veados, mesmo antes do protagonismo da Cultura grega, eram associados à Lua, à possibilidade de coroamento divino e terreno de reis e heróis (como veremos mais à frente, no texto); Ártemis é também uma deusa lunar, representada imageticamente coroada por uma meia lua.

 

As meninas de cinco a sete anos lhe rendiam culto no templo, e, ao longo deste período, eram chamada ritualisticamente de “ursinhas”.

 

Sendo o urso um símbolo da virilidade, sua proteção/identificação a esse animal totêmico guarda, no mínimo, duas compreensões.

 

Uma, a de que seu aspecto selvagem e guerreiro a dotaria de um “toque viril”(logo, a princípio “masculino”, e assim associada ao urso), acentuado por ter pedido a seu pai, Zeus, que a mantivesse “virgem”, o que significava antes “capaz de zelar por si mesma” ou ter autonomia sobre seus passos, que alguma referência de perda do hímen ou da feminilidade.

 


Uma amiga, ex-aluna do próprio Junito Brandão, usava Ártemis como exemplo da menina que popularmente chamamos de “filhinha” ou “queridinha do  Papai”, o que inclui a lembrança do urso também como referência simbólica de  “Proteção paterna”. A outra talvez diga respeito à relação intensa que manteve com seu irmão gêmeo Apolo (deus solar), com quem divide inúmeros mitos específicos, a começar pelo parto dele, que nasceu depois dela, após nove dias (daí ser ele  cercado por nove musas), parto no qual ela teria ajudado (como “doula” ou parteira) a mãe deles, Leto.


Enquanto ele conduzia o Sol, ela conduzia a Lua em seus caminhos cósmicos.

 

Assim, compartilhava com o irmão o poder do trânsito que ocorria no céu, o que não era um poder “menor”.

 

Essa proximidade fraternal a manteria ligada associativamente, por “contaminação temática” às questões de poder ditas “viris”, logo associadas aos ursos.


A deusa é simultaneamente uma atleta, uma guerreira de pontaria imbatível, capaz de vinganças cruéis.

 

A deusa é identificada também com adorar dançar e atletismo, e como a protetora tanto da Natureza enquanto expressão genérica dela, quanto da expressão dela no início de vida dos indivíduos, auxiliando recorrentemente os partos e os abortos (quando preferidos ou inevitáveis); uma vez parteira, sempre parteira.

 

A deusa é a protetora por excelência dos mais fracos, das mães e das crianças, especialmente das meninas (suas “ursinhas”), promovendo acolhimentos e curas em geral.

 

Estátuas a ela dedicadas ora exibem a companhia da corsa, do arco e da flecha (aspectos selvagens, atléticos, autônomos, “viris”e guerreiros), ora um corpo coberto de inúmeros seios fartos (aspectos acolhedores, cuidadores, piedosos e curotróficos).

 

Como tempero da continuidade ao longo da História desses Mito/Ritos, acrescento três curiosidades.

 

A primeira: D. Sandra, mãe de três amigas (uma delas psicóloga), me contou que, quando ainda criança, morando na Europa (Romênia), por volta dos anos 20 e 30, no local onde ela morava ainda eram cumpridos (por ela, inclusive) os ritos de meninas serem as encarregadas de deixar “lanches-oferendas” para os ursos locais, na ocasião em que eles saiam da hibernação em fevereiro, e se avizinhavam da cidade...

 

A segunda: era hábito meninas judias ganharem ritualísticamente ursinhos de pelúcia ao nascer (representando proteção divina ou paterna), hábito que se ampliou para meninas de quaisquer grupos culturais, por tempo suficiente, aliás, para que eu mesma fosse assim presenteada em 1949...

 

A terceira diz respeito à poetisa Florbela Espanca, sagitariana (como eu), signo astrológico associado à Ártemis (“O arqueiro / A arqueira”, “O Centauro”, meio humano, meio selvagem).

 

Sua relação intensa com seu irmão mais novo é sempre pontuada em sua biografia, assim como invade sua obra. Muitos chegam a apontar ali um  real caso de incesto. Nome desse irmão: Apeles!... Mais próximo de Apolo, impossível!... A autonomia (sua, e das mulheres em geral) era também uma questão pontuada em sua vida e obra.

 

 

Ursos  

 

 

...”Admirado e temido ao mesmo tempo, o nome do urso é objeto de um tabu nas civilizações celtas, germânicas e eslavas: ‘Antiga divindade, criatura venerada, fera invencível, filho da floresta, encarnação da força e da coragem, o urso não é somente o rei dos animais, mas também o animal símbolo de todos os reis’ (segundo M. Pastoureau). Ele é, sem sobra de dúvida, desde a época pré-histórica, objeto de culto, e nos campos, por longo tempo sobreviveram práticas e crenças rendendo homenagens a esta criatura. Ele é um modelo para os guerreiros germânicos...” (Claude Thomasset em “O medieval, a força e o sangue”, parte IV de “História da Virilidade” da Editora Vozes).

 

Joseph Campbell já relatara, antes do ainda recente livro acima citado, dados sobre a comprovação de ritos referentes aos ursos desde o paleolítico, a partir de achados arqueológicos. Em áreas tidas como povoadas pelos Neanderthais o mesmo fenômeno também foi comprovado, aliás.

 

Apesar da predominância da sua associação às Masculinidades, há também representações de deusas-urso, como a celta Artio, esta talvez familiar à associação grega do urso com a deusa Ártemis em sua face guerreira.

 

A mitologia indígena da América do Norte tem abundantes propostas de ritos curativos a partir do urso enquanto animal de poder em seu xamanismo, sendo cultuado em versões masculinas e femininas.

 

 

“...Nas canções de gesta encontram-se vestígios de uma mitologia do urso ligados a inúmeros personagens fictícios e emprestados da História. A História Franca fala de ‘reis cabeludos’, e insiste sobre a obrigação, a fim de manter seu poder, de conservar essa pilosidade. Gregório de Tours narra a morte de um personagem denominado Ursion, retomando o desenvolvimento de uma caçada ao urso”...”A vida dos guerreiros, dos reis, dos santos, geralmente é descrita com o auxílio das relações que eles detêm com os ursos”... (Claude Thomasset em “O medieval, a força e o sangue”, parte IV de “História da Virilidade” da Editora Vozes).

 

Da mesma forma, no universo popular, o folclore de diferentes culturas perpetuou a imagem do urso como entidade curadora: o grego, o chinês, o romeno, o inglês, o alemão... Em todas elas há relatos do uso de pelos de urso, garras de urso, máscaras de urso, etc., utilizados em rituais de cura. Os europeus do século XVI, por exemplo, usavam a gordura do urso para curar a calvície (recuperação da pilosidade tida como característica de poder viril das Masculinidades), ou em massagens para curar dores do corpo.

 

Diz-se que quando o Mito “é esquecido”, vira folclore, e quendo o Rito é “abandonado”, vira “festa popular”. É a maneira como a “genética das nossas interioridades” se manifesta, e continua exibindo sua herança, ou  aspectos de sua “árvore genealógica”...

 

Na literatura as lendas arturianas têm atravessado o Tempo com o mesmo sucesso de obras como a Ilíada, a Odisséia, entre outras tão significativas quanto.

 

Para começar, o próprio nome do Rei Arthur (“Artu”) significa Urso.

 

Aliás, aproveito para lembrar os episódios das lendas arturianas referentes à sua relação incestuosa (deflagrada por ritos agrícolas pagãos) com sua irmã Morgana, cujo nome também vem do galês antigo/celta: “Morcant”, que originalmente seria um nome masculino, que significava ‘círculo de mar’, identificando-a a um ser da Natureza selvagem, com um toque (na “masculinidade oculta” de seu nome) “viril”, logo autônomo. Como sacerdotiza de antigos ritos, era também associada ao culto lunar.

 

Algum leitor associou Arthur e Morgana, como eu, a Ártemis e Apolo?...Difícil não fazê-lo, certo?...

 

Afinal, estruturas culturais (ou inconscientes) que nascem de Mitos são poderosas, e por isso transculturais, e por isso é curioso que estudos de Culturas comparadas sejam frequentemente desqualificadas por alguns acadêmicos, consideradas “estudos menores” ou “desimportantes”...

 

...”todos os grandes cavaleiros da Mesa-Redonda sairam-se vencedores, após um face a face com o urso, destruindo assim as virtudes de um adversário tão digno quanto eles. Para além de um comportamento exemplar na sociedade, e de uma cortesia manifesta em relação às damas, indubitavelmente permanece um substrato da selvageria dos guerreiros germânicos, notadamente nos combates”... (Claude Thomasset em “O medieval, a força e o sangue”, parte IV de “História da Virilidade” da Editora Vozes).

 

Por “tão digno” podemos ler, nesse caso, também “tão viril”.

 

A questão da cuidadosa manutenção da pilosidade corporal (ou sua eliminação ritual) dessas personagens é uma questão recorrentemente  identificatória de guerreiros, líderes, governantes, segundo centenas de autores, pesquisadores de História, Antropologia, Literatura.

 

O herói Guilherme de Orange é chamado pelo apelido de “Braço de Ferro” ou “Abraço Duvidoso”. O abraço de um urso, afinal, era (é) considerado fatal. O herói Bernardo del Carpio é identificado como “rígido como um urso”, e sufoca Rolando entre seus braços. Numa lenda saxônica, uma moça é levada por um urso, e se torna mãe de várias crianças com corpo de homem e rosto de urso.

 

Lenda ou não, por via das dúvidas, na  época,  Guilherme d’Áuvergne (Bispo de Paris no século XIII) levanta, a partir dela, a hipótese de concepção humana pelo sêmen animal...

 

Agora, podemos rir disso, mas pelo viso o Sr. Bispo não achou nada “engraçado” o poder contido e lançado sobre o inconsciente coletivo de seus fiéis (embora essa nomenclatura ainda não existisse) a partir do recorrente relato popular dessa lenda urbana da época...

 

Com o protagonismo cultural do Cristianismo os símbolos e as festas pagãs foram ora banidos, ora incorporados aos hábitos diários por símbolos e festas consideradas cristãs.

 

Não custa lembrar que a ave era um dos principais símbolos para divindades femininas (e algumas masculinas) ancestrais. No Egito tanto Isis, quanto Hórus e Thot se apresentam assim, por exemplo.

 

Não à toa foi incorporado pelo cristianismo na imagem do “Espírito Santo” da “Santíssima Trindade”, na pomba que o representa, o que o dotou, assim, de imediato “sucesso de marketing” popular, na medida em que o símbolo já morava no inconsciente (e no dia a dia) da maioria da população de todas as regiões onde a conversão fosse levada ou imposta.

 

Fundar uma Santíssima Trindade?... Outra boa ideia “de marketing”. Lembremos que a deusa ancestral de inúmeras culturas era também uma deusa tríplice, ou de três faces, tentando sempre reproduzir, com isso, as características/faces lunares...

 

Festejos cristãos foram estrategicamente colocados em datas já utilizadas pelo (dito) paganismo em todas as suas expressões locais.

 

O fenômeno que chamo particularmente de Caldo Cultural Patriarcalista/Patrimonialista usa e abusa até hoje do (perigoso, pois enganador) Senso Comum, para ora meramente desqualificar popularmente símbolos “sagrados” (e/ou referentes a poderosas forças inconscientes de nossas interioridades) ancestrais, ora incorporá-los antropofagicamente.

 

A ave como símbolo de divindade pode ser vista, inclusive, em mais de uma mitologia indígena brasileira na presença do Urubu-Rei (Urubutsin) e equivalentes.

 

Para o URSO esse Caldo criou essa imagem de “amigo urso”, que o Senso Comum transformou em sinônimo de “mau amigo”, isto é, exatamente o oposto do valor simbólico e sagrado pagão (virilidade e capacidade guerreira dignas, pois concedida pela própria Natureza, a força da justa indignação, acolhimento do que é “natural” ou intrínseco, proteção, poder de cura, etc), tentando manter apenas o do perigoso guerreiro brutal no aspecto do fato do abraço dele ter o poder não só de imobilizar, mas de matar, como se “matar” dissesse respeito apenas à Natureza (“suja”), que deve, então, ceder lugar à Cultura (“limpa”), fazendo de conta, cinicamente, ignorar que Mitos, Símbolos e Ritos são nada mais nada menos que a própria Cultura “em pessoa”...

 

Os antigos Mitos, Símbolos e Ritos são aparentemente minimizados em sua força e importância (já que na verdade são “reciclados”), ou até mesmo ridicularizados apenas pela volúpia de ilusórios desejos de poder e dominação.

 

Os frutos da tradição inicialmente oral, contos folclóricos, lendas, contos-de-fadas, ou historietas infantis, costumam ser condutores “hereditariamente autorizados” de Mitos através da História, exibindo, muitas vezes, essa minimização acrescida de toques de ridicularização.

 

No conto infantil “Cachinhos Dourados”, por exemplo, podemos observar inúmeros dados (ou “heranças”) dos símbolos e Mitos que relembramos com facilidade.

 

Cachinhos Dourados é uma menina “que tem o mau hábito de sair sozinha de casa para aventurar-se na Floresta, no Mundo”.

 

Alguém lembrou de Ártemis, seu apego à Natureza, e de sua autonomia exigida por ela a seu pai?

 

Desobedecendo à família, ela atravessa a Floresta mais uma vez, e encontra uma casa vazia e com a porta aberta.

 

Entra nela, e vê uma bela mesa com três pratos de mingau servidos nela; prova o maior e acha quente; prova o médio e acha frio; prova o menor, acha delicioso e o devora.

 

Vê também três cadeiras; experimenta a primeira e a acha grande, vai à média e a acha ainda desconfortável, mas senta na menor e a acha confortabilíssima.

 

Vai até o quarto, vê três camas; a primeira acha dura demais, a segunda acha macia demais, mas a terceira é devidamente confortável para ela, que se deita e adormece.

 

Alguém lembrou das características ainda tidas como “masculinas” e “femininas” (prato, cadeira e cama”de papai”, “de mamãe” e de “filhinho” - aquele que só existe se existirem “papai e mamãe”)?

 

Alguém lembrou do caráter tríplice das deusas ancestrais (três faces distintas na mesma deusa), explicitamente desenhado, por exemplo, no perfil da deusa grega Hécate, senhora dos mundos subterrâneos (ou ocultos, difíceis, perigosos), senhora das chaves, dos instrumentos que desobstruem caminhos?

 

Alguém lembrou das interdições, elaborações, e demais questões humanas que vêm com a triangulação (e respectiva angústia) do que, pós Freud, chamamos de conflitos edípicos? (Aos não familiarizados com Mitologia e/ou Psicanálise, recomendo procurar informações).

 

Os donos da casa (Papai Urso, Mamãe Urso, e Bebê Urso) voltam para casa, vão percebendo que usaram suas coisas, até que o pequeno Urso vê a menina na sua caminha, e grita.

 

Em muitas versões a frase “Quem comeu o meu mingau?” é repetida e ressaltada como “piada”, e como se os ursos fossem ridículos.

 

Diante disso, Cachinhos sai correndo, foge, e diz-se, finalizando o conto, que “depois disso nunca mais se aventurou”.

 

Alguém lembrou dos ritos iniciáticos das “ursinhas” de Ártemis, que denotavam caracterizar sua passagem para o amadurecimento adolescente?

 

Alguém lembrou da transformação “depurativa” pela qual passou o símbolo/significados do urso, na qual o Espírito do cristianismo precisava “podar, domar e civilizar” o conceito de Natureza, apartando-o do conceito de Cultura, para – por questões de Poder - apartar o pagão (“selvagem”, logo “sujo”) do cristão (“civilizado”, logo “limpo”)?

 

Informo (ou lembro) que nem Santo Agostinho, por exemplo, teve como escapar de criar textos sobre isso, falando claramente sobre a relevância do  símbolo/culto/rito referente(s) aos ursos.

 

Torço para que essas (e muitas mais) lembranças tenham vindo à cabeça dos leitores que nos acompanham até aqui, e/ou que eles se reaproximem de Mitologia e Psicanálise, como já disse, e repito com prazer...

 

Algumas vezes a própria Cultura (viva), unida ao Tempo, se encarrega de encontrar meios de transgredir as manipulações guiadas antes por mero desejo de Poder autoritário patriarcalista patrimonialista que por franco Desejo singular.

 

A imagem do Urso curiosamente foi (re)absorvida por um segmento do universo LGBTT*, que “saiu na frente” das demais expressões de Masculinidades, adotando-a na forma de nomenclatura que identifica uma estilística específica de um grupo inserido nessa Comunidade.

 

É a nomenclatura que designa o caráter identificatório de perfis que se auto proclamam – assim – “ursos”, devido especialmente a seu físico: corpo peludo, frequentemente gordo e forte, logo poderoso, barba, pilosidades devidamente cuidadas, aceitação de seus corpos “naturais” em contraposição ao culto de jovens corpos magros e esculpidos “culturalmente” em academias, e até  depilados.

 

Esse grupo (os novos  Ursos) já conta há tempos com organizações próprias, que começaram em São Francisco em 1980, entre grupos prioritariamente operários, que se alinharam na época, com facilidade, aos igualmente homossexuais organizados rurais (os chamados “lenhadores”, por exemplo). Os novos Ursos têm encontros, celebrações, bandeira e até bares próprios.

 

Seus primeiros clubes brasileiros se deram a conhecer nos anos 90.

 

Nadando contra a corrente do Caldo Cultural Patriarcalista Patrimonialista, sabemos que o fato de Urso ter se tornado, nos nossos dias, uma nomenclatura que designa gays, que ela se mantém designando Masculinidades, virilidade, mesmo que, para parceria afetivo-sexual, a preferência possa ser por um igual.

 

Designa também, nesse grupo, força física, poder político mais democrático (proletário/popular) de trabalho pesado e útil para muitos, homens que são ou aparentam ser mais velhos (logo talvez vistos como sábios ou experientes), e ligados à Natureza: também sob esse aspecto, a força da Natureza proletária/popular (exercida “de baixo para cima” ou “com  horizontalidade”), em contraposição à força da hierarquia imposta pela Cultura dos ricos/nobres/acadêmicos/etc (“de cima para baixo”)...

 

A título de curiosidade, não posso deixar de lembrar do famoso premio de cinema alemão, o “Urso de Prata”: o urso escolhido também como símbolo de excelência numa expressão já Moderna da Arte...

 

Veados

 

Outro exemplo de possibilidade de desqualificação que esse mesmo Caldo Cultural Patriarcalista Patrimonialista produz, lançando ao esgoto do Senso Comum - o enganador dos desavisados – o sentido original de antigas nomenclaturas e imagens (e seus significados simbólicos), se refere ao  antigo Deus Cornífero pagão, representado por um homem com chifres, e especialmente pelos gamos ou veados e demais animais da mesma família em algumas culturas, e/ou pelos bodes e semelhantes em outras.

 

Na Cultura Grega reapareceria como Pã, por exemplo, mas já associado aí  a medos, ou ‘pânicos’, logo já talvez desvirtuado pelos motivos patriarcais-patrimoniais adotados com força ainda maior pelo Cristianismo, mais tarde.

 

Sim; esse ancestral deus maior pagão/agrícola foi especialmente desqualificado pela má fé do Patriarcalismo Patrimonialista, que transformou o símbolo máximo mais antigo (e sagrado) das Masculinidades nos seus (supostos) “opostos”: ora num monstro esquisito e assutador, ora no próprio “demônio” ou “Diabo” cristão, ora no homem desprovido de virilidade, e mesmo de moral.

 

Assim, comparar um homem a um gamo ou corsa (e posteriormente chamar um homem de veado ou “viado”, como aqui no Brasil se adotou), passou a significar ora descrédito na virilidade do mesmo, ora descrédito na dignidade ou qualidade moral do mesmo, ora descrédito em suas capacidades de força física e espiritual.

 

Pior: na nossa versão do Português (particularmente) do Brasil: falar dele como ele fosse embebido de feminilidade, e – não satisfeito - tomando a feminilidade como "coisa má, ruim, estragada, nula, fraca, assustadora, perigosa, etc.".

 

Logo, desqualificando de uma cajadada só duas coisas poderosas: a sacralidade ancestral dos significados/símbolos iniciais, e a feminilidade, tornando-a igual e convenientemente “demonizada”, claro!...

 

...”deus com chifres e cauda bipartida? Que tal o Velho Cornífero? Você realmente adora o Diabo? Não há fogo sem fumaça.

 

O velho Cornífero? Sim. O Diabo, princípio do mal? Não. O Deus de Chifres, para as bruxas, é o companheiro masculino da Deusa Tripla. Ele é dinâmico, a força vital, aspecto masculino de toda a Natureza. Nós o veneramos porque veneramos a vida. Ele possui chifres e cauda, que denotam seu conhecimento instintivo e animal, sua sapiência natural. Este Deus é parte bicho e parte homem, mescla da força vital e perícia xamânica. O Deus Cornífero, como a Deusa, é sexual, terreno, apaixonado e sábio. Cruel e mau ele não é. Entre os dois, a Mãe Deusa e seu companheiro, se constrói o Mundo. Eles o construíram de amor e desejo. Portanto, a sua sexualidade é uma força vital sagrada, verdadeira experiência espiritual”...

 

...”O Deus Cornífero, divindade masculina dos feiticeiros, não acrescenta ao homem uma imagem de imediata superioridade (ou inferioridade) masculina. Pelo contrário, a imagem é de sapiência natural e selvageria. Tão poderosa como é poderoso um veado macho ou um carvalho; não como um ditador ou um míssil nuclear. Isso exige o sacrifício de velhas idéias. O Deus Cornífero não possui nenhuma primazia, em termos mundanos. Ser uno em corpo e espírito é um sonho que o homem não consegue realizar totalmente”... (Rae Beth – psudônimo de uma Professora de Literatura britânica de Wiltshire – em “A Bruxa Solitária” da Editora Bertrand Brasil, um livro sobre mitologia do paganismo para adolescentes, que resume bem o que foi – e é - , para os iniciados tradicionais que o mantiveram vivo clandestinamente, para os que o mantiveram vivo através das entrelinhas do folclore e festejos populares, e para os “reciclados” que voltaram a se interessar por esse deus, seus mitos e ritos, recentemente).

 

Sim. Curiosamente uma volta reciclada às diversas formas de paganismo (que nunca foi totalmente abandonado nos bastidores de nossas interioridades, e concretamente na de muitas casas) foi deflagrada com razoável potência em todo o planeta por volta do final dos anos 80, talvez como reação crítica mobilizada após a emergência dos jovens e conservadores yuppies, que mais pareciam se limitar a cultuar o dinheiro,  o enriquecimento, e o consumismo.

 

Mesmo no Brasil, no senso de 2002 “religiosidades sem definição” foi um item que surpreendeu e intrigou os pesquisadores.

 

Na PUC RJ, onde os dados sobre Religiosidade foram particularmente estudados, foi apontado que o interesse pela Wicca (“bruxaria”), pelo neo-helenismo, pelo xamanismo, pelo satanismo, etc, de tudo que podia fazer  parte de uma espécie de “pacote neo-pagão” que poderia identificar essas religiosidades que cultuam o Deus Cornífero e demais deuses de várias  versões de antigos politeísmos.

 

Inúmeros livros sobre essas novas versões pagãs de culto foram lançados, inclusive um que especificamente abordava as Masculinidades, “Wicca para Homens” (de A. J. Drew, para a Madras Editora).

 

A ficção rendeu o best seller “As Brumas de Avalon” (ficção construida a partir de pesquisas sobre as lendas arthurianas, e dados históricos), onde é relatado como Arthur e  Morgana teriam vivido seu encontro no ritual de Beltane, ela como sacerdotiza-Deusa, e ele representando o Deus Cornífero, simbolizado como o “Gamo-Rei”.

 

Nesse ritual as crianças que por ventura fossem geradas nesta noite eram consideradas especiais; normalmente as meninas estariam destinadas a se tornar sacerdotisas, e os meninos gerados, magos.

 

O ritual (como os demais) era consagrado à Deusa Tríplice para que ela trouxesse sempre boas colheitas através da fertilidade da terra.

 

Embora o culto fosse (ou ainda seja, em suas versões contemporâneas dos novos adeptos) predominantemente feminino, não se minimizava ou excluía, de forma alguma, o papel do Deus, pois, sendo a fecundação a essência de Beltane, impunha sempre a presença e a relevância do feminino e do masculino.

 

Em Beltane, os rapazes tinham também, assim, a sua cerimônia iniciática  de passagem da adolescência para a maturidade.

 

O rapaz personifica o Deus Cornífero, o “Gamo Rei” e a sacerdotiza virgem, a Deusa Tripla Lunar.

 

Se estivesse em jogo também a escolha de um rei, o rapaz vestia ritualisticamente a pele de um Gamo e desafiava um gamo vivo, o líder da manada, e lutava com ele até a morte de um deles, fazendo por merecer (ou não) também o título e o trono.

 

Tem sido notícia recorrente dos jornais, desde os anos 80, que a região de Stonehenge precisou receber segurança e vistoria reforçada, devido ao volume de frequentadores que o monumento passou a receber nas grandes datas pagãs, tamanha a adesão mundial (“reciclada”) ao paganismo.

 

Da mesma forma, um Templo a Zeus (o deus especialista em se metamorfosear) em Atenas precisou das mesmas atenções, tamanho o volume de grupos que passaram a frequentá-lo no exercício (“reciclado”) de rituais Neo-Helenistas.

 

Repito: Algumas vezes a própria Cultura (viva), unida ao Tempo, se encarrega de encontrar meios de transgredir as manipulações guiadas antes por mero desejo de Poder autoritário patriarcalista patrimonialista que por franco Desejo singular.

 

Como sabemos, ainda usamos no Brasil “veado” ou “viado” para designar homens “efeminados” (?) e/ou homossexuais, sendo eles de fato homossexuais, ou não: basta “parecer”, e isso seria antes (para muitos) um insulto preconceituoso, que uma mera nominação.

 

Insulto, na medida em que se referiria, na boca de muitos, como já dissemos, à suposta fraqueza fisica, mental e moral do indivíduo assim nomeado.

 

Daí inclusive a associação compulsória (ou frequente) dessa orientação sexual à prática da prostituição, no imaginário do Senso Comum que grassa no dia a dia socio-cultural.

 

O termo teria sido “oficalizado” no Brasil como “insulto adequado” (supostamente) no tempo do Império, em praças do Rio de Janeiro, onde se reuniam grupos de rapazes para, entre outros objetivos, se prostituírem a clientes ricos; ao menos assim se dizia. Diz-se que ao serem coibidos pela polícia, eles fugiam dali aos saltos, como “veados”, daí resultando esse novo uso da alcunha (ao menos é o que  afirma a wikipedia).

 

No Brasil, de alguns anos para cá, na medida em que felizmente avança a força socio-política do movimento LGBTT*, que foi chegando ao Mundo  na esteira do Feminismo, pressionando o preconceito atrelado ao imaginário infelizmente ainda vigente, um fenômeno curioso emerge: “viado” começa a ganhar um novo sentido, conforme a entonação vocal da nominação, que denota na verdade familiaridade carinhosa entre pessoas, independente da real orientação sexual do nominado.

 

Um funk carioca, por exemplo, faz referência a isso, cantando a amizade, sujeita a confidências feitas com grande confiança, de uma mulher a um amigo gay (que jamais se sentiria, ali, “ofendido” por ela).

 

Nos mesmos caminhos e sentidos tem sido usada a nominação “Bee”.

 

Aliás, popularmente é afirmado com frequência que é fundamental para as mulheres ter e apoiar seus amigos gays: talvez uma forma de mostrar que o Feminismo e o Movimento LGBTT*, potentes organizações de categorias de Gênero, estão unidas também na vida íntima de muitas pessoas, que se identificam entre si pelo tratamento semelhante e duvidoso que ainda recebem do Caldo Cultural Patriarcalista Patrimonialista vigente.

 

As estatísticas que feminicídios e assassinatos de gays e transsexuais exibem, mostram que esses grupos têm seus motivos para buscar unidos o respeito da sociedade e da Lei...

 

Por essas e outras, Mulher e LGBTT* se organizaram, e se tornaram Atores Sociais.

 

A única categoria de Gênero que não refletiu sobre suas próprias características identitárias, e consequentemente não se organizou , foi a das Masculinidades, não tendo, por isso, gerado o Ator Social “Homem”; como exibo no título de meu livro, “Homem ainda não existe...”. Para as Masculinidades ainda precisamos usar o mero plural; elas ainda não conquistaram o coletivo. 

 

Enquanto isso, surge por exemplo uma página da internet que se auto-denomina “Crianças  Viadas”, para compartilhar textos de pais, fotos, etc., de crianças que aparentam familiaridade gestual ou  com atividades, tidas como pertencendo a gays “em potencial”, falando das dores (o bullying que essas crianças e seus pais sofrem, por exemplo) e delícias (o  humor, os talentos, a criatividade dessas crianças, por exemplo) de conviver com essas crianças, e ser responsável por educá-las.

 

Nas entrelinhas dessa iniciativa, a busca recorrente de desestigmatizar os LGBTT*, e incluí-los respeitosamente no Mundo, desde sua infância.

 

Fica marcado, mais uma vez, o fenômeno onde a própria Cultura (viva), unida ao Tempo, se encarrega de encontrar meios de transgredir as manipulações guiadas antes por mero desejo de Poder autoritário patriarcalista patrimonialista que por franco Desejo singular.

 

A título de curiosidade, vamos lembrar, com curtos comentários,  algumas nominações equivalentes às tentativas (vitoriosas ali, ou não acolá) de trânsito do conceito de Gamo Rei, ou Deus Cornífero, ao tom de desqualificação/requalificação de “viado/veado”(e seus equivalentes) em versões de outros idiomas ou países:

 

1.) Em inglês, há uma leitura da associação com o significado insultante de “To faggot”, por mera lenda urbana sem comprovação, onde o significado seria “agrupar paus para pô-los em chamas”.

 

Assim, o verbo “To faggot” significaria “enfeixar”, significando, no insulto, pejorativamente prática homossexual.

 

Mas teríamos também “Faggot” significando não só  “feixe” (ou “o que porta  galhos”), mas também “verme” ou “bicha” (usado aqui, igualmente), significando homem repelente, idiota, fraco, ou homossexual.

 

Usado desde o século 16, era usado inicialmente só para mulheres, especialmente as velhas.

 

A associação com “enfeixar” e “feixe” se devia ao ofício de muitas velhas de colher e vender feixes de gravetos (semelhantes aos galhos-chifres utilizados em rituais pagãos) para lareiras e fogões (ou rituais, então clandestinos).

 

Não esqueçamos com que facilidade velhas eram associadas à bruxas perigosas, perversas...

 

Com o desejo de dar aos homens assim nominados o caráter “feminino” (lembro, como se feminino  fosse característica “muito ruim”), as palavras se deslocaram para eles.

 

Homens efeminados foram inicialmente designados “Sissi” ou “queen”, para logo em seguida, devido ao conjunto do teor depreciativo, ser adotado também para eles o insulto de “faggot”destinado originalmente às velhas coletoras, bruxas ou não.

 

“Fagging”, nas escolas inglesas desde o século 17, significava a subserviência regular dos alunos mais jovens aos alunos mais velhos, embora sem que necessariamente isso envolvesse concreto teor sexual.

 

2.) O inglêsgay”, significando alegre, jovial, proveniente do francês medievalgai”, significando “o que inspira alegria”, este, por sua vez, possivelmente, originário do góticogaheis”, significando “impetuoso”, chega até nós ganhando, ao longo do tempo, e dos triunfos dos LGBTT* organizados, cores de orgulho, positivas, de franco elogio, para impor cada vez mais respeito frente à Sociedade e promover sua respeitosa inclusão nela.

 

3.) Quanto à nomenclatura “queer” esses fragmentos que seleciono de uma recentíssima matéria jornalística falam por mim, resumindo melhor do que eu o faria:


...” Enquanto a (exposição de Arte) Queermuseu é cancelada (pelo patrocinador, o Banco Santander) no Brasil (após violentos ataques capitaneados por um grupo político conservador com ares neonazistas fundamentalistas, visando as eleições de 2018), na Grã-Bretanha a galeria Tate Britain realiza até o dia 1º de outubro uma exposição dedicada exclusivamente à arte de teor “queer” do país. Intitulada Queer British Art, a mostra celebra cinco décadas de descriminalização parcial da homossexualidade masculina na Inglaterra. Ela reúne obras criadas entre 1861 e 1967, antes mesmo de o termo inglês “queer” passar a ser aplicado de forma generalizada não só para gays, mas para quaisquer indivíduos que não são heterossexuais ou cisgênero (que têm o sexo de acordo com o gênero). A Tate Britain afirma que, no período em que foram criadas, as obras expostas “ajudaram a forjar um senso de comunidade, quando as terminologias lésbica, gay, bissexual e trans não eram reconhecidas. Juntas elas mostram um marcante espectro de identidades e histórias, do lúdico ao político, e do erótico ao doméstico”. A galeria inglesa afirma que usou o termo “queer” no nome da mostra porque “embora tenhamos testado outros títulos, nenhuma outra opção captou completamente a diversidade de sexualidades e identidades de gênero que são representadas” e as sexualidades do passado “frequentemente não se conectam com as identidades sexuais modernas.”...


...” No artigo acadêmico “A Etimologia de Queer”, publicado em 2005 na revista acadêmica voltada à literatura inglesa American Notes and Queries, o professor de estudos medievais da Universidade de Cornell William Sayers relata usos antigos do termo “queer” no inglês e seus dialetos. Citando a definição do dicionário Oxford, uma referência em língua inglesa, ele afirma que a palavra denota em essência algo “estranho, peculiar, excêntrico em aparência e caráter”. “Também de caráter questionável, suspeito, dúbio.” Segundo Sayers, um dos primeiros registros do termo “queer” está no poema “The Flyting of Dunbar and Kennedy”, escrito por William Dunbar em dialeto escocês. Em um trecho, Dunbar descreve William Kennedy, seu opositor em uma espécie de disputa de poesias, sendo perseguido em Edimburgo por cachorros e meninos que o chamam pejorativamente de “queir”. Sayers também afirma que no dialeto irlandês medieval a palavra “cúar” tinha o sentido de algo encurvado ou torcido, sendo utilizada tanto para descrever características físicas humanas quanto topográficas, além de armas e ferramentas. “É possível especular que o termo tenha sido introduzido no inglês coloquial via marinheiros irlandeses empregados em navios ingleses, dados os vários usos específicos da navegação para ele”, diz o professor.”...




...“Segundo o dicionário Oxford, a partir do final do século 19 “queer” começou a ser utilizado também para se referir pejorativamente a homossexuais. “Quando utilizado por heterossexuais, ele era originalmente um termo agressivamente derrogatório”, diz o dicionário. De acordo com o mesmo dicionário, no final da década de 1980, parte da comunidade homossexual passou a adotar queer “em uma tentativa de, ao usar a palavra positivamente, desprovê-la de seu poder negativo”. Em um panfleto distribuído na parada gay de Nova York de 1990 intitulado “Queers, leiam isso”, uma entidade chamada Queer Nation explicou por que acreditava que a palavra deveria ser adotada por gays e lésbicas.”...


...“[O termo] ‘gay’ é ótimo. Ele tem seu lugar. Mas muitas lésbicas e homens gays acordam de manhã se sentindo enojadas, não gays [que também significa alegre em inglês]. Por isso escolhemos nos chamar de queer. Usar queer é uma forma de nos lembrarmos como somos percebidos pelo resto do mundo” : Trecho do panfleto ‘Queers leiam isso', publicado em 1990 pela Queer Nation”...
(“De onde vem o termo queer, tema de mostra cancelada em Porto Alegre “, por André Cabette Fábio, em 13 Set 2017, no NEXO JORNAL LTDA, na Internet)



4.) Em Portugal, “paneleiros” é a expressão para insulto mais conhecida; sim, vem de panelas, funis, e objetos do gênero. A opção que vai contra o tom de insulto, e em busca do tom de orgulho, é também “gay”.



 5.) Na França temos “PD” significando pederasta, ou “sale pd” , significando “pederasta sujo”. Também lá é utilizado o anglicismo “gay”com a mesma intenção adotada em todo o Planeta para ressaltar a recusa ao insulto, o tom positivo, o orgulho, a inclusão explícita na sociedade, a resposta ao Caldo Cultural Patriarcalista Patrimonialista.



Cornos



Ao falarmos da associação dos antigos significados de Lua/Divindades, tendemos a lembrar da “Deusa Tríplice” (por imitar as fases da lua), feminina, “mais recente” do nosso ponto de vista.

 

Mas os primeiros registros de escrita sobre Mitos vêm da Suméria, onde, além de Enlil, o Deus Supremo do Cosmos, há Nana, o Deus Lua, masculino, pai da heroína (rainha, poeta, sacerdotiza) Inana, mito que se mescla ao de Ishtar. Esses registros em tábuas de argila foram descobertos mais tarde, e são ainda pouco comentados, em comparação aos de outras culturas descobertas e traduzidos antes.



Apenas a título de curiosidade, lembro que as mitologias ancestrais japonesas xintoístas invertem os papéis, sendo a deusa feminina, Amaterasu, o Sol, e o deus masculino, Tsuki-yomi, a lua.


Assim, nos registros de imagens esculpidas, os reis-deuses sumérios portam adereços de cabeça em forma lunar, que reportam igualmente a galhos, ou a chifres que reproduzem a forma da lua.

 

O mesmo se reproduz em diversas culturas, que – se enumerarmos aqui – iremos nos alongar.



O adereço pelo qual costumamos identificar bravos e viris guerreiros vikings também porta chifres, como já absorvido até pelo imaginário popular.



A herança lunar é uma questão identificatória de paternidade igualmente “cantada em prosa e verso” por semelhantes e abundantes pesquisadores: seria a lua, e não a interferência masculina, que engravidaria as mulheres, crença que prevaleceu por um significativo período da história humana.



Mas com o passar do tempo, quanto mais se enraizou dentro de nós o Caldo Cultural Patriarcalista Patrimonialista, as coroas que identificavam reis e rainhas mudou de forma: a circular, que reporta ao sol, passou a ser a mais frequente.



Chamar um homem de 'corno', passou a significar que ele é um bobalhão traído, que deveria ter vergonha de sua condição de “ser passado para trás”, que certamente é pior na cama que o homem que venceu a disputa amorosa, que não é viril o suficiente, etc.

 

No Brasil essa tendência usa ora de crueldade, ora de humor para tocar o assunto.

 

A crueldade fica clara tanto no “crime de honra” na absolvição de matar a mulher traidora (e algumas vezes matar também o “outro”) , que era considerado legítimo até poucos anos atrás, e que ainda é perpretado nos inúmeros feminicídios que sabemos acontecer, embora a Lei não seja mais oficialmente cúmplice desse horror, quanto no achincalhe e descrédito público dos homens trocados por outras pessoas que se mantém frequente e intenso em qualquer esquina.

 

O humor aparece, por exemplo, em “movimentos organizados” em prol dos “cornos”, que não são para ser levados à sério como reunião de qualidade das Masculinidades, e que talvez sejam até contraproducentes nesse sentido: de real possibilidade e estímulo para que as Masculinidades se reúnam para refletir sobre suas características identitárias, suas questões, e – finalmente – se organizem.



O cancioneiro popular, a literatura popular, encenações populares também o tem como tema recorrente.

 

Outro hábito significativo é o de “fazer chifrinhos” com os dedos indicador e médio atrás da cabeça de alguém ao fazer fotografias, que é tido como “estragar a foto” do que ganhou os “chifres” de dedos.

 

Curiosamente, o mesmo gesto de dedos que numa foto significa “chifres”, se for feito por si, sem estar atrás da cabeça de alguém, significa popularmente “paz e amor”...

 

Já no Rock’nRoll, os dedos usados para significar que o som vai ser bom, pesado, animado, é feito com os dedos indicador e mindinho, significando os chifres do Diabo.

 

Uma saudação típica de surfistas usa os dedos polegar e mindinho. Chifres?... Posseidon ou Netuno portava um tridente! Seu criador teria esquecido de incluir um dedo?...

 

Um dedo que pretende insultar é o que chamamos de “dar um dedo”, usando o dedo médio para tal, querendo fazer referência, aliás, ao coito anal.




Finalizando


O prefixo “DI” de “Diabo” se refere a “dois”; estar dividido, sentir-se ambivalente, sem saber o que escolher, logo angustiado.
Hannah Arendt pontuava que ser humano é transitar inevitavelmente entre dualidades.

 

Complementa afirmando que o pêndulo capaz de permitir um equilíbrio mínimo diante dessa angustiante inevitabilidade é a Responsabilidade.

 

Vida x Morte, Amor x Ódio, Natureza x Cultura, Discurso x Prática, Narcisimo x Empatia, Guerra x Paz, e a lista não terminaria se eu insistisse na continuidade dela.



Não sou “Freudiana”, e nem conseguiria ser “Lacaniana”.
Mas é impossível pensar Psicanálise sem a mitologia da saga dos Lambdácios, a família de Édipo.

 

Não sou “Junguiana”, mas consideraria frívolo, tolo, negar as contribuições que ele trouxe, utilizando com frequência mitologias comparadas.

 

Prefiro Ferenczi (autor de “Thalasa”, por exemplo) e a Escola Inglesa (Ronald Fairbairn inicial e especialmente), por motivos que não vou ficar desenvolvendo aqui; estaria fora do contexto.
Felizmente tem feito parte dos responsáveis caminhos da Psicanálise a frequência cada vez maior do diálogo entre suas escolas.

 

Por isso uso, muito à vontade, um Junguiano para finalizar.


Edward Whitmont, em seu livro “O Retorno da Deusa”, pontua que uma de nossas recorrentes dualidades é transitar entre os deuses Apolo (a Luz, a Cultura, a Racionalidade, o Seco, o Reto, etc) e Dionísio (a Escuridão, a Natureza, o Delírio, o Molhado, a Sinuosidade, etc), ou entre seus significados, ao olharmos para a Vida, para o Mundo, para nós mesmos, para o Outro, etc.
Diz (tento resumir aqui em algumas linhas um livro inteiro) que isso ora nos limita, ora nos conflitua, logo nos empobrece e nos angustia.

 

Assim, propõe que lembremos de Ártemis e seus significados não só de antemão e por si mesmos plurais, tornando nosso próprio olhar de antemão e por si mesmo plural, acolhedor de pluralidades (empático, capaz de compaixão ou coo-paixão), flexibilizador, minimizador de encapsulamentos rígidos, mas sempre autônomo, logo colocando-a no lugar mitológico da Responsabilidade de Hannah Arendt, embora essa associação entre os dois autores e suas falas quem faça seja eu.



Por isso comecei o texto tomando Ártemis como primeira referência, mesmo que possa parecer, à primeira vista, um recurso antes poético que rigorosamente “acadêmico”.

 

Mas...quem RESPIRA a vida da Vida sem Poesia? Sem Arte?...    
Afinal, Freud já afirmava que “sempre que descobria algo que parecia novo, acabava verificando que algum Poeta já tinha se adiantado a ele”...

 

Espero que – acima de tudo – se divirtam dando continuidade ao que busquei levantar aqui.

 

SIM: Humor, Riso, também são Arte...

 

A proposta era falar do “trânsito”, responsável (ou não), ao longo do Tempo da História Humana, do uso de algumas nomenclaturas (e  seus significados) que têm relação com as Masculinidades e tudo que as rodeia.


Missão cumprida?...

 

Christina Montenegro é psicóloga e Supervisora em Psicologia Clínica / Bacharel em Artes Cênicas / Especialista em: Sociologia Política e Cultura, em Psicologia Clínica, e em Psicopedagogia. e-mail : montenegro.cristina@gmail.com

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2017


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