ANO 4 Edição 61 - OUTUBRO 2017 INÍCIO contactos

Bárbara Lia


A poesia de Bárbara Lia

O Capitão! Meu Capitão! Nossa temida viagem está acabada;
O navio superou toda sua dificuldade, a recompensa que nós buscávamos já foi alcançada.

Walt Whitman

 

Oh captain! My captain! Eu te queria vivo quando vencesses as ondas
Na areia rindo para o infinito - forte como o mastro e inebriado de sal

 

-

 

O roteirista das esferas teima em matar o herói para melhorar o filme
Oh capitain! My capitain! Num dia qualquer plantarei uma amendoeira
Para honrar-te (em delicadeza) e em cada primavera, uma vela acesa
Se hoje morto jaz cubro-o com um pano alvo, onde um pintor tecerá
As horas augustas, as batalhas justas, o riso sal e tua saga sem igual
Oh capitain! My capitain! Os grandes morrem na batalha. É certo que
Fixam seus rastros como uma fornalha (a marcar caminho aos seus)
E como tenho sido toda tua – Capitain! My capitain! - dos pés ao crânio
Mergulho em tua luz que me leva a ser - também – eterna água triunfal

 

 

Relva úmida de um sítio no interior
Curral pleno de feno. Uma amiga simplória
Seus rascantes conselhos, a frieza alemã:
— Fique do lado de cá do arame farpado!
Sem fala ululante, voz melosa ou louvações inócuas
O mundo é um pasto pleno de vacas perigosas
Mesmo que elas atirem sonsos olhares molhados
Ainda hoje eu sigo assim: lado de cá do arame farpado

 

***

                                   

A saudade é uma rosa empalhada
A contemplar-me por toda a vida

 

***

 

Na estepe do coração da mãe
Eu era o som da balalaica triste
                                        A doer feito punhalada       

 

***

 

Miss Pasárgada

 

No final do século 21
Você terá 21 sonhos
Virá vestindo cobalto
Com estes cabelos longos que amo
Mesmo rosto, mesma voz, mesmo olhar
Nas mãos uma flor amarela
Eu usarei um vestido da cor das romãs
Dançando ao vento de uma futura primavera
Em um mundo perfeito serei Miss Pasárgada
Reconhecerei teu sorriso – senha
Só poetas guerrilheiros sorriem assim
Então viveremos as 21 delícias
Aos 21 anos - ou menos -
No ocaso do século 21 quando será possível
Regar a bruta flor do querer
— É loucura agora?
Nem espero tua resposta, e grito:
— Amor, o fim do século não demora...

 

O amor costurou sua boca
O amor atou suas mãos
O amor cegou os seus olhos
O amor neutralizou os aromas
O amor tornou insípido o céu
O amor deitou-a na relva
E a inoculou com o silêncio
Em uma noite rasa no Ocidente
Após longas noites desorientadas
Ela soube - enfim -
Para dizer de amar
Toda palavra é nonsense

  

Dame el ocaso en una copa!
Emily Dickinson

 

Velhas estradas bifurcadas
Lentas aparições de fantoches
Nas alamedas do nada

 

 

Bárbara Lia nasceu em Assai (PR). Poeta e Escritora. Professora de História. Publicou os livros: O sorriso de Leonardo (Kafka edições baratas), O sal das rosas (Lumme), A última chuva (ME), Constelação de Ossos (Vidráguas), Paraísos de Pedra (Penalux), Solidão Calcinada (Imprensa Oficial do PR), Respirar (Ed. do autor), Forasteira (Vidráguas), entre outros. Integra várias Antologias, entre elas: O que é Poesia? (Confraria do Vento / Cáliban), O Melhor da Festa 3 (Festipoa), Amar - Verbo Atemporal (Rocco), Fantasma Civil (Bienal Internacional de Curitiba), A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua (Maputo).

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2017


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Colaboradores de Outubro de 2017:

Henrique Prior, Adrian’dos Delima, Alexandra Vieira de Almeida, Ana Maria Oliveira, Bárbara Lia, Bianca Madruga, Caio Junqueira Maciel, Carlos Barbarito, Cláudio Parreira, Cristina Piña ; Rolando Revagliatii, Denise Bottmann, Dinis H. G. Nunes, Flávia Fernanda Cunha, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jorge Silva Melo, Leonardo Bachiega, Lucas Perito, Manoel Freitas Reis, Maria Gomes, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Sandra Santos, trad.


Foto de capa:

POEMAS INFANTIS e CRIANÇAS VOANDO - Paula Rego


Paginação:

Nuno Baptista


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