ANO 4 Edição 61 - OUTUBRO 2017 INÍCIO contactos

Ana Maria Oliveira


Ensaio sobre «O livro da papoula», de Luísa Demétrio

1. A Poeta Luísa Demétrio

 

A poeta escreve “ para poder desaparecer no raiado do negro e líquido da tinta porque me é insuportável a solidão e todas as coisas sem alma…

 

Porque as leis do homem não são as do ser, são um cativeiro e a mulher que existe dentro de mim não é domesticável O verbo obedecer é um animal carnívoro e eu não. Sou comparável ao sangue indomável que percorre selvagem e fermenta as veias e os veios em absoluta liberdade, na mais profunda solidão” ( Excerto da Pag.18)

 

Demétrio arrasta consigo a exaustão e a ânsia contínua pelo fogo, o sexo, a essência que dá pulsar à terra. Acontece um dilaceramento proveniente do sentir da sua própria inutilidade no mundo pois a língua onde escreve dissolve até ao anonimato onde sangram os pensamentos como uma libertação. O coração está em fúria. Existem assimetrias temperamentais numa impetuosidade que sublima e uma bravura que conduz ao atrevimento.

 

A poeta mantém um coração indomesticável e bravio resultando a sua escrita como consequência de um eterno terramoto. Mantém a postura de um ser infinitamente insondável. Surge neste sentir uma afetação do sujeito e da sua identidade, que acaba por se fundir com os elementos da natureza. Nesta flutuação a autora intensifica a relação com a língua enquanto substância entranhada, para lá do seu papel simplesmente comunicativo ou representativo.

 

Demétrio mantém um sentir de estranheza em relação aos outros uma vez que estes implicam sempre um grau de ruído ou violação do transe, de acesso à criação poética.

 

Como ser humano inteligente e pulsional mantém a consciência dos limites da capacidade expressiva da linguagem. Num mundo em fúria, a sua existência impaciente está para além da geometria, onde há uma exploração primordial, em que a carne e as palavras são indissociáveis. Há em Demétrio um universalismo instintivo que não deixa de conter um retiro próprio, duma excentricidade que caminha paralelamente ao desenvolver de um mistério dotado de profundidade, mas conservando sempre um grau de provocação.

 

Demétrio provoca reminiscências de uma entidade intemporal e universal, uma sacerdotisa, guardiã da Terra. Visita inúmeras vezes a cidade antiga romana em ruínas, de Ammaia, servindo-lhe este ponto geográfico como vórtice de acesso a desdobramentos visionários onde a escrita se derrama como um fluir intemporal em plenitude, como se o presente fosse uma criação de memórias num vínculo inabalável onde o passado e futuro confluem. A cidade romana é para Demétrio uma passagem para o poema, o todo, uma força concomitante que leva ao êxtase enaltecendo a Terra e a liberdade. Denota-se uma ligação forte e harmoniosa com a natureza
visualizando fractais ou fraturas onde o ato de escrever, escorre em transe, em consumição intelectual desafiadora e simultaneamente sedutora que aponta para o acontecer como uno. Viaja pelo mundo criado pelos desdobramentos que se distendem da sua força e potência criativa originando textos intempestivos e delirantes criados através de espaços sexuais e transparecidos pela respiração da cor do sangue onde se exprime.

 

2 . O corpo em Demétrio

 

Na perspetiva de Luísa Demétrio, entre o corpo e a escrita não há fronteiras. O corpo permanece à deriva em delírio exprimindo-se com
entusiasmo e desejo, numa líbido energética que é lume, chama, explosão. A nudez sistemática do corpo coloca-o em contacto com os desdobramentos da existência mas de forma indomável e aparentemente em estado de loucura, como se mesmo permanecendo no mundo físico, a poeta abrangesse outros mundos invisíveis onde o proibido não existe. O corpo faz parte da intensidade da vida. Esta intensidade vivencial arrasa com os princípios, onde a razão não entra no jogo e não há limites nem obedece a regras.  Pertence aos rituais da Terra e ao cosmos.

 

Nada substitui o CAOS, a água demoníaca e fervorosa que é o sangue, o barulho da solidão (Pag 14)

 

Há uma eterna ligação sem moral,sem religião e sem pecado entre a
papoula como mulher e o órgão fálico. Os conceitos de vida origem e coito como manifestação da atração apontam para a ligação aos rituais de enaltecimento do sexo, provenientes da sabedoria ancestral dos povos primitivos.

 

A mulher torna-se poema no desbravar da escrita. Em Demétrio “a carne é uma só, um só devir”, onde o inferno, o caótico suporta e forma do poema.Há no corpo um sentir que é feito de inflamação, de cólera, um labirintoque se atravessa e onde os elementos do fogo e água ajudam a percorrer osobstáculos e servem de orientação através dos tempos e das memórias.

 

O sexo aparece como condutor de acesso ao infinito à imortalidade, onde a desordem da semente é um berço de lume instável O sexo é
simultaneamente vida e morte. É a arquitetura da prosa (Pág. 17) O orgasmo serve de ponte à eternização do momento de afeto, carregado de intensidade onde não há nem passado nem futuro, onde se morre e volta a nascer.

 

Existe uma analogia que a “posteriori” se transforma numa fração de tempo de papoula em genitais femininos. A papoula é delicada irregular aveludada e em estado selvagem tal como a mulher. A poesia biológica está presente enquanto a mulher arrasta consigo pedaços de sangue amargo e uma força de excitação e desordem divina.

 

A papoula aparece como a memória erógena aonde se anuncia oculta a intimidade em tudo o que se une além corpo, onde o “eu” e o outro acontecem, exaltando as carnes, como um templo, onde se ergue algo sagrado e sublime.

 

3 . O orgânico na poesia de Demétrio

 

O orgânico faz-se no registro do biológico, por entre desdobramentos. Podemos relacionar conceitos freudianos como por exemplo as pulsões, a libido, com outras áreas como a filosofia e as artes inclusive a poesia. Neste processamento a necessidade do outro está presente.

 

Em Demétrio quase se poderia destacar o desdobramento mulher- papoula, semelhante à metamorfose das borboletas com formas desdobradas mas distintas. Aparece-nos a pulsão da morte, como produção / criação, que funcionam como um arco que estabelece conexões com o caos num movimento perpétuo.

 

No processo de escrita orgânica a poeta aproxima-se das emanações do caos através de organizações fractais que fragmentam e resultam numa forma de imaginar o eterno. Para além da dimensão espaço-tempo, há as dimensões fractais que permanecem, acontecem e são captadas no “entre” denunciando mundos que a poeta capta, onde o fractal seria o rumo para a desordem, que será o dilapidar das formas com velocidade infinita. No caos tudo é anárquico e em vertiginoso movimento. A pulsão está ligada à linguagem, que seria uma confluência do sonho e da realidade. Haveria aqui um elo de ligação ao passado. Em Demétrio temos uma ligação forte à energia mãe e aos povos antigos. O afeto é um registo de deslocação, uma harmonia, pois produz alterações químicas do corpo. É apenas a captação de fragmentos num jogo de intensidades com possibilidades de criar, sempre em ligação com a natureza que detém o caos e acaso. Neste contexto a arte é criada por intensidades, ou seja ela provoca emoções e está ligada às cores, à música, à poesia. A barreira entre objeto e sujeito é derrubada, mesmo no meio científico. Em Demétrio a mulher acontec
como papoula, assumindo a divindade em que sujeito e objeto são apenas um. Não existem fronteiras. A linguagem habita os corpos que somos.

 

A produção poética, a materialização de um poema é fruto da visibilidade de turbilhões cósmicos até à expressão literária, às pulsões, a um tempo de devir, um pulsar do presente passado e futuro, um labirinto de fluxos, de ondas, frequências, amplitudes, pulsões, colocando-as em palavras. É um fluxo que penetra na linguagem.

 

A escrita de Demétrio expressa o ritual da repetição associado ao princípio do prazer e à vida. O sol, as nuvens, o campo de papoulas faz parte do seu prolongamento, da sua vibração como ser existencial. Os menires e os dolmens, vestígios dos povos primitivos que proliferam pelo Alentejo, são símbolos que exaltam o ventre feminino fecundo e o genital masculino símbolo da fertilidade. Bifurcações que Demétrio capta nos interstícios do sentir.

 

A sua poesia é de uma pureza que não é baseada em métodos mas sim num fluir. O poema orgânico não é resultado da preocupação com as rimas. É um lugar bravio e um incessante falecer, mas também uma celebração, metamorfose, um ciclo infindável entre a vida e a morte que intimamente continua incompleto. O escrever esmaga tudo, até ao obsessivo e ao infernal. A escrita orgânica como processo natural e primordial associado ao espontâneo, ao inconsciente, ao instinto, controla o espírito e o físico. É como um organismo vivo, com vontades próprias e uma natureza que é impossível ser controlada ou racionalizada. Os textos não têm rosto, apenas o poder de dar e tirar a luz. A escrita conduz ao abismo e a universos dissolvidos. É um grito da própria natureza rumo ao céu primordial. A escrita acontece como processo ardente onde se hasteia o desregramento e o excesso com uma grandiosidade esbatida na linguagem e no segredar sensorial orgânico num jogo de atração e repulsão que se acabam por permutar, erguendo um local de aparições.

 

Em Demétrio dançam as palavras e a ousadia onde se entrecruzam o nascimento a semente o cio, o desassossego, a respiração, o excitamento, o sexo faminto, o despir, e a ira.

 

Existe na escrita de Demétrio uma forte colisão contra as normas impostas pela sociedade preconceituosa e autómata.

 

Neste contexto a autora, como os demais poetas contemporâneos tende a afirmar-se e correr riscos de criar arte literária singular, porque a sua escrita em termos expressivos permanece além do seu tempo, daí que nem sempre seja compreendida.

 

Cada vez há menos lugar para os que pensam livremente. A literatura vive no marketing. Mas a verdade é que o pensamento tem de ser qualitativo e não quantitativo. A comunicação inopinada, a informação desregrada através da NET, neutraliza a criatividade. Os tempos de pobreza intelectual, em que uma imagem tem mais aceitação do que um texto, não são propícios aos poetas que necessitam partilhar o sentir. Mas a literatura pode ter influência na transformação das mentalidades. A arte tem um papel decisivo, na direção a tomar em termos de humanidade.

 

Felizmente o nosso tempo estimulou o aparecimento de várias mulheres escritoras, com uma sensibilidade feminina, exaltando o seu poder de mulher e mãe, impondo o seu parecer criativo sem atilhos nem preconceitos.

 

Nesta era que atravessamos, século vinte e um, não restam dúvidas de que as mulheres estão mais determinadas e imbuídas de uma força de rebeldia, assumindo a sua liberdade de expressão e insurgindo-se contra preconceitos, exercendo sem hesitações o seu poder. Elas reconhecem o seu valor e sentem cada vez mais a luz e a chama que permanece acesa dentro delas. Vem então neste contexto à superfície a exaltação, o louvor à elevação do eterno e glorioso feminino, onde a celebração da vida está presente. Demétrio é uma autora contemporânea cuja escrita denuncia algumas vezes a sociedade, anunciando de forma intempestiva e corajosa, uma dissociação com o presente. Uma autora que perceciona as injustiças, as incoerências do seu tempo e expressa-se num pensamento autónomo e crítico. Temos de nos distanciar das consciências feitas de marcas, limitadas e controladoras, se queremos ser livres e sem amarras, em termos de criatividade.

 

Ana Maria Rodrigues Oliveira nasceu a 17 de Fevereiro de 1960, em Portugal, no Alto Alentejo no distrito de Portalegre e concelho de Castelo de Vide. Em 1986 finalizou a licenciatura em Filosofia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas de Lisboa. Licenciatura que lhe permitiu dar aulas de filosofia durante alguns anos. Edita o seu primeiro livro de poesia em 2008 através da Corpos Editora “Grito de liberdade”. Este livro é uma forma de partilhar emoções e vivências, encarando a poesia como uma catarse. Dedica este livro a todas as mulheres, pela luta e determinação com que enfrentam as adversidades de uma sociedade que ainda manipula e escraviza. Faz uma edição de autor “Espírito Guerreiro”, o seu segundo livro de poesia, em 2014. Mantem alguns sites onde divulga a sua escrita. Ultimamente mantem-se ligada ao projeto “Filosofia para crianças”.
http://www.assinaturaeletromagnética.blogspot.com
https://devirquantico.blogspot.pt

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POEMAS INFANTIS e CRIANÇAS VOANDO - Paula Rego


Paginação:

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