ANO 4 Edição 61 - OUTUBRO 2017 INÍCIO contactos

Alexandra Vieira de Almeida


A sintaxe da cidade e da natureza em (In)visíveis cotidianos, de Carlos Orfeu

 

No livro “(in)visíveis cotidianos”, de Carlos Orfeu (Literacidade, 2017), encontramos as duplas faces da natureza e do urbano. Se, por um lado temos a desertificação da cidade (com sua violência e agressividade), podemos perceber uma densificação da natureza nas coisas, na linguagem. Utilizando uma poética dos objetos, que, como o poeta mesmo diz que “racionaliza-se”, Carlos Orfeu, ricamente, constrói uma sintaxe dos objetos e da natureza, uma “COISILÍNGUA” ou uma “NATURALÍNGUA”, revelando que as doses de animalidade são pertencentes a ambas as linguagens: “...sobre a sintaxe liquefeita do chuveiro”.

 

Ele constrói essa sua linguagem própria a partir não do choque entre real e signo, mas nos seus múltiplos entrelaçamentos: “...a cadeira é um signo/infinito de leituras/em sua anatomia dura”. A matéria da poesia não é feita, aqui, de sonhos, mas dos movimentos do real, aquele que se esconde nas malhas de sua visibilidade: “...no lado esquerdo da cena/o espelho/num passe de mágica/come a sala/a flor/o grito/o sonho’’. A palavra tem sua própria realidade que é feita de carnadura e de fantasmas, do visível e do invisível, aquilo que se depreende do encobrimento das formas, o que lhe cobre com seu manto de perversidade.

 

A (in) visibilidade é feita de sua poeticidade magistralmente elaborada, cobrindo as coisas, a natureza, a cidade, o homem de seus mistérios grávidos de linguagens inaugurais. Carlos Orfeu, belamente, recria o real pela linguagem imagética, com metáforas plenas, cheias, perfeitas a plenos pulmões: “...bailarina surrada é o jornal/no solavanco do vento.” A agressividade, a violência não é algo exclusivo do urbano, isso também se densifica na natureza, mostrando a unidade de tudo no seu canto universal. No verso “no focinho do fuzil” se vê o hibridismo entre o animal e o artificial. Não há trégua, refúgio. O temor e o tremor acorrentam o homem e a natureza.

 

O que nos une é o sentido que a poesia nos dá: “...entre nós o deserto se desfaz na desconstrução da ausência/grito que nos une”. O grito, essa elevação da voz artística, de revolta, de senso crítico preenche o deserto de uma plumagem verde de esperança. A cidade não é mais um cemitério de ossos, em Carlos Orfeu, eis a ultrapassagem. A poesia é um refúgio para os homens que podem caminhar de mãos dadas, embora a realidade apresentada pelo poeta seja um beco sem saída. Basta ao verso essa travessia, feita de pão e espírito.

 

Esse grito é caracterizado por versos curtos, sintéticos que desconstroem a sintaxe das florestas e das cidades, abarrotadas de signos, de informações. O verso mínimo potencializa o real naquilo que ele tem de essencial, tirando todo excesso dos sinais urbanos e dos tons agressivos da natureza. Na bela contracapa assinada por Flávio Castro, temos: “A sua poesia é enxuta: gestos mínimos grafitados na galáxia da página”. É intenso o jogo entre a visibilidade das palavras e a invisibilidade dos espaços brancos, prenhes de vazios, numa poesia que joga com a arte concreta.

 

Por outro lado, a linguagem da modernidade de Carlos Orfeu é revestida pela antiguidade do canto lírico; a sua poesia, rica em imagens originais, causa um estranhamento e, ao mesmo tempo, uma familiaridade com relação a tudo aquilo que vivenciamos. Como disse Goethe numa carta a Schiller: “O poeta é poeta por saturação da experiência”. Essa saturação daquilo que vivenciamos é, paradoxalmente, dirimida pelo minimalismo dos versos curtos de Orfeu que, apesar de sua enxutez, potencializa sentidos múltiplos em sua abertura, em sua experimentação.

 

A cidade é cadavérica, revela seu rosto de morte e assombro, o que lateja vida é a plenitude dos versos do poeta por ora aqui estudado: “...nada pode consolar o homem em tempos caóticos”. Não há saída, refúgio na violência do mundo, que pode ser salvo pela poesia de poetas como Carlos Orfeu. Essa crueldade, negatividade é muito bem explicitada numa das epígrafes do livro, da grande escritora Maria Helena Latini: “Às vezes a vida/ é um bife cru sobre a pia/Simetria de azulejos brancos/e uma faca suja de sangue.”

 

No belo prefácio de Airton Souza ao livro de Carlos Orfeu, temos: “É exatamente com essa maestria que Carlos Orfeu vem cerzindo, a cada poema, o cotidiano e seus invisíveis dilemas na pele dos homens diários”. Em Orfeu, a nudez das paredes do cotidiano, algo aberto, exposto em sua nudez, leva à impossibilidade do que não pode ser visto. O silêncio convive na sua frieza e mutabilidade: ...”nas paredes/em despudor de silêncio/a litania do invisível”. O que não pode ser dito em linguagem cotidiana é gritado nos mais raros versos desse poeta excepcional que sabe mostrar em meio ao mofo, à rachadura, a quebra do cotidiano, o segredo da epifania, do imóvel e do silencioso: “...no cio do limo/a sinfonia do mofo/lavra/o segredo/da/rachadura”. Esse silêncio, essa rachadura do invisível, do indizível e do silêncio da linguagem é a contraface do grito, que pode ser dito através da fragmentação da linguagem, em cortes abruptos dos versos, levando à liquefação da realidade que se consome em um torvelinho insano.

 

Tal riqueza na poesia de Carlos Orfeu revela que ele não é um poeta de um único tom, mas demonstra as múltiplas faces da realidade. Como um Proteu que se metamorfoseia em inúmeras formas, apresenta as verdades aos leitores preparados. Não a verdade engessada e absoluta, mas aquelas relativas ao dom de poetar, que é profecia, vidência, o olhar o invisível com olhos do cotidiano. No livro Além do visível: o olhar da literatura, Karl Erik Schollhammer escreveu: “O poder da palavra é identificado com o despertar da imagem mental durante a leitura, uma imagem essencial na dinâmica cognitiva que se nutre tanto dos recursos imaginários fornecidos pela experiência viva do leitor, quanto das imagens culturais acumuladas em sua formação com ser social”.

 

Carlos Orfeu potencializa, através de seus versos imagéticos, o poder da imagem mental, acionando a criatividade do leitor que preenche com a imaginação os interstícios cortantes dos seus versos que levam a um processo de esvaziamento e preenchimento a partir da palavra viva e dinâmica, próxima à pele da vivência, do cotidiano e da experiência. Numa anti-epifania das coisas, o poeta aqui em questão quebra com a maravilhosa imagem do noturno, símbolo da beleza dos poetas e do lírico.

 

A partir do viés cotidiano, Orfeu causa uma desestruturação: “...o verde balança/a noturna tristeza do quintal/o banzo blues/empluma/insone/num tanque/o satélite/minguante/cintila/diáfano/na/turva/água/do/dia/passa-/do.” Aqui, o poeta quebra o horizonte de expectativas do leitor. Em Orfeu, temos imagens naturais/urbanas dentro e fora da casa, revelando uma realidade em camadas como as cascas das cebolas. Ele, a partir da sutileza da linguagem lírica, descreve a agressividade da natureza, do fora: “...no canto da varanda/por onde formigas/brotam como fachos negros//e canibalizam o feto da chuva/na casca da cigarra morta”.

 

Alexei Bueno faz uma grandiosa análise da poesia brasileira no livro Uma história da poesia brasileira. Vejamos como ele interpreta um dos significados da poesia: “...onde, lançando mão desse material de banalíssimo uso diário, vulgarizado em todos os instantes da nossa vida, que é a palavra, algo se constrói que não nasce dela, apenas se utiliza, e a transcende largamente.” Aqui, para Carlos Orfeu, é o lado invisível da linguagem. A partir do cotidiano, ele o transcende a partir da palavra, tentando superar o caos e a violência como resistência.

 

Na experiência erótica, por exemplo, o poeta revela a profundidade da vida e da morte, o que é visível e invisível aos olhos: “...cama vazia//manhã/cinzenta//sem você/a cama/é um fosso//-frio-//o quarto/um homicídio por dentro.” A carnalidade não está apenas dentro e fora daquilo que nos circunda. Está dentro do corpo, nas entranhas do ser, que é feito de vida e de morte, de Eros e Thanatos. A morte por dentro é uma ausência que a chama não pode apagar. O fora, o quarto é o resquício desta presença que quer continuar na consciência dos amantes. Refletir sobre o prazer, eis o outro lado dos versos de Orfeu, suavizando a violência do mundo esquartejado e fragmentado pelo medo.

 

Portanto, nesse poeta que se apresenta com a faca certeira dos grandes poetas, não deixando nada a dever à poesia maior, ele mescla o sujo, o feio com o belo, o grotesco e o cru com o delicado. Com a aceleração do discurso poético, temos um poeta ágil que não deixa de ter a leveza do canto lírico que também é feito de perversidade e peso. Com cortes rápidos entre as palavras e versos curtos, essa agilidade demonstra a própria necessidade do real. Seja no meio urbano ou na natureza, Carlos Orfeu cria uma sintaxe própria numa poética inusitada e precisa como o corte da lâmina afiada. Nesse livro, o poeta, magnificamente, trabalha com a linguagem de forma original, moderna, mas ele não repele a antiguidade do tom lírico, sempre atualizado por poetas que sabem o que fazem. E, Carlos Orfeu realiza muito bem sua proeza em nos encantar com poemas de uma beleza rara e singular.

 

Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, ensaísta e resenhista.Tem Doutorado em Literatura Comparada (UERJ). Tem quarto livros de poesia publicados, sendo o mais recente Dormindo no verbo ( Penalux, 2016). Tem poemas traduzidos para vários idiomas e publica constantemente em jornais, revistas, antologias, e alternativos por todo Brasil e também no exterior.

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2017


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Henrique Prior, Adrian’dos Delima, Alexandra Vieira de Almeida, Ana Maria Oliveira, Bárbara Lia, Bianca Madruga, Caio Junqueira Maciel, Carlos Barbarito, Cláudio Parreira, Cristina Piña ; Rolando Revagliatii, Denise Bottmann, Dinis H. G. Nunes, Flávia Fernanda Cunha, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jorge Silva Melo, Leonardo Bachiega, Lucas Perito, Manoel Freitas Reis, Maria Gomes, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Sandra Santos, trad.


Foto de capa:

POEMAS INFANTIS e CRIANÇAS VOANDO - Paula Rego


Paginação:

Nuno Baptista


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