ANO 4 Edição 61 - OUTUBRO 2017 INÍCIO contactos

Adrian’dos Delima


Poemas

A DANÇA

 

Há uma poesia
de tal tamanho
querendo pôr
meu corpo
em movimento
que saio
sem rumo certo
por esta tarde
agradável de inverno
onde algumas folhas
balançam
orelhas ao vento

 

...

 

NO COLIBRI LANCHES, CERTA TARDE, RECENTEMENTE DESEMPREGADO

 

Me sinto bem no balcão
Bem à vontade nos banquinhos redondos de fórmica
Bem neste bar com cartazes pelo visto
De produtos que sumiram têm anos do mercado

 

Não adianta pedir hot-dog
Não entendem bulhufas
Mulheres não passam debaixo da porta
Passa uma
Que chama
Olhares tortos
Com o pão na boca
Operários com macacão azul
Pedem pão-com-mateiga
E taça-de-café-com-leite
Ouvem piadas
E sou tratado como freguês
Alguns penduram a conta
O homem tem cara de português
E eu sou o poeta da língua
Prazer      

 

...

 

 COISAS, COISAS

                  

coisas, COISAS que eu quero dizer e digo pra trás
Eu quero dizer coisas
que eu quero dizer e deixo pra trás, digo, fico
Eu quero dizer
São essas coisas que eu
não digo
quer dizer
ficam

 

...

 

O VOTO DE SILÊNCIO

 

Diz-se um discurso contemporâneo

 

O verdadeiro nadador
é aquele que cruza os braços
diante da água.
A estrela mais bela
ainda está por ser descoberta.
O grito
que vale a pena ser ouvido é o do mudo.

 

Incorre em erro
aquele que diz o que acha que sabe
porque a verdade está escondida
e em constante movimento.

Se você diz estas coisas você está por dentro

 

...

 

SUBURBE                             

 

A tarde tinha um ar grisalho ao terminar
Onde as lâmpadas mais altas
Acendiam cabeças
De vaga-lumes pálidos

 

Eram os pescoços desta cidade baixa
Que se esticavam nos postes
Talvez para ver além dos telhados
Presos que estavam na borda da calçada

 

Se pudessem se lançavam
Por cima do chapéu do morro                      
Para o céu estrelado que à noite
O teto das metrópoles usa

 

Para iluminar com os poetas
Os vultos que a lua projeta
Os vãos escuros entre os edifícios
E a sombra da miséria sob os viadutos

 

...

 

PHATO

 

Fato exposto (FRATura)
TRACtor feito feito TRACto
faTOR-faTURA

 

PRAto posto

 

R
uralmente
rURp

 

...

 

A necessária higiene

 

O de repente
pássaro
eu o olho pra cima
sair-se das copas
pra sumir acima do telhado
ao som de abertas
duas asas
quando abro o portão de casa
minhanossa vida se abre ao surpreendente

 

2.

 

Assim como
a de repente
balbúrdia pode chegar
deixemos ela passar
e parecer um simples flap

 

...

 

OS PEIXES

 

Tocando com os dedos no vidro,
Os peixes dentro do aquário
Se movimentam, seguindo-os.

 

Ao contrário, com peixes dentro,
A um toque invisível no monitor
Se movem os peixes do lado de fora.

 

...

 

No Y o hibisco
enquadrado ao lado
da minha janela de
moldura em madeira marrom

 

sustenta um ninho ou
o ninho requer a (antes)
barriga laranja que no – em cima pesa agora
da mãe sabiá para o sustentar?

 

Não sei. Só sei que
somente o ovinho dormindo
precisa de
fazer nada
além de nascer-se em hora de.

 

...

 

CANTIGA DOS MODOS NOVOS

 

Aquel a de mi mor ’miga,
Antes que as cousas mudaves,
A mi não àquel as siga
Em esta sazão das aves.

 

Antes não eu vos oulhasse
Trás d’as novas vãs vontades;
Mais fermosas são verdades;
D’a grã perda eu vos cobrasse.
Em uso de tais cruezas,
Iguais que as d’a pedra dura,
Augua a vista de tristezas
Vos ver em mal tam sem cura.

 

Se me deu contentamento
A fermosa vista pura,
Não das aves vãs no vento
Mas d’a vera fermosura.
Outrem querem outra cousa,
Em ela foge a ventura,   
I co’as aves da sazão
Que c’o tempo vêm-se e vão.

 

Faz-se imóbil quem mais ousa,
Não ousa quem busca o vão

 

(Donde vem melhor razão).

 

Adrian’dos Delima (Canoas, RS), pseudônimo para Adriano do Carmo Flores de Lima, é poeta, tradutor, teórico de poesia e compositor. Cursou Letras, habilitação Tradução na UFRGS, onde não se graduou em função de dificuldades econômicas. Na década de 1990 publicou poemas em antologias e  fanzines fotocopiados que editou com amigos, além de editar e publicar no jornal  “Falares”, dos estudantes de letras da UFRGS. Seguindo seus estudos como autodidata, posteriormente publicou em revistas de papel e online, como a Germina, a Babel Poética e a Sibila. Publica, sem muita regularidade, traduções e poemas próprios na sua página Rim&via (partidodoritmo.blogspot.com.br). É autor dos livros “Consubstantdjetivos ComUns (Vidráguas e Gente de Palavra, 2015)” , “Flâmula e outros poemas (Gente de Palavra, 2015)” e “Aqui fora o olholhante (Vidráguas, 2017).

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2017


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Colaboradores de Outubro de 2017:

Henrique Prior, Adrian’dos Delima, Alexandra Vieira de Almeida, Ana Maria Oliveira, Bárbara Lia, Bianca Madruga, Caio Junqueira Maciel, Carlos Barbarito, Cláudio Parreira, Cristina Piña ; Rolando Revagliatii, Denise Bottmann, Dinis H. G. Nunes, Flávia Fernanda Cunha, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jorge Silva Melo, Leonardo Bachiega, Lucas Perito, Manoel Freitas Reis, Maria Gomes, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Sandra Santos, trad.


Foto de capa:

POEMAS INFANTIS e CRIANÇAS VOANDO - Paula Rego


Paginação:

Nuno Baptista


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