ANO 4 Edição 61 - OUTUBRO 2017 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


Murilo Mendes e a História do Brasil

A obra literária de Murilo Mendes sempre me inquietou, assim como as begônias e os galos inquietavam o menino experimental de Juiz de Fora. Os pianos, as metamorfoses, um sabiá com certidão de idade, os seios de Jandira, tudo isso me atraía, e me empurrava para o sublime estado de bagunça transcendente, que é o mundo da poesia e da imaginação. Imaginem, então, o impacto que sofri quando me deparei com a própria História do Brasil vista sob a perspectiva da bagunça poética, da malandragem modernista! Em menino, tive um professor que gostava de inserir anacronismos em suas aulas de História: punha Cabral num chevrolet e as índias disputando o concurso de Miss Brasil. Bem mais tarde, ao ler a História do Brasil, de Murilo Mendes, senti que prosseguia em mim o mesmo estágio de meninice boquiaberta e lúdica. Foi uma farra descobrir que adultos faziam das suas, usando história e se lambuzando de poesia.


Nos tempos de faculdade, quando peguei pela primeira vez um volume com os poemas completos de Murilo, constatei que, nesse exemplar, não constava nenhum poema de História do Brasil, pois o poeta julgava essa coletânea como obra imatura, datada, forçosamente modernista ou modernosa, sem atingir os patamares mais líricos, espirituais, surrealistas e universais de seus outros textos. Mas eu já sabia que o pecado fora cometido: tinha notícia de um poema aqui, outro ali, que fazia parte da rejeitada obra publicada em 1932, contendo 60 poemas escritos desde a década de 20. Os poucos textos que li, dessa obra, não distanciavam muito dos poemas irreverentes da fase inicial do modernismo brasileiro. A impressão ficou, então, que o livro era mais oswaldiano do que muriliano. E me veio a sensação ruim de que o poeta abortava seus poemas já feitos, não reconhecia filhos bastardos, envergonhava-se de não ter sido sublime numa fase de sua poética, vejam só!


Somente no início dos anos 90, já como professor, que tive acesso  ao livro História do Brasil, com os poemas comentados por Luciana Stegagno Picchio, que, didaticamente, explicava o contexto histórico de cada peça poética. Foi o ouro sobre o azul ou o mel na sopa; foi o milho para o bode e vinho para o Baco. Teseu e eu adoramos um fio de Ariadne. Os elípticos versos de Murilo dialogavam com alguns momentos de nossa História de que não fazia a mínima idéia. Sou oriundo de uma triste época em que o estudo de História se limitava às citações de nomes e datas sem nenhuma interpretação e contextualização de fatos. Murilo fazia gato e sapato da História, fixava, em caricatura verbal, as figuras da família real, o alferes numa cadeira elétrica, Floriano Peixoto em forma de estátua recusando flores, o diabo de homem que não saía de uma igreja enquanto o exército brasileiro disparava tiros em Canudos...


Murilo Mendes reinventava a nossa História...e haja vento para tanta invenção! Cada leitor tem sua tara, sua obsessão, sua maneira singular de farejar um texto. Sou susceptível às ventanias. Por isso releio sempre Aníbal Machado; por isso viajo com Cecília Meireles, atravessando noites e dias no vento. Pois não é que Murilo reserva um lugar especial para o vento em sua histriônica História do Brasil? Logo no terceiro poema, “O farrista”, “deu um vento no anjo” e o país fica desguarnecido, sem anjo da guarda...Mais adiante, no quinto poema, Tupã manda “um golpe de vento” que vira a maloca para que o mítico Sumé possa se libertar das amarras, pois fora feito prisioneiro do próprio povo a que ensinou os rudimentos da agricultura. No poema sobre Anchieta, o vento vem avisar ao padre dos planos assassinos de um índio. Num episódio sobre a Revolução Pernambucana de 1817, a ventania se irrompe num quadro lúgubre em que cavalos arrastam os restos mortais dos revolucionários. Na “Elegia do dia 16”, o vento beija a formosa bandeira do navio que vai levando o Imperador destronado para o exílio. Aqui, Murilo retoma, em clave paródica, os célebres versos de Castro Alves: auriverde pendão de minha terra/ que a brisa do Brasil beija e balança... A paródia, aliás, é outro aspecto que torna a leitura de História do Brasil mais engraçada, lúdica e suculenta. Em vários poemas, o poeta dialoga com textos clássicos de Caminha, Gonçalves Dias, A Bíblia, os provérbios populares, as artes plásticas, configurando a proposta carnavalizadora da obra, justificando o postulado antropófago de Oswald de Andrade: “Fizemos foi carnaval”.


Mas a ventania ainda não cessou: ao ler o poema sobre a revolta da chibata, encontramos o chicote de João Cândido zunindo pelo vento, ameaçando o marechal Hermes da Fonseca. No fantástico episódio da Revolta do Juazeiro, São Jorge ajudará Padre Cícero, e os habitantes só sentem “um forte vento passar”. Também a figura de Lampião é associada ao zunir de um vento, que faz com que ele corra, gire, salte, pule, como o próprio pião, como as palavras de Murilo, sacudindo o leitor, propondo uma visão sincrônica da História, que é muito mais do que a imobilidade das estátuas grafitadas pelos pombos.

 

 

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2017


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Paginação:

Nuno Baptista


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