ANO 4 Edição 61 - OUTUBRO 2017 INÍCIO contactos

Cláudio Parreira


O despertar, e outros contos

Rolava na cama, sabia que era um sonho, mas rolava e rolava na cama. Em alguns momentos parava, encontrava a si mesmo no corpo de um estranho animal e então enchia-se de pavor. Logo em seguida repetia “é um sonho é um sonho” e relaxava, o sono tornando a fluir lento e macio. O sonho, contudo, envolvia-o novamente em suas garras e ele se via como um gato, um guarda-roupas, um abismo sustentado pela vertigem.

A noite correndo solta, projétil veloz em direção ao susto, e ele na cama, rolando, sonhando. Nunca antes sonhara com tal intensidade, tal realismo: sim, era ele o cavalo que subia escadas, reconhecia seus cascos cintilantes no mármore frio e o cheiro viril que se desprendia de seu pelo. Era também o anjo desgovernado em queda, o Expulso, o exilado dos céus. E era ainda a flecha em voo e o ar cortado pela flecha, o caos e a plenitude, o princípio e o fim, o macaco.

Era o macaco, ele sabia, e sabia também que as lendas atribuíam ao macaco a origem do homem. Não queria sonhar-se homem, sentir-se homem, completamente homem, e por isso ele, Centauro, despertou.

 

 

 

 

 

 

 

 

MAGNÍFICO ESPELHO DO MUNDO

 

Obstinadamente construída para abrigar em suas galerias e corredores todos os livros do mundo, a Grande Biblioteca se ergue como a mais completa de que se tem notícia. Por suas salas de leitura passam diariamente sábios filósofos e leigos de toda espécie, gente que vem pesquisar escrever ou discutir em línguas remotas pelo mero prazer da erudição. A estes somam-se ainda turistas ocasionais, loucos de toda sorte e a multidão de apaixonados pela Galáxia de Gutenberg. Todos afirmam que a Grande biblioteca é o Magnífico Espelho do Mundo. Ignoram, todavia, que a verdade da afirmação se dá pelo seu contrário: não há alteração no mundo que não tenha sido verificada antes na biblioteca, lugar onde brotam com a mesma força o progresso e o caos.

 

 

 

 

 

 

O PREÇO DA LIBERDADE

 

Assim que o despertador tocou, às 6:00, recebi a taxa de despertar. Logo depois do banho, veio a taxa de higiene pessoal. À mesa, minha esposa depositou a taxa do café da manhã logo ali, ao lado do pote de margarina. Minha filha pediu um beijo antes de ir para a escola.
— Hoje não dá — falei. — Já gastamos muito com beijos esta semana.
Como é natural, ela reclamou. A respectiva taxa chegou logo em seguida.
Meia hora depois, antes de subir para o escritório, paguei a taxa do elevador na agência bancária do edifício. A atendente, moça simpática, sorriu:
— A taxa do oxigênio precisa ser paga hoje...
— Tá bom. E o que mais?
— O senhor vai ao banheiro?
— Umas três vezes, acho.
— Três taxas então.
— Vou olhar pela janela também.
— O senhor está com sorte hoje. A taxa de observação paisagística está com desconto.
— De quanto?
— 0,3%. Mas só se o senhor pagar a taxa de desconto.
— Entendi. Eu preciso pagar a taxa de desconto para ter desconto.
— Isso. Mas agora o senhor vai precisar pagar a taxa pela informação que acabei de dar.
Paguei tudo. A moça continuou:
— Vai sorrir?
— Não. Acho que hoje não é um bom dia para sorrisos.
— Nesse caso, o senhor precisa pagar a taxa de cancelamento.
Eu paguei. E fui trabalhar. Às seis horas da tarde deixei o escritório, não sem antes colocar a taxa de fim de expediente no bolso do paletó. Em casa, durante o jornal, recebi um SMS com a taxa de informação inútil. Lá pelas 11:00 levei a esposa para a cama. Um fiscal bateu à porta do quarto:
— É só prazer ou tem fins reprodutivos?
Não respondemos. Mesmo assim, a taxa veio por baixo da porta.
Meia-noite, enfim, resolvi dormir. A taxa de descanso já estava sob o travesseiro.
— Gostaria de sonhar esta noite — falei. — Tem jeito?
Uma voz há muito conhecida se fez ouvir no quarto:
— Quantos sonhos você quer ter?
— Dois tá bom. Preciso economizar.
— Pague a taxa por cinco sonhos que você ganha isenção da taxa de despertar.
— Posso pensar?
— Contra ou a favor?
Ouvi o barulho de um teclado: o dono da voz calculava.
— Se pensar a favor, tem desconto de 0,2% nos sonhos.
— E se eu pensar contra?
— Vai ficar caro, muito caro.
Cancelei os sonhos — e uma incrível sensação de liberdade tomou conta de mim. Vou ser taxado por isso, é claro, mas acho que vale a pena.

 

 

 

O BILHETEIRO

Não foi sem surpresa que ele recebeu a notícia de que a primeira exposição em dez anos tinha sido aberta ao público.
— Viu isso? Exposição!
— Só falta liberarem os livros também — disse o outro. — Arte, essa merda. Em breve, toda a sociedade voltará a ser refém desses artistas degenerados.
O homem guardou o entusiasmo no bolso — mas, em sua memória, flashes rápidos — e prazerosos: quadros, música, livros, teatro. Não era ruim, totalmente ruim.
— Vamos ver?
O outro homem tremeu — de raiva.
— Tá maluco? Acha que vou gastar meu tempo, meu dinheiro, prestigiando esse bando de malucos? Governinho de merda, abrindo as pernas para a vontade desse povo burro e pidão.
— Pois eu vou! Faz tempo que não vejo um quadro. Será que ainda usam tela, tinta?
— Enfiam o dedo no cu e pintam com merda.
* * *
O homem estranhou: havia poucas pessoas diante da galeria, duas três quatro, desconfiadas, hesitantes. Tantos anos de privação causa medo — pensou.
Ao se aproximar da bilheteria, encontrou lá dentro o seu amigo.
— Você? Pensei que não gostasse de arte.
— Não gosto. Só estou aqui controlando o acesso.
O homem percebeu que as duas três quatro pessoas se afastaram ainda mais.
— Pois eu quero entrar. Qual é o preço do bilhete?
— Caro, muito caro. Você só entra se não puder ver.
— Isso não faz sentido!
— Não faz sentido o que está lá dentro. Quer mesmo entrar?
O outro afirmou com a cabeça.
— Vai ter que deixar seus olhos comigo. Esse é o preço do bilhete.
O homem hesitou por alguns instantes. Logo em seguida arrancou os dois olhos com as próprias mãos e os entregou ao bilheteiro.
 — Eu vou entrar — falou, determinado.
— Mas não vai ver — concluiu o bilheteiro, esmagando os olhos do outro sob o sapato. — Nunca mais.

 

 

 

 

 

 

 

 

COLISEU

Um guarda-sol vermelho e branco já o aguardava no momento em que desceu do carro. Calor da porra, sabe como é.
— Sente-se ali, senhor — falou o escravo. — É o melhor lugar para assistir.
O homem se sentou, a cara amarrada.
— Vai demorar?
— Só estávamos aguardando a sua chegada.
Ao seu redor o povo zurrava como se estivesse no Coliseu.
O primeiro escritor, vivo e nu, foi jogado à sua frente. Nenhuma expressão no seu olhar, nenhuma palavra. Outro se juntou a ele logo em seguida. Cinco minutos mais tarde dezenas de escritores empilhados aguardavam o destino.
— Não tô vendo graça nisso — falou o homem. — E traz mais gelo pro meu uísque.
— Vou providenciar — falou o escravo.
A pilha de escritores, vivos, era apenas um amontoado de braços pernas cabeças. Nenhuma palavra, nenhum protesto. Gado pronto para o abate.
— Aqui está o gelo, senhor — disse o escravo. — E também os fósforos.
— Eu mesmo tenho que fazer isso? Te pago pra quê?
O escravo se dirigiu à multidão:
— Mais entusiasmo!
Os gritos dobraram de intensidade.
O escravo, satisfeito, afrouxou a gravata, tirou o paletó e arregaçou as mangas da camisa.
— Anda logo, cuzão! — ordenou o homem.
— Gasolina! — gritou o escravo; dezenas de escravos menores entraram em cena e encharcaram a pilha de escritores, vivos e nus.
— Quando o senhor mandar.
O homem tomou um gole de uísque e balançou a cabeça; no mesmo instante o escravo riscou um palito de fósforo e jogou sobre a pilha.
Nenhuma palavra, nenhum protesto por parte dos escritores — não adiantaria. Ao ver as chamas altas, o homem se levantou por um instante. Exibia uma ereção fenomenal.
— Que tipo de arte é essa? — perguntou.
— Cremação — falou o escravo, também ele de pau duro.
O homem voltou a se sentar, a cara amarrada outra vez.
— Não foi do seu agrado, senhor?
— Arte sublime. Mas incompleta: de que adianta queimar os escritores se os livros ainda estão por aí?
O escravo se desculpou mil vezes: não vai acontecer de novo, seremos mais atentos, o senhor tem toda a razão — e tomou o guarda-sol nas mãos e conduziu o homem de volta ao seu carro.
Ao redor, o povo ainda zurrava como se estivesse no Coliseu.

 

 

Claudio Parreira é escritor. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, entre outras publicações. É autor do romance Gabriel e também da coletânea de contos Delirium.
Vai lançar, em breve, o romance sem noção A Lua é um Grande Queijo Suspenso no Céu, pela Editora Penalux.

Facebook: https://www.facebook.com/claudioparreiraescritor

 

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Colaboradores de Outubro de 2017:

Henrique Prior, Adrian’dos Delima, Alexandra Vieira de Almeida, Ana Maria Oliveira, Bárbara Lia, Bianca Madruga, Caio Junqueira Maciel, Carlos Barbarito, Cláudio Parreira, Cristina Piña ; Rolando Revagliatii, Denise Bottmann, Dinis H. G. Nunes, Flávia Fernanda Cunha, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jorge Silva Melo, Leonardo Bachiega, Lucas Perito, Manoel Freitas Reis, Maria Gomes, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Sandra Santos, trad.


Foto de capa:

POEMAS INFANTIS e CRIANÇAS VOANDO - Paula Rego


Paginação:

Nuno Baptista


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