ANO 4 Edição 61 - OUTUBRO 2017 INÍCIO contactos

Denise Bottmann


Primavera das neves

Primavera das Neves – ou Vera [das] Neves Pedroso ou simplesmente Vera Pedroso – foi uma tradutora de produção bastante significativa no Brasil, com cerca de oitenta obras de tradução, entre 1963 e 1979.
Eis um breve apanhado biográfico:


          Primavera Ácrata Saiz das Neves nasceu em 08 de março de 1933 em Pedrógão Grande, no distrito de Leiria, em Portugal. Era filha da sufragista espanhola Maria Jesusa Saiz y Dias e do anarquista português Roberto Barreto Pedroso Neves (Roberto das Neves). Em 1942, escapando ao regime salazarista, a família se muda para o Rio de Janeiro, onde Roberto das Neves cria a Editora Germinal.


Crescendo no Rio de Janeiro, em 1955 Primavera se forma em Línguas Anglo-Germânicas e começa a trabalhar no setor editorial.


Aos 26 anos, indo passar algum tempo em Portugal, conhece o militar português Manuel Pedroso Marques, com quem se casa pouco tempo depois. Casada, permanece em Portugal com o marido. Em 1960, o casal tem uma filha, Maria Alexandra. Em 1961, o capitão Manuel Pedroso Marques, seu marido, está entre os treze militares que tentam derrubar a ditadura salazarista, na Revolta de Beja. Malogrado o ataque ao quartel de Beja, Manuel Pedroso Marques busca asilo com a família na embaixada brasileira em Lisboa, onde permanece durante um ano e meio. Em 1962, Primavera chega a embarcar num navio com destino ao Brasil, mas a PIDE, a polícia política salazarista, impede-a de partir. Somente em junho de 1963 consegue Primavera desembarcar no Brasil, trazendo a filha.


Antes de partir para Portugal, como dissemos, Primavera das Neves já se envolvera em atividades editoriais e jornalísticas. Sendo seu pai um editor, sendo ela poliglota, nada mais natural do que retornar ao setor. É quando começa a se dedicar a traduções, e a primeira delas é feita já no ano de sua volta ao Brasil, para a Bruguera: uma adaptação ilustrada de Viagem ao centro da terra, de Júlio Verne, em 1963.


Nesses primeiros tempos de seu retorno ao Brasil, Primavera traduz algumas obras esporádicas para outras editoras: a Germinal (de seu pai Roberto das Neves), a Lidador e a Fundo de Cultura. Entre essas obras, destaca-se Mistério e solidão, a vida e a obra de Emily Dickinson, de Thomas H. Johnson, em 1965. Nessa alentada obra, Primavera verte nada menos que 220 poemas de Emily Dickinson.

Com tal empreitada, ela se torna a principal tradutora — embora pouco reconhecida e raramente citada — da poetisa americana no Brasil por quase cinquenta anos, vindo sua dickinsoniana a ser superada apenas em data recente.


Entre 1966 e 1967, Primavera passa a colaborar no projeto da Delta Larousse, a cargo de Antônio Houaiss, como uma dentre os vários tradutores incumbidos de traduzir verbetes para a enciclopédia.
A partir de 1968, Primavera das Neves volta a se dedicar à tradução de livros, de maneira mais sistemática, concentrando-se em trabalhos para a editora Expressão e Cultura. O editor da Expressão e Cultura era o lusitano radicado no Brasil Fernando de Castro Ferro, aliás também tradutor. A essas alturas, o marido de Primavera, já estando em seu exílio no Brasil, trabalha por dois ou três anos com Fernando Ferro, vindo depois a assumir o cargo de editor após a saída de Ferro. Primavera passa a assinar suas traduções com a forma reduzida de seu primeiro nome e o sobrenome de casada: Vera Pedroso (às vezes também Vera das Neves Pedroso). Aliás, é nesse período e a ela que se deve a iniciativa de introduzir a obra de Adolfo Bioy Casares no Brasil, com o Diário da Guerra do Porco em 1972 e A máquina fantástica (título adotado para La invención de Morel) em 1974. Pelos livros traduzidos por Primavera na Expressão e Cultura de 1968 a 1974, tem-se um perfil de bastante coerência na qualidade das obras traduzidas, sejam historiográficas (Leslie Bethell e o William Styron de Nat Turner) ou literárias (Lawrence Durrell, Bioy Casares, Nabokov etc.).


Em 1974, com a Revolução dos Cravos, o marido de Vera / Primavera, “tendo algumas contas a acertar com o regime”, decide voltar a Portugal, ao passo que a esposa prefere permanecer com a filha no Brasil, e assim sobrevém a separação do casal.


A partir dessa mesma época, Primavera reduz drasticamente a frequência de suas traduções para a Expressão e Cultura, faz alguns trabalhos esparsos para a Civilização Brasileira e a Nova Fronteira, e dedica-se sobretudo a traduções para a editora Record.Nesta casa, a obras de inegável qualidade somam-se vários best-sellers e títulos de qualidade duvidosa. O ritmo de produção de Primavera aumenta expressivamente a partir de 1975-76 e assim se mantém até 1979.
Em 1980, Primavera Ácrata Saiz das Neves Pedroso morre no Rio de Janeiro, aos 47 anos de idade.

Fica aqui um pungente poema seu:

Planta no escuro

Planta que nasces do meu eu em mais puro
e vais crescendo sob o sol do escuro,
dentro de mim:
Alheia estás ao vômito de sangue,
ao olhar moribundo,
ao cheiro de laquê
e à voz do mundo
que se ouve na tevê.
Alheia estás, mas não estás tão alheia,
que não te sintas como numa teia
tolhida de florir, pasto de aranhas.

 

Outros dados biográficos e bibliográficos se encontram em meu artigo De Primavera das Neves a Vera Pedroso: um perfil, https://goo.gl/fjH39G.


Sua delicada figura foi protagonista de um excelente documentário realizado pelo cineasta gaúcho Jorge Furtado, Quem é Primavera das Neves, de 2017.

Denise Bottmann nasceu em Curitiba em 1954Formada em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR,1981). Mestre em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 1985). Doutorado inconcluso em Filosofia (UNICAMP). Tem experiência na área de docência e pesquisa em História e Epistemologia das Ciências Humanas. Atua na área de tradução de obras de literatura e humanidades desde 1984. Atualmente dedica-se a atividades de tradução e pesquisas sobre a história da tradução no Brasil. 

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Revista InComunidade, Edição de Outubro de 2017


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Colaboradores de Outubro de 2017:

Henrique Prior, Adrian’dos Delima, Alexandra Vieira de Almeida, Ana Maria Oliveira, Bárbara Lia, Bianca Madruga, Caio Junqueira Maciel, Carlos Barbarito, Cláudio Parreira, Cristina Piña ; Rolando Revagliatii, Denise Bottmann, Dinis H. G. Nunes, Flávia Fernanda Cunha, Henrique Dória, Hermínio Prates, Jorge Silva Melo, Leonardo Bachiega, Lucas Perito, Manoel Freitas Reis, Maria Gomes, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Sandra Santos, trad.


Foto de capa:

POEMAS INFANTIS e CRIANÇAS VOANDO - Paula Rego


Paginação:

Nuno Baptista


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