ANO 4 Edição 60 - SETEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Alexandre Brandão


O violão da mamãe

Minha mãe contava que nosso violão de muito tempo fora não uma compra, mas uma conquista. Quando meu avô estava na loja, a ponto de fechar o negócio, ninguém mais, ninguém menos que Silvio Caldas entrou, pediu para experimentar o instrumento, mostrou-se bastante interessado nele e disposto a recompensar financeiramente o seu quase dono. Meu avô aproveitou-se do inesperado atestado de qualidade dado à mercadoria, desculpou-se com Silvio Caldas e caiu fora feliz com a aquisição.


Não sei se por piedade ou por gosto, Silvio Caldas — o Caboclinho Querido — era o cantor preferido de minha mãe. Na verdade, o sucesso dele, num mundo em que havia um Orlando Silva e um Francisco Alves, não estava baseado apenas no fato de cantar músicas românticas. O cara era bom. Não por acaso, como afirma Cravo Albin, Custódio Mesquita e Ary Barroso faziam questão de que seus lançamentos ganhassem a voz do sujeito que vovô venceu numa contenda comercial.

Além do mais, o que seria suficiente para torná-lo um dos grandes, Silvio Caldas é coautor de “Chão de estrelas”1, música que, na avaliação de Manuel Bandeira, teria o verso mais bonito da música brasileira: “tu pisavas nos astros, distraída”.
Com todo respeito ao grande músico, tomo uma expressão atual e informal e digo: perdeu, Silvio Caldas! O violão foi parar no Leme, à beira-mar, e, depois, mudou-se para o interior de Minas Gerais, onde foi intensa a vida social ao seu redor, com destaque para a época dos amigos de meus irmãos. A turma era formada por adolescentes que cantavam, a pleno pulmão, aquelas músicas italianas chorosas dos anos de 1960, mas também, na linha de João Gilberto — de forma contida —, a bossa-nova de Tom e os compositores que mudariam de vez a música brasileira: Chico, Caetano, Gil, Milton, Edu, Jorge Bem e mais alguns. A segunda maior glória (houve o Silvio Caldas, não se pode nem se consegue esquecer isso) daquele violão foi ter sido tocado pelo Eustáquio Grilo. Não me lembro em que ano estávamos, mas Eustáquio já era um grande músico, embora ainda não fosse, creio, catedrático e estivesse longe de ser reconhecido a tal ponto de ter um concurso de violão com seu nome. Bem, pouco importa, o fato é que eu, um moleque, sentei-me no chão da sala da casa de meus pais e ouvi o Grilo fazer soar lindamente — e apesar das cordas velhas — o instrumento que não passava de mero coadjuvante da rapaziada que queria mesmo soltar a voz.


Um dia o violão saiu de casa para fazer uma serenata. Todos sabem, violão não anda sozinho, logo alguém o levou na base do empréstimo, mas quem? Não esteve na casa de fulano, não passou pelas mãos de sicrano, enfim, como certa vez veio a cantar Paulinho da Viola, o violão (mítico) foi pro fundo do baú. De qual baú é que o busílis. Não escrevo uma crônica policial, portanto, fiquemos apenas com o fato de que um dia o seis cordas tão disputado sumiu na noite de Minas. Tampouco escrevo uma crônica de futrica ou de especulação, o que não me impede de ver, sentado num camarim, à espera do show que está por começar, o velho Silvio Caldas receber a notícia do destino do instrumento que certo dia um gerentezinho de banco recusou-se a ceder-lhe. Ele ergue os olhos, pega o violão — detalhe: o acaricia —, e então entoa uma de suas composições, “Voltaste” 2, sucesso esquecido dos anos de 1950. O cantor que valoriza as palavras, como era chamado, faz valer este apelido, particularmente quando chega aos versos: “Voltaste, / teu passado pouco importa / vens bater a minha porta / que a ti nunca se fechou. Voltaste, / vens viver vida decente / vais mostrar a toda gente / nossa briga terminou.”

 

Notas

1 Para ouvir a música, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=oiQ-Kiemrl8.

2 Para ouvir a música, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=yojRDz-r-ek.

 

 

Alexandre Brandão, contista e cronista brasileiro, é autor de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio), entre outros. Mantém o blog No Osso (noosso.blogspot.com.br).

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Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2017


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