ANO 4 Edição 60 - SETEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Beatriz Regina Guimarães Barboza


Poemas escolhidos

as areias: o deserto é um oceano de provação telúrica

 

se não há ondas contra as quais  expormos o peito, Xerxes, as dunas testam a força das panturrilhas e provam das coxas que nos servem mas não nos pertencem, pois é delas que fazemos nossas oferenda

 

1

 

se seu corpo é de areia
é para que você possa
se desfazer e assumir
forma em um outro lugar

 

lá adiante o vento levanta
um outro som mais outra sílaba

 

2

 

só há sentido se o sol guia
como falanges que deslizam
pelas encostas arenosas
de séculos sobre costelas

 

aqui se quebra aquele ritmo
nas quedas constitutivas

 

3

 

os vasos não foram feitos
para serem restaurados
seus cacos então nos servem
para cavar outros sulcos

 

de onde tomar a argila
anterior ao denso vórtice
essa ferida incurável
das falsas oposições

 

refazendo-se às origens
onde a dor fendeu o profundo
reverberando em inúmeras
convergências repetitivas

 

4

 

forjando no que se tem
busca-se a mesma substância 
para outra forma e movimento

 

nem todos os olhos curados
transformam a sua perspectiva
quando voltam a enxergar

 

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as hélices

 

tu te lembras das
asas em hélice
que rodopiavas
naquele teu sonho
de três anos atrás?

 

ainda hoje segues
insuflando ideias
sobre outros mundos
enquanto dormes
de olhos abertos

 

e tu vais
nadando nos 
veios acima

 

das continentais
continuidades

 

colhes o quartzo
que vislumbra
outros pares

 

hoje esquecidos
no céu nublado
dos corpos presos
entre vapores

 

tu te lembras 
do sonho que gira?
da espiral nascida
que do solo ascende?

tu te lembras
que é tua escolha?

 

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teus mortos

 

eu te visto com esqueletos
feito uma mórbida armadura 
para que quando te libertares
tu expulses os teus mortos

 

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as águas-marinhas

 

aquilo que você chama de naufrágio
afirmo como renascimento no oculto
de onde trago brutas águas-marinhas
para burilarmos ao longo da vida

 

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as ondas

 

a alma votada ao mar
não conhece o narcisismo
das superfícies espelhadas

 

caminha pela areia,
temerosa de ser derrubada
pelas ondas da maré que sobe,

 

e sabe que no esquecimento
da lua a recolhê-la
a areia cobrirá os seus pés

 

novamente obrigando seu
retorno à água e
seus mergulhos seculares

 

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o órix

 

pois foi em alfama que conheci
o rapaz da camisola verde
ele me disse que cortada a raiz
todo o resto é andança e fado

 

abandona os adornos de laranjeira,
órix, e aprende a sabê-las como são
nas ruas a reconhecer os cheiros
y al fin andar sin pensamientos

 

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o cisne

 

entre ar e água
uma existência de cisne

 

pois embora me agarre
ao recorte da janela
e às falhas na calçada
não deito raízes nelas

 

qual axolotl disforme
no máximo
tenho tentáculos
de petróleo

 

incendiados pelo sol
tudo se consome
exigindo nossa
reassunção

 

 

Beatriz Regina Guimarães Barboza (Campinas, 1994) é mestranda em Estudos da Tradução na UFSC e Bacharela em Estudos Literários na UNICAMP, atua como revisora, tradutora e escritora de poesia ("Quartos Esvaziados", 2015, ed. Urutau; "Entre rios", 2017, ed. Kazuá; "sentido insular", no prelo, ed. Urutau) e contos. É uma das editoras da revista Arcana e do projeto Pontes Outras. Atualmente, está a traduzir Anne Sexton (inglês), e, em parceria, Maria-Mercè Marçal (catalão) e Francisca Aguirre (castelhano).

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Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2017


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Colaboradores de Setembro de 2017:

Henrique Prior, Alexandre Brandão, Beatriz Regina Guimarães Barboza, Bruna Mitrano, C. Leonardo B. Antunes, Caio Junqueira Maciel, Carlos Barbarito, Carlos Vale Ferraz ; Carlos Matos Gomes, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Danyel Guerra, Deisi Scherer Beier, Denise Bottmann, Eduardo Rennó, Eliana Mora, Flávia Fernanda Cunha, Helena Mendes Pereira, Hermínio Prates, Jorge Silva Melo, José Hierro ; Sandra Santos, trad., Juliana Meira, Katyuscia Carvalho, Luís Pedroso, Luísa Demétrio Raposo, Lyslei Nascimento, M. de Almeida e Sousa, Maria Toscano, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Nilo da Silva Lima, Ricardo Ramos Filho, Thiago Scarlata, Vinícius Lima


Foto de capa:

EDWARD HOPPER - Noite de Verão (Summer Evening), 1947. Óleo sobre tela, 76,2 x 106,7 cm. Washington, DC, Coleção Particular


Paginação:

Nuno Baptista


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