ANO 4 Edição 60 - SETEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


A sensualidade na poesia de Vinícius de Moraes

Ao celebrarmos o centenário do poeta Vinícius de Moraes (1913-1980), ficamos diante de uma encruzilhada de caminhos que sua vasta e plural obra nos incita, pois que nela há teatro, há música, há cinema, há crônica e muita, mas muita poesia. Nesta seara, outros caminhos se bifurcam, entre eles, a poesia infantil, a poesia destinada aos amigos, a poesia de circunstância e, sobretudo, a poesia erótica, a poesia sensual. Mesmo em temas distantes dessa temática, é possível perceber, na jogada das palavras, uma armação que beira à sensualidade, como o drible de Garrincha:


O anjo das pernas tortas


A Flávio Porto

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.



Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés - um pé-de-vento!



Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.



Garrincha, o anjo, escuta e atende: - Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. É pura dança!
(MORAES, V. Livro de sonetos. S.P.: Companhia das Letras, 1991, p.127)


Dança e orgasmo, eis como o poeta interpreta o gol, feito por um jogador que, tirante a metáfora do poeta, pouco tinha de anjo, era mais uma figura dionisíaca, dada à bebida, dada à mulher, aliás, como Vinícius de Moraes... Mário de Andrade foi certeiro ao apontar que “poderosa sensualidade domina toda a poesia” de Vinícius de Moraes.  Poeta solar por excelência, Vinícius também recorre à lua para construir imagens eróticas, como neste trecho do “Soneto de maio”:


Até a lua, a casta e branca lua
Esquecido o pudor, baixa o dossel
E em seu leito de plumas fica nua
A destilar seu luminoso mel.


(LS, p.139)


A nudez da lua, a nudez dos anjos, a nudez da mulher, a virilidade do sol, as femininas e vorazes ondas do mar afagando e afogando o poeta são imagens recorrentes ao longo de sua obra. Seios que tremem, bocas úmidas e entreabertas,  carne fremente de corpos adolescentes, palpitações desordenadas de luxúria, toda esse repertório erótico convive numa tensão em que de um lado há Cristo e de outro Epicuro, principalmente na parte inicial da obra do poeta (anos 30), sintetizado no poema “A volta da mulher morena”, onde se vê uma tentativa de castração da sensualidade: ali se pede para cegar os olhos da mulher morena, cortar seus lábios e os peitos... É como se o poeta tivesse medo da luxúria que o envolvia, ou, em suas palavras, “horror e volúpia que vinha crescendo em minhas pernas” (PC, p.119).
É com o “soneto de intimidade”, de 1937, que começamos a ver um Vinícius mais nítido, irmanado aos bichos e desfrutando o rubro de uma amora:

 


Soneto de intimidade (PC, p.136)
Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.



Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.



Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve



Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.
O espaço bucólico se oferece na visão opulenta de azul, o paladar, o tato e olfato se reunem em festa sensorial e natural. A mijada, mais do que urina, com a palavra forte e o jorro forte, é bem uma metáfora da poesia que é fluxo e incontido ímpeto, associando-se a tantas outras imagens líquidas em sua obra, como o mar, o sangue, o mênstruo, o leite. O suor das mulheres que andam de bicicletas, qual “centauresas transpiradas” assinala um dos melhores instantes da sensualidade da poesia viniciana, mormente no trecho: “Bem haja a vossa saúde/ à humanidade inquieta/ vós cuja ardente virtude/ preservais muito amiúde/ com um selim de bicicleta. (PC, p.21)


Vinicius consegue ser terno e violento, recorre à tendresse canibale de que fala um crítico, imagina possuir a mulher do mágico enquanto o marido extasia o público com seus ilusionismos (PC, p.138). Numa “Balada feroz”, imagina “touros selvagens carregando nos chifres virgens nuas para o estupro nas montanhas” (PC, p.138). Não poucas vezes associa a Bíblia com elementos profanos, pois, para ele, “seios crescem para o poente como salmos” (PC, p.143). Desespera-se, como Baudelaire, pela mulher que passa: “Meu Deus, eu quero, quero depressa/ a minha amada mulher que passa” (PC, p.143). A mulher pode até ser “uma cadela talvez/ mas na moldura de uma cama/ nunca mulher nenhuma foi tão bela”, como lemos no “Soneto de devoção (PC, p.156) sobre a mulher que é capaz de balbuciar “versos, votos de amor e nomes feios”. O poeta é até capaz de deixar de ser sutil e ataca de forma naturalista na “Balada para Maria” PC, p.156), onde pressente coito de micos e deseja fecundar a amada deitada num chão de frutas maduras, fingindo-se de orangotango. Como assim, um poeta-gorila? Mas ele explica em “Elegia ao primeiro amigo” (PC, p.175) que ele é delicado, “preciso ser delicado/ porque dentro de mim mora/ um ser feroz e fratricida// (...) Não existe ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza,/ sou um mártir da delicadeza/ sou um monstro de delicadeza.”


É interessante essa cena da cópula entre frutas. O poeta desfruta o corpo feminino, para quem, inclusive, chegou a tecer um receituário. No poema “Rosário” (PC, p.209), em que narra sua experiência sexual com uma prostituta, associa o corpo feminino à fruta e cana: “...que cica os cajus! Travavam!/(...) toquei-lhe a dura pevide/ entre o pêlo que a guardava/ beijando-lhe a coxa fria/ com gosto de cana brava/ senti à pressão do dedo/ desfazer-se desmanchada/ como um dedal de segredo/ a pequena castanha/ gulosa de ser tocada.” Afrodite ou apetite? Poeta de cama e mesa, Vinicius de Moraes não só reverenciou a beleza, mas, com certeza, também pôs o lirismo à mesa. Os prosaicamente épicos que me perdoem, mas lirismo é fundamental. Os vegetarianos também que me perdoem, mas a carne é fundamental. Vinícius, a propósito, escreveu:


Não comerei da alface a verde pétala


Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem mais aprouver fazer dieta.



Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas pêras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.



Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro; dêem-me feijão com arroz



E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei, feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.
(MORAES, V. Livro de sonetos. S.P.: Companhia das Letras, 1991, p.79)
Naturalmente, para um ser que se considera omnívoro, além da célebre “receita de mulher”, há um prato especial, a feijoada completa. Vejamos um trecho (PC, p.354):


Feijoada à minha moda (fragmento)


Enquanto nós, a dar uns toques
No que não nos seja a contento
Vigiaremos o cozimento
Tomando o nosso uísque on the rocks



Uma vez cozido o feijão
(Umas quatro horas, fogo médio)
Nós, bocejando o nosso tédio
Nos chegaremos ao fogão



E em elegante curvatura:
Um pé adiante e o braço às costas
Provaremos a rica negrura
Por onde devem boiar postas



De carne-seca suculenta
Gordos paios, nédio toucinho
(Nunca orelhas de bacorinho
Que a tornam em excesso opulenta!)



E — atenção! — segredo modesto
Mas meu, no tocante à feijoada:
Uma língua fresca pelada
Posta a cozer com todo o resto.



Feito o quê, retire-se o caroço
Bastante, que bem amassado
Junta-se ao belo refogado
De modo a ter-se um molho grosso



Que vai de volta ao caldeirão
No qual o poeta, em bom agouro
Deve esparzir folhas de louro
Com um gesto clássico e pagão.



Inútil dizer que, entrementes
Em chama à parte desta liça
Devem fritar, todas contentes
Lindas rodelas de lingüiça



Enquanto ao lado, em fogo brando
Dismilingüindo-se de gozo
Deve também se estar fritando
O torresminho delicioso



Em cuja gordura, de resto
(Melhor gordura nunca houve!)
Deve depois frigir a couve
Picada, em fogo alegre e presto.



Uma farofa? — tem seus dias...
Porém que seja na manteiga!
A laranja gelada, em fatias
(Seleta ou da Bahia) — e chega



Só na última cozedura
Para levar à mesa, deixa-se
Cair um pouco da gordura
Da lingüiça na iguaria — e mexa-se.



Que prazer mais um corpo pede
Após comido um tal feijão?
— Evidentemente uma rede
E um gato para passar a mão...


Os gatos são animais que aparecem associados aos prazere da carne. Em um dos poemas do primeiro livro lá estão “os gatos me acordam gritando luxúrias” (PC, p.77)


Quem tem boca, come o aroma, como lá diz o poetinha em “Quietação”: “E eu busco sentir no ar o aroma morno da tua carne” (PC, p.77). Um pouco mais adiante diz: “ As mulheres seguiram o poeta/ oferecendo a tristeza do seu amor e a alegria da sua carne/ o poeta amou a carne das mulheres” (PC, p.88). Num dos sonetos sobre os 4 elementos, eis como Vinicius faz a mediação entre a mulher e a terra:


II - A TERRA


Um dia, estando nós em verdes prados
Eu e a Amada, a vagar, gozando a brisa
Ei-la que me detém nos meus agrados
E abaixa-se, e olha a terra, e a analisa



Com face cauta e olhos dissimulados
E, mais, me esquece; e, mais, se interioriza
Como se os beijos meus fossem mal dados
E a minha mão não fosse mais precisa.



Irritado, me afasto; mas a Amada
À minha zanga, meiga, me entretém
Com essa astúcia que o sexo lhe deu.



Mas eu que não sou bobo, digo nada...
Ah, é assim... (só penso) Muito bem:
Antes que a terra a coma, como eu.
(Livro dos sonetos, p.115)


 E, retornando às frutas, orgulha-se das árvores frutíferas, como fez Vinícius num poeta a um certo Mr. Buster, onde diz: “Olhe aqui, Mr. Buster... O senhor sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?” (PC, p.311) Entre as frutas, o poeta escolhia o caju, a manga e o abacaxi. Escolha tropical. Paladar carnal. Essas frutas de peles e consistências sumarentas. O caju mereceu um soneto, só para ele:


Soneto ao caju


Amo na vida as coisas que têm sumo
E oferecem matéria onde pegar
Amo a noite, amo a música, amo o mar
Amo a mulher, amo o álcool e amo o fumo.



Por isso amo o caju, em que resumo
Esse materialismo elementar
Fruto de cica, fruto de manchar
Sempre mordaz, constantemente a prumo.



Amo vê-lo agarrado ao cajueiro
À beira-mar, a copular com o galho
A castanha brutal como que tesa:



O único fruto - não fruta - brasileiro
Que possui consistência de caralho
E carrega um culhão na natureza.


  (LS, p.145)


Soneto síntese desse poeta da matéria, mas que teve uma início de produção poética tendendo ao transcedendente, ao metafísico, ao espiritual. Seus primeiros livros, O caminho para a distância (1933) e Forma e exegese (1935), com longos versos bíblicos, buscavam a poesia mística e idealista. O primeiro verso do primeiro livro pouco nos diz do futuro poeta das coisas sumarentas: “O ar está cheio de murmúrios misteriosos”. ( Poesia completa, p.61). Mas alguns versos depois, eis o poeta confessando forte apelo sensorial: “Eu sinto a luz desesperadamente” (PC, p.61). Já no terceiro poema do primeiro livro, vamos encontrar versos que atestam que a espiritualidade não reinava toda poderosa, pois “os homens sentiam na carne a beleza da arte” e as mulheres “davam de noite, ao homem cansado, a volúpia amorosa do corpo.” (PC, p.63). É certo que é com certo acento melancólico, com sentimento de culpa, que o poeta confessa: “Eu cedi ao prazer e à luxúria da carne do mundo” (PC, p.63). Entretanto, no primeiro soneto, busca refutar a solidão e a dor: “Deixa que a vida te possua ardente” (PC, p.65). O que se vê ao longo dos textos é um conflito entre alma x corpo, ideal x real, evidenciado de forma significativa em “Desde sempre (PC, p.80), em que o poeta se angustia entre a cena romântica da tela e um envolvimento amoroso vulgar de dois namorados no escuro do cinema. E o leitor começa a perceber a reiteração de termos como “carne”, “corpo”, “peitos ou “seios” e “beijo”,  e mais de uma vez escuta gritos de luxúria trazidos pelo vento. Até as borboletas são marcadas pela volúpia.  A sensualidade, em clave simbólica, palpita no poema “A floresta” (PC, p.69), onde há elementos prenhes do ímpeto de eros: eis o o dorso possante de um cavalo banhado pela luz do sol nascente penetrando a floresta de seiva bruta. O animal fogoso e ardente é como se fosse extensão do corpo do poeta que passa por uma cachoeira de branca espuma. A espuma, por sua vez, é um elemento recorrente nesse autor que tanto fala das águas, confunde a mulher e o mar. A espuma evoca Vênus, a deusa do amor nascida no mar. Em “A brusca poesia da mulher amada II” (PC, p.333), afirma:  “É o mar, é o mar, é o mar a mulher amada”

 

A relação mulher/ mar é marcante em “O mergulhador” (PC, p.337), de onde colho trechos:


(...)
Depois teu seio é a infância, duna mansa
Cheia de alísios, marco espectral do istmo
Onde, a nudez vestida só de lua branca
Eu ia mergulhar minha face já triste.


(...)
E te amo, e te amo, e te amo, e te amo
Como o bicho feroz ama, a morder, a fêmea
Como o mar ao penhasco onde se atira insano
E onde a bramir se aplaca e a que retorna sempre.


(...)
Amo-te o colo pleno, onda de pluma e âmbar
Onda lenta e sozinha onde se exaure o mar
E onde é bom mergulhar até romper-me o sangue
E me afogar de amor e chorar e chorar.

 

Mar e sol se complementam na figura feminina, como se lê numa das composições do Livro dos sonetos (p.101):

 

Soneto da mulher ao sol

 

A bordo do Andrea C, a caminho da França

 

Uma mulher ao sol - eis todo o meu desejo
Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz
A flor dos lábios entreaberta para o beijo
A pele a fulgurar todo o pólen da luz.


Uma linda mulher com os seios em repouso
Nua e quente de sol - eis tudo o que eu preciso
O ventre terso, o pêlo úmido, e um sorriso
À flor dos lábios entreabertos para o gozo.


Uma mulher ao sol sobre quem me debruce
Em quem beba e a quem morda e com quem me lamente
E que ao se submeter se enfureça e soluce



E tente me expelir, e ao me sentir ausente
Me busque novamente - e se deixa a dormir
Quando, pacificado, eu tiver de partir...

 

Narcisista, assim se classifica: “homem sou belo/ macho sou forte, poeta sou altíssimo”( PC, p.18) e expõe seu fogo viril à amada, num dos sonetos sobre os 4 elementos:

 

I - O FOGO


O sol, desrespeitoso do equinócio
Cobre o corpo da Amiga de desvelos
Amorena-lhe a tez, doura-lhe os pêlos
Enquanto ela, feliz, desfaz-se em ócio.


E ainda, ademais, deixa que a brisa roce
O seu rosto infantil e os seus cabelos
De modo que eu, por fim, vendo o negócio
Não me posso impedir de pôr-me em zelos.



E pego, encaro o Sol com ar de briga
Ao mesmo tempo que, num desafogo
Proibo-a formalmente que prossiga



Com aquele dúbio e perigoso jogo...
E para protegê-la, cubro a Amiga
Com a sombra espessa do meu corpo em fogo.


(LS, p.113)


Nunca um pôr do sol foi tão erótico como no poema “Epitáfio” (LS, p.3)


Epitáfio


Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu a luz ao dia
E apascentou a tarde



O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetalou.



Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que



Possuiu a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar.
 A questão do andrógino, que remete ao Banquete, de Platão, pode ser inferida também do curioso texto intitulado “Trecho” (PC, p.198)  protagonizado por um Celo e uma Flauta:


Trecho


Quem foi, perguntou o Celo
Que me desobedeceu?
Quem foi que entrou no meu reino
E em meu ouro remexeu?
Quem foi que pulou meu muro
E minhas rosas colheu?
Quem foi, perguntou o Celo
E a Flauta falou: Fui eu.



Mas quem foi, a Flauta disse
Que no meu quarto surgiu?
Quem foi que me deu um beijo
E em minha cama dormiu?
Quem foi que me fez perdida
E que me desiludiu?
Quem foi, perguntou a Flauta
E o velho Celo sorriu.


Poema que pode ser cotejado com “Serenata”, de Carlos Drummond de Andrade (Boitempo). Aliás, quanto à questão intertextual, estudo interessante poderia ser feito na relação entre o poema “Água forte”, de Manuel Bandeira, e  o “Cinepoema”, de Vinícius (PC,p.231), que, inclusive, começa com epígrafe “o preto no branco”, do poeta de Pernambuco. Em Vinícius, sugere-se um crime sexual: um negro assassinando uma branca na praia. Destaco um trecho: “A branca de bruços/ o preto pungente/ o mar em soluços/ a espuma inocente/ canícula branca/ pretidão ardente.” A relação Eros-Tanatos, mediado pela violência, é tema de “O assassino” (PC, p.260), onde o poeta adverte as “Meninas do colégio/(...) de faces rosadas/ e pernas enormes” a respeito de um assassino (o poeta?) que espreita por entre a folhagem. Interessante relação entre erotismo e morte se vê na “Balada do morto-vivo”, em que a mulher é possuída pelo fantasma do esposo que a engravida. Lunalva, a mulher, se entrega ao morto-vivo semilouca de paixão, “não foi mulher, foi amante/ agiu que nem mulher-dama/ tudo o que tinha deu.” (PC, p.24)


Em “Receita de mulher” (PC, p.284) , Vinícius aplica em relação à mulher uma de suas metáforas prediletas: “É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso”.  A flor ou a rosa, ao longo da tradição lírica, quase sempre está relacionado ao sexo feminino. Vejamos alguns exemplos, como num fragmento do poema “Copacabana” (PC, p.332)
(...) Vês tu essa estrutura
De apartamento como uma colmeia
Gigantesca? em muitos penetrei
Tendo a guiar-me apenas o perfume
De um sexo de mulher a palpitar
Como uma flor carnívora na treva.
Outro exemplo, o soneto “O espectro da rosa” (PC, p.31)


O espectro da rosa


Juntem-se vermelho
Rosa, azul e verde
E quebrem o espelho
Roxo para ver-te



Amada anadiômena
Saindo do banho
Qual rosa morena
Mais chá que laranja.



E salte o amarelo
Cinzento de ciúme
E envolta em seu chambre



Te leve castanha
Ao branco negrume
Do meu leito em chamas.
Ou ainda um fragmento de “Rancho das flores” (PC, p.385), que integra  seu cancioneiro, numa letra em cima da música “Jesus alegria dos homens”, de J.S.Bach: “Olhem bem para a rosa/ Não há mais formosa/ É flor dos amantes/ É rosa-mulher”

 

Consciente de que recorre demasiadamente a essa metáfora, Vinicius faz uma sátira a si mesmo, em “O poeta e a rosa” (PC,p.348), de onde colho o trecho:

 

- Que foi? - balbucia o poeta
E a rosa; - Calhorda que és!
Pára de olhar para cima!
Mira o que tens a teus pés!



E o poeta vê uma criança
Suja, esquálida, andrajosa
Comendo um torrão da terra
Que dera existência à rosa.



- São milhões! - a rosa berra
Milhões a morrer de fome
E tu, na tua vaidade
Querendo usar do meu nome!...



E num acesso de ira
Arranca as pétalas, lança-as
Fora, como a dar comida
A todas essas crianças.



O poeta baixa a cabeça.
- É aqui que a rosa respira...
Geme o vento. Morre a rosa.
E um passarinho que ouvira



Quietinho toda a disputa
Tira do galho uma reta
E ainda faz um cocozinho
Na cabeça do poeta.


 
Com efeito, essa autocrítica leva Vinicius a usar a rosa como metáfora de uma crítica social de alcance universal, como se vê na “Rosa de Hiroshima” (PC, p.265)

 

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.


Essa “antirosa” evidencia outra face do poeta, mais social do que sensual. Assim, se a célebre “receita de mulher” (PC, p.284) expunha um modelo de mulher que deveria ser “leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem/ com olhos e nádegas./ Nádegas é importantíssimo”, por outro lado, em “As mulheres ocas”, (p.317) há um retrato sarcástico da mulher fútil, como se vê nesse fragmento:


Nós somos as inorgânicas
Frias estátuas de talco
Com hálito de champagne
E pernas de salto alto
Nossa pele fluorescente
É doce e refrigerada
E em nossa conversa ausente
Tudo não quer dizer nada.



Nós somos as longilíneas
Lentas madonas de boate
Iluminamos as pistas
Com nossos rostos de opala.
Vamos em câmara lenta
Sem sorrir demasiado
E olhamos como sem ver
Com nossos olhos cromados.



Nós somos as sonolentas
Monjas do tédio inconsútil
Em nosso escuro convento
A ordem manda ser fútil
Fomos alunas bilíngües
De "Sacre-Coeur" e "Sion"
Mas adorar, só adoramos
A imagem do deus Mamon.



Nós somos as grã-funestas
Filhas do Ouro com a Miséria
O gênio nos enfastia
E a estupidez nos diverte.


Esse antilirismo a serviço de uma poética mais social do que sensual pode ser visto ainda na “Balada das duas mocinhas de Botafogo” (PC, p.288) poema narrativo sobre duas pobres moças “que davam mais do que galinhas”, eram exploradas pelos rapazes do bairro e, quando a sós, quando “uivavam os monstros da solidão”, se abraçavam, se beijavam, se mordiam e depois se atiram diante de um bonde. Também dotado de critíca social há o poema grotesco intitulado “História passional, Hollywood, Califórnia”, em que o poeta se vampiriza, e diante da mulher que encarna uma diva do cinema americano, assim se comporta: “E então fico possesso, dou-te um murro na cara/ destruo-te a carótida a violentas dentadas/ ordenho-te até o sangue escorrer entre meus dedos/ e te possuo assim, morta e desfigurada.” (PC, p.272) Por outro lado, na clave propriamente lírica, o poeta é que se torna vítima da mulher-vampira, como se lê em “A que vem de longe” (PC, p.337):


Aprisionado num só meneio
Ela cobriu-me de seus cabelos
E os duros lábios no meu pescoço
        Pôs-se a sugar-me.



Muitas auroras transpareceram
Do meu crescente ficar exangue
Enquanto a amada suga-me o sangue
        Que é a luz da vida.

 

Luz da vida também é a poesia de Vinícius de Moraes, com seus alumbramentos sucessivos, estendendo ao máximo aquela visão que Bandeira presenciou ao ver a primeira mulher nua.

 

Bibliografia

 

MORAES, V. Poesia completa e prosa. R.J.: Nova Aguilar S.A, 1976
MORAES, V. Livro dos sonetos. S.P.: Companhia das Letras, 1991
SANT’ANNA,  A.R.  O canibalismo amoroso. S.P.: Brasiliense, 1974.

 

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista.

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Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2017


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Foto de capa:

EDWARD HOPPER - Noite de Verão (Summer Evening), 1947. Óleo sobre tela, 76,2 x 106,7 cm. Washington, DC, Coleção Particular


Paginação:

Nuno Baptista


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