ANO 4 Edição 60 - SETEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


Alguns apontamentos sobre o pensamento católico no Brasil nas primeiras décadas do século XX

O regime republicano é proclamado no Brasil em 1889 e a nova Constituição em 1891. Foi com o início da República, em 1890, que se separou a Igreja do Estado e o catolicismo só procurou criar um escol a partir dos anos 10.

 

O Positivismo e o Materialismo, oriundos do século XIX, preocupavam a Igreja e as forças políticas conservadoras. A um século de oitocentos ligado ao Progresso e a um pendor de anticlericalismo surgia, em novecentos, uma inquietação nas consciências que se reclamava de fé. Não se pode perder de vista, o início da primeira guerra mundial.

 

O maior nome da Igreja no desenho geo-estratégico da primeira metade do século XX é a figura de Dom Sebastião Leme (1882-1942), Arcebispo Metropolitano de Olinda. Saudando os seus Diocesanos, em 1916, vem responder a um Brasil frágil, onde não existia uma elite católica, em plena 1ª Guerra Mundial. Desde logo refere a falta de disseminação religiosa, combatendo o positivismo, e a importância de uma Universidade católica.

 

Na referida Pastoral  referia:

 

Na verdade, os católicos, somos a maioria do Brasil e, no entanto, católicos não são os princípios e os órgãos da nossa vida política. (…) Leigas são as nossas escolas; leigo, o ensino. Na força armada da República, não se cuida da Religião

 

(S. Leme, Carta Pastoral a Olinda in R. B. Dias, Deus e a pátria: igreja e estado no processo de Romanização na Paraíba, 2008, Universidade João Pessoa, pp.201-202).

 

Marco histórico no seu lançamento, esta Carta pretende estimular uma elite católica a agir. Como nos refere Leonel Franca:

 

Era [a Universidade Católica] o meio eficaz de cristianizar e de recristianizar a inteligência brasileira. Era a possibilidade de formação de um escol capaz de infundir em nossas instituições sociais e políticas o espírito cristão e tradicional de nacionalidade. (apud Moura, 1978, p.115).

 

Para Dom Leme um partido político não poderia ser unicamente católico, definindo numa súmula o seu sentido de combate: “Ação católica e espírito de disciplina”.

 

Os católicos, ao tempo da pastoral, seriam uma maioria ineficaz sem uma actuação dominante. Para eles o positivismo era o grande mal das sociedades, bem como o culto das ciências. É preciso ver que com a república se baniu o ensino religioso das escolas públicas.

 

Dom Leme seguiu o papado de Pio XI (1922-1939), acreditando na possibilidade de catolicizar as instituições sociais e políticas.

 

Um dos principais teóricos sobre o pensamento católico no Brasil, Mainwaring, refere a necessidade de se alcançar as escolas e as universidades, para produzir elites católicas. Seria uma “luta contra o mal”, ou seja, o capitalismo e as ideias socializantes.

 

Jackson de Figueiredo leu a Carta Pastoral e ficou muito impressionado. Declarava-se anti-modernista e iniciou correspondência com o prelado.  

 

Jackson de Figueiredo, o qual, segundo Francovich (Franvich, G. Filósofos Brasileiros. Rio de Janeiro. Presença, 1979) foi um  forte opositor do intelectualismo, sendo pragmático e nacionalista e defendendo a ideia de uma essência religiosa da alma brasileira. Escreveu Algumas Reflexões sobre a Filosofia de Farias Brito e Pascal e a Inquietação Moderna.

 

O activista concluiu o curso de Direito em 1913 e em 1915 conhece o filósofo Farias Brito que sobre ele terá uma forte ascendência espiritual. Aliás, tendo iniciado a Carta Pastoral em 1916, em 1921 D. Leme aposta em Jackson tendo em vista uma intervenção directa no catolicismo.

 

Quer o Centro Dom Vital quer a revista A Ordem resultaram do movimento a que a Carta Pastoral deu rumo. A estudiosa Mônica Velloso, ao abordar o periódico, divide-o em dois grandes períodos: de 1921 a 1928, sob a direcção de Jackson de Figueiredo, e de 1928 a 1964, sob a égide de Alceu Amoroso Lima (1893-1983).

 

Á revista A Ordem, fundada em 1921 segue-se a constituição do Centro Dom Vital, em 1922, o qual deve o nome em homenagem a António Gonçalves de Oliveira Júnior (1844-1878), protagonista, na época, de conflitos entre maçons e católicos. Cultivava-se assim a tradição e o passado bem como a promessa da salvação do país.

 

O ano de 1922 marca um período de uma inquietação cultural com a Semana da Arte Moderna, a fundação do Partido Comunista do Brasil e movimentos militares correspondentes a períodos instáveis, como nos referencia Iglésias, Francisco. 1971. Estudo sobre o Pensamento de Jackson de Figueiredo in História e Ideologia. S. Paulo. Edições Perspectiva.

 

No Centro Dom Vital Jackson de Figueiredo assume o cargo de presidente, tendo Leonel Franca como primeiro assistente eclesiástico e obtendo a colaboração de alguns membros ilustres como Alceu Amoroso Lima, Jônatas Serrano, Tasso da Silveira, entre outros.

 

Os doutrinadores mais importantes para este grupo eram Joseth de Maistre e Jacques Maritain, que esteve ligado à Action Française, tendo depois abandonado esse movimento ao assinar manifestos de esquerda.

 

Em 1921, Jackson, publicou a obra Do Nacionalismo na Hora Presente, onde se demarca de grupos nacionalistas fanáticos e envereda por Maistre. Nessa obra, o líder brasileiro consolidou a sua crença no positivismo com o catolicismo: era uma forma de ver o positivismo com o tradicionalismo. Os participantes da revista A Ordem e pertencentes ao Centro conseguiram catolicizar o positivismo. O teórico Alexandre Correa, por exemplo, publicou desde os primeiros números da revista artigos sobre o pensamento de Maistre.

 

Enquanto a revista era uma forma de divulgar a ideologia, o Centro enquadrava quase todas as vertentes do pensamento católico conservador. O médico Hamilton Nogueira também se tornou um teórico. Em questão estava o nacionalismo. Para ele, a moral católica resolvia as crises do Brasil. Por vezes, os governos mais fortes iam ao encontro da república. As leituras que elaborava sobre a Revolução Francesa não eram positivas e havia que preservar o catolicismo.

 

 Outro dos intelectuais dominantes do pensamento católico, foi Alceu Amoroso Lima, que se formou em direito em 1913, partindo para Paris onde se tornou aluno de Bergson. De volta ao Brasil, sob o pseudónimo de Tristão de Athaíde, escreveu crónicas literárias. Alceu subordinava o estético à função moral. A beleza tem de ter uma finalidade.

 

Através da correspondência epistolar de Jackson de Figueiredo com Alceu Amoroso Lima encontramos o entusiasmo psicológico e mental de ideais, muito contraditórios com uma obra posterior de Alceu em que fala já com distância de Jackson. Passamos a citar alguns excertos da correspondência:

 

De Alceu para Jackson, em 1928:


(...) Sinto-me ferido de morte. Sinto-me velho. É exacto. Sinto-me sem força. (…) Juro-te que se Deus existe em qualquer parte do universo, ou em todo o universo, aqui ao meu lado ou dentro de mim (…) só uma coisa lhe peço: a loucura ou a morte.
(AAL: Figueiredo, 1991. p. 137)

 

De Jackson para Alceu, em 22 de Abril de 1927:


Há em mim algo de completo, que falta a você, quer dizer, quando eu o encontrei já era o católico que sou, isto é, já era um homem perfeitamente ocidental e perfeitamente universal, do ponto de vista intelectual. Era nesse domínio um poste firme. Você ainda era uma coisa a mover-se desesperadamente em busca de lugar de repouso.

 

Alceu, em carta de 9 de Julho de 1927, diz:


Creia, meu querido Jackson, hoje já não peço a Deus apenas Fé. Peço também – inteligência para propagar, para comunicar a Fé. Porque começo a sentir não mais a inquietação de chegar à Verdade (…) mas, a inquietação de mostrar a Verdade.

 

Numa carta de 20 de Outubro de 1927 diz também:


Se eu pudesse partir para aventuras, se eu pudesse arrancar de mim essa casca abominável de bom senso que me asfixia, se eu pudesse lançar-me numa loucura intelectual (…) iria fundar, com você, um panfleto em que nós cortássemos as amarras com a terrível quietude do meio e partisse em guerra pela catolização romântica destes brasis.

 

Em 1957 Alceu descrevia assim o seu amigo:


o espírito contra-revolucionário de  Jackson de Figueiredo se lançaria contra a revolução literária, como se lançou contra a revolução política. Ainda aí ficamos em pontos opostos, ele e eu. Jackson de Figueiredo defendia uma reacção clássica como defendia uma reacção autoritária. Não podia tolerar a liberdade modernista, como não tolerava o liberalismo político. Fazia garbo de sua posição reaccionária. Quando, em 1921, deu o nome que ainda hoje conserva, à sua revista, sua intenção era essa: lutar contra a Desordem em todos os domínios.
Lima, Alceu. 1957. Notas para a História do Centro Dom Vital. Volume LVIII, p. 39.

 

Alceu Amoroso Lima convocará as influências de Teilhard de Chardin (1881-1955) e de Thomas Merton (1915-1968), em detrimento de Maritain, nos anos 60.

 

Bruna Aparecida Miguel, na tese de doutoramento recente, constata que a maioria dos estudos sobre o Centro Dom Vital se regista desde os anos 20 até aos finais dos anos 40. O centro encontra o seu auge nos anos 20 e 30. Com o desaparecimento de D. Leme nos finais dos anos 40 e o final da II Guerra Mundial perde-se o espírito intervencionista inicial.

 

As décadas de 10 e de 20, para quem estudou o pensamento ocidental, surgem no seu fulgor com o modernismo literário e artístico. No Brasil o anti-modernismo teve um fulgor que em Portugal foi bastante menos empolgante. Em 1922 membros do Centro Dom Vital do grupo A Festa opuseram-se ao modernismo da Semana da Arte Moderna. Modernidade e Tradição são aspectos fulcrais do pensamento ocidental onde a Igreja esboça pontos de vista mais conservadores.

 

Neste entrecho é pertinente citar os estudos de Guilherme Arduini sobre o Centro Dom Vital onde chama a atenção do conceito de habitus de Bourdieu segundo o qual:


“Os melhores intelectuais são aqueles que alcançam uma melhor compreensão sobre o local em que se encontram, em um processo ao qual se poderia dar o nome de «lucidez social”.
Arduini, Centro Dom Vital e o campo intelectual brasileiro anos 1930. 201. Juiz de Fora.

 

Tal como nos referencia o conceito de habitus encontra-se perante uma determinada situação. O estudioso debruça-se sobre a obra de Alceu Amoroso Lima, sobretudo no conflito entre a Escola Nova de Anísio Teixeira e o Instituto Católico de Estudos Superiores ligado ao Centro Dom Vital. Anísio Teixeira tinha sido Secretário Municipal da Educação e pretendia construir uma Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Nos anos 30 tenta-se criar três universidades: a de S. Paulo, a do Distrito Federal e a do Brasil.

 

As revistas A Ordem e a lusa Nação Portuguesa podem ser lidas em comum a partir de 1922 com uma fixação na ideia de “salvação nacional”, aguardando uma figura política forte e centralizadora. Para os integralistas da Nação Portuguesa, Salazar não corresponderia nos anos 30 às expectativas. Também se poderia estudar, a partir dos anos 10/20, o Centro Académico da Democracia Cristã, em Coimbra, e o Centro Dom Vital. Veremos que Getúlio Vargas se identificou e termos dos seus ideias com os do Centro Dom Vital.

 

O catolicismo, nestes intelectuais não se dissocia do profetismo e da verdade revelada ou mesmo do conceito de Salvação. Os eventos políticos têm de estar ligados numa militância de organização católico.

 

As estratégias da Igreja Católica passavam por uma educação cristã a todos os níveis do ensino, desde o primário até ao superior. O filósofo J. Maritain, através de Alceu Amoroso Lima, influenciou a renovação do pensamento católico. O “Humanismo Integral” do francês era uma proposta aberta.

 

Se ao longo da segunda década do século XX os católicos denunciavam a modernidade e o perigo das ideologias seculares, ao longo dos anos 1940 foram mudando para um conceito de liberdade e democracia, ao encontro dos desafios da II Guerra Mundial e de outros contextos históricos.

 

Cecília Barreira – CHAM/FCSH

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