ANO 4 Edição 60 - SETEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Danyel Guerra


RomAnita: uma ninfa muito fellina

(imagem de Anita Ekberg)

 

“Quando os jornalistas mencionavam La Dolce Vita,  eu

respondia, direto, Anita Ekberg…”

 

Federico Fellini

 

Uma certa noite, alguém importunou a Srª D. Kerstin Anita Marianne Ekberg indagando quantos homens ela já tivera. A deusa escandinava ouviu, suspirou e não podia ter sido mais sibilina. “Você quer dizer quantos homens, além dos meus?!”
    Não serei eu a cometer a deselegância de tentar calcular quantos homens a diva terá tido, além dos seus. “Isso não é da sua conta”, poderia ela ripostar. Contudo, sou menino para arriscar a ousadia de sugerir que um dos “seus” foi, é e será o donjuanesco Marcello Rubini de La Dolce Vita (1960), de Federico Fellini, a quem aliciou para um mergulho  matto, matto no líquido subitamente escaldante da  Fontana di Trevi.

 


Marcello, come here!”

 

     Era notte a Roma, quando visitei a barroca fonte. Perante o monumento, tentei resistir ao truísmo e ao turismo. Desiderato igualmente perfilhado por Glauber Rocha em Claro, 1975, longa filmado nos territórios sagrados e profanos da cidade (e)terna. E evitei capitular a superstição. Coerente, não cumpri o ritual votivo de atirar nesse leito aquático, a lira augúrio de boas venturas.
   Embevecido, preferi  puxar La Dolce… atrás e recordei a mítica cena. Eis ainda agora, la bionda Sylvia Rank, fellina náiade, vestindo/despindo um tomara que caia preto, afeito a desnudar o generoso torso, encimado por lívidas saboneteiras. “Marcello, come here!”, desafia, num cálido apelo de inocência e sensualidade, se a associação é autorizada.

 

                            “Eu a vi pela primeira vez numa revista americana:  
                            uma pantera poderosa representando a menina  
                            travessa montada  no corrimão de uma escada. “Meu
                            Deus-eu pensei- não me deixes encontrá-la!”

 

    Contudo,  a prece de Federico não foi, bemaventuradamente, escutada. Um certo dia, numa intervista com Tulio Kesich, crítico de cinema e biógrafo de Fellini, eu não desperdicei a oportunidade  de  lhe perguntar se ele conhecia a origem da luminosa ideia do banho de Silvia Rank nas  Acqua Vergine  da  fonte dedicada a Trívia, a menina que, reza a legenda, indicou a nascente de água a sedentos legionários romanos.
     Na resposta, Kezich tendeu a enredar o enigma, porém sempre foi adiantando que o insight  terá sido sugerido pela própria intérprete da fogosa Sylvia.

 

    “O Federico nunca esclareceu, nem tinha que esclarecer, esse mistério, urdido pelos críticos, jornalistas, imbuídos de um espírito voyeur. Eu tenho a minha teoria. O Fellini vira uma foto de 1958, em que ela aparecia com água até aos joelhos num riacho. Era uma imagem muito impressiva, prenhe de uma estética deslumbrante. Ele terá tido, nesse momento, a inspiração de a incluir no enredo.”(1)

 

    O banho santo nas águas  benzidas  pelo Papa Federico não teve, de todo, o efeito de fechar o venerado corpo  de  Marianne  para  trivialidades fílmicas similares aquelas de que participara na década de 50. 
    Personalidade suficiente parecia não escassear, todavia,  a Miss Suécia-1951,  desde as  eras em que foi  starlet  da Universal Pictures.

 

Prova dessa virtude é a veemência com que contestou as pretensões de
Howard  Hughes. O excêntrico produtor  “exigira” a americanização
do seu sobrenome e uma plástica  corretora do nariz e dos dentes, para
lhe acender em pleno as luzes dos   spotlights.   Pelo menos a primeira
intimação, ela recusou.

 

    Afinal,  Kerstin  apenas  precisava de  deparar  com um diretor que
iluminasse o carisma da sua cinegenia.  Quis a buona fortuna que esse
cineasta  fosse  alguém que acreditava na música da luz.  Não será
descabido afirmar  que  se Deus criou a Mulher,  se Vadim criou a BB,
Fellini inventou a Anita Ekberg.  O ser venturosamente   modelado 
não  poderia almejar  maior  fellicidade.

 

   A teofania da ninfa da Fontana renderia amplos dividendos, 
financeiros e estéticos, a ponto da cena se ter tornado uma das mais
representativas da História da Beleza nas Artes.  Ou o Cinema não
fosse a arte do terno e eterno feminino.  La cinecittà delle donne  é  uma
fellizcidade, uma venturosa Cinelândia.

 

   Êmulo de Mandrake, Fellini continuou obtendo,  com as luci del varietà a capitalização artística da sua magicarte. A auréola de Ekberg refulge em Boccaccio 70 (1962), no episódio Le Tentazioni  de l  Dottor Antonio, onde  a  bombshell  de Malmö  dá corpo a um modelo de outdoor, que se transforma numa tentação obsessiva na vida de um puritano cavalheiro. 
   Um ajuste de contas de Fellini com os moralistas que patrulharam as “licenciosidades” de La Dolce… Posteriormente integrada no cast de insípidas produções comerciais, a “pantera poderosa” faz uma fulgurante  aparição  cameo em  I Clowns (1970) , da lavra do seu protetor.

 

Regresso a Fontana

 

    Decorria o ano de 1987 e a cinquentona Anita continuava bonita. Embora mais volumosa, ainda que sempre voluptuosa. Em Intervista, sequestrado por Fellini, um Marcello Mastroianni fantasiado de Mandrake  visitou-a na Villa Pandora, a sul de Roma. Surpreendida, a anfitriã passou depressa da frieza protocolar –“Federico, tu sei un gran bugiardo” (és um grande mentiroso)- a expansão dos sinceros afetos.
     E enquanto a visitada serve vinho e castanhas assadas, Marcellodrake maneja sua bengala de condão e todos são transportados para dentro da aguardente  da Fontana, num comovente flashback da lendária passagem. Comovida, a “menina travessa” não consegue evitar que uma lágrima rebelde deslize por suas alvas facies.

 

     Lágrimas de raiva foram aquelas que libertou, anos depois, ao saber
que um grupo anarquista protestara seu repúdio a sociedade burguesa,
inquinando de tinta vermelha as venerandas águas da Fontana . A
desfaçatez  deixou Anita escarlate de revolta e de repulsa. “Foi um
deplorável ato de vandalismo e uma ofensa a Roma”.  E o detalhe da
fontana do filme ser uma réplica erguida na Cinecittà não
retira legitimidade a sua indignação.

 

   Apesar do desaparecimento físico da diva, estou certo de que no que de Anita  depender, nunca a sua fonte mergulhará nas águas polutas das trevas, nomeadamente as do esquecimento que ameaçam a memória do Cinemarte, essa bela, imorredoura, imarcescível grande ilusão que torna la vita mais dolce.

 

Nota:

 

1- Rembrandt é o autor de uma tela intitulada Hendrickje Bathing in a river, que surpreende uma mulher em pose semelhante a de Anita na aludida fotografia. Fellini conheceria, certamente, esse óleo do pintor holandês, datado de 1654. Integra o acervo da National Gallery de London (United Kingdom).

 

 

Danyel Guerra é natural da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (Brasil).Tem uma licenciatura em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Escreveu e editou os livros 'Em Busca da Musa Clio' (2004), 'Amor, Città Aperta' (2008), 'O Céu sobre Berlin' (2009), 'Excitações Klimtorianas' (2012), 'O Apojo das Ninfas' e 'Oito e demy' (2014). No prelo está 'O Português do Cinemoda' (edição Douro Editorial).

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Henrique Prior, Alexandre Brandão, Beatriz Regina Guimarães Barboza, Bruna Mitrano, C. Leonardo B. Antunes, Caio Junqueira Maciel, Carlos Barbarito, Carlos Vale Ferraz ; Carlos Matos Gomes, Cássio Amaral, Cecília Barreira, Danyel Guerra, Deisi Scherer Beier, Denise Bottmann, Eduardo Rennó, Eliana Mora, Flávia Fernanda Cunha, Helena Mendes Pereira, Hermínio Prates, Jorge Silva Melo, José Hierro ; Sandra Santos, trad., Juliana Meira, Katyuscia Carvalho, Luís Pedroso, Luísa Demétrio Raposo, Lyslei Nascimento, M. de Almeida e Sousa, Maria Toscano, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Nilo da Silva Lima, Ricardo Ramos Filho, Thiago Scarlata, Vinícius Lima


Foto de capa:

EDWARD HOPPER - Noite de Verão (Summer Evening), 1947. Óleo sobre tela, 76,2 x 106,7 cm. Washington, DC, Coleção Particular


Paginação:

Nuno Baptista


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