ANO 4 Edição 60 - SETEMBRO 2017 INÍCIO contactos

Denise Bottmann


Pitadas de Thoreau em Walden

No ano em que se comemoram duzentos anos do nascimento de Henry D. Thoreau, vamos a algumas pitadas de Walden.*

 

I.


“Da cidade desesperada você vai para o campo desesperado, e tem de se consolar com a coragem das martas e dos ratos almiscarados.” (p. 21-2)


Primeiro o dever, depois o prazer; antes a obrigação, então a diversão; que satisfação haveria nesses “jogos e entretenimentos da sociedade”? There is no play in them, for this comes after work. Rotina e distração compõem os dois lados da mesma vida do homem moderno: passar a semana na cidade, ir para o campo no final de semana... Nesse contato com a natureza, ele terá alguns vislumbres da liberdade que já não possui: “tem de se consolar com a coragem das martas e dos ratos almiscarados”.



É um bonito exemplo da prosa de Thoreau, que aparece lá pela vigésima página de Walden. Não uma metáfora; antes uma sinédoque: ao contrário da maioria dos homens que levam “uma vida de calado desespero”, os seres na natureza não desesperam, não se resignam. Não renunciam à liberdade.


E por que ele cita precisamente a marta e o rato almiscarado? Porque esses animaizinhos, quando presos na armadilha do caçador, roem a própria pata para se libertar. Ver essa coragem deles, tal é o consolo que resta ao homem desesperado. 


Cabe relembrar aqui: as imagens em Walden são concretas, as referências são muito materiais, às vezes brutais. Bravery: não se trata do esplendor ou "magnificência dos visons", nem de um vago "ânimo dos minks", como nos dão algumas traduções em espanhol e português. Trata-se de bravura mesmo, da encarniçada, valente, corajosa luta pela liberdade.

 

Thoreau retomará extensamente a imagem da “armadilha”, e não apenas como imagem. Para isso se servirá da polissemia do termo: trap, armadilha; traps, bens, pertences. Os bens de um homem: armadilha que o aprisiona. E em sua vida resignada, ao contrário da raposa, da marta, do rato almiscarado, o homem já não tem a coragem (ou, diz também Thoreau, a elasticidade) para se desprender de seus bens, para se soltar da armadilha e recuperar sua liberdade.
E é umas cinquenta páginas depois, falando da armadilha (trap) dos pertences pessoais (traps), que nosso autor retoma de ponto em branco: “O rato almiscarado roerá a terceira pata para se libertar” (Walden, p. 73). Curioso: por que essa menção tão específica à terceira pata?

 

Em sua edição anotada de Walden, Allen esclarece a coisa. Thoreau registrara em seu diário uma conversa que teve com um caçador de Concord, George Melvin, que lhe disse:

 

“Ah, os ratos almiscarados são os mais danados para escapar mascando a pata. Ora, um dia eu peguei um que tinha acabado de roer a terceira pata, pois era a terceira vez que ficava preso numa armadilha, e estava morto ali do lado, pois não conseguia correr com uma pata só.”



Aforismática conclusão de Thoreau: “Só a coragem prolonga a vida, seja do homem ou do animal”.

 

II.


Quando estava plantando sua lavoura de feijão, Thoreau comentou:


“Não que eu quisesse feijão para comer, pois sou por natureza um pitagórico no que concerne aos feijões, quer signifiquem sopas ou votos, e trocava por arroz; mas quiçá, como a gente tem de trabalhar no campo quando menos pelas metáforas e figuras de expressão, para servir algum dia a um criador de parábolas.” (p. 158)

 

Há a história famosa de que Pitágoras – rigoroso vegetariano devido à sua doutrina da transmigração das almas – teria proibido seus discípulos de comerem feijão. A advertência era “abstenham-se de feijão” ou “não toquem em feijões”. Ela foi e continua a ser variadamente interpretada, mas a versão dominante é a de Cícero: Pitágoras teria vetado o consumo da leguminosa por provocar sonoros distúrbios e flatulência. Aliás, até o século XIX as dietas vegetarianas costumavam se chamar “dietas pitagóricas”, e excluíam o feijão.
Por outro lado, fontes indicam que Pitágoras gostava de comer feijão, considerando-o de efeito calmante e laxante. O sentido da advertência, em verdade, seria outro. Nas votações usavam-se grãos de feijão: um grão branco significava “sim”, um grão preto (ou vermelho) era “não”. Assim, há quem sustente que Pitágoras havia recomendado a seus seguidores que se abstivessem dos plebiscitos e da política em geral.


Seja como for, é a essa polêmica que Thoreau se refere quando diz ser um pitagórico em relação a feijões, “quer signifiquem sopas ou votos”.

 

III.


“Mas eu estava mais interessado em preservar a veação e a vegetação do que os caçadores ou os lenhadores, como se eu fosse o próprio Guarda Florestal de Sua Majestade; e se alguma área se incendiava, mesmo tendo sido eu a incendiá-la por acidente, afligia-me uma aflição mais longa e mais inconsolável do que a dos donos; aliás, afligia-me quando os próprios donos abatiam alguma área.” (p. 238-9)


...”mesmo tendo sido eu a incendiá-la por acidente”...



Em 30 de abril de 1844, de manhã cedo, Thoreau e seu amigo Edward Hoar saíram de barco para pescar em Concord Woods. Depois da pescaria, na baía de Fair Haven, fizeram um fogo em cima de um toco de pinheiro, para preparar uma caldeirada. Era o início da primavera, fazia semanas que não chovia, a vegetação estava inusualmente seca e havia lufadas de vento. Algumas fagulhas escaparam e pegaram o capim seco. Thoreau e Edward tentaram bater e pisotear o capim queimando, mas o fogo logo alcançou as árvores e subiu. Edward pegou o barco e foi para Concord pedir ajuda. Thoreau saiu correndo na frente do fogo para procurar ajuda por perto. Um sitiante dali se recusou, dizendo que não tinha nada a ver com aquilo. Por fim ele conseguiu que outro sitiante, dono de parte da madeira em chamas, fosse convocar os moradores da cidade. As chamas se alastravam tão depressa que o grande receio era que o incêndio alcançasse Concord. Thoreau subiu até o alto da colina de Fair Haven, esperando ajuda e olhando aquele fogaréu se espalhar... Enquanto isso, os sinos da vila tocavam a rebate e o povo acorreu ao local.



O fogo começou às 10 da manhã e foi debelado ao final da tarde. Consumiu cerca de 150 hectares de floresta e vários estoques de lenha e madeira cortada, de propriedade privada.



Era uma mata antiga, de velhos pinheiros, carvalhos, bordos e amieiros - ou seja, árvores de porte que alimentavam as chamas na grande altura. Nesse incidente penoso, Thoreau e Edward enfrentaram a ira local e foram publicamente acusados de descuido: o fogo foi "transmitido às matas pela imprudência de dois de nossos cidadãos", "resultado infeliz de pura negligência". Mas não chegaram a sofrer processo, pois o pai de Edward, que era um dos mais ilustres cidadãos de Concord, interveio para acalmar os ânimos, ressarciu os danos e pagou indenização aos lesados. Durante anos coube a pecha de woods burner a Thoreau, que ficou acachapado de dor e vergonha. 



[De fato, parece mesmo uma bobagem os dois terem feito a fogueira em cima de um toco de pinheiro (stump of pine, diz a notícia), pois todo mundo sabe que pinheiro, mesmo depois de morto, guarda resina, que pipoca feito bombinha e solta fagulha. Não dá para entender direito o que passou pela cabeça deles...]



Há, inclusive, quem aponte esse incidente como catalisador de sua decisão de ir para Walden no ano seguinte. No entanto, mesmo tratado por todos como a guilty fellow, por outro lado Thoreau não se sentia diretamente responsável pelo incêndio na mata. Em algum lugar, Emerson comenta justamente esse aspecto como prova da teimosia de Thoreau, o qual, até o final de sua vida, nunca admitiu qualquer "culpa" pelo acidente.

 

IV.


A veia humorística de Thoreau era quase irreprimível. Comentava Hawthorne que chegava a ser boring, e outro dizia que conversar com Thoreau era fascinante, se o interlocutor conseguisse refrear o caudal de piadas e trocadilhos com que se deleitava.



Mas às vezes ele também falava a sério. Como, por exemplo, quando um editor lhe mexeu nos brios ao eliminar uma frase de seus manuscritos, por tê-la considerado demasiado panteísta. O caso aconteceu com James Russell Lowell, editor do Atlantic Monthly, fundado em 1857, o qual tinha insistido para que Thoreau colaborasse com o periódico, inclusive pedindo a Emerson que persuadisse o amigo. Lowell e Thoreau combinaram, e Thoreau encaminhou o ensaio sobre sua excursão de 1853 ao Maine, que sairia em partes. A primeira parte saiu como artigo principal do número de julho de 1858. Mas faltava uma frase.



Então Thoreau escreveu a Lowell:

 

“Quando recebi a prova daquela parte de minha história publicada no número de julho de sua revista, fiquei surpreso ao ver que a frase ‘Ele [um pinheiro] é tão imortal quanto eu, e talvez se erga tão alto quanto o céu, e lá ainda continue a me sobrancear’ ... [tinha] sido eliminada, e me ocorreu que afinal tinha alguma importância rever as provas; supondo, claro, que meu ‘Manter’ à margem seria respeitado, como vejo que foi em outros casos de importância relativamente menor para mim. Mas acabo de perceber que essa frase foi omitida, de maneira muito mesquinha e covarde. Nem preciso dizer que esta é uma liberdade que não admitirei que seja tomada em relação a meu manuscrito. O editor, neste caso, tem tão pouco direito de omitir quanto de inserir um sentimento, ou de pôr palavras em minha boca. Não peço a ninguém que adote minhas opiniões, mas realmente espero que, quando pedem para publicá-las, publiquem-nas ou peçam minha autorização para alterá-las ou omiti-las. Eu deixaria de ler muitos livros se pensasse que foram expurgados dessa maneira. Sinto esse tratamento como um insulto, embora não intencional, pois é supor que eu possa ser pago para suprimir minhas opiniões.”


Thoreau pediu uma retificação no número de agosto, mas Lowell nem se dignou a responder, segurou o pagamento e não perdoou Thoreau. Passou a criticá-lo como mero imitador de Emerson e a depreciar suas obras como “mais um sintoma da doença do fígado generalizada”. Infelizmente para Thoreau, Lowell era o crítico literário mais importante dos EUA naquela época, e com suas críticas impediu uma apreciação mais ampla da obra de Thoreau durante muitas décadas.

 

* Henry D. Thoreau, Walden. Trad. Denise Bottmann. Porto Alegre: L&PM, 2010.

 

 

Denise Bottmann nasceu em Curitiba em 1954Formada em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR,1981). Mestre em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 1985). Doutorado inconcluso em Filosofia (UNICAMP). Tem experiência na área de docência e pesquisa em História e Epistemologia das Ciências Humanas. Atua na área de tradução de obras de literatura e humanidades desde 1984. Atualmente dedica-se a atividades de tradução e pesquisas sobre a história da tradução no Brasil. 

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EDWARD HOPPER - Noite de Verão (Summer Evening), 1947. Óleo sobre tela, 76,2 x 106,7 cm. Washington, DC, Coleção Particular


Paginação:

Nuno Baptista


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