ANO 4 Edição 59 - AGOSTO 2017 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


Síndrome de NEB-SENU

Eppur si muove, diria Galileu para os céticos que, no Museu de Manchester, não deram muita bola para os primeiros movimentos de uma estátua egípcia, oferenda ao deus Osíris. Físicos explicam que a estátua se mexeu em razão de atrito entre a pedra de que é feita a escultura e o tipo de lugar em que ela se acomoda. Entretanto, meninos eu vi, não só a estátua se moveu como um país inteiro começou a se movimentar, marchando em direção ao Congresso, aos Palácios e, com isso, passando a incomodar o sono pretensamente justo dos donos do poder.

 


       Lendo um texto de Flaubert, dou de topo com uma frase mais ou menos assim: de tanto contemplar uma pedra, tive a sensação de penetrar nela. Quem sabe a estátua, de tanto contemplar a vida exterior, dela se impregnou e quis penetrar em sua essência, móvel, inconstante, dinâmica? Quem sabe a pedra, de tanto que ficou no meio do caminho, resolveu andarilha percorrer estradas, desafiar destinos? Quem sabe a pedra decidiu rolar Sísifo e, por conta própria e pétrea, escolher melhor lugar aonde, poderosa, pudesse se instalar? Quem sabe a pedra, desgarrada da mão insana de algum arruaceiro, se transforme na antiga lousa e comece a jorrar lições a perdidas almas analfapetras? E aqui me lembro de João Cabral e sua precisa e preciosa educação pela pedra...
Vamos imaginar (e aqui me apoio na obsessão surrealista que Murilo Mendes tinha pelas estátuas), vamos imaginar que todas as estátuas, unidas, resolvam se mexer... Resolvam reivindicar o que elas representam ou deveriam representar. Começando com aquela lá, no pórtico de New York, exigindo a real liberdade para todos os que buscam a América. E aquela outra, no Corcovado, redimindo a injustiça e aflições de todos os que esperam por um redentor... E as estátuas equestres passam a galopar, com cavaleiros sedentos de vida e de justiça e de esperança... E também as esculturas famosas, como os profetas de Aleijadinho, saindo de Congonhas do Campo e entrando em campo para atuarem no time dos videntes que desejam, enfim, a realização de suas clarividências. E o Pensador de Rodin, de tanto meditar, de repente se ergue, grita Eureka, e desfila com as demais figuras, inertes até então, mas agora dispostas e resolutas, querendo que a beleza seja compartilhada por todos os povos.

 


          E o que era pedra possa atirar sonhos, e o que era sonho possa alavancar vontades que se transformem em verdades...
Com seus pouco mais de 25 centímetros, a estátua de Neb-Senu, que se mexeu num museu do Reino Unido, possa ser pequena amostragem de uma grandeza sem limites: a vitória sobre a inércia, pois o nosso cérebro, que é menor do que isso, com seus bilhões de neurônios, sem necessitar se valer da telepatia, pode ser capaz de derrotar a apatia.

 

 

Escritor brasileiro morando em Braga, Portugal.

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Revista InComunidade, Edição de AGOSTO de 2017


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Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Summer Night (Inger on Shore)', 1889.


Paginação:

Nuno Baptista


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