ANO 4 Edição 59 - AGOSTO 2017 INÍCIO contactos

Almandrade


Poemas e texto

A luz disfarça a noite
habitada por sonhos
de ninguém
a escrita preenche
o vazio
as línguas não dizem
transportam o pensamento
e encenam o amor
as palavras encontram
um destino
entre portas fechadas
sem as chaves.

 

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Noite
Cristiane
se esconde
o amor nada
naufraga
grita
chama
espera
Aparecida
sonha o dia seguinte
intenso
espontâneo
o mar o horizonte
das Virgens
a pele a carne
desejoAlmandrade
como é bonito.

 

 

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RIO DE JANEIRO

 

Uma noite bem carioca
roda de samba
quase carnaval
Carolina simplesmente
Pontim como uma fruta
doce de tão madura
acendia o desejo
revelava um segredo
entre  um cigarro e outro
um beijo celebrava
a sensualidade da língua.

 

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A  CLARINETA  DE  CAROL  P.

 

Não era a clarineta
da  tela de Braque
desmontada
fragmentada
guardada
em silêncio
como uma imagem cubista.
A música escorria
do semblante da moça
molhando
a noite do museu.

 

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A  JANELA  E  A  FANTASIA

 

No pequeno cômodo
através da vidraça
a paisagem entra
fragmentada
no pincel de Magritte.
Do outro lado
das paredes
a realidade vai até onde
a imaginação alcança.
O  tempo
o olhar inventa.

 

texto:

 

A  PAISAGEM DA  PINTURA                  

 

A pintura é a invenção de uma paisagem com o pretexto de enunciar um modelo de conhecimento, correspondente ao estágio da cultura, e eternizar um sentimento. O pintor se aproxima da paisagem para explorar os limites do olhar, seduzido pela coisa e a possibilidade  de inventar  uma imagem ou um horizonte, um lugar distante daquilo que entendemos como realidade, capaz de reter a contemplação. De fundo ou cenário para alguma coisa acontecer, a paisagem tornou-se o lugar das satisfações e curiosidades do olhar.  Para Rilke: “Ninguém pintou ainda uma paisagem que seja tão completamente paisagem e seja, no entanto, confissão e voz pessoal como esta profundidade que se abre atrás da Mona Lisa.” É preciso se desacostumar de uma forma habitual de ver o mundo, como fez Leonardo da Vinci, e olhar as coisas com uma paixão e uma racionalidade que esfacelam  a idéia de uma percepção natural, sem a influência do pensamento. A pintura é a possibilidade de uma idéia ou de um saber sobre a paisagem.

 

Estamos sempre relacionando tudo que vemos com a nossa carência de olhar, apropriamos das cenas vazias, dando-lhes o sentido que nos pareça conveniente, para insinuar uma comunicação sem a interferência do raciocínio; mas o artista quer ir mais longe; enfrenta as aventuras da imagem, olha para dentro das coisas e procura, no fundo da paisagem, o que não se vê, à distância. A paisagem é meio de conhecimento e não ilustração da realidade. Ela pode ser tudo, pode vir do nada, isto é, porque o nada, para o pintor, é a essência de tudo. Quando o céu era uma realidade, o olhar do pintor se restringia ao que era determinado pelo sagrado, a geografia onde o homem realizava seu dia-a-dia encerrava os limites da paisagem. No Renascimento, o pintor era religiosamente um espectador, um observador  do que estava próximo do campo visual, ele desconhecia o outro lado que o olhar não penetrava, porque ele não se misturava às coisas. Reproduzir a aparência das coisas era a essência da arte, contemplava-se o quadro como se estivesse diante de uma janela ou de um espelho.

 

 A natureza, como paisagem, não é uma coisa isolada à espera de uma designação ou de uma determinação por parte do homem que, quando a percebe, desenha os seus contornos para registrar sua aparência, interrogar o visível e criar novas possibilidades de expressão. Com a arte, ele compreendeu também sua solidão diante da natureza e a paisagem projetada na tela pode ser produto de suas obsessões. Cézanne entra em cena. “Não é nem um homem, nem uma maçã, nem uma árvore que Cézanne quer representar; ele serve-se de tudo isso para criar uma coisa pintada que proporciona um som bem interior e se chama imagem” (Kandinsky). Uma imagem inacabada porque o pintor não pára de olhar e interrogar o aspecto das coisas que compõem a sua paisagem. A pintura nunca está terminada.

 

 Ao transformar a paisagem em pintura, o pintor quer revelar a intimidade do mundo. “A pintura moderna, do mesmo modo que o pensamento moderno, obriga-nos a admitir uma verdade que não reflita as coisas, sem modelo exterior, sem instrumentos de expressão predestinados e não obstante verdade” (Merleau-Ponty). Uma verdade não reproduzida, mas criada a partir de conceitos.  Se, na tradição renascentista, o pintor era o espectador ideal e racional do mundo, na modernidade ele se mistura aos seres e às coisas para transformá-los em imagens. O pintor moderno pinta a paisagem cada vez mais de perto, com a intimidade de “voltar às coisas” e alcançar o fundamento do “real”. A paisagem moderna é um buraco problemático de pensar o mundo e o homem está entre o mundo e as coisas como se fosse um exercício de composição. No imaginário do artista, a paisagem não é a analogia daquilo que a história do homem designou realidade. O paisagista Claude Monet, com sua percepção inquieta, disseca as aparências e eterniza o instante refletido no seu jardim, pinta a descontinuidade do tempo. Picasso inventa imagens de múltiplos pontos de vistas, fragmentando a paisagem. Para Mondrian, a paisagem é uma combinação de horizontais e verticais, a depuração da composição. Apropriando-se de imagens e objetos, Duchamp reinventa a paisagem, com o riso e a reflexão. Pollock cria a paisagem americana, no ritmo gestual proporcionado pelo acaso da tinta atirada sobre a superfície da tela. Neste processo contínuo de desnaturalização do olhar, mudam-se a construção e a percepção das imagens.

 

 A paisagem não é a realidade que o sonho não apagou, ela é também construída de sonhos. “Antes de ser um espetáculo consciente, toda paisagem é uma experiência onírica” (Bachelard). Que seja figurativa ou abstrata, espontânea ou racional, ela é objeto do pensamento, é uma realidade semiológica, sujeita, portanto, a uma variedade de interpretações coerentes e incoerentes. A paisagem que o artista nos oferece é um espelho refletindo problemas para o olhar imaginar soluções possíveis, mas não definitivas. A pintura direcionou-se para a construção de um objeto plástico autônomo e universal e fez da paisagem um campo enigmático, como se ela fosse um lugar de pensamentos secretos.

 

 

 

 

 

 

ALMANDRADE (Antônio Luiz M. Andrade) é Artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano, poeta e professor de teoria da arte das oficinas de arte do Museu de Arte Moderna da Bahia e Palacete das Artes. Participou de várias mostras coletivas, entre elas: XII, XIII e XVI Bienal de São Paulo; "Em Busca da Essência" - mostra especial da XIX Bienal de São Paulo; IV Salão Nacional; Universo do Futebol (MAM/Rio); Feira Nacional(S.Paulo); II Salão Paulista, I Exposição Internacional de Escultura Efêmeras (Fortaleza); I Salão Baiano; II Salão Nacional; Menção honrosa no I Salão Estudantil em 1972. Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil e exterior. Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia que editou a revista "Semiótica" em 1974. Realizou mais de trinta exposições individuais em Salvador, Recife, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo entre 1975 e 2012; escreveu em vários jornais e revistas especializados sobre arte, arquitetura e urbanismo. Prêmios nos concursos de projetos para obras de artes plásticas do Museu de Arte Moderna da Bahia, 1981/82. Prêmio Fundarte no XXXIX Salão de Artes Plásticas de Pernambuco em 1986. Publicou os livros de poesias e/ou trabalhos visuais: "O Sacrifício do Sentido", "Obscuridades do Riso", "Poemas", "Suor Noturno" , "Arquitetura de Algodão", "Escritos sobre Arte" e "Malabarismo das Pedras" (poesia). Prêmio Copene de cultura e arte, 1997. Tem trabalhos em vários acervos particulares e públicos, como: Museu de Arte Moderna da Bahia, Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro), Museu da Cidade (Salvador), Museu Afro (são Paulo), Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Porto Alegre) e Pinacoteca Municipal de São Paulo. Retrospectiva Museu de Arte Moderna da Bahia, 2000. Exposição “pensamentos” no Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, participa de mostra de poesia visual brasileira no Mexic-Art Museum em Austin. exposição individual “Pequenos Formatos” na galeria ACBEU em Salvador, 2002. Esculturas, Instituto Goethe, Salvador, 2003. Pinturas, Hotel Sofitel, Costa do Sauípe – Ba., 2004. Instalação, Conjunto Cultural da Caixa , Arte Erótica , Escola de Belas Artes da UFBA.,Coordena Oficina Arte Cidade no Instituto Goethe, Salvador. Curadoria da mostra SSA 456 Galeria da Cidade, Salvador, 2005. Participa das exposições coletivas “Ode ao Dois de Julho”, Galeria da Cidade, “Modos de Ver e de Entender a Arte”, Museu de Arte da Bahia, Salvador, 2006. Entre 1986 e 1990, na Fundação Cultural do Estado da Bahia no Departamento de Museus e Artes Plásticas, exerceu os cargos de: Chefe de Divisão de Artes Plásticas e depois, Sub-gerente de Artes Plásticas. Participação como jurado em concursos públicos de artes plásticas, entre eles: Concurso de Decoração do Carnaval da Cidade do Salvador, 1980; Salão de Arte da Semana de Cultura do SESI, Salvador 1986; Comissão de Seleção dos Salões Regionais de Artes Plásticas da Bahia, Juazeiro 1997 e 1999; Júri de Seleção e Premiação da 1ª Bienal do Recôncavo, São Felix, 1991; Comissão de Seleção do Projetos Atos Visuais 2004-2005 da Funarte, Brasília, 2004. Comissão de Seleção Bolsas de Pesquisa em Crítica de Arte da Funarte, Rio de Janeiro, 2008. Exposição "A Arte de Almandrade", Centro Cultural da Caixa, Salvador 2009 e Centro Cultura da Caixa, São Paulo 2012. Exposição “Zona Tórida” , Centro Cultural Santander, Recefe 2012. “Economia da Montagem” - Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Porto Alegre 2012. Poemas Visuais e Instalação (individual) Casa das Rosas, São Paulo 2014. Solo SP-Arte 2015. 10ª Bienal do MERCOSUL – Porto Alegre – Rs. 3ª Bienal da Bahia. Solo ArteBa - Baró Galeria – Bienos Aires 2016. Pinturas, poemas visuais, instalações, desenhos, esculturas -Gabinete de Arte k2O - Brasília 2017 .

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Revista InComunidade, Edição de AGOSTO de 2017


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Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Summer Night (Inger on Shore)', 1889.


Paginação:

Nuno Baptista


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