ANO 4 Edição 59 - AGOSTO 2017 INÍCIO contactos

Alexandre Brandão


O que restou daquela compra antiga

Em 1990, logo depois do nascimento de meu filho mais velho, o João, Ollie Johnson trouxe dos Estados Unidos meu primeiro aparelho de reprodução de CD. Um dia antes da chegada de meu amigo americano, ao passar por uma loja em Copacabana, uma pequena, sem fama alguma, comprei dois “disquinhos” para estrear o som.


Um deles foi “Ballads”1, do John Coltrane, gravado em 1962, ano em que eu, lá no interior de Minas Gerais, aprendia a dar os primeiros passos. Não foi logo nas primeiras audições, mas muito depois, recentemente até, que, ao ouvir a interpretação vertiginosa e sensual do saxofonista, me dei conta de que ele me soprava uma história. No dia dessa descoberta, com Coltrane no fone de ouvido, eu corria pelo Aterro e, ao voltar a minha casa, fiz o primeiro esboço de “A trilha sonora de Bebel”, conto do meu livro “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014). No enredo, Bebel fantasia que é amante de Coltrane e o vê, de longe, sentado à sala, injetar-se uma dose de heroína para, em seguida, tocar “Say it (over and over again)”.


O outro foi “Olívia Byington e João Carlos Assis Brasil”2, disco no qual o piano dele e a voz dela passam, entre compositores estrangeiros, por Gershwin, Cole Porter, Debussy, Piaf e Kurt Weill e, entre nacionais, por Villa-Lobos e Dora Vasconcelos, Tom Jobim (com Chico, com Vinícius), Egberto Gismonti e Geraldo Carneiro, Vítor Assis Brasil, Cartola, Catulo da Paixão Cearense e Assis Valente. É um repertório e tanto, particularmente para um sujeito que, tropeçando na paternidade incipiente (e também insipiente), experimentava uma solidão diferente de tantas anteriores. Quem se torna pai talvez entenda o que estou tentando dizer e reconheça o lugar no qual eu entrava.


Esses dois discos rodaram no aparelho portátil até cansarem. E cansaram, ô, se cansaram, os CD eram caros, e a disputa com os mimos e necessidades do bebê colocavam a música em desvantagem. Eu ainda tinha vinis e os escutava bastante, mas o charme da nova tecnologia roubava-me para, hoje, Coltrane, amanhã, Assis Brasil e Byigton, depois de amanhã, novamente estes e, logo depois, aquele. A repetição dava-me segurança naquele momento em que meu mundo caía e minhas preocupações enfim voltavam-se para o futuro.


Paro, respiro e tento, contra a lógica que nos empurra a favor do tempo, voltar àqueles dias, não em busca da minha juventude, que já não era grande coisa, nem de outra materialidade. Gostaria apenas de encontrar-me com quem eu havia sido e que, embarcado na “Caravela”3, de Gismonti e Carneiro, ia se dando conta de que não seria nenhum Cabral a desbravar mares à procura de novas terras, nem Ulisses pronto a enfrentar monstros e deuses para, vitorioso, voltar à espera de Penélope. Nada disso. Naqueles dias, o pai de primeira viagem descobria o “exílio no coração”. Às vezes, bem, obrigado, noutras, nem tanto, continuo habitando esse exílio, ainda que eu já não seja mais o mesmo.

 

Notas

1 Para ouvir o disco, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=8rOMV0A5jd0.

2 Para ouvir o disco, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=3yYAV9qhLJU&list=PLrt7VbxNS8reQAq7o90-3j76EGJdE4rBM.

3 Para ouvir a música, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=vIsEwkADio4 .

 

Alexandre Brandão, contista e cronista brasileiro, é autor de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio), entre outros. Mantém o blog No Osso (noosso.blogspot.com.br).

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Paginação:

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