ANO 4 Edição 59 - AGOSTO 2017 INÍCIO contactos

Bruno Brum


Poemas

ANGU DA INFLUÊNCIA

 

rabelais não leu mishima kafka não leu drummond ovídio não leu flaubert heródoto não leu huidobro hölderlin não leu augusto dos anjos hesíodo não leu dante victor hugo não leu kerouac safo não leu camões rimbaud não leu borges zenão não leu torquato baudelaire não leu freud mallarmé não leu joyce homero não leu bashô pessoa não leu rosa sólon não leu petrônio shakespeare não leu maiakovski oswald não leu leminski confúcio não leu peirce odorico não leu haroldo apuleio não leu lautrèamont cruz e souza não leu burroughs gregório não leu pound

 

a vida é assim mesmo

 

 

 

DISCURO POR OCASIÃO DE UM CONGRESSO INTERNACIONAL DE PESSOAS JURÍDICAS


Nunca conversei com uma empresa.
As empresas estão sempre ocupadas e não costumam falar com estranhos.
Nunca trabalhei em uma empresa.
As empresas almoçam todos os dias no self-service mais próximo e falam diversas línguas com perfeição.
Nas empresas há pessoas que seguram copos de uísque como se segurassem caralhos.
Nas empresas há pessoas que se masturbam no banheiro no horário do almoço.
Trabalho na mesma empresa há muitos anos. Dormimos na mesma cama e todas as noites ela abre as pernas para mim.
As empresas estão sempre abertas e de bom humor.
As empresas sempre dizem bom dia, boa tarde, boa noite.
Há sempre muitas empresas à disposição quando preciso, por isso não me preocupo.
As empresas dizem todos os dias que não devo me preocupar, mas eu já não me preocupava bem antes de elas dizerem isso.
As empresas sabem todos os meus segredos, mas não os revelam a ninguém.
As empresas sempre sabem o que fazer em qualquer situação.
Por isso não me preocupo.
Há pessoas que insistem em discutir o sexo das empresas.
E também as que preferem não tocar no assunto.
Empresas nunca ficam sem assunto. São capazes de conversar durante horas sobre qualquer coisa.
Empresas nunca perdem o sentido ou a razão.
Empresas nunca se atrasam.
Todos sabem onde vivem as empresas. Elas estão sempre abertas e de bom humor.
Trabalho na mesma empresa há muitos anos e até hoje não sei o seu nome, função, razão social ou CNPJ, mas não a culpo por isso.
As empresas estão sempre ocupadas, todos os dias, incluindo finais de semana e feriados religiosos.
Empresas possuem bordões e usam sempre as mesmas fantasias, como os super-heróis.
Empresas acabam e recomeçam todos os dias, como as novelas e os seriados.
Trabalhei em uma empresa durante dezoito semanas e faltei todos os dias.
Eu sei como funcionam as empresas, mesmo sem nunca ter estado nelas.
Empresas sempre funcionam.
Há pessoas que se dedicam ao estudo do comportamento das empresas.
Há empresas que se destacam por apostar no potencial
das pessoas.
Geri diversas empresas imaginárias na infância. Nenhuma faliu.
As empresas podem ser de diversos tamanhos, como os cães, as pizzas e as estrelas.
Todos os dias acordo cedo e caminho até a porta de uma empresa, mas não entro.
Não tenho uma ideia clara do que possa ser uma empresa.
Algumas empresas se parecem com famílias.
Algumas famílias se parecem com empresas.
Especula-se a existência de empresas em outros planetas do Sistema Solar.
Estima-se que fóssil com idade aproximada de cinquenta mil anos possa pertencer à mais antiga empresa do mundo.
Empresas sempre dizem a verdade.
Empresas nunca se divertem.
Me lembro com nitidez da primeira vez em que conheci uma empresa.
Não costumo falar com empresas estranhas.
Nunca pisei em uma empresa.
Empresas não falam sozinhas.
Meu primeiro presente de aniversário foi uma empresa.
A maternidade onde nasci era na verdade uma empresa.
Algumas pessoas conversam com empresas como se fossem pessoas.
Algumas empresas conversam com pessoas como se fossem empresas.
Nunca conversei com uma empresa.
Nunca conversei com uma pessoa.

 

 

 

EQUILIBRANDO TAÇAS DE CHAMPANHE

 

Os colegas me parabenizam pela conquista.
Os vizinhos me parabenizam pela família.
Os médicos me parabenizam pela saúde.
Os clientes me parabenizam pela eficácia.
Os amigos me parabenizam pela lealdade.
Os bêbados me parabenizam pela escuta.
Os jovens me parabenizam pela graça.
Os estranhos me parabenizam pela gentileza.
Os vendedores me parabenizam pela escolha.
Os loucos me parabenizam pela cumplicidade.
Os políticos me parabenizam pela confiança.
Os policiais me parabenizam pela conduta.
Os sábios me parabenizam pela prudência.
Todos me parabenizam com vontade.

 

Muito obrigado.

 

 

 

EU NÃO SOU BOBO

 

Quantos likes merece esse lindo sorriso?
E essa foto com o pessoal da firma?
Esse domingo a dois no parque?
E essa notícia, quantos?
Esse filé ao molho poivre?
Essa geladeira nova?
Esse clima de romance?
Esse momento família?
Quantos vale meu cachorrinho?
Essa música que resume tudo?
Um passeio a  céu aberto?
E esse poema da Clarice Lispector?
Esse fim de semana na praia?
Essa determinação?
Essa atitude?
Essa alegria de viver?
Essa mensagem na camiseta?
Minha vida passada a limpo?
Quantos likes?
Quantos?
Deve valer alguma coisa.
É claro que deve.
Eu não sou bobo, neném.
Alguma coisa deve.

 

 

 

FELICIDADE ALHEIA

 

A felicidade alheia me fere.
A felicidade alheia me oprime.
A felicidade alheia me faz pensar em desistir.
Passo horas na internet, investigando até onde vai a felicidade alheia.
Passo horas sofrendo, lendo posts e mais posts.
Um sofrimento gostoso.
Um sofrimento justo.
Um sofrimento necessário.
Não sei o que seria de mim sem a felicidade alheia.
Às vezes quero dar fim a essa palhaçada,
mas a felicidade alheia me redime,
a felicidade alheia me alimenta,
a/ felicidade alheia me salva.
Só a felicidade alheia pode me salvar.
É o meu guia.
Minha única esperança.
Tenho raiva de tudo o que não seja a felicidade alheia.
Tenho muita raiva.
Você não faz ideia.

 

 

 

JOVEM

 

Jovem deixa óculos em museu
e visitantes pensam que é obra de arte.

 

Jovem deixa obra de arte em museu
e visitantes pensam que perderam os óculos.

 

Jovem recolhe óculos de museu
e visitantes pensam qualquer outra coisa.

 

Jovem, colabore.

 

 

 

MEDIDA


Vivo o que se pode chamar de uma vida média.
Na escola, sempre me esforcei para alcançar a média.
No trabalho, sempre fui um funcionário médio.
Meu desempenho nos esportes nunca excedeu a média.
Fui um marido médio, um amante médio, um filho médio.
Sou um sujeito de mentalidade mediana.
Com alguma sorte, me mantive na média.
Tenho um fôlego de alcance médio.
Fico constrangido com a possibilidade de ultrapassar a média.
Nunca esperei das pessoas nada além da média.
Penso o que pensa o brasileiro médio.
Antipatizo com aqueles que pairam acima da média.
Meus medos e receios sempre estiveram dentro da média.
Meus sonhos de consumo nunca fugiram à média.
Meus desejos e fantasias estão todos na média.
Os meus ossos, se bem organizados, caberiam numa caixa de tamanho médio.

 

 

 

MEU EX-CACHORRO


Meu ex-cachorro se parecia comigo.
E isso é tudo que posso dizer.
Ele se parecia comigo e eu não me parecia com ninguém.
Ou melhor, me parecia com ele.
Durante anos fomos felizes assim.
Mais que a ração sabor galinha com legumes,
nossa semelhança nos alimentava.
Nunca houve nada de errado nisso.
Uma dúvida sequer.
Por muito tempo essa semelhança
nos tornou um pouco melhores.
Ou simplesmente nos fez parecer
um pouco melhores, não importa.
O que importa é que meu ex-cachorro
já não se parece mais comigo.
E eu não me pareço mais com ninguém.

 

 

 

PERGUNTAS EM TORNO DE UMA FESTA

 

Imagine-se em uma festa, dançando.
A música é do tipo A, e você dança de um jeito do tipo B.
Você estará no ritmo?
Você estará na realidade da festa?
Os outros irão querer dançar com você?
Você acha que será respeitado?
Não seria melhor ir para uma outra festa?
Ou você preferiria um lugar com cinco tipos de música tocando ao mesmo tempo?
Ou ainda um lugar onde não haja música, dança ou pessoas?
Que tipo de festa você costuma frequentar?
Com que tipo de gente você costuma se envolver?
Você responderia a essas perguntas com convicção?
Tem uma opinião formada sobre o assunto?
Pagaria para ver até onde vai a curiosidade alheia?
Precisa de um tempo para pensar?

 

 

 

OS URSINHOS CABULOSOS I

 

Rebeca, a lesma lésbica, rabiscava azulejos como se riscasse o vento ou roubasse beijos. Rebeca, posto que lesmas não voam, namorava lesmas, gosmas, gafanhotos do alto da asa delta. Rebeca conheceu o sexo numa noite de champagne e champignon e, desde então, passou a distinguir o que é ruim do que é bom. Rebeca conheceu sonhos e desilusões da baixa madrugada; se drogava nas esquinas e voltava para casa. Rebeca, desde que lera Nietzsche, preferia mostarda a ketchup,
e jamais supunha que, mesmo sendo um tanto kitsch, tudo isso renderia a alcunha que persiste:
Rebeca, a beata beat.

 

 

 

O PORCOSSAURO

 

O porcossauro não está contente.
Precisa de novos amigos
e um novo lar.
Precisa se esforçar mais
e entender que nada na vida vem fácil.
O porcossauro caminha pela cidade observando os outros porcossauros
aparentemente mais felizes do que ele.
Sabe que é hora de mudança.
Mas mudar o quê? pergunta-se, angustiado.
Ninguém poderia estar mais triste.
Nem mesmo os porcossauros que não têm onde morar e o que comer.
Tudo depende de você, dizem os porcossauros felizes.
E isso só piora as coisas.
O porcossauro pensa na porcossaura e no porcossauro jr.
A angústia aumenta.
Não há para onde ir, conclui, atravessando a rua.
Não há por onde começar.
Mas deve haver um jeito.
Deve haver um jeito, resmunga.
Ou não me chamo porcossauro.

 

 

 

GUIA PRÁTICO DOS SOFREDORES ANÔNIMOS

 

Hoje nós vamos sofrer.
Só por hoje vamos sofrer.
Sofrer tudo de uma vez.
Tudo o que há para sofrer.
Vamos sofrer calados.
Vamos sofrer cantando.
Tudo de uma só vez.
Do jeito que der para sofrer.
Sem ressalvas.
Sem reservas.
Sem esquemas.
Sofrer apenas.
Sofrer de olhos abertos.
Sofrer sem sentir pena.
Toda dor será bem-vinda.
Abriremos as feridas.
Toda chaga, toda mágoa.
Só por hoje vamos sofrer.
Sem saber onde.
Sem saber como.
Sem nem querer saber.
Sofrer de braços abertos.
Até não mais poder.
Sofrer sem dizer nada.
Tudo o que há para sofrer.

 

 

 

MINHA AMARGURA

 

Minha amargura é antiga, veio ao mundo bem antes de mim.
Minha amargura esteve em muitos lugares e conheceu muitas pessoas.
Minha amargura é alegre e gosta de jogar conversa fora.
Minha amargura é descolada e faz sucesso na internet.
Minha amargura por anos andou sozinha em busca de um grande amor.
Minha amargura às vezes enche a cara pensando em comer alguém.
Minha amargura de madrugada manda mensagens para números desconhecidos.
Minha amargura aborda estranhos na rua e conta sempre a mesma história.
Minha amargura me afasta dos meus amigos e me enche de culpa.
Minha amargura fala com as paredes e não me deixa em paz.
Minha amargura sabe que um dia isso acaba.
Minha amargura sabe que enquanto esse dia não chega tudo tende a piorar.
Minha amargura diz com frequência que devo manter a calma.
Minha amargura insiste que tenho me aborrecido demais.
Minha amargura me preocupa toda vez que some por um tempo.
Minha amargura nunca chegou atrasada a um encontro.
Minha amargura sabe o que quer.
Minha amargura quer me matar.
Minha amargura quer me matar, mas, por pirraça, não mata.
Vivo dizendo para minha amargura:
Enfia logo essa faca no meu bucho
e faz um torresmo bem gostoso pra gente comer.

 

 

 

SEM NINGUÉM POR PERTO

 

Admiro as plantas que vivem neste apartamento.
Sem água fresca, cortinas fechadas, pouca conversa.
Respeito estas plantas: pequenas, robustas, teimosas.
Sem ninguém por perto quando o sol castiga.
Sem quem abra a janela para entrar a brisa.
Sobre a mesa da sala, no banheiro, na varanda.
Em silêncio, orgulhosas.
Não morreriam a troco de nada.

 

 

 

É PRECISO

 

É preciso muita garra e determinação para alcançar o topo.
É preciso muita garra e determinação para alcançar o.
É preciso muita garra e determinação para alcançar.
É preciso muita garra e determinação para.
Enfim, vocês entenderam.

 

Bruno Brum nasceu em Belo Horizonte, em janeiro de 1981, e atualmente vive em São Paulo. É poeta e designer gráfico. Publicou os livros Mínima ideia (2004), Cada (2007) Mastodontes na sala de espera (2011, vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2010, na categoria poesia) e 20 sucessos (2016, em parceria com Fabiano Calixto). É o idealizador e um dos curadores, ao lado de Ana Elisa Ribeiro, da Coleção Leve um Livro.

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Revista InComunidade, Edição de AGOSTO de 2017


FICHA TÉCNICA


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Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Prior, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de AGOSTO de 2017:

Henrique Prior, Alexandre Brandão, Almandrade, Bruno Brum, Caio Junqueira Maciel, Carlos Barbarito, Carlos Orfeu, Cecília Barreira, Denise Bottmann, Fabrício Brandão, Filipe Papança, Flávia Fernanda Cunha, Flávio Otávio Ferreira, Geraldo Lima, Helena Mendes Pereira, Henrique Dória, José Gil, Jussara Salazar, Lisa Alves, Lyslei Nascimento; Afonso Borges, Maria Toscano, Marinho Lopes, Miguel M. T., Moisés Cárdenas ; Gabriela Tamargo, Myrian Naves; Alberto Pucheu, Nilo da Silva Lima, Ricardo Ramos Filho, Rodrigo Vivas, Domingos Mazzilli, Ronald Augusto, Rosana Mont’Alverne, Rubens Zárate, Sandra Poulson, Vinícius Lima, Viviane de Santana Paulo


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Summer Night (Inger on Shore)', 1889.


Paginação:

Nuno Baptista


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