ANO 4 Edição 59 - AGOSTO 2017 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


Tédio e descrença em Manuel Laranjeira

"Eu sou um filho deste século, deste século de tristeza,
de ansiedades impossíveis de satisfazer - de tédio, em
suma. O espírito do homem contemporâneo voou
muito alto, a uma altura em que o coração humano
não pode atingir. O resultado é o homem pedir (exigir1
é que é) à vida coisas que ela não pode dar ...”2

 

Manuel Laranjeira, «Cartas» (a Amadeo de
Souza-Cardoso, 24 de Dezembro de 1905),
Lisboa, Portugália, 1943, pp. 72-73.

 

Tédio e descrença, mais do que estados de espírito mórbidos, filiados num subjectivíssimo modo de sentir e de estar no mundo, plasmam-se, ao longo da obra de Manuel de Laranjeira, enquanto símbolos inquietantes, secretos e insondáveis de uma geração finissecular em desequilíbrio em face de padrões, hábitos, estéticas, rumos e ideias até aí aceites. Nas raízes desta subversão de ordem espiritual - a que não raro (e o caso de Manuel de Laranjeira no-lo confirma plenamente) se associa um pendor para a neurastenia, a misantropia, a náusea, a procura de isolamento - encontra-se o permanente questionar, o constante pôr em causa de uma concepção liberal/burguesa de arte, de política, de poder e, a um nível mais alto, de Ser - esse vasto e inexpugnável território que nos perturba e confunde.


Zeev Sternhell, quando se debruçou sobre Maurice Barrès et le Nationalisme Français, procurou sondar o ambiente mental que impregnara e estivera na base da intelectualidade francesa de finais do século. Chegando à conclusão de que "homens provindos dos horizontes mais diversificados das disciplinas mais afastadas, contribuem para formular uma mesma ideologia1», o autor converge num ponto que ora me preocupa nestas linhas: a consciência possível que rodeou Laranjeira e lhe forjou um modo de inteligir o real.
Independentemente de trilhos políticos, o fim do século é sensível ao sentimento de decadência. A Europa transpirava um clima emocional que batia descompassadamente ao ritmo das leituras de Nietzsche, Dostoiewski, Schopenhauer, caucionando um espírito agressivo, irrompendo pelo demiúrgico e pelo inconsciente, esboroando certezas da «boa consciência burguesa» até aí consideradas intocáveis.
Portugal não fugia à regra europeia. Joel Serrão referencia a propósito: «Se bem nos parece, é neste conspecto a um tempo de crepúsculo e de aurora, que Zaratustra, o solitário profeta da morte dos deuses e do advento do super-hornern, conquista um discípulo em Manuel Laranjeira2.»


Indo ao encontro da ideia exprimida, parece-me de todo crucial associar o binómio nietzschiano «elite»/multidão com a bipolaridade minorias/maiorias em Laranjeira. É este último que nos devolve implicitamente um significado para os antinómios:


«A razão das maiorias é uma força conservadora, a razão dos homens superiores é uma força criadora. As maiorias são a estabilidade, o homem superior é o perpetuum mobile do progresso3.» Em Manuel Laranjeira, o conceito de maioria/minoria reverte para uma significação política: conservadorismo por oposição a progressismo. E o super-hornem? Em meu entender, este ser superior, «o embrião, a síntese individual de uma época futura», de que Laranjeira nos fala, encarna não ainda o super-homem pessoano, técnico e mecanizado, mas o indivíduo que superou a suprema conflitualidade, a mais inquietante das encruzilhadas, o mais hamletiano dos desencontros: o imbróglio Crença-Descrença. Impossibilidade simultânea de crer no verdadeiro e de usufruir a felicidade, a Descrença em Laranjeira ultrapassa o espaço da dúvida ou a reacção meramente revoltada: a Descrença é o esvaziamento total perante a constatação do Nada. O Tédio traduz o sentimento físico e psicológico da Descrença, a sua vibração orgânica. Situo, portanto, a dois níveis distintos estes dois conceitos. Mas ambos se decorrem mutuamente, ambos se diluem na mesma conflitualidade matricial: o que é verdadeiro e o que é falso.

 

Leiam-se alguns versos de Comigo. Sondemo-los:

 

Mas ouve, alma; p' ra viver
e ser feliz é preciso
fitar a menina e crer
como alguém que sem Juízo
olha p'ra terra e a vê
convertida em paraíso4

 

E mais adiante:

 

Fé na vida não a tenho,
Viver sem fé é viver
a morte ... - e eu já morto venho.

 

Bem sabes: crer ou não crer
- eis o dilema, o segredo
de viver ou de morrer.

 

Vida de luta é um credo
rezado em actos; e a vida,
sem fé, é um degredo.

 

Crer - é a arma de quem lida,
e o segredo que a alma tem
para nunca ser vencida5

 

Trata-se do perpétuo desenlace entre a crença que, na sua irresponsabilidade, na sua cegueira acrítica, não enfrenta o significado da verdade - qual alegoria da caverna onde os prisioneiros, privados da luz do Sol e, como tal, do conhecimento das coisas, tomam pela realidade as suas próprias sombras projectadas na parede - e a descrença, amarga e lúcida (amarga porque lúcida), sobretudo renúncia: renúncia à mentira e à ilusão.


Ora uma outra conclusão se me constata lendo atentamente Comigo ou mesmo folheando essas páginas terríveis e angustiantes que compõem o Diário Intimo: é que a ideia de destino, de fatalidade, submerge, quase ciclicamente, a dialéctica crença/descrença. É preciso relembrar, com um carácter obsessivo e masoquista, que nada poderá transformar a dissolução e a agonia presentes. Onde, afinal, a força, a inquebrantável superioridade do homem «minoritário»? Que essa superioridade se projecta num futuro sem onde nem quando, é algo que se subentende, se intui:

 

Pobre alma desiludida,
teu mal é não esquecer
que tudo falha na vida...6
(...)
Cheia de tédio e pesar.
responde minh' alma triste:

    2O remédio é naufragar.'

 

Perdida a fé que consiste
em deixar-me adormecer
Na ilusão de quanto existe,

 

o desejo de viver
já não tem asas; e a vida
dá vontade de morrer 7

 

Deus não representa senão um imenso território de vazio e impotência. A morte, neste entrecho, resume a felicidade sonegada e/ou adiada, embora não conduza a nenhuma imortalidade, a nenhum paraíso, a nenhuma ordem transterrena.


Viver para o Nada: eis o drama de (em) Manuel Laranjeira. E as páginas do diário, patologicamente imprevisíveis e violentas, habilitam-nos a uma convivência mais aproximada e íntima com o tédio do autor. Abro o livro ao acaso. Encontro uma frase solta:
«De facto a O. ficou perto de nós, é possível que eu a fitasse muito - mas sem a ver. Eu via-me unicamente a mim e ao meu aborrecimento8


Ainda outra passagem: «Tenho a impressão que entre nós, Augusta, se está levantando uma muralha negra (... ). A pobre rapariga tem uma expressão morena e fatigada de quem se habituou a este amor, de quem gastou a sensibilidade nele e sobretudo de quem chegou ao tédio pelo caminho do gozo: O enfado da saciedade9


Um único caminho se abre a um Manuel Laranjeira só e atormentado, afligido pela tuberculose. A última página do diário mostra-se concludente e definitiva, na precaridade das palavras: «( ... ) o melhor é partir desiludido sem saudades!10»


O suicídio restabelecia uma saída possível. A fundamentar o teor profético das palavras de Unamuno: «Portugal es un pueblo de suicidas, (... ).» E, no entretanto, que era feito da geração que com ele participou e viveu os mesmos ideais, sentimentos, leituras e quebrantos? Curiosamente, alguns dos mais íntimos amigos (lembro-me de Teixeira de Pascoaes, por exemplo), tentariam o renascimento cultural de um país recém-baptizado na República. A Renascença Portuguesa e, mais objectivamente, o Saudosismo representam a face mais crepuscular, mais sadia e luminosa dessa consciência possível «fin de siècle», de que, porventura, Manuel de Laranjeira continuará a preencher, em terras lusas, o exemplo mais nocturno, a dimensão mais trágica, a vivência mais frustrante.

 

NOTAS

 

1Zeev Sternhell, Maurice Barrès et le Nationalisme Français , Paris. Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques, 1972, p. 18.

2Joel Serrão «As Raizes do Tédio em Manuel Laranjeira», in Temas Oitocentistas (II) Para a Historia de Portugal no Século Passado, Lisboa, Portugália, 1962, p. 219.

3Manuel Laranjeira, Prosas Perdidas, Lisboa. Portugália, 1958, p. 242.

4Manuel Laranjeira, Comigo: versos d'um solitário , Porto. 1912. p. 5.

5ld., op. cit .. ,p. 16.

6ld., op. cit .. ,p. 5.

7ld., op. cit .. ,p. 11.

8Manuel Laranjeira, Diário Íntimo, Lisboa, Portugália. 1957. p. 162.

9Id.. op. cit .. p. 140.

10Id., op. cit .. ,p.  177.

Cecília Barreira – CHAM/FCSH

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