ANO 4 Edição 59 - AGOSTO 2017 INÍCIO contactos

Denise Bottmann


ECOS DE PORTUGAL NO BRASIL IV

Encerrando nossa sequência sobre algumas contrafações de traduções portuguesas em editoras brasileiras, vamos à nossa última crônica sobre o tema.

 

I.

 

O pato selvagem e o pato doméstico, outrora pertencentes à ordem dos anseriformes e à família dos anatidae, a partir do começo do século XX sofreram uma curiosa mutação em Portugal e passaram a pertencer à ordem dos passeriformes e à família dos fringillidae.

 

É o que nos atesta o médico e professor português Joaquim da Mesquita Paúl (1875-1946), que em 1913 teve sua tradução – a primeira em terras lusitanas – do opus magnum de Darwin, A origem das espécies, publicada pela Livraria Chardron, Lello & Irmão Editores, da cidade do Porto.

 

 

Nessa ocasião Paúl corrige Darwin e explica que não são os anatídeos, e sim os fringilídeos que sofreram modificações anatômicas por questões de adaptação ambiental:

 

 

A tradução do dr. Paúl se consagrou tanto que até hoje, passados mais de cem anos desde seu primeiro lançamento, ela continua em viçosa circulação em Portugal, com inúmeras reedições, a mais recente saída ainda neste ano de 2017.

 

Bom, deixando de lado a facécia, é mais do que evidente a fonte do equívoco do tradutor Joaquim da Mesquita Paúl: valeu-se ele não do original em inglês e sim de uma versão francesa. Num lapso, fosse por distração ou talvez não suficiente familiaridade com o francês, Paúl tomou pato por canário. É o que se evidencia ao acompanharmos o trajeto que parte do original de Darwin, passa pela tradução francesa de Edmond Barbier, de 1876, e chega ao texto em português de Joaquim da Mesquita Paúl:

 

Edmond Barbier (1876, aqui na edição da Schleicher Frères, de 1906):
Le changement des habitudes produit des effets héréditaires ; on pourrait citer, par exemple, l’époque de la floraison des plantes transportées d’un climat dans un autre. Chez les animaux, l’usage ou le non-usage des parties a une influence plus considérable encore. Ainsi, proportionnellement au reste du squelette, les os de l’aile pèsent moins et les os de la cuisse pèsent plus chez le canard domestique que chez le canard sauvage. Or, on peut incontestablement attribuer ce changement à ce que le canard domestique vole moins et marche plus que le canard sauvage.

 

Joaquim da Mesquita Paúl (1913):
A mudança dos hábitos produz efeitos hereditários; poderia citar-se, por exemplo, a época da floração das plantas transportadas de um clima para outro. Nos animais, o uso ou não uso das partes tem uma influência mais considerável ainda. Assim, proporcionalmente ao resto do esqueleto, os ossos da asa pesam menos e os ossos da coxa pesam mais no canário doméstico que no canário selvagem. Ora, pode incontestavelmente atribuir-se esta alteração a que o canário doméstico voa menos e marcha mais que o canário selvagem.

 

Tais lapsos são risíveis, mas acontecem. O que nos interessa aqui é que o canário paulense veio cantar também em terra brasilis – e aí não por lapso, descuido ou ignorância, mas por má-fé mesmo.

 

Vejamos, pois.

 

II.

 

Darwin chegou ao Brasil em 1933 com A descendência do homem e a seleção sexual, em tradução de Zoran Ninitch, pela Livraria Editora Marisa. A origem das espécies, porém, foi lançada somente em 1979, por uma editora de São Paulo, chamada Hemus. A tradução vinha assinada por Eduardo Nunes Fonseca, frequente colaborador da casa. Conheço algumas traduções honestas dele, mas conheço também algumas em seu nome que são francamente desonestas. É o caso d’A origem das espécies, cópia da provecta tradução de Joaquim da Mesquita Paúl, trazendo aqui e ali algumas escassas alterações superficiais.
         

Infelizmente, essa tradução em nome de Eduardo [Nunes] Fonseca tem-se demonstrado bastante longeva, inclusive tendo a desfaçatez de licenciá-la para outras editoras:

 

- Hemus, desde 1979 até hoje, como selo da Leopardo, em inúmeras reedições;

 

- Ediouro (licenciamento), em várias reedições desde 1987 até 2011, quando foi retirada de circulação;

 

-Hemus/Novo Século, 2000 e 2002;

 

- Leopardo/Hemus, desde 2009;

 

Coleção Folha  (licenciamento), 2010, em altíssima tiragem para venda em bancas de jornais.

 

Além dessa longa permanência brasileira sob o nome de Eduardo [Nunes] Fonseca, a provecta tradução de Joaquim da Mesquita Paúl também sofreu apropriações indevidas às mãos da editora Madras, desde 2004 até 2009, quando foi retirada de circulação, e da editora Martin Claret, desde 2001 até data recente, com várias reedições. A primeira havia atribuído a autoria da tradução ao nome de uma funcionária da empresa, ao passo que a segunda preferiu inventar um nome de circunstância, “John Green”. Nesse caso da Martin Claret, trata-se, aliás, de uma dupla apropriação: a editora coseu trechos da referida tradução de Paúl com trechos de uma boa e legítima tradução brasileira, de Eugênio Amado (Itatiaia/EdUSP, 1985), construindo um espúrio espantalhozinho. 

 

 

Por aqui encerramos nosso passeio entre as galerias tradutórias brasileiras ressoantes de ecos portugueses. Espero que tenham apreciado!

 

 

Denise Botman nasceu em Curitiba em 1954. Formada em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR,1981). Mestre em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 1985). Doutorado inconcluso em Filosofia (UNICAMP). Tem experiência na área de docência e pesquisa em História e Epistemologia das Ciências Humanas. Atua na área de tradução de obras de literatura e humanidades desde 1984. Atualmente dedica-se a atividades de tradução e pesquisas sobre a história da tradução no Brasil. 

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Revista InComunidade, Edição de AGOSTO de 2017


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Paginação:

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