ANO 4 Edição 59 - AGOSTO 2017 INÍCIO contactos

Fabrício Brandão


Um pulsar de consciências

 

Que jamais o instrumento domine o homem. Que cesse para sempre a servidão do homem pelo homem. Ou seja, de mim por um outro. Que me seja permitido descobrir e querer bem ao homem, onde quer que ele se encontre.

 

Frantz Fanon

 

O que se espera de uma obra literária? Que nos apresente as imensuráveis possibilidades da palavra? Que coadune domínios técnicos da escrita com as perspectivas veementes de alguma mensagem textual? Que nos guie por territórios tão nossos em matéria de vida?

 

Estas primeiras indagações talvez povoem com certa frequência as mentes de criadores e leitores. Quiçá sirvam de guia num aspecto marcantemente pessoal: a busca pela compreensão de um texto. Falemos, pois, da palavra compreensão como uma reunião de percursos consolidados pela experiência humana nos seus mais variados níveis. Aquele que se debruça por sobre as possibilidades do verbo, além de carregar em si seus modos peculiares de ver o mundo, intenta também algum entendimento sobre a voz que emana do outro.

 

O fazer literário apresenta seus trunfos quando nos faz entrever aquilo que, mesmo não sendo parte de nossos domínios pessoais, é capaz de projetar nossas visões rumo ao encontro da expressão alheia. Ao fim e ao cabo, surge dessa relação de aproximação algo que pode ultrapassar a fronteira do estranhamento. Então, por que não pensar que ler o outro, com toda a carga de diferença que isso possa representar, não signifique ler a si mesmo? O que faz de nós tão diferentes que não possamos compartilhar o solo comum das vivências?

 

Há quem diga que a palavra liberta. Tal assertiva parece ser válida na medida em que nos deparamos com obras que ousam tentar romper os grilhões de nossas mentes. Afastando qualquer banal acepção do termo libertação, podemos ter em conta que A oração do carrasco (Ed. Mondrongo), livro de contos de Itamar Vieira Junior, assume a condição de ser uma obra alargadora dos horizontes da consciência nas suas mais distintas faces. 

 

O fato é que estamos diante de sete histórias que compõem um denso e plural painel da existência. Em Itamar, o ato de existir vem imbuído de um exercício crítico e consciente do que significa fazer parte de um mundo que ainda não oferece a igualdade entre os homens como sendo algo perene e pacificado. Assim, irrompe uma escritura que é atestadora de uma paisagem humana ainda bem distante de um ideal de harmonia. 

 

O percurso do leitor pelo novo rebento literário de Itamar Vieira Junior evidencia que as marcas da desigualdade, além de fazerem parte de certos contextos socioculturais, revelam seu caráter de perpetuação na história humana. Daí, a necessidade de conferir importância à questão das identidades, de dar voz e relevância a figuras tradicionalmente postas à margem. Eis o redimensionamento de papéis sociais proporcionado pela verve criativa do autor em questão.

 

No conto que abre o livro, intitulado Alma, percebemos a trajetória de uma mulher negra em meio às duras memórias de um flagelo racial, o da escravidão e seus reflexos. Aqui, chama a atenção o ritmo narrativo conferido pelo autor ao texto no sentido de promover uma condução quase ininterrupta dos fluxos de consciência de sua personagem. Desse modo, uma espécie de saga da protagonista desenrola-se intensamente sob o ponto de vista da valorização dos relatos, pois sabemos das origens daquela mulher, bem como dos comandos que ela tenta empreender no sentido de domar seu destino.

 

Como contraponto aos laços opressores que a inferiorizam enquanto ser humano, Alma é alguém que ousa idealizar um novo lugar para viver, uma terra prometida na via da projeção, ambiente possível de existir num contexto idealizado de felicidade a carregar também um componente místico encorajador.  Neste aspecto, e guardadas as devidas distinções, o conto inicial do livro assemelha-se em parte à trajetória da personagem Lídia, presente em Estação das Chuvas, romance do angolano José Eduardo Agualusa. Em ambos os casos, importa saber que estas mulheres se aproximam pela condição de conferirem um sentido ressignificado de apropriação das suas existências, a ponto de modificarem um destino antes fadado à perpetuação das dominações que lhes eram impostas. Nesta cruel travessia, há que se enfrentar ainda o jugo cultural que expande o abismo entre o colonizado e seu colonizador.

 

Ainda para repensarmos as tensões historicamente travadas a ferro e fogo no quesito da dominação do homem sobre o homem, tomemos o conto Meu mar (fé). Nele, Itamar desloca suas atenções para a visão de uma refugiada de Dakar, Senegal, que, após uma indigna e desumana travessia oceânica, forçosamente repousa suas esperanças em terras brasileiras contemporâneas, mais precisamente na Bahia. A partir daí, notamos uma dolorosa construção do pertencimento em face de uma nova realidade de vida, situada num ambiente que não contempla escolhas sob o ponto de vista afetivo. Ao lidar com a mudança, a protagonista retrata, em primeira pessoa, uma rotina permeada pelas tensões sociais derivadas, sobretudo, do papel no negro na sociedade brasileira, dos reflexos da escravidão e dos ranços derivados de uma outrora dominação colonial. E para suportar o fardo da nova condição, a personagem trava uma interlocução imaginária com a figura do marido, de quem há tempos não tem notícias. Desejosa pelo reencontro, ela vê nisso um ponto de apoio para manter-se ainda viva e atravessando os dias.

 

Itamar parece trazer à baila uma curiosa provocação quando estabelece uma ponte entre dois países marcados pela colonização. Qual seria, então, o real propósito de fazer com que uma senegalesa buscasse abrigo nas paragens brasileiras? De imediato, não é relevante investigar a questão da intencionalidade do autor. Importa registrar que há diálogos possíveis nas duas experiências testemunhadas pelas nações aqui envolvidas, mas impende também ressaltar que os processos de dominação também assinalam suas diferenças fundamentais. 

 

Em Doramar ou A odisseia, que, segundo o autor, traz uma pequena influência de Clarice Lispector, notamos o quanto a ideia da finitude ainda figura como algo difícil de ser digerido por nós mortais. Doramar personifica a tentativa de libertação das dores e, envolta em lembranças, intenta fugir dos desatinos que a perseguem ao longo dos anos. O moribundo cão da personagem é uma espécie de metáfora intermitente da morte e, como num vaivém de sensações, afigura-se presente a cada movimento que ela investe no intuito de negar o inevitável caminho da mortalidade. Diante de tamanho encargo, cabe questionar quais percursos empreendemos na vã tentativa de nos livrarmos dos espinhos em vida.

 

No conto A floresta do adeus, predominam as reflexões sobre a passagem do tempo, um compartilhar de vivências familiares sugerindo alguma nostalgia no cerne de uma memória afetiva que, num período de duras restrições da vida civil, se insurge contra a opacidade da existência. Paralelamente, Itamar investe aqui na construção de um lugar de fala que contempla o universo feminino, pontuando dores, conquistas, resignações e marcas temporais.

 

A narrativa que deu nome ao livro conta a história de um carrasco submetido a sucessivos exames de consciência no que tange a seu ingrato ofício. Mas não é só isso. Itamar torna esse personagem, a partir de seu contexto de vida, um digno pretexto para argumentar sobre algo maior, qual seja as sentenças punitivas que impomos a nós e aos outros. No decorrer do conto, seu autor vai enumerando, de modo bastante sugestivo e sem mencionar nomes, vítimas que foram acometidas pelas atrocidades tanto da nossa história nacional quanto internacional. Sob o manto sutil da realidade, vemos também desfilar ante nossos olhos as ações de algozes que ceifaram vidas, seja aniquilando-as por completo ou deixando profundas cicatrizes na alma de seus sentenciados. 

 

A oração do carrasco não é uma obra que esgota possibilidades discursivas trazidas à tona em razão das temáticas evocadas. Há sempre espaço para mais vias de interpretação. A habilidade de Itamar Vieira Junior em construir histórias que se comprometem em evidenciar o delicado debate sobre assuntos tão caros à humanidade constitui um aspecto bastante positivo. Aqui, a experiência de leitura é um trajeto guiado pelas mãos da ficção, mas muito bem arregimentado por recortes plausíveis de uma lúcida e nem sempre grata realidade. Ao término dessa trilha de palavras, desconfiamos que não há quem passe impune pela vida, por menor que seja o equívoco cometido ou a virtude professada.

 

 

Fabrício Brandão é editor da revista cultural eletrônica “Diversos Afins”. Tem poemas e contos publicados em livro, uma verdadeira adoração por música e cinema e, atualmente, dedica-se a um mestrado em Letras pela Universidade Estadual de Santa Cruz.

www.diversosafins.com.br

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