ANO 4 Edição 59 - AGOSTO 2017 INÍCIO contactos

Filipe Papança


A matemática, a ciência e a vida militar na poesia de Bocage

(Setúbal - casa onde viveu Bocage pintada por Alberto de Sousa)

 

Este texto é escrito tendo como base a poesia de Bocage, o livro Eternamente Bocage de Maria de Deus Melo e o meu trabalho de Investigação que inclui a minha Tese de Doutoramento A Matemática, a Estatística e o Ensino nos Estabelecimentos de Formação de Oficiais do Exército Português no Período 1837-1926: Uma Caracterização.

 

Bocage, o grande poeta popular! Nenhum como ele retratou os sentimentos, a alma de uma nação. Recordo-me  de ouvir a minha avó paterna Evangelina Rosa Lopes recitar de cor os seus versos.

 

Ex-libris da cidade de Setúbal onde se situa a sua casa e estátua, encontra-se hoje, infelizmente, um tanto esquecido, permanece, no entanto, no coração dos Sadinos. Maria de Deus Melo, em boa hora, por ocasião do bicentenário da sua morte, propõe-se fazê-lo reviver através da sua poesia:

 

Na tua desventura só o amor
Foi a razão da tua vida amargurada,
Elmano, poeta do povo, morreu sem nada,
Espalhando pelo mundo a sua dor!

 

Pela sua mão regressa, em boa hora ao nosso convívio!

 

Boémio, frequentador de cafés, especialmente do Nicola, de botequins como o das Parras, salões, tertúlias literárias, com especial destaque para a Nova Arcádia, onde adopta o pseudónimo de Elmano Sadino, recebeu formação militar, tendo frequentado a Academia Real de Marinha1, a Academia dos Guardas-Marinhas2 e humanística na Aula Régia do padre espanhol D. João de Medina. Sua tia-avó Marie Anne le Page du Bocage era uma ilustre escritora e tradutora3. Estes aspectos marcarão para sempre a sua poesia.
Nutria admiração pelos grandes pensadores, integrados nas mais marcantes correntes científicas e filosóficas:

 

      Enquanto o sábio arreiga o pensamento
      Nos fenómenos teus, ó Natureza,
      Ou solta árduo problema, ou sobre a mesa
      Volve o sutil geométrico instrumento;

 

      Enquanto, alçando a mais o entendimento,
      Estuda os vastos céus, e com certeza
      Reconhece dos astros a grandeza,
      A distância, o lugar e o movimento; ()

 

Na sua época, a filosofia florescia graças a vultos como Voltaire, Rousseau, o enciclopedismo, inspirado por D´Alembert4, a Química, fruto das experiências de Lavoisier, igualmente a Matemática, com a  recente descoberta do Cálculo Infinitesimal, em relação ao qual Newton e Leibniz tiveram um papel decisivo. A astronomia rasga novos horizontes, regista importantes avanços com a introdução da trigonometria esférica. Descobrem-se astros desconhecidos, com base no cálculo da declinação5, estudam-se a localização e as órbitas dos cometas, procura-se prever os eclipses. Em Portugal, José Anastácio da Cunha6 (Matemático e poeta), Monteiro da Rocha  (Matemático e Astrónomo, autor de revolucionários tratados nesta área - Sistema Físico Matemático dos Cometas e Memoires d`Astronomie Pratique), personificam este movimento. Estes  aspectos são explorados metaforicamente, de uma forma divertida e original na sátira a Filinto :

 

(...)Nariz, nariz e nariz,
        Nariz, que nunca se acaba,
        Nariz, que se ele desaba
        Fará o mundo infeliz;
        Nariz, que Newton não quis
        Descrever-lhe a diagonal;
        Nariz de massa infernal,
        Que, se o cálculo não erra,
        Posto entre o Sol e a Terra
        Faria eclipse total! (…)


       
No plano político, sopram os ventos de liberdade, em oposição ao despotismo, inspirados pelos ideais da Revolução Francesa, num convite à alteração da ordem instituída:

 

Liberdade querida e suspirada,
Que o despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena
Que o sereno clarão da madrugada! (…)

 

Bocage, alma inquieta e espírito livre como Anastácio, viria igualmente a ser perseguido acabando à imagem deste nos cárceres da inquisição, tendo estado preso igualmente no Limoeiro. Na base de tudo isto teria estado o célebre poema, a Marília, em que nos dá conta de todos estes aspectos:

 

Pavorosa ilusão da Eternidade,
Terror dos vivos, cárcere dos mortos;
D´almas vãs sonho vão, chamado Inferno,
Sistema da política opressora,
Freio que a mão dos déspotas, dos bonzos,
Forjou para boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arreigas
Nos ternos corações, e paz arrancas; (…)

 

Este aspecto é magistralmente realçado por Maria de Deus Melo no seu poema Bocage na prisão e no Claustro:

 

         Foste perseguido e preso impunemente
         Porque te acusava a política e a religião,
         De seres um libertino, que nada sente,
         Onde tinhas a alma pura e o coração!(…)

 

O seu lado satírico a que não escaparam os seus próprios companheiros da Nova Arcádia, converte-se numa fonte de novos inimigos, alguns dos quais se reconciliou à hora da morte, terá desempenhado igualmente o seu papel na sua tragédia, como nos relata a autora:


         
          Se tantos  inimigos tu tiveste
          Perseguindo a tua vida atribulada,
          E com os teus poemas todos venceste
         Porque eles, na sua poesia, nunca foram nada!

 

Nele esteve sempre presente um aceso conflito entre a razão e o amor vivido com paixão, fruto de um espírito inquieto:

 

Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz que em vão murmura,
Se a lei de Amor, se a força da ternura
Nem domas, nem contrastes, nem mitigas.

 

Se acusas os mortais, e não os obrigas,
Se (conhecendo o mal) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura;
Importuna Razão, não me persigas.(…)

 

Finalmente parece surgir uma certa conciliação, como deixa transparecer no poema erótico Cartas de Olinda a Alzira:

 

       (…) Se existe um Deus, a Natureza o of´rece:
             Tudo o que é contra ela é ofendê-lo.
             A sólida moral não necessita
             De apoios vãos; seu trono assenta em bases
             Que firmam a Razão e a Natureza. (…)

 

Fruto desta reconciliação a imagem de um Deus teísta, à boa maneira dos filósofos cede lugar a um Deus presente, citando em sua poesia a passagem do evangelho segundo S. Mateus: “O meu jugo é suave e a minha carga é leve”. É fim duma penosa luta, o poeta pode finalmente descansar!

 

Seus amores, suas inúmeras paixões: Marília, Marfida Gertrúria, Anália, Armia, Alcina, Anarda, Alzira, Jónia … são mais um reflexo duma alma que preferia o culto das musas ao das ciências naturais, como o salienta a poetisa em A ti Bocage :

 

Se te fiaste em sorrisos de ventura
Em carícias de mulheres, como foste louco,
Porque o prazer da carne é tão pouco
Que se apaga num momento e pouco dura.(…)   

 

Paixão essa que para ser vivida tem que ser intensa …

 

A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva ao grau supremo;
Paixão requer paixão, fervor e extremo;
Com extremo e favor se recompensa.

 

A sua visão trágica da paixão, levada até às últimas consequências, recorda-nos Camilo, ao ponto de poder ser considerado um percursor do Romantismo.


 
O seu destino assemelha-se ao de Camões tendo feito carreira militar em Goa e Damão e viajado misteriosamente para Macau, no entanto ao contrário deste nunca se deixou enfeitiçar pela magia do Oriente:

 

   Das terras a pior tu és, ó Goa,
   Tu pareces mais esmo que cidade
   Mas alojas em ti maior vaidade
         Que Londres, que Paris ou que Lisboa. (…)

 

 A alma da poetisa funde-se então com a do poeta:

 

    Aqui, só  vivo de amargura
    Morro de saudade envenenado,
    Tenho como companhia a noite escura
    Aqui, vivo sem ninguém, que negro fado!

 

Como é apanágio de muitos poetas, o tema da morte constitui um dos temas fortes: em Bocage torna-se uma obsessão permanente, como recompensa do justo, coexistindo paradoxalmente com o amor:

 

(…)Mais doce é ver-te de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida. (…)

 

Numa outra passagem:

 

         De suspirar em vão já fatigado,
         Dando trégua a meus males, eu dormia;
         Eis que junto de mim sonhei que via
         Da morte o gesto lívido mirrado. (…)

 

Morre a 21 de Dezembro de 1805, eis a sua despedida final:

 

Já Bocage não sou!… À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento…
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura. (…)

 

A 22 de Novembro de 1871, é colocada a primeira pedra no monumento evocativo da sua saudosa e sempre presente memória, sendo inaugurado a 21 de Dezembro do ano seguinte. Em 1868 é colocada uma lápide na casa onde nasceu. Esta tendo funcionado apenas como Galeria de Arte, a autarquia pretende transformá-la num espaço multicultural que evoque continuamente o poeta.

 

Bocage, aproveitando a sua sólida vocação clássica, associada ao perfeito domínio das línguas francesa  e latina, deu igualmente vida a muitos outros poetas como tradutor nos últimos anos da sua vida, a partir de 1800. Constituem exemplos deste seu trabalho, obras como Eufemia ou Triunfo da Religião de Arnaud (1793), As Chinelas de Abu-Casem: Conto Arábico (1797), Historia de Gil Braz de Santilhana – Le Sage (1798), Os Jardins ou Arte de Afformosear as Paisagens de Delille (1800), Canto Heróico sobre as Façanhas dos Portugueses na Expedição de Tripoli (1800),  Elegia ao Illustrissimo(…) - D. Rodrigo de Sousa Coutinho (1800) ambos de D. José Francisco Cardoso, As Plantas – Ricardo Castel (1801), O Consórcio das Flores: Epistola de La Croix(1801), Galathéa (1802) – Florian, Rogério e Victor de Sabran, Trágico Effeito do Ciúme (1802) e Ericia ou a Vestal (1805) de Arnaud.

 

Os poetas na verdade nunca morrem, as suas palavras continuam vivas em nossos corações!

 

  (…)Eras facho de luz e sentimento
        Da tua boca, só saíram verdades,
        Os teus amores, foram o teu grande tormento,
        Mas o teu talento, ficará para sempre na eternidade! (…)

 

(Maria de Deus – Bocage e o seu talento)

 

Notas

 

1 Escola criada por alvará de 5 de Agosto de 1779, em substituição da Academia Militar. No diploma de criação foi estipulado que “as pessoas que aspirassem aos postos de engenheiros deviam fazer  o curso de Aritmética, Geometria, Trigonometria Plana, Cálculo e suas aplicações à Estática, Dinâmica, Hidrostática, Hidráulica e Óptica”.

2 Sucessora da Academia Real de Marinha, sendo transferida para o Rio de Janeiro quando, em 1807 o Príncipe Regente para ali se retirou, voltando a reinstalar-se em Lisboa após o reconhecimento da independência do Brasil, funcionando até 1845, altura em que foi substituída pela Escola Naval.

3 Tradutora do poeta Suíço pré-romântico Gressner, autora das tragédias As Amazonas e A Columbiada.

4 Igualmente grande Matemático.

5 “Declinação do Astro é o arco meridiano compreendido entre o centro do astro e a linha equinocial; ou o arco de qualquer círculo horário tirado pelo centro do mundo e o centro do astro, compreendido entre o equador e o centro do astro”-  Monteiro da Rocha - Sistema Físico Matemático dos Cometas.

6 Matemático, escritor e poeta de formação base militar, tenente do exército. Em 1762, aos 18 anos assentou praça no Regimento de Artilharia do Porto, então aquartelado em Valença, onde recebe formação em Matemática. Mais tarde nomeado pelo Marquês de Pombal, leccionou na Universidade de Coimbra. Perseguido pela inquisição, destituído dos seus cargos académicos, valeu-lhe a intervenção do Intendente Geral da Polícia, Pina Manique que o nomeou director da Casa Pia. O manual elaborado pelo Dr. José Anastácio da Cunha Princípios Matemáticos para utilização dos alunos da Casa Pia de Lisboa procura ser o mais abrangente possível a nível da Matemática descoberta até então.

 

Referências

 

Bocage (1971). Poesias. Lisboa: Circulo de Leitores
Melo, M. (2006). Eternamente Bocage. Lisboa: Universitária Editora.
Papança, F. (2011). A Matemática, a Estatística e o Ensino nos Estabelecimentos de Formação de Oficiais do Exército Português no Período 1837-1926: Uma Caracterização. S. Mamede de Infesta: Edium Editores.

Papança, F. (2012). Bocage and Mathematics. Lisboa: Associação Ludus.

Papança, F. (2012). Ressurreição. S. Mamede de Infesta: Edium Editores.
Papança, F. (2017). The origins of Mathematics - The Influence of Mathematics in Poetry and Poetry in Mathematics Lisboa: Associação Ludus.

Papança, F. (2017). The Poetic sense in Mathematical Knowledge. NewYork:  Journal of Mathematics and System Science 7 (2017) 148-150

 

 

FILIPE JOSÉ LOUREIRO LOPES PAPANÇA, nascido em 22\8\66.
Licenciatura em Matemática Aplicada (1989); Mestrado em Estatística e Gestão da Informação (1997), defendendo a Tese: Estratégias Empresariais em Tempo de Incerteza, publicada pela Universitária Editora (2001).
Doutoramento em Ciências da Educação (2010), defendendo a Tese: A Matemática, a Estatística e o ensino nos estabelecimentos de formação de Oficiais do Exército Português no período (1837-1926) – Uma caracterização, publicada pela  Edium Editores (2011).
Escreveu artigos científicos e apresentou comunicações em congressos.
Proferiu palestras, nomeadamente na livraria Verney a convite da Associação Portuguesa de Poetas, no Palácio Galveias a convite da Câmara Municipal de Lisboa e na ULTI.
Apresentou, prefaciou, posfaciou livros, com especial destaque para as obras da poetisa Maria de Deus Melo, uma delas na Fnac do Chiado e posfaciou duas obras do Professor Universitário, escritor e poeta António Boavida Pinheiro.

Participou em diversas Antologias poéticas e literárias, assim como em blogs, jornais e revistas como “Diálogo Educacional”, “Revista Proelium” da Academia Militar, “Miriam”, “Lisboa Tejo” e Tudo do Jornal “O Independente”, “Raizonline”, “Jornal do Exército”, “Jornal do Barreiro”, “Jornal Poetas e Trovadores”, “Boletim da Associação Portuguesa de Estatística”, “Boletim da Sociedade Portuguesa de Matemática”, “Boletim da Associação Portuguesa de Poetas”, “Journal of Mathematics and System Science”, “Anais da UIED-Universidade Nova”, “Revista Militar” (no prelo), “Revista Educação e Matemática” (no prelo) da Associação de Professores de Matemática.

Livro de poesia e prosa Ressurreição, publicado pela Edium Editores (2012). Apresentação na Fnac do Colombo em Novembro de 2013.

 

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Paginação:

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