ANO 4 Edição 58 - JULHO 2017 INÍCIO contactos

Denise Bottmann


ECOS DE PORTUGAL NO BRASIL, III

I.


A Garnier, em suas várias encarnações editoriais entre 1844 e 1934, foi por muitas décadas a livraria e editora mais importante no Brasil. Aqui nos interessa basicamente o período em que se chamou H. Garnier (1895-1911), sob o comando francês de Hyppolite Garnier, em especial a década inicial do século XX. A anterior B.-L. Garnier, sob o comando de Baptiste-Louis Garnier, irmão deste outro que o sucedeu, o Hyppolite, tinha fama de contratar traduções nacionais de vez em quando (e não apenas se limitar à importação das edições portuguesas) e até de remunerar bem seus tradutores. Isso lá pelos meados do século XIX.

 

Mas depois, e por inúmeras razões - a comoção social e a crise econômica nos primeiros anos da república, o novo decreto regendo os direitos autorais (1898), o perfil mais conservador da nova gestão na editora, o declínio mais acentuado da empresa que já se iniciara ainda no final do império -, parece se firmar uma prática na H. Garnier: a falsificação de traduções.

 

 
II.


Já apontei em crônica anterior o caso de Edgar Allan Poe: o primeiro livro de contos que aparece entre nós, Novellas extraordinarias,lançado pela H. Garnier em 1903, traz estampado na página de rosto: "traducção brasileira", sem especificar nomes. Em verdade, a tal "traducção brasileira" não passava de simples reprodução das traduções portuguesas de Mécia Mouzinho de Albuquerque e Christina Amélia Assis de Carvalho (1889-1891).

 

O curioso é que, a partir de certo momento, um certo "K. d'Avellar" parece se tornar o tradutor de plantão para diversas obras de tradução publicadas pela H. Garnier. Na página de rosto, dá-se em algumas edições como "traducção portugueza"; em outras, como “traducção brasileira”; em outras ainda, como “vertido para o portuguez”; em outras mais, um simples “traducção de K. d’Avellar”. A grafia do nome varia: além de K. d’Avellar, têm-se K. de Avellar, K. de Avelar, K. d’Avelar, R. d’Avellar, R. de Avelar.

 

Todavia, nem mesmo o mais diligente pesquisador conseguirá encontrar o menor e mais remoto vestígio de qualquer K. d'Avellar e/ou variantes como tradutor de alguma obra publicada por qualquer editora de Portugal. E nas bibliotecas lusitanas o único d'Avellar e/ou variantes que conseguirá encontrar é o próprio das "traducções portuguezas"  ou “brazileiras” da Garnier franco-brasileira.

 

Mas não é que sua aparente produção garnieriana tenha sido insignificante. De sua pretensa lavra saíram, entre outras, as seguintes traduções:

 

De Walter Scott:

     *  Quintino Durward, romance histórico, de Walter Scott,1906

     *  A prisão d’Edimburgo, idem, 1906

     *  Kenilworth, 1906

     *  Guy Mannering, ou, O astrólogo, 1908

     *  Woodstock, 1909        

     *  O mosteiro, 1910

     *  Anna de Geierstein, ou, A donzella do nevoeiro, 1911

     *  Os desposados: novella tirada da historia das Cruzadas, 1911

 

De Honoré de Balzac:

     *  Um começo de vida, 1909

     *  Illusões perdidas, 1910

     *  A musa do departamento, 1910

     *  A Ultima encarnação de Vautrin, 1911

     *  Historia Dos Treze, 1912 (aqui, já pela Livraria Garnier)

     *  Um conchêgo de solteirão, 1913 (idem)

 

De Charles Dickens:

     *  Aventuras do sr. Pickwick, 1906

     *  Scenas da vida ingleza, 1908

 

Detenhamo-nos em Pickwick. Em 31 de maio de 1906, o crítico literário Nunes Vidal, em sua coluna no semanário carioca Os Annaes, ano III, n. 83, comentava o recente lançamento da editora H. Garnier:  Aventuras do sr. Pickwick, de Charles Dickens, na tradução do referido K. d’Avellar.

 

 

Nunes Vidal era o pseudônimo utilizado por Nestor Vítor, um importante crítico literário na imprensa da época – e também tradutor. Conhecia o meio, as pessoas, as obras, as línguas. A respeito de K. d’Avellar, porém, foi taxativo: “Não sei quem é”. Aventou até mesmo que se poderia tratar de um pseudônimo. E assim prossegue: “Vê-se que ele conhece português, mas que talvez resida em Paris e há muito tempo. Vê-se isso pela impropriedade de certas expressões usadas nestes volumes, está se sentindo que por influência do idioma francês”.

 

Sim, talvez se tratasse de um pseudônimo – ou talvez, mais simplesmente, fosse um nome inventado pela casa. Mas não seria necessário buscar tão longe, na França, como sugeriu Vidal, nem ver impropriedades ou galicismos na linguagem tão visivelmente lusa oitocentista. Bastaria compulsar a tradução portuguesa de Henrique Lopes de Mendonça, publicada em Lisboa em 1897 – aliás, bastante fiel ao original inglês.

 

 

Constatar-se-ia a recorrente igualdade de soluções, bem como um inexplicável enxugamento de vários trechos, eliminando frases inteiras. Assim temos, por exemplo:

 

Henrique Lopes de Mendonça:


Foi n'essa occasião que o sr. Pickwick fez aquella descoberta immortal, que constituiu o orgulho e a gloria dos seus amigos, e a inveja de todos os archeologos do paiz e do estrangeiro.
Tinham passado além da porta da estalagem e já não se recordavam bem onde ella ficava, perdidos nas ruas da aldeia.
Ao voltarem para traz, o olhar do sr. Pickwick cahiu sobre uma pequena pedra partida, meio enterrada, defronte de uma choupana. Parou.
— E' extraordinário! exclamou elle.
[...]
Bateu á porta da choupana. Abriu-lh'a um trabalhador.
— Sabe como veiu aqui parar esta pedra, meu amigo? perguntou o sr. Pickwick com affabilidade.
— Eu sei lá, senhor! replicou delicadamente o homem. Ella já estava aqui antes de eu ser nascido ou qualquer outro aqui da aldeia.
O sr. Pickwick relanceou um olhar triumphante para o companheiro.

 

K. d’Avellar”:

 

Foi nessa occasião que o sr. Pickwick fez aquella descoberta imortal, que constituiu a gloria e o orgulho dos seus amigos, e a inveja de todos os archeologos do paiz e do estrangeiro.
Tinham passado além da porta da estalagem e já não se lembravam bem onde ella ficava, perdidos nas ruas da aldeia.
Ao voltarem para traz, o olhar do sr. Pickwick caiu sobre uma pequena pedra partida, meio enterrada, defronte de uma choupana. Parou.
— E' extraordinario! exclamou elle.
[...]                                       
Bateu á porta da choupana. Abriu-lha um trabalhador.
— Sabe como veiu aqui parar esta pedra, meu amigo?
— Eu sei lá, senhor! Já estava aqui antes de eu ser nascido.
O sr. Pickwick relanceou um olhar triumphante para o amigo que o accompanhava.

 

Charles Dickens:


It was at this moment that Mr. Pickwick made that immortal discovery, which has been the pride and boast of his friends, and the envy of every antiquarian in this or any other country. They had passed the door of their inn, and walked a little way down the village, before they recollected the precise spot in which it stood. As they turned back, Mr. Pickwick’s eye fell upon a small broken stone, partially buried in the ground, in front of a cottage door. He paused.
‘This is very strange,’ said Mr. Pickwick.
[…]
He tapped at the cottage door. A labouring man opened it.
‘Do you know how this stone came here, my friend?’ inquired the benevolent Mr. Pickwick.
‘No, I doan’t, Sir,’ replied the man civilly. ‘It was here long afore I was born, or any on us.’
Mr. Pickwick glanced triumphantly at his companion.

 

Vejamos outro exemplo, a comicíssima “Ode a uma rã moribunda”:

 

Henrique Lopes de Mendonça:


Quanto me custa o vêr-te, assim cahida
De ventre para baixo, succumbida,
Arquejante, a perder a força e a vida,
Sobre uma táboa chã,
O' moribunda rã!

 

Demónios, em rapazes disfarçados,
Com bulicio e com gritos desalmados.
Atiraram-te um cão aos descampados
Da lagoa louçã,
O' moribunda rã!

 

“K. d’Avellar”:


Quanto me custou o vêr-te, assim cahida
De ventre para baixo, succumbida,
Arquejante, a perder a força e a vida,
Sobre uma táboa chã,
O' moribunda rã!

 

Demónios, em rapazes disfarçados,
Com bulicio e com gritos desalmados.
Atiraram-te um cão aos descampados
Da lagoa louçã,
O' moribunda rã!

 

Charles Dickens:


Can I view thee panting, lying
On thy stomach, without sighing;
Can I unmoved see thee dying
       On a log
       Expiring frog!

 

Say, have fiends in shape of boys,
     With wild halloo, and brutal noise,
     Hunted thee from marshy joys,
       With a dog,
       Expiring frog!

 

Outro título que valeria a pena compulsar seria Conchêgo de um solteirão, de Balzac, na tradução de Beldemónio e na tradução atribuída a K. d’Avellar. Na verdade, creio que todos os títulos atribuídos a tal nome, se compulsados com traduções portuguesas, confirmariam o que já se supõe: Aventuras do sr. Pickwick não foi um caso isolado.

 

De mais a mais, essa contrafação de Aventuras do sr. Pickwick apresenta um detalhe particular. É apenas em 1951 que realmente sai a primeira – e até hoje única – tradução brasileira dessa divertidíssima sátira. Foi feita por um importante tradutor nacional, Octavio Mendes Cajado, lançada pela editora Globo, de Porto Alegre.

 

 

Por alguma razão ignorada, Mendes Cajado utilizou para os vários versos e poemetos presentes em Pickwick o texto que saíra pela H. Garnier – especificando em nota de rodapé, com toda a boa-fé, que se tratava da tradução de “K. d’Avellar”.  Esse trabalho de Mendes Cajado conhece até hoje vicejante fortuna. Teve várias reedições na Globo gaúcha; a partir de 1970, foi licenciado para a Abril Cultural, um gigante editorial da época, para venda em bancas de revistas, com altas tiragens e numerosas reedições até 1982; em 1993, é licenciado para o Círculo do Livro, e a partir de 2004 volta a ser publicado pela Globo carioca.

 

Assim, se a voz tradutória de Henrique de Lopes Mendonça logo se fez ouvir no Brasil por meio dos recursos ventríloquos da H. Garnier – a uma distância de apenas oito ou nove anos entre o lançamento em Portugal e a contrafação no Brasil –, seu boneco K. d’Avellar continua a se fazer ouvir há mais de cem anos entre o público brasileiro, quando menos nos hilariantes poemetos da obra.

 

Denise Botman nasceu em Curitiba em 1954. Formada em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR,1981). Mestre em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 1985). Doutorado inconcluso em Filosofia (UNICAMP). Tem experiência na área de docência e pesquisa em História e Epistemologia das Ciências Humanas. Atua na área de tradução de obras de literatura e humanidades desde 1984. Atualmente dedica-se a atividades de tradução e pesquisas sobre a história da tradução no Brasil. 

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Revista InComunidade, Edição de JULHO de 2017


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ANTONIO DACOSTA, 'Dois limões em férias'. Ano: 1983


Paginação:

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