ANO 4 Edição 58 - JULHO 2017 INÍCIO contactos

Alexandre Marino


POEMAS DE ALEXANDRE MARINO

CANÇÃO DAS OUTRAS

 

Meu amor, caiu uma neblina sobre meu peito
que não enxergo um palmo além da boca
e me escapa uma rima perdida e louca
só para dizer, mesmo que nada diga,
de todas as paixões vadias
que me abordam cobrando documentos
como o último soldado a tremer de frio

 

Veja os postes pensativos,
diante da aura triste dos faróis.
Sou um planeta cheio de luas,
amores são halos que me cegam
e à deriva eu perco a voz.

 

Por isso, amiga, essa falta de ar
e de modos
que me obriga
a depois de beijá-la, afagar-lhe os seios
me trancar no banheiro e sonhar com outras 
que meu coração abriga.

 

Afogado em fumaça e névoa,
costuro retalhos de emoções
e encontro o dia claro.
          Já bebi toda a noite das garrafas!
E sem saber a quem chamar de querida
tomo meus amores pelas mãos.
E faço amor com a própria vida. 

 

O ESTRANHO

 

Não passas de um intruso nesta manhã de sol,
mesmo que mil olhos abandonem os espelhos
e se acerquem de teu desespero inominado.

 

Inóspito é o mundo a construir-se à tua volta.
São anticorpos a expulsar o objeto estranho
porque todos os tempos são indecifráveis.

 

Entregam-te o caos para que o ordenes, 
o circo onde duelam felicidades e tragédias,
destroços de vidas para que as reconstruas.

 

Não há volta ou refúgios para a viagem,
mas um horizonte trancado a chave.
Ali interromperam a tua eternidade.

 

O OBOÉ

 

A sombra de um oboé
junto aos cacos
de um candelabro,

 

A música do tempo 
nessas tardes de silêncio, 

 

O espectro do campanário,
o sorriso dos mortos,
entre paredes demolidas
e sua abstrata aspereza,

 

As serestas,
o silvo do vento
e das calmarias;

 

O suspiro
das noites de tristeza,

 

A alma do oboé,
prisioneira do antiquário,
e seu choro
quando sopra a ventania.

 

CIRCO

 

Vou-me embora, meu pai,
este corpo diáfano
parte em busca do lendário:
o que não existe
é ferramenta, matéria, horizonte, 
santuário de não saber nada.

 

Ao redor da cidade
o trapezista flutua. 
O palhaço tira o chapéu
e, líquida, a lua
derrama-se entre estrelas
sobre o véu
da mulher barbada.
O elefante exibe sua delicadeza.

 

Malabaristas malabalizam
meu futuro, ainda feito
de sustos:
Vou-me embora,
agora e sempre, 
neste globo da morte onde gira 
o que a vida promete, 
ainda obscuro e silente. 

 

Indomáveis feras adormecidas,
sol e chuva, solitários viajores,
a vastidão para meu pequeno corpo
aprendiz de domador,
coração movido a espantos.

 

O circo e seu bestiário,
a aura mágica do mágico:
a lona esconde desejos
além de meus olhos fátuos. 

 

E lá adiante, meu pai,
um realejo, a sorte lançada,
o dobre de um sino,
a estrada.

 

 

DAVI CONTEMPLA O MUNDO

 

Davi não compreende nosso castigo,
as angústias de agosto,
pavores vindos com o poente.
A ilusão de ter nas mãos a cabeça da besta,
o sonho de estar vivos.

 

Talvez se compadeça dos seres efêmeros,
símbolos imperfeitos refeitos no espelho.
Está prestes a chorar, a curvar-se,
acolher os sonhadores,
entregues à última catarse.
A seus pés me ofereço, escultura sem arte,
à contemplação, ao acalanto futuro.

 

A cada dia Davi cumpre a missão
de desnudar esses corações de mármore
e apequenar os gigantes de carne
que veneram a delicada pedra.
Davi faz um gesto suave
e demasiado humano
para consolar a obra incerta,
laço fraterno
entre seu cenho franzido
e meu tosco olhar.

 

O ÚLTIMO VERSO DE CELAN
 
 
Margeia o rio o anônimo suicida,
a afogar-se na aridez humana.
Ainda lhe resta uma luz na madrugada,
realizar a morte como projeto de vida.

 

Não é um rio qualquer, é o Sena,
a dividir a civilização ao meio.
Testemunha de históricas tragédias,
que a paz dessas águas não serena.

 

Ele versejou no idioma dos carrascos
e procurou nas dores a beleza.
Quantos parasitas quebram o silêncio...
Cruza a ponte o morto solitário.
A noite parece leve a seus eflúvios.
Contra as feras, faz-se náufrago.

 

ESFINGE

 

 A cidade me encara nos olhos
como se eu fosse um espelho,
procura entre meus estilhaços
o que restou de si mesma. 

 

A cidade é cruel e abstrata,
a cidade é doce e concreta.
Desfila fortunas em roupas de festa
e se prostitui em jardins floridos. 

 

A cidade propõe uma charada
e o que está em jogo é minha vida.
Expõe sua nudez entre mistérios
e oferece prazeres e balas perdidas. 

 

A cidade é vulgar e recatada
e procura em mim seu rumo incerto,
suas feridas abertas, o retrato
do monstro abandonado após o parto.

 

A cidade, nobre e abjeta,
abriga minha rota imprecisa,
empresta-me seu colo entre tentáculos
e se faz de paraíso onde pago meus pecados.

 

No terror de suas ruas espaireço,
na escuridão da carne me escondo.
Tatua seu mapa sobre minhas vertigens
e me decifra como se eu fosse um sonho. 

 

O VELHO CÃO

 

 O velho cão já não late.
Sente uma saudade quase humana
de alguma coisa que não sabe.
O quintal envolto em brumas
tornou-se enorme.
Anda devagar entre gatos e formigas
e pessoas ausentes e nebulosas.

 

O velho cão não uiva para a lua,
apenas grunhe e murmura.
Teve uma voz de tenor
encanto de cadelas saudosas. 
O corpo se faz aos pedaços,
e a velha perna sem lastro
é mais um peso que arrasta. 

 

O velho cão não sobe escadas,
prefere dormir no ladrilho.
Não compreende o silêncio ao redor,
a noite interminável,
o esvanecer de tudo.
A paz feita não de conciliações,
mas de ausências,
o mundo estanque a cair de podre. 

 

O velho cão quase morto
e sua alma agnóstica
são o que resta de vida entre as ruínas. 

 

JOIA RARA

 

É preciso muito tempo
para se construir a solidão.
É preciso arte e suor
até que a solidão enfim se amolde
aos ínfimos espaços da manada,
até que se torne amiga ou irmã,
divina e sobre-humana. 

 

Veja o sol que nos rodeia,
emparedado por solidão imensa,
a noite a nos aconchegar
nesse vazio vazio de tudo.
As ruas se oferecem a nossa passagem
mas nos abandonam ao fim da viagem. 

 

Ali construo certa solidão íntima,
lapido aos poucos essa joia rara
que esconde em suas nuanças
sinais de minha insânia,
que os espelhos não mascaram. 

 

Trago nos olhos e nas mãos
o que preciso,
amores e descrenças
em meu coração inciso,
e segue meus passos como cão fantasma
o abandono que aprendi no mundo
durante meu vagar atônito
entre os escombros do paraíso. 

 

CLAUSTROFOBIA

 

Estou cansado de claustrofobias,
do movimento imóvel do trânsito,
de segurar o guarda-chuva,
de sonhar com melhores dias.
Estou farto de filas e fobias,
de sorrir para a câmera,
de teorias conspiratórias,
de esperar o sinal abrir.
Estou cansado de paranoias,
dos que escrevem certo
por linhas tortas,
dos paraísos prometidos.
Não suporto tanta assepsia,
os analistas e suas teses,
o despertador contra os sonhos,
os anuais exames de fezes,
o sorriso dos passantes
a desejar improvável bom dia.
Estou farto de maus presságios.
Abro a janela e as asas
e me atiro no espaço.

 

Alexandre Marino, jornalista e poeta brasileiro, lançou seis livros de poesia e prepara-se para lançar o sétimo, “Hiatos”, ainda este ano.

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Revista InComunidade, Edição de JULHO de 2017


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Henrique Prior, Alex Sartorelli, Alexandre Marino, Andre Caramuru Aubert, Caio Junqueira Maciel, Carlos Barbarito, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Denise Bottmann, Elisa Scarpa, Eunice Boreal, Fernando Rocha, Henrique Dória, Javier Galarza ; Rolando Revagliatii, Joaquim Maria Botelho, Joel Henriques, José Gil, Leida Reis, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Marinho Lopes, Maurício Cavalheiro, Moisés Cárdenas, Ricardo Pedrosa Alves, Ricardo Ramos Filho, Risoleta C. Pinto Pedro, Rodrigo Novaes de Almeida, Tânia Diniz


Foto de capa:

ANTONIO DACOSTA, 'Dois limões em férias'. Ano: 1983


Paginação:

Nuno Baptista


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