ANO 4 Edição 58 - JULHO 2017 INÍCIO contactos

Andre Caramuru Aubert


Poemas

a morte do contrabaixista

 

depois de Beyond the Missoury Sky, de Charlie Haden e Pat Metheny

 

o contrabaixista pedia sempre,
a jesus, que não o deixasse morrer
sozinho. e jesus (eu não creio, mas
ele acreditava) na hora certa o atendeu,
de modo que o contrabaixista morreu em
casa, tranquilo (tanto quanto a morte pode
ser), cercado por sua mulher e filhos. a questão
que ficou foi o que fazer com o precioso
e caro contrabaixo que ele deixou, com o
qual tinha tamanho cuidado que raramente
aceitava usá-lo em gravações longe de casa:
guardar, intocado, para sempre?, ou passar
para algum outro músico que o contrabaixista
respeitava, para que o instrumento seguisse
vivo, mantendo um pouco vivo, assim, a
alma do contrabaixista? passaram-se meses
(o que é normal) antes que a viúva e os
filhos conseguissem tomar uma decisão.


as tardes de outono, o verde das copas das árvores
contra o azul do céu, a brisa que era leve, e cessou,
a música de charlie haden, tudo isso, a magia
de tudo isso, você entende?, me dá sempre muita vontade
de escrever um poema.

 

Poema inédito.

 

de quando

 

de quando fui um navegador português,
não de alta patente: marinheiro apenas,
mas feliz, a enfrentar o mar sem fim
(e de humor instável) no rumo dos
brasis. e de quando, já com a terra à vista,
regozijo, a costa da bahia!, a nau,
por piloto inábil mal conduzida, com
forte vento de través, raspou o casco
num parcel, gemeu e soçobrou. e de quando,
mergulhado na água cinzenta, salgada e fria,
sonhava a terra, e não mais a via.

 

Poema a sair no livro Se / O que eu vi, com publicação prevista para novembro de 2017

 

cansaço

 

Depois de “Next”, de Charles Wright

 

às vezes me sinto tão cansado – com tamanha exaustão – que fico
com vontade de me deitar, no meio de uma praça,
no meio do dia. apenas me deitar. ignorando o movimento
de passarinhos e de pessoas (possivelmente horrorizadas)
ah, sim, eu ficaria deitado, no meio de uma praça,
apenas ouvindo a grama crescer. e olhando para alto,
para o céu, para as nuvens que porventura passassem.
a dor passada não redime, a
dor presente não arrefece, a
dor futura ainda não.

 

Poema a sair no livro Se / O que eu vi, com publicação prevista para novembro de 2017

 

depois de w. s. merwin

 

se muitos poetas descrevem os poentes que viram
tem um que se lembra dos que não viu
que são infinitos em quantidade e beleza se
muita gente tenta se aferrar ao que tem
um poeta fala que é dele apenas e
tão somente aquilo
de que se lembra e se muita
gente gosta de jardins
há um poeta que a cada passo
que dá no quintal da casa onde vive
sabe que está caminhando
pelo infinito universo inteiro e

com a idade que tem que isso
está no fim que está
acabando

 

Poema inédito.

 

tempo

 

no jardim interno da casa de interior,
repleto de folhagens coloridas
minha avó sentada, na cadeira de vime
tomando sol; um sol tépido de outono,
vestida com uma camisola de flanela quadriculada,
vermelha, branca e amarela, ela
tem os óculos de leitura dependurados por uma correntinha e
com uma das mãos segura um pedaço do jornal do dia, que não lê, e
com a outra tenta segurar o tempo, que escorre
entre seus dedos, mas não consegue.

 

Poema publicado no livro outubro/dezembro, São Paulo, Patuá, 2015

 

paisagem

 

a chuva vem caindo o dia inteiro, e
já perdi a conta de por quantos dias
tem sido assim.

 

como o poeta chinês Han Shan, que num
poema escreveu que não podia ver a paisagem
diante dele, tão
densa era a névoa naquele dia, na
fria montanha
em que vivia, eu
tampouco vejo as janelas, as antenas e os para-raios dos prédios
diante de mim, na
fria metrópole
onde vivo.

 

Poema publicado no livro as cores refletidas nas lentes dos seus óculos escuros, São Paulo, Patuá, 2016

 

a essência das coisas

 

depois de “O estilo implícito”, de Sikong Tu (837-908)

 

a essência das coisas, de tudo,
sentida, sem que uma única frase
fosse pronunciada. a infinita tristeza,
compartilhada, sem que qualquer som
fosse emitido. no espaço aberto, no
infinito do tempo, poeira, apenas. e
a intensidade dos seus olhos, do seu
olhar.

 

Poema publicado no livro as cores refletidas nas lentes dos seus óculos escuros, São Paulo, Patuá, 2016

 

André Caramuru Aubert nasceu em São Paulo em 1961. Bacharel e mestre em História pela Universidade de São Paulo, é editor, tradutor e escritor. Já colaborou com publicações como O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil. Atualmente é colunista da revista Trip e colaborador do jornal Rascunho, para o qual mensalmente seleciona e traduz algum poeta estrangeiro. Publicou, pela editora Patuá, os livros de poemas Outubro/Dezembro As cores refletidas nas lentes dos seus óculos escuros. E pela editora Descaminhos os romances A Vida nas MontanhasA Cultura dos Sambaquis, Cemitérios e Só uma estranha luz como pensamento.

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Revista InComunidade, Edição de JULHO de 2017


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Foto de capa:

ANTONIO DACOSTA, 'Dois limões em férias'. Ano: 1983


Paginação:

Nuno Baptista


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