ANO 4 Edição 58 - JULHO 2017 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


O dia em que a terra tremeu na Literatura Brasileira

 

Celebrando o cinquentenário da publicação de Tremor de Terra, de Luiz Vilela, intento retomar aqui a leitura de um dos contos que considero extremamente relevante para abordar a escritura desse magnífico contista mineiro.  Uma narrativa em que o humor atrela-se a um assunto mórbido, qual seja, a morte, com a intervenção embriagante da vida, que se recusa a crer que esteja a poucos palmos do inevitável Nada.

 

Se, em O sétimo selo, Bergman criou a antológica cena de um cavaleiro jogando xadrez com a morte, Luiz Vilela, em seu livro inaugural, precisamente no conto “Velório”, criou uma memorável página em que a “indesejada das gentes” é exposta a um divertido e bem tramado jogo de palavras. É muito frequente ouvirmos casos e anedotas de velórios, mas o texto do contista de Ituiutaba estrutura-se como obra de arte, encenando, em suas camadas profundas e sutis, um jogo mais complexo, em que se articula o ato de velar e desvelar - verbo polissêmico, significando “provocar vigília em” e “descobrir, revelar”, além de poder ainda ser definido como “encher-se de zelo, ter muito cuidado, diligenciar”. Diligente é o artista da palavra em seu ofício de brincar com a dor e de encher de vida a morada da linguagem num espaço cravado pelo rigor mortis.

 

Em passos largos, recapitulemos o enredo dessa narrativa: Valico morrera de madrugada; o narrador (Nestor) fica sabendo disso só na tarde desse dia; no velório, onde se encontra com os outros companheiros, Nego Branco, Nassim, Bastião, Penca e Lolô. A funerária ainda não entregara o caixão, pois o defunto era enorme. Vai ficando tarde, os familiares estão cansados, e os amigos ficam para velar o cadáver, agora já repousado no caixão, que chegara com a noite, quando os coveiros já trancaram o cemitério. Durante a noite, jogando baralho, bebendo cachaça e cerveja, a turma mal suporta o fedor do defunto. Acabam dormindo embriagados e perdem o enterro na manhã seguinte.

 

A primeira peça lúdica do texto está no relacionamento entre o título (“Velório”) e o morto (Valico). Vilela vale-se de jogo, consciente ou inconsciente, não interessa, desenterrando o étimo da palavra carnevale, a despedida e desordem da carne, a folia que precede às cinzas. Valico, ao deixar o vale de lágrimas que é a vida, segundo o imaginário cristão, vai inaugurar um espaço de chusma e de chistes, propiciando que Eros, o desejo recalcado, manifeste-se nos domínios de Tanatos. Cumpre observar que esse apelido Valico traz a ambiguidade de poder se relacionar com a morte (vala, cova) e com a vida (vale, valão, rego, que é designação chula de vagina). Curiosamente, as únicas mulheres citadas no texto, D. Laura (viúva) e a irmã do morto, Nadir, exibem nomes que contrastam, uma vez que Laura liga-se à vitória, triunfo, e Nadir, oposto ao zênite, liga-se à depressão, a um plano inferior. Aliás, o jogo de opostos pode ser percebido ao longo do texto, pois o narrador fica sabendo muito tarde que o amigo morrera muito cedo. Os amigos, ao comentarem a morte de Valico, afirmam que está para nascer outro. Um dos companheiros é Nego Branco, apelido que é praticamente um oxímoro. Bastião, apelido que remete ao substantivo comum baluarte, fortaleza inexpugnável, é caracterizado pela vulnerabilidade, é o primeiro que se embriaga, fica bêbado feito vaca e é visto como besta e tem bastante caspa. Também é curioso notar que tanto o nome de Nadir como o de Bastião há relação com o ato de observar e vigiar: Nadir é nome árabe, que significa vigilante, observador (mas a irmã não participa do velório noturno); e o bastião é a parte da fortificação que permite “vigiar a face externa da muralha e atirar contra os assaltantes que tentam escalá-la”, conforme explica o dicionário Aurélio. E, ainda quanto às relações de oposição envolvendo nomes, podemos enveredar pelo sentido etimológico do turco Nassim, que significa brisa, contrastante com o recinto em que o fedor do cadáver não evoca nenhum vento fresco... Como palavra atrai palavra, é logo após a referência ao turco Nassim (nome quase anagrama de missa) que vem a referência ao jogo de truco, no qual Valico era imbatível. O narrador da história, Nestor, além de ser um quase anagrama metonímico da morte (resto), tem em seu nome grego a significação de “regresso, retorno”, em visível contraste com seu amigo defunto, que está partindo. Em vez de uma missa de corpo presente, o conto celebra uma penca de chistes e termos chulos, fazendo-nos evocar outro sentido dicionarizado da palavra velório, “variedade de uvas muito pequenas e sem préstimo”. Assim, a fruta dionisíaca da embriaguez está contida no título funéreo, sugerindo, com ironia, o préstimo do mínimo na construção de uma história curta.

 

O lúdico e a ambiguidade regem a narrativa de Luiz Vilela. Antes de o morto chegar aos sete palmos da terra, seus amigos jogam uma partida de sete e meio, “com vinte tentos pra cada, cada um valendo cem cruzeiros”. Valico, que para nada mais valia, “ficava firme lá mesa”, sem condições de rir das piadas de humor negro e do assustado despertar da velha, “que tinha pegado num sono lascado”, arrancando do narrador a expressão: “Essa valeu”. A escatologia, em sua dupla acepção (excrementos e tratado sobre os fins últimos do homem), perpassa pelo texto, nos diálogos repletos de palavrões, preenchendo o vazio e a afasia da perplexidade humana diante do reino desconhecido (“- Que coisa, hem sô, o Valico...- Pois é... – O Valico...- É...”). Listamos quase vinte termos chulos presentes nos diálogos, que produzem efeito hilariante no leitor. Mas, sob as escamas dos vocábulos sujos que se espalham pelo texto, aflora a questão da sexualidade, vista sob o viés ambíguo: ao mesmo tempo em que é negada pela morte, é por ela acionada, de forma perversa. Ao louvar as qualidades de Valico, Penca (cujo apelido remete para o termo “narigão”, de certa forma, um pênis deslocado de seu lugar) comenta: “- Difícil? (encontrar um homem assim)- falou Penca. – Dou a bunda se você encontrar um.” E daí por diante, em vários trechos, os termos chulos remetem para o ato sexual deslocado de seu espaço erótico e associado ao homoerotismo na referência a veados, frescos, vocês estão dando, ou no trecho, em que Nestor e Nego discutem sobre um quadro de passarinhos, quando Penca pergunta: “- Quê que vocês duas estão brigando aí...”. Se Penca iniciou o jogo de chiste com o chulo, sob o prisma do homossexual passivo, a sua fala fálica no início da partida é carregada de machismo: “- Ê, cambada, segura as calcinhas, que lá vai ferro!”. Além disso, ao longo do texto a ambiguidade sexual pode ser verificada na  recorrência do verbo murchar, ligado não só às plantas, mas ao estado de espírito de personagens, e que se opõe ao verbo endurecer, que se relaciona ao cadáver, à condição de ficar sem dinheiro e, obviamente, à virilidade.

 

Finalmente, o jogo de opostos, a escatologia, o humor, a agilidade dos diálogos e a configuração da literatura como espaço da carnavalização pode ser condensada nesse trecho de “Velório”: “Uma hora eu senti um cheirinho desgraçado e perguntei qual o fedamãe que tinha soltado aquele. Todo mundo: -Eu não fui. Sentiram também. – Carniça pura; esse tá podre. Nossa Senhora...Foi você, Bastião?” Ficaria frouxa a análise se relacionarmos esse trecho com o “cheirinho-da-loló”, aludindo a outro personagem da narrativa, cujo apelido evoca Gina Lollobrígida, musa dos anos 60, época da publicação de Tremor de terra. O que se conclui é simples: diante da morte, que é, conforme o verso de Manuel Bandeira, “a indesejada das gentes”, a literatura brinca de esconde-esconde com o desejo, dissemina, disfarça e perverte a sexualidade em linguagem lúdica e cômica; nas vielas do texto, Vilela vislumbra o vôo de pássaros e dá canto e plumagem ao resto que jazia em silêncio.

 

Finalizo essa análise com um fato pessoal: quando minha filha Ludmila morou no Japão, enviei-lhe o livro de Luiz Vilela. Em pleno metrô de Tóquio, ela, ainda uma adolescente, morria de rir com o livro Tremor de terra nas mãos. Na terra do terremoto, os orientais não percebiam que Ludmila lia “Velório”.

 

As citações foram extraídas da edição Tremor de terra, S. Paulo, Publifolha, 2003. Esse texto, com algumas modificações, foi publicado no Caderno Pensar, do Estado de Minas, em 2004

 

Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista, atualmente mora em Braga, Portugal

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