ANO 4 Edição 58 - JULHO 2017 INÍCIO contactos

Elisa Scarpa


Manhã de yoga na Casa da Praia

O primeiro bebé escaravelho nasceu na flor da couve que o homem apanhou. Quando ele tirou a mão de articulações metálicas de cima do espelho reparou que estava lá a couve, e no fundo da couve entre os gomos mais apertados, enredado numa suave frescura estavam pedaços de pano do cortinado de veludo do seu quarto.

 

O escaravelho estava na couve rodeado de pequenas gotas de orvalho, doces como a perfídia evangélica da luz de Verão, luz cortante que entrava pelas janelas e era ainda mais ampliada pelas paredes, também elas alvas e laminadas. As articulações metálicas da mão rangeram. O relógio do homem perguntou que horas eram, e os ponteiros hirtos responderam mudamente. Talvez só o bebé escaravelho tenha apreendido que horas eram, porque entendeu a deslocação do ar provocada pelas articulações metálicas da mão.

 

O ressonar do bebé escaravelho estava a irritar o homem e a fazer eriçar a lã do seu casaco de malha branco, o próprio fecho dava mostras de querer começar a descoser-se. Por isso o homem levantou-se e foi buscar a caixa das ferramentas. A caixa das ferramentas tinha cara de bispo enjoado depois de lhe terem balançado a preguiçeira em que dormia a sesta. O estômago dos bispos é muito sensível! Da caixa das ferramentas saíram diversos pregos meio enferrujados e emaranhados em restos de linhas e um martelo meio desencabado. O homem desenredou os pregos das linhas. Usou estas para reforçar o encaixe do martelo e depois pegou na couve.

 

Ele sabia que se pregasse a couve à parede o ressonar do bebé escaravelho deixaria de se ouvir, porque antes de se propagar no ar cairia no chão e a madeira  engoli-lo-ia com prontidão. Afastou as folhas de fora da couve e pregou-a. A descoberto ficou o cordão umbilical do bebé escaravelho. Afinal a mãe dele era o pedaço de veludo do cortinado do quarto que se encontrava no fundo da couve.

 

A mãe do bebé escaravelho era o pedaço de veludo do cortinado do quarto. O bebé escaravelho continuava a ressonar, o ressonar não caíra no chão e continuara a propagar-se no ar. No entanto, a lã do casaco branco e o fecho já se tinham apaziguado e o homem sentou-se no chão, cada um dos pés debaixo do joelho oposto. Abriu uma das mãos como se fosse discursar, mas a mão metálica que estava agora em cima do espelho, mão que se via claramente porque a couve já estava pregada na parede, impôs-se, e a mão de carne não discursou. A mão de carne decidiu em vez de discursar, fumar.

 

O cigarro não deitava fumo. O cigarro  possuía aquele instante de fruição e olhava para os ponteiros do relógio com tal autoridade como se pretendesse que eles lhe obedecessem. Eles ignoravam-no.

 

Os agora, os jás, os antes e os depois eram mais que muitos. Tanto sujeito sem objecto: o espelho, absorto nas articulações metálicas da mão, tamborilava com os dedos desta na sua superfície, riscava-a, uma pequena chuva de faúlhas ia tirando claridade à essência do espelho; o homem pensava com o seu cérebro de hipopótamo, o que poderia vir a conter se ele submergisse as calendas gregas; os ponteiros do relógio enlouquecidos de fúria abandonavam a sua imobilidade e desgrenhavam-se em berros de ultimatum, esfarelavam-se em ondas de agitação e gritavam – nunca submergirás as calendas gregas, nunca, ouviste, nunca.

 

O cérebro de hipopótamo julgava que as  calendas gregas era um património esquecido, coisa já tornada sedimento, húmus de folhas mortas, desinteria de ratos e lama putrefacta arrastada pelas cheias equatoriais de um qualquer Nilo louco. As calendas gregas não tinham sido devoradas no século III A.C. pelos cadáveres semi-queimados, nas piras funerárias do Nilo? Naquelas piras grandiosas contruídas com madeira putrefacta que cinzelava os corpos? Esses inóspitos cavaleiros do mundo da água e do fantasmal não devoraram então as calendas gregas, para nelas chorarem ininterruptamente a sua alma híbrida meia aquosa, meia gasosa, meia visível, meia invisível? Eram ou não eram as calendas gregas os receptáculos ideais para tão grande pranto? Então elas não ressurgiram eternamente nessa grandiosa cadeia alimentar dos substantes e dos insubstantes? Os crocodilos abeiravam-se dos semi-queimados, vasculhavam-lhes a matéria orgânica remanescente e faziam deles um paliativo para a fome. E a deles, é certo, não é uma fome amarela, porque a cor das calendas gregas, mistura de púrpura e verde entra-lhes nas presas e acolita-lhes uma cor especial, filtrada de luz e de fumo e absolutamente inexprimível em palavras. Viva o rastreio lunar que permite às cores serem indizíveis! Viva o rastreio lunar!

 

Então, com que então, as calendas gregas não haviam caído no esquecimento!

 

No coração daqueles humildes ponteiros de relógio elas eram uma ternura procurada, um aconchego, elas eram a razão das suas razões, eram o seu anjo arcanjo arcano, o seu Tirésias de serviço.

 

Os ponteiros alvoraçados continuavam: - Nunca, nunca, ouviste, nunca!
A mão metálica desengonçada raspava com mais fúria o espelho e um vento tenro emsombrava a placidez da couve martelada na parede e o ressonar tranquilo do bebé escaravelho.

 

Os ponteiros continuavam a falar para a mão, para o dono da mão, para quem e o quê que os quisesse ouvir: - Ficas sem mão, ouviste, ficas sem língua, ouviste!? Roubar-te-emos os dedos que já não terás, ouviste!? Sentirás as unhas a rasgarem-te os olhos, ouviste!? Terás um coração balão que voará para tão longe de ti que não poderás dizer que é teu, ouviste!? Não julgues que somos uns quaisquer coirões de metal que habitamos no teu relógio, para não te deixarmos seres livre, não penses, ouviste? Não penses, ouviste?

 

Nós somos os centauros que guardam a honra das calendas gregas, somos a língua das patas dos cavalos que espezinham todos aqueles que querem submergir as calendas gregas, ouviste!? Não penses, ouviste? Sabes o que é ter um cérebro de hipopótamo transformado em papas de aveia? Não queiras saber!

 

Dizemos-te: Não queiras saber, sabes o que é acordar e nunca mais poder adormecer? Não queiras saber! Sabes o que é uma chama que se declara a si própria gota da água?, não queiras saber! Sabes o que é um trapézio que sob si tem uma rede feita de espadas? Não queiras saber! Sabes o que é um astronauta sem astro? Não queiras saber!

 

Nunca, ouviste, nunca! Na certeza de seres expelido, nunca, não penses que te queremos roubar a liberdade, nós somos os paladinos da alegria, os arautos da felicidade sem limites, nunca te poderíamos roubar a liberdade, nunca, as calendas gregas são a tua mãe e o teu pai, as calendas gregas são o vício da sobrevivência perene, as calendas gregas são o grau zero que permitiu o desenvolvimento do teu cérebro de hipopótamo, as calendas gregas desejam-te as maiores felicidades, e tu, queres submergi-las! Nunca, ouviste, nunca! Da tua falta de pudor podemos nós informá-las, da forma como não lavas os dentes e limpas mal o cu, podemos nós elucidá-las, não lhes podes esconder que deixas a cozinha atolada de mosquitos porque não te dignas lavar a louça, és um bissexto parvalhão, um animal folclórico, empertigado e imbecil até ao mais ínfimo dos cagalhões intransmissíveis.

 

Julgas que tens corrente?, que por ti passa alguma coisa?, nunca, nunca passará nada! Nós que somos ponteiros bem o sabemos, só nós o sabemos, e temos calado uma vida inteira este penoso conhecimento para te pouparmos. E tu que fazes? Queres submergir as calendas gregas, ulá-lá, ulálá, temos bisca pirada neste baralho, temos solerte paspalhão neste orfanato, temos pisca-pólo armado em busca-pólos, temos senão no sim correcto e perfeito de uma resposta afirmativa. E tu o que é que fazes? Rastejas no mais baixo dos raciocínios, afundas-te na violência mais arcaica e desejas submergir as calendas? As nossas queridas calendas, o harpejo da nossa alma, o âmago da nossa desbunda sentimental, o sine-qua-non da nossa persistência enquanto seres elevados acima da escória do tempo perecível, acima da levedura metálica que corta as gargantas de todos os outros seres inferiores, e a nossa, não corta, e não corta porquê? Porque é que a levedura metálica não nos corta as gargantas, nem mesmo as raspa? Porque nós não somos inferiores, e não somos inferiores porquê? Porque as calendas gregas nos protegem com as suas mãos dobadouras, nos guardam nos seus seios mutantes, nos bafejam com o seu halo hílare que nunca nos deixa estar tristes, ouviste? Nunca!

 

Sabes o que é ser um bebé escaravelho que tem por mãe uma couve? Não queiras saber! Não queiras saber o tormento que a mãe couve sofre, apenas porque alguns não querem ouvir o ressonar do seu bebé! Não queiras saber! Mas nós dizemos-te, queremos fazer de ti um homem informado, martelam as mães couves às paredes, porque os ressonares dos seus bebés assim caem sobre o chão de madeira e deixam de incomodar outros, não queiras saber! Não queiras saber o que as mães couves descobrem! Descobrem que elas não são as verdadeiras mães dos seus bebés, elas são apenas uma cápsula venérea, as verdadeiras mães são os pedaços de veludo do cortinado do teu quarto que se encontram no seu centro, não queiras saber! Como sofrem estas mães couves que se vêem assim despojadas de serem mães e passam a meros, a meros vegetais, ordinários legumes para ordinárias panelas, cozinhadas para regalo daqueles outros legumes que em escaparates de luxo, têm marcas nos dorsos, e dormem nos pratos dos homens e das mulheres endinheirados, que os estão a comer sempre porque se esquecem em permanência do seu sabor. Nunca, ouviste? Nunca! Nunca as submergirás!  Tu sabes, imaginas sequer o que é o pesar desta couve orfã de filho?, não queiras saber!, é muito superior à angústia daquela outra mãe couve, que em tempo de fome, se entregou ao paladar do seu filho-coelho para o salvar, porque ao menos, esta couve, era mãe. Tu sabes lá o que é ser mãe sem o ser, não o queiras saber, petulante! Nem o amor olímpico da tua mãe, te salvará! O amor da tua mãe é olímpico. Se não fosse olímpico não sofreria a sórdida tarefa de te amar, sem te pôr em questão.  Um ser como tu, sem gota de clarividência, sem gota de compunção. E ela, no entanto, não te desdenha, não te despreza, não guarda segredos da flor da tua consciência, ou seja, finge que tu tens consciência, debita a sua ladaínha de ternura com a mesma amabilidade ímpar com que o mar se encosta à terra para lhe contar como são os fundos do oceano. Mesmo sabendo que a terra debita sobre ele o lixo, um incontrolável peso de lixo, de nefando lixo que por vezes não o deixa respirar e lhe transforma a transpiração numa inóspita lava de sedimentos.

 

Não queiras saber o que é que te aconteceria se a tua mãe deixasse de ser mar, sabes o que é a escuridão numa cápsula de foguetão?, é pouco ao pé da intensa e sôfrega e espúria dor que irias sentir se a tua mãe deixasse de ser mar.

 

Nunca, ouviste? Nunca! Não queiras saber! Nunca! Se as levitações do Nilo te enredassem de permeio com os semi-queimados, as queixadas dos crocodilos, os toros putrefactos das piras inapeláveis e te transportassem para o forno de uma central atómica, isto seria pouco, ao pé do que os teus olhos verão, se te atreveres a submergir as calendas gregas.

 

Acredita! As calendas gregas significam. As calendas gregas são os limbos dourados que a nossa ansiedade anseia. Sabes o que é um sikala? É um lémur, julgas tu. Não, não é. O sikala é uma calenda grega que se radicou em Madagáscar. Parte do que tu julgas ver como sendo outras coisas, são calendas gregas, não te atrevas nunca a brincar com as eras trípodas que são as calendas gregas.

 

O espírito que nelas navega é santo, o hálito que nelas lampeja é clarividência, a ausência de identidade que as domina é a libertação total e espiritual de tudo aquilo que tem tantos nomes, que nenhum nome em particular as encandeia e cega.

 

O cigarro começou a deitar fumo, a fruição do homem diminuiu e os ponteiros do relógio acalmaram-se.

 

Os brancos das paredes haviam escurecido, porque a palavra cânone desenhava-se sobre eles, cânone com todas as formas, cânones com vida selvagem.

 

O cérebro de hipópótamo do homem descontraiu-se, esticou as pernas, arqueou a coluna e tentou farejar a couve, mas só conseguiu sentir o ressonar do bebé escaravelho. Não tinha resultado pregar a mãe couve!
Que história era aquela da mãe couve e do filho coelho, e da fome, e da peste, e da sida? A mão metálica dormia agora (era a vez da mão metálica dormir) sobre o espelho, e a mão de carne estava pousada sobre a madeira, os brancos das paredes resplandeciam de cânones.
A caixa de ferramentas com a cara de bispo enjoado cantava baixinho uma toada da moda, cantava o folhetim de um escritor que exigia editor e pagamento para todos os seus versos, e insultava os de um tal Zaconni, paralítico da escrita que atulhava os jornais com litanices de merda.

 

Os pés do homem continuavam entalados sob os joelhos, e o cu começava a ficar um bocado dormente de estar há tanto tempo na mesma posição.

 

Dos ouvidos do cérebro de hipópótamo saem verticais novelos de lã, novelos de lã com a forma de borboletas esticadas. Borboletas que voam logo para os respectivos cânones. Nunca!, disse um dos ponteiros, Nunca!, disse o outro.

 

O caralho é que nunca, pensou o cérebro de hipopótamo. Nunca a vossa tia aleijada, que foi a primeira a submergir as calendas gregas, e o mais era aleijada! Se a vossa tia as submergiu enquanto tomava banho e ao mesmo tempo esfregava a banheira, porque é que eu não o hei-de fazer? Bando de cretinos plutocratas, vespas ardilosas da enxúndia badalhoca do pensamento original. A originalidade é uma treta! Se não sabem! Ficam a saber! Nem o Cupido das calendas gregas ignora isso! Nunca fez apaixonar nenhuma calenda por uma grega! E não me venham falar dos falos! Dos falos dissimulados, por que isso é outra treta do tamanho do Everest. Torquemada era um pacífico cidadão da Ilha da Inquisição no velho Iucatão e não foi por ter comido a orelha de uma calenda grega ao pequeno almoço, que morreu tão jovem, aos 120 anos!
Conheço os vossos perfis de ponteiros, perfis ínfimos, mesquinhos perfis sem perfilada, corpos sem fio de prumo, e são identidades como vós que me vindes punir, por desejar submergir as calendas gregas? Santa paciência! Já lavei muitos cueiros de inaptos filósofos do ponteirismo, para dar crédito à vossa ciência de rabo preso no centro do relógio. Isso se vocês tivessem rabo! O que se pode dizer de um ser sem rabo?, nada! Não se pode dizer nada! O rabo é um atributo ímpar de um ser, é um ser em si que dispensa qualquer apresentação. Não se pode apresentar um ser sem rabo. Não se distancia um cérebro de hipópótamo da sua essência de rabo da cabeça! Não se ridiculariza a mão de um rabo, não se traumatiza um cérebro de hipópótamo só por ele ser uma girândola de ideias brilhantes.

 

Por favor, meus senhores, ordem nesta taverna, porque senão acaba já a festa.

 

Atentados à minha liberdade?, nunca!, ouviram? Nunca! Nunca!, nem que eu tenha que ser o primeiro, a pôr outra vez, os vendilhões no templo, ou que tenha que chamar ao tal coelho, filho da couve, e que comeu a sua mãe couve, nem que eu tenha de lhe chamar Cristo.

 

Cristo Tristo, o que pensais desse homem que soube levar para o Nilo tantos homens? Quereis tirar-lhe o C inicial e dar-lhe um T inicial. Juízo, mentes devassas! Não passais de seres aprisionados no meu relógio! Prisioneiros do meu pulso! Pulso prisioneiro do meu cérebro de hipopótamo, este, que vós dizeis tanto desprezar!

 

Dizei, dizei como o mancebo que se lança nas lides políticas, não me chateia quem quer, chateia-me quem pode. A minha ignorância é uma balela vossa, um coto a sair da lama, se calhar é o coto das pernas de vossa tia, essa mesma que submergiu as calendas gregas! Acho que até na máquina de lavar as ingurgitou! E não as secou!, como vocês bem sabem. Não as secou, não! E não me contradigam! Ou a minha ira deixa de deambular, e concentra-se nos vossos frágeis seres, e acaba para sempre o ponteirismo, mesmo antes de começar!

 

Pensais que as vossas calendas gregas cheiram a lavanda, e lavam os pés todos os dias, já para não falar de outras partes dos seus seres estarrecidos (seres?), que cheiram a bacalhau que tresandam! Pensam que elas lavam os pés todos os dias? O tanas, e o badanas! Nos cus das majestades que têm cus! Que vós nem cus tendes! Tendas de pus ambulante, arpejos de instrumento desafinado, letra escarlate de burro a fugir e a pedir em cada missão um bocado de pão para fugir à morte certa, que antes de ser certa, será tuberculose, escarlatina, furúnculos! Arrastai a vossa essência de puz para outra freguesia! Ide lavar os pés da vossa tia, que bem precisa, e comprem uns galões de água de rosas para desinfectarem as referidas bocetas das calendas gregas, que tanto amais!

 

Tirai as armas dos armários e declamai Shakespeare antes de atirar sobre mim! Porque só as palavras de Shakespeare me podem distrair de eu morrer sob os vossos tiros!

 

E que, nunca morra! Porque se eu morro, nem a vossa tia emprenha, nem o meu pai almoça, e eu detesto ver a família infeliz!

 

Uma família infeliz é um receptáculo de ranhetas, foco de infecção para a humanidade! E nós, não queremos a humanidade inanimada!? Não queremos? Pois não!? Nós queremos uma humanidade feliz e amada, não é assim? Oh, ponteiros do relógio, é assim, não é? Pois é! Picolé no olé! E pirem-se, se não há salsifré!

 

Sois uma corja do lampião! Cada vez que vos alumiais, sai uma calenda grega! Salgada! Bem boa! E fumada, também, ora essa! Veras verdades procurais? Não é assim?!

 

Nunca submergir as calendas gregas!? E depois quando os gregos e os troianos invadirem as casas de hamburgers e dizimarem todas as minhocas que neles encontrarem? Digam-me! Quem é que vai tratar das colheitas de enzimas, digam-me como é que vivereis sem enzimas? Coléricos duma porra! Não sabeis usar nem o tempo, quanto mais a vossa suposta virtude para defender as calendas gregas! Vespinetas arrogantes, coberta de analfabetos do lampião! Nem pôr um cão a mijar sabem! Nem enrolar uma salsicha em couve lombarda, nem atar um fio à pila, para ela não sair, desbragada a caçar pirilampos ao meio dia e a atar-se aos postes pela meia noite, convencida que é lampião!

 

Submergirei as calendas gregas?, claro que submergirei, se assim o desejar, é claro, clarim, clarinete! O meu desejo é autónomo, tem rodas e motor próprio e tem a pujança de um cérebro que é de hipópótamo.

 

Falais da minha mãe, como se alguma vez a houvésseis conhecido, cagalhotos e perdigotos é o que vos desejo como herdeiros. O que vocês precisavam era de ter filhos, para saber o que é o verdadeiro amor, a dedicação ímpar, o sacrifício inabalável, a construção de um novo ser, a edificação de uma vida aúrea, a intransigência na defesa dos mais fracos! Mas isso vós não sabeis! Nunca haveis de ter filhos! Porque não tendes tusa nem para defender as calendas gregas, quanto mais para defenderdes os vossos filhos. Mas ainda bem que não a tendes!  Porque se a tivésseis só aumentava a porção de cagalhão no meio desta animação! Oh reino dos imortais, ouvi-me! Sabeis quem fala verdade? Quem é que escutou sempre as calendas gregas? Quem lhes deu água quando ressequidas pereciam ao pé das fontes dos ponteiros? Quem lhes adormeceu os filhos, quando tinham de ir ao mercado? Quem lhes amortalhou os familiares que foram dizimados pelos ponteiros? Quem lhes sarou as chagas purulentas e febris, causadas por cobertores infectados, que os ponteiros lançaram sobre os seus campos? Quem lhes lavou a cera dos ouvidos dos seus bebés, que gritavam toda a noite, porque não se conseguiam ouvir? Quem lhes lavou a roupa, quando tiveram que ir assistir aos partos das suas amadas, desveladas esposas? Quem as alertou contra todo o tipo de ardis dos ponteiros? Quem lhes leu as leis que as haviam de salvar? Quem lhes mostrou os céus e as terras que haviam de possuir? Quem ouviu as suas mágoas?, quantas vezes com o sacrifício de noites e noites de sono! Quem amenizou as suas vigílias de insónia? Quem é que foi a luz da sua escuridão? Quem é que alumiou as suas trevas? Torno a repetir! A perguntar! A inquirir!

 

Quem? Eu! Fui Eu!

 

E vindes vós, agora, acusar-me? Falar de niladas, Nilo para baixo, crocodilo para cima, pira funerária ao meio! Sabeis o que é a sóbria esperteza de um saber? Pois eu ensino-vos! É não acusar!

 

E acusais-me a mim, vendeis-me ou, antes, quereis vender patranhas de asquerosas águas! Não, não interessa, se fui eu que trouxe o Nilo à colação. Eu não sou uma exortação déspota, ficai a saber! Eu sou a permanência da glória sobre a terra! Não me interessa saber se um sikala é uma calenda grega que vive em Madagáscar. Calenda grega que não vive na Grécia não é grega, ponteiro que não passeia no mostrador do relógio não é ponteiro!

 

Não desafieis o cérebro de hipopótamo, a hipotenusa do epicanto sou eu, não sou um labrego da letra desbocada, um cânone submerso por outro cânone, eu sou a palpitação ardente da matemática pura, o diadema original da luz solar, a inclemência substantiva e incorruptível da inteligência formativa da existência lapidar do conhecimento perfeito!

 

Não vos insurgis contra mim! Não há vocabulário que me possa soterrar, não há raiva que me possa enevoar.

 

Um cérebro de hipópótamo não é uma contingência da natureza, é um poder quinético imparável, uma roldana essencial da maior construção do conhecimento.

 

Não vos insurgis! Calados, ou mando os mauritânios todos para o fundo do Oceano e ponho as nereides a pentear cadáveres nos campos de Auschwitz.

 

Respeito, ponteiros! Correcção! Ponde-vos em forma, ou não há cu que vos aguente os cânones. E nem mais uma palavra sobre a minha mãe, ou ides ver com quantos pentelhos se cobre um mostrador de relógio, e ficais a andar para todo o sempre sob uma espessa cordilheira de pentelhos! Nem mais uma palavra, a calma aproxima-se de mim, eu vou deixar que ela me inunde!

 

Esta dose de calma custou-me bastante no mercado negro!

 

A dose cai sobre mim, os pés debaixo dos joelhos exigem que os ouça, a couve ressona juntamente com o seu neto escaravelho e o pedaço de veludo do cortinado.

 

A calma sufocou-vos ponteiros do relógio! Sufocou-vos!

 

Estou pronto cândida calma. Agradeço-te teres colocado a minha fúria numa câmara arfante, ouço-a já a ir-se no túnel! Vai de mão dada com a princesa Diana, afasta-se junto, vai com um árabe que se esqueceu que era inglês e usa um macaco na cabeça.

 

Adeus fúria, adeus ponteiros!

 

Uma hora de yoga pela manhã cria uma alma sã num corpo vão!

 

Yoga, tomai-o e levai-o pela mão, que ele precisa de repousar!

 

Ide e quando voltardes, ide. Ide.

 

Ide e não esqueceis o Yoga!

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Revista InComunidade, Edição de JULHO de 2017


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Colaboradores de JULHO de 2017:

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Foto de capa:

ANTONIO DACOSTA, 'Dois limões em férias'. Ano: 1983


Paginação:

Nuno Baptista


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