ANO 4 Edição 58 - JULHO 2017 INÍCIO contactos

Carlos Matos Gomes


O acontecimento e o que acontece. A propósito dos paióis de Tancos

Embora o dicionário descreva o acontecimento como que acontece, intuímos que as duas expressões não possuem o mesmo significado. O acontecimento é uma celebração, é o aproveitamento do que acontece. Esta diferença ajuda a perceber a farândola (termo que tem como um dos sinónimos aglomerado de baderneiros) montada à volta do roubo dos paióis de Tancos (e do incêndio de Pedrógão, já agora).

 

O que aconteceu: O roubo dos paióis de Tancos tem uma causa evidente: estavam mal guardados. Estavam mal guardados por várias razões: as forças responsáveis pela sua guarda eram insuficientes e mal preparadas para a missão de guarda a instalações, tropas de engenharia, de infanteria, paraquedistas, de serviços de apoio. Eram, além disso, insuficientes e, dada a mentalidade de culpabilização dos agentes do Estado pela utilização da força, nem sequer estavam armadas para fazer face a uma intrusão por um grupo armado e determinado a roubar material de guerra. Guardar paióis com amadores, em número reduzido e desarmados material e moralmente tem consequências. Por fim, na análise de riscos, os paióis nunca foram considerados um objectivo de interesse. Daí, os comandantes das unidades considerarem a sua guarda uma tarefa secundária, daí as rondas, além de realizadas por pessoal insuficiente e desarmado, ocorrerem entre longos espaços de tempo – uma a cada 24 horas, parece. Esta situação é assim há 20 anos, pelo menos. Quem assaltou os paióis conhecia todas estas fragilidades e aproveitou-as.

 

O acontecimento. Como aconteceu com o incêndio de Pedrógão, a comunicação social viu aqui um acontecimento. Atirou-se a ele como gato a bofe. Todas as frases feitas foram chamadas pelas carpideiras: a tropa nem guarda o seu material de guerra! O que vai ser de nós! O Estado faliu! A causa é o desinvestimento nas Forças Amadas, a culpa é das câmaras de videovigilância não vigiaram (se funcionassem o que se alteraria? Não havia uma força de reacção para atacar os assaltantes e, se houvesse e morresse um assaltante lá ia, o militar parar à prisão por excesso de uso da força), o arame da cerca estava ferrugento! Do acontecimento se aproveitaram também os políticos, com realce para os mais populistas. Demissão do ministro que não estava de sentinela! Como o ridículo além de não matar, engorda, já há alucinados que pedem a vinda do chefe do governo da praia, com toalha e chanatos, para tomar conta da ocorrência. Do tipo: acudam ao Mestre que o matam!

 

O caso é grave? É evidente que é. Aquele material mata. É desprestigiante para as Forças Armadas? É evidente que sim. Tem solução? Existem soluções que diminuem os riscos, mas não os eliminam. O problema é o seu custo. Quanto estamos, enquanto cidadãos do Estado Português, dispostos a gastar com a defesa das instalações militares, o que inclui paióis, bases aéreas e navais, aquartelamentos, mas também obras de arte. E se amanhã alguém assaltar o Museu Militar?

 

Já algum político, ou jornalista abordou o assunto da criação de uma força especializada na guarda de instalações militares, ou continuam a pensar que um soldado nomeado por escala corrida, com uma G-3 sem munições, metido numa guarita e uma ronda feita por um sargento com uma pistola sem carregadores é quanto basta? E que, quando se cumpre a conhecida Lei de Murphy, de que o que pode correr mal, vai correr mal e no pior momento, basta ladrar à Lua a pedir a demissão do ministro e a fazer do que aconteceu um acontecimento para entreter o pagode?

 

 

Carlos Matos Gomes

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