ANO 4 Edição 57 - JUNHO 2017 INÍCIO contactos

Denise Bottmann


ECOS DE PORTUGAL NO BRASIL, II

Prosseguindo em nossas curtas crônicas sobre traduções portuguesas apropriadas por editoras brasileiras, apresentando-as sob falsos nomes, reais ou fictícios, hoje comento um caso relativamente recente.


          Trata-se de “Persuasão”, de Jane Austen. Em 2007, a editora brasileira Landmark publicou uma edição bilíngue desse romance, com tradução em nome de Fábio Cyrino, um dos sócios da empresa. Numa entrevista concedida em 9 de junho de 2007 ao jornal A Tribuna, de Santos, Fábio Cyrino expôs as circunstâncias em que teria decidido fazer pessoalmente a tradução:

 

Em uma reunião para definir qual seria o próximo lançamento da Editora Landmark, o diretor editorial, Fábio Cyrino, perguntou se já havia um tradutor para o novo projeto da empresa, a edição bilíngue de “Persuasão”, de Jane Austen [...]. Como não havia ninguém, ele se ofereceu: “Deixa que eu faço essa tradução”. Depois de dois meses debruçado sobre o romance, até então inédito no Brasil, Cyrino tornou-se co-autor de “Persuasão” [...] Como Fábio Cyrino tinha conhecimento das obras de Jane Austen, a tarefa da tradução apresentou apenas as dificuldades comuns a qualquer trabalho do tipo. [...] Como no Brasil o tradutor de um livro é considerado seu co-autor, ele acredita que sua colaboração para com o último romance de Austen foi “torná-lo acessível a mais leitores”. Antes do lançamento da edição bilíngue, os brasileiros liam a história apenas se a importassem.

 

          Aqui cabe desde já um reparo: “Persuasão” não era, de forma alguma, inédito no Brasil. Já em 1971, a Bruguera Brasil publicara a obra em sua coleção “Clássicos do Mundo Todo”, na tradução de Luiza Lobo. Essa mesma tradução, aliás, foi reeditada pela Francisco Alves em 1996. Um segundo reparo diz respeito à caracterização do tradutor como coautor da obra: na verdade, pela legislação autoral, a tradução é obra derivada de direito próprio, e seu realizador não é coautor da obra original e sim autor da obra derivada, ou seja, autor da tradução.


          Bom, até aí tudo bem; tais equívocos podem ocorrer. Todavia, seria difícil classificar como equívoco o que se apresentava ao leitor da tradução em nome de Fábio Cyrino. Pois o que se podia constatar é que a edição de “Persuasão” pela editora Landmark apresentava diferenças mínimas em relação a outra edição: esta portuguesa, lançada pela Publicações Europa-América em 1996, na tradução de Isabel Sequeira. Tirando o parágrafo inicial, que trazia uma meia-dúzia de vocábulos distintos, tais diferenças consistiam sobretudo no abrasileiramento de alguns termos e formas de tratamento. Seria necessária uma intervenção realmente miraculosa para que o tradutor brasileiro conseguisse produzir de lavra própria as mesmas gralhas de impressão, as mesmas soluções vocabulares, as mesmas ocasionais omissões e eventuais lapsos presentes na tradução portuguesa.


          Seguem alguns exemplos dessa identidade entre os dois textos, com o acompanhamento do original de Jane Austen:

 

Thirteen years had seen her mistress of Lellynch Hall, presiding and directing with a self-possession and decision which could never have given the idea of her being younger than she was. For thirteen years had she been doing the honours, and laying down the domestic law at home, and leading the way to the chaise and four, and walking immediatly after Lady Russell out of all the drawing-rooms and dining-rooms in the country.

 

Há treze anos que era a senhora do Solar de Kellynch, supervisionando e dando ordens com uma autoconfiança e decisão que nunca poderiam ter dado a idéia de ela ser mais nova do que realmente era. Durante treze anos tinha feito as honras da casa, repreendendo, tomando a dianteira ao dirigir-se para o coche e seguindo imediatamente atrás de lady Russell ao sair de todas as salas de visitas e de jantar do país. (Isabel Sequeira)

 

Há treze anos que era a senhora do Solar de Kellynch, supervisionando e dando ordens com uma autoconfiança e decisão que nunca poderiam ter dado a idéia de ela ser mais nova do que realmente era. Durante treze anos tinha feito as honras da casa, repreendendo, tomando a dianteira ao dirigir-se para o coche e seguindo imediatamente atrás de lady Russell ao sair de todas as salas de visitas e de jantar do país. (Fábio Cyrino)

 

He [...] at fifty-four, was still a very fine man.
Ele [...] aos 55 anos, ainda era um homem muito atraente. (IS)
Ele [...] aos 55 anos, ainda era um homem muito atraente. (FC)

 

She was fully satisfied of being still quite handsome as ever [...]
Sabia que ainda era muito bonita [...] (IS)
Sabia que ainda era muito bonita [...] (FC)

 

“For they must have been seen together”, he observed, “once at Tattersal’s, and twice in the lobby of the House of Commons.”
“Porque nós devemos ter sido vistos juntos”, comentou ele, “uma vez no Tattersal e duas vezes no trio [sic] da Câmara dos Comuns.” (IS)
“Porque nós devemos ter sido vistos juntos”, comentou ele, “uma vez no Tattersal e duas vezes no trio [sic] da Câmara dos Comuns.” (FC)

 

Such were Elizabeth Elliot’s sentiments and sensations; such the cares to alloy, the agitations to vary, the sameness and the elegance, the prosperity and the nothingness of her scene of life; such the feelings to give interest to a long, uneventful residence in one country circle, to fill the vacancies which there were no habits of utility abroad, no talents or accomplishments for home, to occupy.

 

Estes eram os sentimentos e as sensações de Elizabeth Elliot; estas eram as preocupações que a incomodavam, a agitação que perturbava a monotonia, a elegância, a prosperidade e o vazio da cena da sua vida – estes eram os sentimentos que conferiam interesse a uma longa e rotineira residência em uma pequena localidade, preenchendo o vazio que não podia ser ocupado com hábitos de serviço no estrangeiro nem com talentos ou feitos levados a cabo no país. (IS)

 

Esses eram os sentimentos e as sensações de Elizabeth Elliot; essas eram as preocupações que a incomodavam, a agitação que perturbava a monotonia, a elegância, a prosperidade e o vazio da cena da sua vida – esses eram os sentimentos que conferiam interesse a uma longa e rotineira residência em uma pequena localidade, preenchendo o vazio que não podia ser ocupado com hábitos de serviço no estrangeiro nem com talentos ou feitos levados a cabo no país. (FC)

 

          O mais curioso ainda estava por vir. Em janeiro de 2009, apontei o problema dessa apropriação num blogue que mantenho, chamado Não Gosto de Plágio. Em fevereiro de 2010, fui notificada de que a editora Landmark e seu diretor Fábio Cyrino haviam ingressado com uma ação judicial contra mim, pleiteando a remoção imediata do blogue e uma indenização de quatrocentos salários mínimos (cerca de 100 mil euros em valores atuais) por danos materiais e morais. Na verdade, a ação se dirigia também contra o Google, por abrigar meu blogue na plataforma Blogger, e contra Raquel Sallaberry Brião, que divulgara meus apontamentos em seu site Jane Austen em Português, e a respectiva central onde estava registrado seu respectivo domínio, a Registro.Br.
A editora reiterou na imprensa, por meio de seu advogado, que ingressara com a ação porque minhas indicações apontando a contrafação estariam “totalmente desgarradas da realidade fática, razão pela qual não existe qualquer cabimento quanto à acusação de plágio”. Entre um longo desenrolar de provas, defesas, perícias, contra-ataques, agravos e recursos, passaram-se sete anos. Finalmente a questão foi decidida e encerrada em 2017, tendo a perícia judicial concluído pela comprovação de plágio integral praticado por Fábio Cyrino sobre a obra de tradução de Isabel Sequeira, excetuando-se uma ou outra ínfima alteração pontual.


          Nesse meio tempo, porém, mais precisamente em 2010, já com a ação em andamento, a editora Landmark teria entrado em contato com a Publicações Europa-América para providenciar autorização para publicar a tradução de Isabel Sequeira no Brasil, em e-book. Naturalmente, essa iniciativa não teve valor jurídico para alterar os rumos da ação impetrada, pois, como entendeu o juiz sobre o recurso efetuado pelos impetrantes, “a crítica [aos resultados da perícia] está fundada na existência do contrato de cessão de direitos para edição e publicação da obra no Brasil, contrato juntado pelos autores no curso do processo, e na utilização de obra materializada em mídia eletrônica como base comparativa. Sem razão, porém. O contrato foi firmado apenas em 2010, a edição a consubstanciar o plágio foi publicada pela autora em 2007, a veiculação do plágio pelas rés se deu em 2009; portanto, ao tempo do fato, tal contrato não existia e, portanto, a sua celebração não tem reflexo algum no julgamento da ação”.


          Assim se encerrou o processo judicial, após se comprovar a efetiva e inegável existência de plágio, tal como fora apontado.


          Se esse eco de Portugal soou tão dissonante e desafinado no que revelava das irregularidades praticadas por uma editora brasileira, por outro lado trouxe um inesperado resultado. Tendo a questão alcançado as páginas da imprensa brasileira em 2010, em curto prazo de tempo deu-se o lançamento de nada menos que quatro novas – e legítimas – traduções de “Persuasão” no Brasil, em 2011 e 2012. Assim é que, desde a antiga tradução de Luiza Lobo, de quase meio século atrás, agora dispomos das de Celina Portocarrero (L&PM), de Mariana Menezes Neumann (BestBolso), de Fernanda Abreu (Zahar) e de Roberto Leal Ferreira (Martin Claret).

 

 

A curiosa linha do tempo de “Persuasão” no Brasil:

 

 

A primeira tradução: 1971     (A lusa lesada: 1996)              A contrafação: 2007

 

 

A sucessão 2011-2012

 

 

Denise Bottmann nasceu em Curitiba em 1954. Formada em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR,1981). Mestre em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 1985). Doutorado inconcluso em Filosofia (UNICAMP). Tem experiência na área de docência e pesquisa em História e Epistemologia das Ciências Humanas. Atua na área de tradução de obras de literatura e humanidades desde 1984. Atualmente dedica-se a atividades de tradução e pesquisas sobre a história da tradução no Brasil. 

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Revista InComunidade, Edição de JUNHO de 2017


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