ANO 4 Edição 57 - JUNHO 2017 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


O historiador e o homem histórico

"Ora, o que domina sobretudo a História são os motivos morais. E esses motivos parecem verdadeiros ou falsos conforme as eras e os lugares. Assim a História há-de ser objectiva, sob pena de as obras do artista não passarem de criações fantásticas do seu espírito.

 

E há-de, por outro lado, assentar sobre a base de um saber solidamente minucioso, de um conhecimento exacto e erudito dos factos e condições reais. sob pena de, em vez de se escrever História, inventarem-se romances. »

Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I

 


Para uma abordagem do conceito de História em Oliveira Martins outros aspectos terão de ser considerados, outros dados e características se terão de equacionar. Por exemplo: atentemos na tendência crescente de Oliveira Martins, ao longo dos escritos de História, para esquecer os dogmas positivistas que o impressionaram na juventude, realçando a feição espiritualista e mística da realidade. A virtude, a moral, a postura ética das personagens tornaram-se a sua primeira preocupação; os traços que permitem valorizar os heróis em detrimento de outros. Nun' Álvares irrompe nessa vasta e dissonante galeria como uma das mais paradigmáticas e, simultaneamente, mais esquivas figuras: entre a castidade, a sobranceria e o génio bélico se acentua o olhar admirativo do historiador. Mas, o mais inquietante, é esse rasgo místico-religioso, quase sobrenatural, que emana do Condestável, tomando-o pouco real - o que lhe granjeia, ao mesmo tempo, uma invulnerabilidade perante a passagem de anos e épocas.

 

Pode dizer-se que a História de Oliveira Martins não enforma, na globalidade, das características positivistas que, pontualmente, em advertências ao público leitor no limiar das obras, prefácios, notas, etc., se pretendia fazer eco. Mas, talvez não devamos desprezar definições, teorias, teses que foram progressivamente esquecidas e subvalorizadas.

 

O que era uma «lição de moral» em 1879, em 1881 transforma-se em «drama» e em 1891 eleva-se a uma «ressurreição». Efectivamente, o conceito de História de Oliveira Martins burila-se pouco a pouco na senda duma espiritualização. Também o papel do Homem se vai tornando cada vez mais dependente do subjectivo, da motivação moral. A História funciona, assim, como o local privilegiado da descodificação do efabulário de um colectivo.

 

Diz Oliveira Martins, a propósito:
«Arena amplíssima onde o artista e o erudito, o pensador e o crítico se encontram e se confundem, o jurista para indagar com escrúpulo, o psicólogo para analisar com subtileza, a História, se não é a forma culminante das manifestações intelectuais do homem, é sem dúvida a mais complexa e a mais compreensiva.» (1)

 

Um aspecto une as opiniões que deram corpo ao prefácio do Portugal Contemporâneo com Os Filhos de D. João I: a procura de uma objectividade. A minúcia, a precisão informativa, a exactidão, o rigor devem acompanhar, segundo Oliveira Martins, a narração, «sob pena de, em vez de se escrever História, inventarem-se romances”.(2) Os caracteres, os retratos psicológicos têm na História o seu local de eleição.

 

Mas, continuemos na lista das evoluções que do Portugal Contemporâneo para Os Filhos de D. João I se nos insinuam. Esta obra é um autêntico romance no que de mais profundamente conflitual e patético pode encerrar uma ficção: nas referências a D. Filipa de Lencastre e à sua relação com D. João I compraz-se Oliveira Martins no pormenor, na minudência, nos detalhes. D. João I é ainda a figura mais humanizada de quantas se forjam do pincel crítico do historiador: este não se poupa a censurar-lhe leviandades de juventude que seriam responsáveis pelo nascimento de um filho bastardo.

 

Outras personagens, Nun' Álvares, D. Filipa, irradiam uma «pureza» anti-carnal que as mitifica e as distancia do carácter humano: são figuras de santos, alcandoradas para iluminar os turvos caminhos da História.

 

Retrocedendo no tempo: e o Portugal Contemporâneo , esse quadro mais alargado e vivo da sociedade portuguesa? Apesar do tom romanceado que irresistivelmente (como um imperativo) assiste a toda a sua prosa, as personagens são analisadas sob uma peneira mais céptica, mais crítica, mais irónica.
Talvez por o posicionamento delas (personagens) em relação ao historiador se consubstanciar num período de tempo bastante curto. No Portugal  Contemporâneo não existem santos, místicos e castos, venerados por uma sociedade que neles se reconhece e se devolve. Talvez o único homem com vocação para santo (e tinha defeitos, na opinião de Oliveira Martins) fosse o carismático Alexandre Herculano, o «profeta» desiludido, inconsolavelmente deixado no esquecimento pelos seus contemporâneos. Já n'Os Filhos de D. João I a tendência mística de Oliveira Martins se denuncia na inocentização das personagens: também a Família enquanto símbolo de bons costumes e da sanidade moral, é elevada a núcleo a partir do qual se forja o ser humano.

 

Um outro conceito diferencia o Portugal Contemporâneo da outra obra por nós analisada: o de geração . Nunca como n'Os Filhos de D. João I a geração tem um significado mais umbilical e matricial: D. Filipa de Lencastre, lídima representante do que de mais fértil e rico subsiste no génio britânico, é o centro procriador dum conjunto de homens vitoriosos e ardentes que transformaria os rumos do país. No Portugal Contemporâneo as gerações não possuem essa unidade carnal e espiritual que um ventre materno indelevelmente fecunda. Os sentimentos de decadência, de esboroamento, de desastre sobrepõem-se à esperança. Mas, uma suspeita se nos levanta: não será que em Oliveira Martins a sedução por esse Portugal quatrocentista provinha do Império por conquistar, dum mundo por palmilhar e dum poder fortemente centralizado(r) e pessoalizado que culminaria sob o pulso dinâmico de D. João II? A “Ínclita Geração” não consubstanciará a vitória de uma política de autoridade de reis reformadores e lúcidos, com os olhos postos no futuro? E que espectáculo se depara a Oliveira Martins na sociedade em que vivia? O fraccionamento do poder, as tutelas económicas, militares e religiosas não contribuíam para um parasitismo geral, uma indolência e uma passividade acríticas?

 

Um aspecto que sobremaneira nos ultrapassa é inteligir o pensamento quase religioso através das personagens que, de algum modo, nos restituem uma imagem de santidade e elevação. Um desejo, superior e indimensionável, de purificação.

 

Uma conclusão se nos afigura pertinente após estas brevíssimas notas de leitura: a História, em Oliveira Martins, é feita, passo a passo, tijolo a tijolo, pelos indivíduos nas suas altas qualidades e contradições, nas suas virtudes e imperfeições, nas suas inabilidades, nas suas fraquezas morais e psicológicas. Mesmo a política é encarada sob o ponto de vista moral. Na moralização dos costumes se poderá obstar a um estado precário das sociedades, não desprezando embora as medidas de carácter económico e de intervenção material. A História em Oliveira Martins é verdadeiramente um apostolado ditado por uma concepção voluntarista da vida pública.

 

NOTAS

1. Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I, Lisboa, Guimarães & C.ª Editores, 1973, p.9

 

2. Ibidem

 

Cecília Barreira – CHAM/FCSH

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