ANO 5 Edição 57 - JUNHO 2017 INÍCIO contactos

Carlos Orfeu


Poemas

o sol: fruto que se come

com os dentes dos olhos

guardadas as sementes

seculares

o sol amadurece

o escuro

 

 

 

 

o dia come o escuro

estende solferinos

lençóis acesos

trinos na mesa

o sol no pão 

simetria clara 



fora do núcleo 

habitual o azul

deita no terno



de musgos do

muro: fogo 

em demasia

 

 

 

 

o sol  no pulmão da cidade

semáforos fósforos poros

setas      placas       motor

vapor                       farol

asfalto

minado

o caos é uma granada de cansaço

 

 

 

 

a chuva escreve-se

na pedra

movimento de céu no áspero

silêncio

a espessura da nuvem

no eco

íntimo e oco da pedra

transcendendo

sua escritura gritando

sol

 

 

 

 

da semente no húmus

a frutífera altura do porvir

:rasgará o ar de verde

ver-

tigem

o vento do verbo: ventará nos galhos

e fará cair os ícaros-frutos

contra a gravidade cartesiana

nesse exato instante

enquanto o cupim exila asas

e a cigarra descarna poente

a formiga  passa

cambiante

quem me dirá se ela

no além desse agora

será outro futuro

e moverá o açúcar da carnadura

do Ícaro-fruto

como se remove

do corpo o órgão

 

nada há

além

comove-se

os ossos

concebe a pedra

o sexo dos lábios

da flor mastigando

o silêncio

e a palavrárvore

cedendo o maduro

ao logos

nada há

o além é esfinge

somos um sendo que cava

um onde

aqui

agora

só o rumor de pássaros acima

vespa morta: o som do voo escrito no ar

o signo move no arcaico vento

motor-ogânico: morto em pleno ato

seu v farfalha sol que escorre na morte

entre a relva em balbucio

nuvem passando

 

 

 

 

pousa-se o olho na pedra

sólida forma: rupestre

silêncio fechado em ventre

escuro

 mineral

olha-se a sombra

envolvendo-a

indiferente ao

 (o)lh(o)

que penetra

cava

lavra

da pedra o áspero tato

repete-se

até ser escuta de si mesmo

a palavra pedra

até ser um corpo feito de som

memória

escrita

e movimento

rasteja a boca no chão

saliva abraçando pedra

dentes florindo abelha

língua nascendo relva

labial-labirinto

 há ave na fala

 há terremoto na boca

 

 

 

 

o dito

impele

no musgo

a hera

trans-

passada

de prisma

manhã

o dito da hera

é fecundo

minério

des-diz a sombra

no instante parindo

da pulpa

a meta-

mor-

fose

des-

velando

-se

como a luz

abre para o

olho

o dito

no fosso

das coisas

 

 

Carlos Orfeu: Nasceu em Queimados. É devoto das artes, sobretudo, da literatura e poesia. Publica blogs pessoais, revistas e blogs literários. O poeta é autor do livro: “Invisíveis Cotidianos” publicado em 2017 pela editora Literacidade.

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Revista InComunidade, Edição de JUNHO de 2017


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Colaboradores de JUNHO de 2017:

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Foto de capa:

Camões, autor anónimo, 1556 e variação sobre aquele retrato por Júlio Pomar


Paginação:

Nuno Baptista


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