ANO 5 Edição 57 - JUNHO 2017 INÍCIO contactos

Beatriz Bajo


Poemas

ave

na parábola dos meus nervos
raivosos de seiva e sombras
grafas ramos invisíveis
engravidados de raízes
arbustos plenos indecifráveis
balé de braile em lanças surdas
sobre a madeira que me veste

 

tuas palavras tatuam meu corpo
circunscreves no umbigo lenhoso
nódoas de entardeceres rosas
ainda úmidas pelos versos
escorridos dos teus lábios
há um livro teu em cada poro meu

 

dança selvagem de galhos
orvalho na pele da palavrardente
são lágrimas melífluas
futuros caindo sobre o tronco nu
adivinhações de omoplatas escorregadias
plantas de pés resvalantes

 

uma semente vertida
miríades de diamantes
no silêncio bendito
leia pétala a pétala
e milagres florescem
no agreste desinventado
por tua língua
imantada na minha
saliva nossa
amém


concreto

 

lambe-a inteira pra sempre

 

morde sua liberdade
entre as arquiteturas versificadas que construírem
de aço e pó
come-a com a farinha dos dias
caídos da mesa
mas não venhas beijar minha boca
salivada pela tinta fresca das horas
extraordinárias
pra enrijecer teu poema concretíssimo


a)l(mar

 

quando a palma da sua pele encontra a minha alma
a flor embaixo d’água é amor submerso
lâminas abissais de singrar universos
entremear silêncios urgentes pelas espaldas
incandescentes
jeito nosso de desexplicar as nascentes
rezadas com nossos rosários de versos


ele se leva

 

ele se leva de encompridar nos gestos
e me lava a rir de mil modos trans#bordados
seda com pontos ora frouxos ora apertadinhos
entre um lado da espinha e outro vazado pelo olho esquerdo
ascende para o voo ornamentado na estação de cor da bamba



aperta meu bico como se sugasse o elixir do amor
e o amor é esse alto da colina, por onde sai leite, água, calor dentro do abraço
para onde se vai no instante do querer precisar
ele se molha ditoso fazendo algazarra com as lágrimas da água
caem gracejando todas de sua pele nuvem propícia



ele pisca como se beliscasse a quinta nota a ser burilada
cata-vento do tempo a ser feito por seus dedos miúdos
pés são pães frescos a ensaiar os passos
ele grita aleluias e nascem hojes dos seus olhos e poros
o caminhar é esse levar-se que me deixa à sua espera



sou a espera e auxilio os primeiros passos da esperança
esse corpo afoito e novo que desconhece a imperfeição
veio a humanidade adivinhando
essa pessoa toda pureza tem os braços abertos e eles são
certeza de alcançar o sublime e vai tocando



ele ri como se descortinasse as janelas esvoaçantes dos peitos
tímidos desembrulhando a fé como presentes inventados
ele é meu poema mais concreto e nós somos imagens projetadas
em anagramas rearranjando palavras para um lirismo melhor



um mar de lama assola como quem ama
lambe tudo o que era [ ] borracha nas construções
ele é argila magia a ser manipulada com poções do pó de ser
e há


é preciso calar

 

é preciso calar
.



é preciso calar os silêncios
inflamando as urgências



é preciso colar
as distâncias
é preciso colher
pra cada fome secreta
é preciso colher
o que plantou seu pé



cada calo é
escrito em língua morta

 

BEATRIZ BAJO (São Paulo/SP, 1980). Poeta, diretora-geral da Rubra Cartoneira Editorial, revisora, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Seus livros são sobre nossas línguas a carne das palavras (no prelo), domingos em nós (PR), publicado em 2012 pela Rubra Cartoneira Editorial, : a palavra é (PR) e a face do fogo (SP), os dois de 2010. Traduziu os livros Respiración del laberinto, do poeta mexicano Mario Papasquiaro, pelo Coletivo Dulcinéia Catadora (2009) e uma novela, também mexicana, pela editora LetraSelvagem que ainda não foi publicada. Esteve com um verso exposto na mostra POESIA AGORA, do Museu de Língua Portuguesa, de junho a dezembro de 2015. Participou da antologia poética 29 de abril: o verso da violência, ed. Patuá: 2015; antologia de poesia contemporânea brasileira En la otra orilla del silencio (Na outra margem do silêncio) organizada por José Geraldo Neres, lançada e traduzida no México em 2012; do livro de entrevistas Diálogos com a Literatura Brasileira – volume III, organizado por Marco Vasques (Movimento, Porto Alegre/RS; Letradágua, Joinville/SC, 2010); antologia Moradas de Orfeu, organizada também por Marco Vasques (Letras Contemporâneas, Florianópolis/SC, 2011; antologia Realengo: poetas pedem paz, Revista Germina Literatura & Arte, junho 2011. Mantém o blogue Linda Graal (http://lindagraal.blogspot.com/) e o  Esquina Literária, de ensaios, resenhas e divulgações, (http://esquinaliteraria.blogspot.com/). Morou por 17 anos no Rio de Janeiro (RJ) e vive há 10 em Londrina-PR.

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Revista InComunidade, Edição de JUNHO de 2017


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Foto de capa:

Camões, autor anónimo, 1556 e variação sobre aquele retrato por Júlio Pomar


Paginação:

Nuno Baptista


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