ANO 5 Edição 57 - JUNHO 2017 INÍCIO contactos

Ana Paula de Nápoles


A paisagem rural como “património construído” da Literatura

A primeira história aqui contada voltou-se para a orla costeira, mais propriamente para a praia da Granja e suas areias.

 

Saíamos, agora, do mar para o campo. Saímos do som do mar e das areias para os sons campestres e, ao falar de sons, partamos do silêncio: daquele que, paradoxalmente, vai votando a paisagem rural a uma interioridade oca, desproporcionada e insensível, hesitante entre o elogio, a subserviência e o encómio devotados ao império urbano. 

 

O campo, o espaço rural e a ruralidade, sempre sujeitos ao esvaziamento demográfico, ao abandono, à obsolescência da atividade agrícola, e à atual promoção turística, maioritariamente incompatível e distorcida. Aliás, como nos adverte o geógrafo Álvaro DOMINGUES, "basta consultar a abundante literatura que existe sobre o turismo em espaço rural para perceber o enviesamento das vivências e dos laços que se restabelecessem com esse mundo reduzido a cenografias mais ou menos verosímeis, a retalhos pitorescos, a simulacros, a lareiras crepitantes ou a desfolhadas festivas".

 

O denominador comum entre estas duas histórias, a do mar e a do campo é, sem dúvida, a questão patrimonial. Neste ponto, o paisagista francês Michel Corajoud está convicto de que o "campo pode ser o monumento das cidades contemporâneas". Naturalmente que não falamos de património no sentido de monumento ou edifício, mas no património de um pedaço de território, o rural, tomando-lhe o sentido do poder evocativo e identitário, com todos os seus recortes de representação artística e simbólica e, porque não, de um certo saudosismo, aquela categoria estética própria dos Românticos! Não tanto a nostalgia do imediato de Lévi- Strauss, nem a nostalgia do futuro, que reduz a história a zero, mas a nostalgia do passado, que revisita os alvores epocais.

 

O objetivo passará sempre pela superação da perda do rural, pela conciliação do rural com o urbano, ultrapassando, o mais possível, o clássico binómio cidade/campo, e pela defesa dos saberes e das vivências agrícolas, frequentemente envoltas em sentimentos de nostalgia bucólica, ora mais romântica, ora mais realista, como comprova toda a literatura rústica. E é deste "Património construído", o rural na literatura, que vamos falar hoje, não só como forma de homenagear  todas as iniciativas, atuais ou vindouras, de recuperação da paisagem rural, mas também para homenagear o eterno reconto do rural na literatura portuguesa.

 

Na realidade, o “Património construído” iniciou a sua carreira de objeto artístico incluindo quase exclusivamente edifícios monumentais ou obras grandiosas. Porém, foi, ao longo dos tempos, incluindo também, outras formas de documentar materialmente as transformações antropológicas ambientais. E é por isso que o “Património construído” é tão lato quanto artístico, simbólico, etnográfico e antropológico…

 

Etimologicamente, “Património” é definido, antes de mais, como pertença por herança paterna; então se o conceito de bens materiais se estender a outros valores, emerge o conceito de “Herança Cultural”, não só dos progenitores, mas de toda uma comunidade ancestral à qual pertencemos, numa linhagem de hereditariedade cultural, perpetuada e imortalizada pela expressão artística. Acoplamos ao "Património", a noção de “Construído”, não só no sentido físico de edificado, mas também no sentido intelectual de concebido, razoado teoricamente e justificado tecnicamente.

 

Assim, o “Património construído” veste-se de roupagens esteticamente enriquecidas, em função dos seus valores simbólicos e culturais de que está necessariamente rodeado e imbuído.

 

Testemunho de uma história vivencial nómada, a paisagem rural (ou território rural), contextualizada no espaço e no tempo, por princípio, e sedentária por continuação, é, por definição, parte integrante deste “Património construído” e, ainda o é mais, quando cantada, contada ou narrada nas variadas obras literárias que merecem ser “museografadas”.

 

Neste ponto, António QUADROS diz-nos que "o estímulo à imaginação pela narrativa maravilhosa (…) é uma verdadeira pedagogia da criatividade – que terá mais tarde reflexos não só no sentido da liberdade do Homem adulto perante os sistemas mecanicistas que o rodeiam, como na invenção científica, no pensamento filosófico e na criação artística ou poética.".

 

Da Literatura Medieval à Literatura Contemporânea, diversos autores eternizaram o campo e o rural, nem sempre pela vox populi, mas também pela forma poetada e narrada, variando, assim, entre a simbologia idílica e bucólica, e a mistura de sentimentos mais ou menos pintados pela ingenuidade, singeleza, beleza e tranquilidade campestre.

 

Assumida como “Herança Cultural”, a literatura oral e tradicional foi e é determinante na interpretação do mundo físico e do mundo social. Por conseguinte, os contos populares, a poesia e a narrativa modelaram a imaginação e a criatividade do Homem, remetendo-o para os costumes da sociedade, sobretudo as agrárias que, no passado, se entretinham ao serão a contar pequenas histórias.

 

O maravilhoso popular é, assim, valorizado, pela procura da identidade do povo, fazendo uso da sua cultura tradicional e da sua história vivencial.

 

É neste universo contextual que surge na arte literária, a componente rural e, por oposição, a urbana, ambas compaginadas com determinadas alterações discursivas, quer da constituição semântico-simbólica, quer do significado social e ideológico.

 

Dentro de uma perspetiva diacrónica do ideário que marcou a identidade do nosso povo e, partindo ao encontro das épocas, das correntes e de alguns autores literários, vamos esboçar o pensamento e o entendimento rural subjacente às elites literárias. Este pensamento esteve sempre presente na literatura, teremos, pois, de o revisitar para o entender...

 

Com efeito, a paisagem rural (re)escrita reflete a história de várias épocas da nossa ruralidade que, embora Patrimoniais, se vão perdendo nalgumas memórias…

 

E a propósito do valor artístico, William BLAKE recorda-nos que a "Natureza como a Arte nisto se assemelham: O mais grandioso é sempre o mais diminuto.”.

 

 

 

Recuperar a definição de rural e do ruralismo do dicionário, formalmente correta, mas suficientemente desorientadora, implica que tudo quanto se escreva ou se verbalize seja na realidade, expansão e comentário daquela definição. Vejamos então.

 

No dealbar do século XX a palavra rural, filologicamente, remetia para o campo e para os seus costumes, por vincada antítese à cidade. Rústico, agrícola e campesino faziam parte da matriz lexical da palavra rural. Todavia, ruralismo indicava o “emprego de scenas ruraes em obras de arte”. Este é um ponto essencial para a compreensão do rural coetâneo.

 

As definições de rural, embora alternando ligeiramente, passam no tempo, (re)afirmando as identidades e as paisagens rurais, secularizadas numa consciencialização histórica, social e cultural.

 

E porque se fala de história, crê-se que há milénios o Homem transformava o espaço físico para melhor se adaptar, suprindo as suas necessidades de sobrevivência. Esta ação antropológica sobre o meio envolvente foi desenhando, consequentemente, espaços rurais versus espaços urbanos.

 

Porém, durante décadas, este binómio rural/urbano foi sustentado numa visão dicotómica: o rural arcaico, rústico e a cidade, ao invés, mais moderna e mais aberta à inovação. O tom conclusivo desta dualidade assume, hoje, uma dialética que contrapõe urbanistas e ruralistas num verdadeiro avant-propos provocado pelas alterações do Homem nos ecossistemas; de um lado, o rural kayseriano que parece expresso no renascimento rural e, do outro, o urbano de Lefebvre que culmina numa urbanização espacial completa. E no centro deste debate discutem-se outras formas de apreender esta realidade, partindo-se de uma delimitação de espaços formados pela unidade cidade-campo, base das várias versões da teoria do continuum rural/urbano. A perspetiva dicotómica permite, assim, a oscilação entre dois sistemas de valores, ora idealizando o passado e valorizando o tradicional, ora baseando-se nas ideias de progresso e modernização.

 

É nesta parte que o campo assume um valor cultural que em muito ultrapassa a sua dimensão espacial, porquanto continua a ser um elemento de referência para os que traçam a sua pretérita genealogia. E isto só é possível à custa da permanência de uma identidade própria: o campo e a aldeia têm história, têm mitos e lendas, têm igreja, cemitério, casas caiadas, caminhos e Festas de Santos que lhe emprestam um rosto único, e é precisamente este respeito pela tradição rural, acumulada, que deverá ser efetivo, sobretudo porque se revela anunciador e perpetuador da herança cultural de que faz parte o seu mais genuíno “Património Construído”. Preservar a primeira significa preservar o segundo, numa relação que se pretende coesa e simbiótica.
E é este rural, o de ontem e o de hoje, que foi sendo cantado, contado e declamado na ode, na écloga, no teatro, na sátira ou no romance, que constitui o mais genuíno significado de “Património Construído”.

 

A Literatura, entendida como arte, exprime valores cuja permanência a legitimam. Todavia, o processo a partir do qual se formaliza a literatura, que é a linguagem, ligada ao sociológico, reflete as ideologias historicamente determinadas, as transformações técnicas e as arbitrariedades sociais. Por outras palavras, entre o movimento literário e os acontecimentos sócio-políticos estabelecem-se articulações que tendem a reproduzir, historicamente, panoramas vivenciais da sociedade.

 

É neste contexto que parece oportuno enquadrar a noção de rural e de ruralidade na cronologia do desenvolvimento literário português, na tentativa de uma “reconstrução” histórico/social do modelo campo/cidade.

 

Começamos, então, pela Literatura Medieval, a do século XII – coincidente com a Fundação de Portugal – até ao século XVI, a época dos Descobrimentos.

 

Em meados do século XII, Portugal constituiu-se como estado independente e, consequentemente, parece encerrar-se a época em que a economia, a sociedade, a política e a cultura estavam estritamente dominadas pela economia rural de subsistência, iniciando-se, assim, a economia mercantil – consequentemente, “nascem” as vilas e as cidades povoadas de burgueses. O Rei instala a cidade no castelo, próximo do recinto da Catedral, lugar do poder eclesiástico, que servia de local de reunião da população por ocasião das festas e dos grandes acontecimentos.

 

Entre o senhor feudal que detinha os rendimentos da terra e o servo (ou colono) que a trabalhava, instituíram-se novas classes sociais, quer ligadas ao trabalho rural, quer às suas atividades económicas, como os mesteirais, os mercadores e os negociantes de dinheiro. Não obstante este “novo social”, a relação económica predominante continuará a ser a da renda rural.

 

Será, então, este "novo social" trazido a terreiro que vai espoletar os diferentes recortes que a magnificência literária inscreverá no aperfeiçoamento e na difusão das memórias "artificiais". A hegemonia memorial do rural na literatura não foi, contudo ameaçada antes da imprensa fornecer à escrita um poder sem precedentes na matéria. Platão fez da escrita o seu venenoso paradigma, mas a oralidade tinha tanta força que resgatava os sentidos e as sensibilidades, aptos à conservação da tradição.

 

Curiosamente Vitor Hugo pronunciou a oração fúnebre do património, condenando-o à morte pela invenção da imprensa. Reconhecemos, porém, que a imprensa não veio contestar nem recusar as diferentes modalidades culturais e patrimoniais, antes resguardá-las do esquecimento geracional.

 

Com efeito, e, neste período cultural em concreto, a escrita começava já a ser um meio acessório de veiculação e transmissão de saberes, embora ainda coadjuvada pela transmissão oral, através dos jograis, recitadores, cantores e músicos ambulantes que divulgavam nas feiras, o lugar comercial, e nos castelos, o lugar central, o seu reportório musical e literário, como veículos concretos de uma sabedoria tradicional.

 

Atores e dançarinos faziam os seus espetáculos num verdadeiro ritual mágico, oferecido à atividade pastoril e à prática agrícola, sobretudo porque se acreditava numa gratidão à Natureza face à impossibilidade de a compreender e de a dominar. O homem rural tinha absoluta consciência da sua dependência à Natureza, não-só por respeito, mas também por sobrevivência.

 

Do outro lado, os malabaristas percorriam as feiras na tentativa de receber alguma roupa em troca das suas habilidades.

 

Por conseguinte, as Cantigas de Amigo, de tradição oral, cujas variedades temáticas refletiam esta vivência rural e familiar, sobretudo, as Pastorelas, eram simples e populares, em diapasão com a Natureza. Há como que uma intimidade afetiva com a Natureza, diferente, portanto, do gosto cenográfico da paisagem (como quadro ou reflexo dos sentimentos humanos) e que deve relacionar-se com o animismo típico de uma certa mentalidade pré-mercantil ou mercantil inicial. Esta afinidade remete para uma construção do imaginário rural assente numa visão diferenciada de campo e cidade, mas com relações marcadas de complementaridade mercantil.

 

Por outro lado, o camponês é também retratado, não numa sofisticação concetual, mas antes numa panóplia sentimental ligada a epítetos nostálgicos, amorosos e saudosistas, num misto antinómico de astúcia e ingenuidade.

 

Não menos importante, a afinidade mágica entre o ambiente da corte (território urbano “embrionário”), sob a tutela do Rei, e o ambiente do campo, flagrantemente popular.

 

Passemos à Literatura Clássica, a do século XVI, com os Descobrimentos, ao século XIX.

 

Com o termo das lutas religiosas do século XVI, ensaia-se a moderna conceção do progresso, sob a forma, por exemplo, de uma cidade ideal mais justa e despida de violência. A Utopia (1516) de Thomas More e, mais tarde, a Nova Atlântida (1627) de Francis Bacon são disso exemplo. 

 

Recorde-se que esta segunda vaga de utopias é distinta das primeiras experiências, ou das experiências embrionárias, no domínio utópico. Se as primeiras objetivavam a vida eterna após a morte, como no Jardim das Hespérides ou nos Champs Elysées, as segundas voltaram-se para a sociedade terrena, inspirada em valores de justiça, equidade e felicidade. Sem dúvida, ambas no domínio da ficção e do fantástico, mas estribadas na procura de um ideal de felicidade, ora metafísico, ora escatológico, ora epicurista, ora mundano ou ainda profano.

 

Olhando para a cidade, aparecem igualmente os princípios do urbanismo barroco, numa filiação direta entre as formas físicas do espaço urbano e as formas de ocupação humana. Aqui a cidade já não está confinada às muralhas.

 

Pouco a pouco, o esquema teológico da «Criação e Trevas “góticas”» legitima-se num outro modelo, o das Luzes greco-romanas e que respaldam todo o Renascimento. Enquanto promotores desta corrente, os Humanistas, justificam-se num conjunto de valores morais e estéticos universalmente humanos, o equilíbrio, a medida, a sobriedade, o racionalismo e a lógica. Por outro lado, uma renovação da Escolástica, com a introdução do critério empírico na observação experimental, revoluciona o paradigma do conhecimento.

 

Certo é que o Humanismo filológico e erudito inspirou um vasto conjunto de poesias em latim, de cariz marcadamente bucólico.

 

Do movimento humanista faz parte, por exemplo, a obra dramática vicentina, com todos os seus elementos ideológicos e estéticos.

 

Com efeito, os Autos Pastoris estruturam-se como éclogas encenadas, narram diálogos cómicos de pastores ou retratam farsas de assuntos predominantemente campestres.

 

O teatro vicentino é, assim, um teatro de ideias, um teatro polémico imbuído na sátira social, de tal modo, que no seu palco são personificados, entre vários, o pastor, o camponês e a moça da vila construindo, assim, uma poesia cenografada, quiçá precursora de um cultural como espectáculo.

 

Na sátira social vicentina, do tipo folclórico, distinguem-se os pastores e outras personagens rústicas que servem para fazer rir a gente da corte, por via da sua ignorância e da sua simplicidade.

 

Na mundividência de Gil Vicente, só os camponeses e os Parvos, ou os bobos da corte, ambos de tradição folclórica, tinham direito a entrar no reino dos céus devido à sua evidente ingenuidade.

 

Por sua vez, os fidalgos, ou os filhos "d'algo", gente mais “polida” e com urbanidade, também aparecem duramente atacados, pela sua vincada presunção e exploração do trabalho do camponês. Criticava, ainda, o sapateiro, o usurário, o médico incompetente e os homens de negócios… uma vez que o peso desta hierarquia social ociosa era duramente suportada pelo “lavrador” que, neste caso, não era o rústico simpaticamente ridículo do folclore, mas antes uma personagem patética que trabalhava até à exaustão, sendo que o produto do seu trabalho revertia para os cobradores de rendas ou para os frades. Na Igreja, este “lavrador” era escorraçado como um cão! Até Deus o parecia perseguir, enviando-lhe, impiedosamente, o sol e a chuva fora do tempo.

 

Este sentido da condição miserável do camponês era, inequivocamente, o sustentáculo dos privilégios feudais, principalmente dos clérigos e dos nobres.

 

Na “vila”, isto é, fora da corte, as personagens vicentinas viviam numa outra condição social.

 

Parece que há, em Gil Vicente, uma curiosa abordagem dos valores meramente humanos, não num sentido acrítico, mas antes, denunciadores de uma estratificação social mal conseguida e dissuasora de mudança.

 

Ainda neste quadro humano, Gil Vicente regista outro fenómeno social importante, a migração dos provincianos para a corte, onde melhorariam a sua condição de vida – há, aqui, uma clara alusão ao êxodo rural como movimento populacional.

 

Paralelamente, há, também, um sentimento popular que vibra nos autos vicentinos, gravitando em torno de valores tradicionais, no qual o camponês não era, de todo, oposição à hierarquia feudal. Não obstante esta “resignação”, encontra-se um sentido abstrato da injustiça social, especialmente, a que se reporta ao camponês.

 

Ao nível da expressão linguística, Gil Vicente não deixa de referenciar nas suas representações cénicas, que são os rústicos que empregam exclusivamente outras formas expressivas, como por exemplo, ergueja (em vez de igreja, forma proferida pela gente urbana), do mesmo modo que entoam os cantares e executam as danças que caíam em desuso nas cidades. É o seu gosto anedótico que, aqui, desvenda, a dura realidade da falta de instrução rural, contrapondo-a com a estrutura organizacional urbana e mais urbanizada da época clássica.

 

O rural vicentino é, sobretudo, a sátira e a crítica social relativamente à condição camponesa; a sua obra literária exprime esta oposição entre o campo e a cidade, numa mágica popular que denuncia a existência de “duas classes” de camponeses, o rústico simpático e cómico e o lavrador submisso e explorado, mas ambos ciosos de uma vida menos provinciana na cidade.

 

Já a écloga de Bernardim Ribeiro exprime no seu genérico helenístico, a nostalgia da vida campestre. O gado, uma paisagem com um rio, matas e flores servem de pano de fundo ao diálogo ou monólogo de pastores.

 

As novelas Bernardianas, como a “Menina e Moça”, narram histórias amorosas ao som de um bucolismo que exalta a delicadeza sentimental do pastor.

 

Nos seus escritos devemos ainda considerar a humanização de elementos como a terra, que encerra em si os destinos humanos e, por vezes, parece albergar as almas dos finados; o sol, ou o fogo; a água e o rouxinol, ou seja, os elementos da paisagem natural.

 

A écloga de Sá de Miranda expõe subtilmente o seu entendimento sobre o mundo da época, versando, essencialmente, sobre o contraste entre a vida rural e a vida urbana e palaciana, mostrando que a dicotomia cidade/campo tem memórias bem recuadas. Elogia a simplicidade rústica, mais segura e mais repousada que a vida artificial da cidade ou da corte, combinada com uma crítica social que recorda, de certo modo, os utópicos do século XVI. O introdutor do soneto português critica ainda a vida artificial da corte Quinhentista e Kayser, no século XX, argumenta sobre a temática do artificialismo das cidades.

 

Parece, ainda, que para Sá de Miranda também existia um ideal de cidade, justamente equilibrado, “depreciando”, aqui e ali, a ruralidade camponesa. Neste sentido, a idealização clássica do comunitário primitivo, na qual a agricultura e a pastorícia eram ainda sentidas como sacrílegas e antinaturais, transfere-se para as relações agrárias coetâneas, e que conflituavam com o que parecia já um começo de proletarização de camponeses livres em detrimento da aristocracia absentista, consubstanciada pela crise da exploração feudal. Tais ideias, cheias de uma predestinação adivinhada, exprime-as num tom pretensamente nostálgico.

 

Todavia, para Bernardino Ribeiro e Sá de Miranda, a paisagem rural surge, na sua essência, numa visão idealizada e impregnada de bucolismo poético, entrelaçado com a beleza campestre, sendo que o binómio cidade/campo que permanece incólume, antevê um novo conceito – o artificialismo urbano que em nada condiz com a tranquilidade do campo.

 

Passemos, agora, à Literatura Moderna, a do século XIX e século XX, cerca de 1825 até à II Grande Guerra Mundial

 

Nas origens remotas do Romantismo está o progresso económico, político e social da burguesia e, no seu final, estão as consequências da Revolução Industrial.

 

Certo é que a matriz ideológica do termo indigita algumas das características mais frequentemente reconhecidas como definitórias nesta corrente social, os valores de liberdade, de igualdade e de justiça social.

 

Mas o Romantismo também se pode traduzir numa outra atitude de criação face à existência e à sociedade em geral, na qual o poeta coloca o acento no sentimento através da exacerbação do eu, da natureza e da crítica social, remetendo para segundo plano a cultura e a razão. Já Rosseau apontava para a importância dos sentimentos, da fantasia, da vivência e da nostalgia. Sobrevivia, assim, um romântico sentimental, amoroso, historicista e retocado pelo saudosismo.

 

Com o Romantismo, o universo poético traça outros caminhos contrários aos cânones clássicos, as tendências estéticas encenam-se, as literaturas estrangeiras reproduzem um pluralismo que desconhece gostos formados pela mesma cartilha e diversificam-se as temáticas e o público.

 

Contudo, o Romantismo, serôdio no tempo português, só ficará a coberto pela nova sensibilidade estética na geração exilada de um Almeida Garrett e de um Alexandre Herculano.

 

Concomitantemente, o historicismo assume importância paradigmática crescente, talvez por encanto, impondo-se nos mais variados domínios científicos, e que se estenderiam ao literário. A par ainda de um certo individualismo, a linguagem historicista impera, consoante a derrocada das instituições e das ideologias feudais-absolutistas, substituídas agora pela emergência do individualismo político-económico de cariz e âmbito burgueses, visivelmente sustentado pela omnipotência do dinheiro, já, sem barreiras às suas funções capitalistas.

 

Porém, uma certa rivalidade criada entre a burguesia e os detentores dos bens feudais instaura novas relações sociais no campo e, pela primeira vez na história, surge uma burguesia de proprietários rurais, embora com um poder de compra muito exíguo. Assiste-se, por outra parte, a lutas políticas entre a oligarquia financeira e os camponeses, artesãos e pequenos artífices, permeáveis ao ideário socialista utópico francês.

 

Entretanto, a nova geração romântica tenta reajustar, tanto quanto possível, a cultura portuguesa às novidades francesas. Mas articula igualmente com outras influências; de um lado, o Positivismo de Comte, ainda viçoso, apesar do historicismo emergente, e, de outro, um pouco de Hegelianismo, que se iniciava ao Evolucionismo Darwinista, chocando, assim, com os horizontes estritamente provincianos da literatura vigente.

 

O gosto pelas tradições medievais e as tradições folclóricas compõem esta corrente literária, paramentada por géneros que tematizam a historiografia, a ficção histórica, a investigação do objeto sociológico, o romance ou o poema autobiográfico, o memoralismo e o lirismo egocêntrico, em suma, o historicismo e o individualismo.

 

Ocupa um lugar de destaque a novela de Alexandre Herculano, com retratos, descritivos e fiéis da paisagem bucólica, atirando o leitor para a contemplação do infindável. Em “O Pároco da Aldeia”, o ambiente é a aldeia, à volta da Igreja (será o lugar central?), com a vida ritmada pelo toque do sino e o povo aldeão que trabalha no campo, que se queda alegre nas manhãs de missa, e interioriza, com fé, a subjetividade dos sermões dos dias festivos. A evocação da aldeia, neste e outros contistas, ilustrava claramente o semblante do conto e do romance rústico português.

 

No verbo do Romantismo, as pequenas intrigas da aldeia ou da vila eram seguramente mais “lidas” do que os problemas complicados da cidade; até porque muitos narradores reagiam às características próprias da vida urbana, idealizando uma alternativa utópica para a vida rústica. Crê-se que esta postura estará na base de correntes neo-rurais, de eventual nascimento pós-moderno, e que revalorizam a tranquilidade do campo, como alternativa ao urbano caotizado.

 

Entre o Romantismo e o Realismo, Júlio Dinis concebe o romance como um “género de literatura”, essencialmente popular e pedagógico. Assim, no seu livro, “As pupilas do Senhor Reitor”, enobrece a moralização dos costumes, com uma intencional idealização embelezadora da vida rústica, numa verdadeira “ficção bucólica”.

 

Na “Morgadinha dos Canaviais”, Júlio Dinis alterna o lirismo rústico com uma crítica de costumes, tirada a partir da mentalidade da burguesia rural e a da burguesia citadina.

 

A parte propriamente narrativa destes romances, românticos na sua estrutura, emoldura quadros de costumes idealizados ou deliberadamente concebidos à volta de um rústico nostálgico, já vivido, e que evoca mitos históricos, tradicionais, multisseculares e intocáveis. O campo era, antes de mais, ar puro, fresco, “abençoado” e singelo que despertava saudade de tempos de infância, lugar aprazível, onde todos os males poderiam ser curados, por antítese ao cariz, de certa forma, inóspito da cidade. A cidade era, certamente, o lugar da perdição, da sujidade, do lupanar e da doença, não obstante oferecer a vantagem do trabalho limpo, portanto, urbano e com urbanidade.

 

Entretanto, a obra literária de Camilo Castelo Branco anuncia e denuncia uma conceção do mundo rural algo diferente, ao desmistificar a visão idílica de Júlio Dinis. Desmistificação esta que, aliás, se poderá prolongar nos romances realistas.

 

Eça de Queirós, a seguir, abriu caminho à Escola Realista, questionando a velha sociedade e a literatura romântica, com critérios predominantemente positivistas.

 

Historicamente, sabemos que durante a primeira metade do século XIX, enquanto se travava o embate entre Neoclássicos e Românticos, o Realismo, começa lentamente a aparecer, como consequência da moderna industrialização e das artes produzidas na Europa. Na sua consciência ideológica, o homem moderno entendeu que para ser realista, necessitava de uma visão mais técnica, capaz de suprir um pouco as emoções humanas e a subjetividade com a acuidade certa.
Os temas realistas enfatizavam factos concretos, sobretudo os experienciados, na medida em que só o visível e o palpável eram considerados no domínio do real. Todavia, envoltos numa sensação de sobriedade silenciosa.

 

Deuses, deusas e heróis da antiguidade estavam “fora”. Mas, os camponeses e a classe trabalhadora urbana estavam “dentro”.

 

Sem dúvida que, enquanto corrente literária, o Realismo reage à exagerada idealização do Romantismo, atingindo uma certa pureza no reconto da vida rural e urbana das novas classes sociais. Este movimento estético-ideológico encarou o rural numa perspetiva mais descritiva e, essencialmente, mais sociológica, com uma preocupação muito centrada nas disparidades sociais, doutrinadas pela valorização do trabalho.

 

Enquadra, portanto, Eça de Queirós, como apologista do campo, sem ocultar, no entanto, a miséria e a verdadeira condição do camponês, apreciação, agora, isenta de valores sentimentais e românticos.

 

A dicotomia cidade/ campo já denunciada em correntes literárias anteriores, redefine-se em “A Cidade e as Serras” (1901), ao contrapor a cidade, lugar de perdição, ao campo lugar, tácito, de moral e bons costumes. Ainda neste romance, Eça de Queirós ridiculariza o progresso técnico, enaltecendo a vida de proprietário rural, já sem as privações do trabalhador agrícola, parecendo contextualizar uma embrionária perspetiva ecológica do campo pós-moderno! De par, parece também aportar alguma convivência com os modelos howardianos, cuja filiação utópica coloca a ênfase num trabalhador rural mais feliz, menos subserviente e com mais direitos sociais, apoiado num possível “socialismo”.

 

Importante no romance Queirosiano e, em todo o romance realista, é a interação entre o ambiente físico e o Homem, este como agente da paisagem; aquele, como agente da Natureza, em absoluta harmonia com a paleta impressionista flaubertiana.

 

A estética Naturalista de Ramalho Ortigão enaltece o colorido das feiras e dos arraiais, do trajo regional, dos lugares pitorescos e das paisagens novas que constituem, por exemplo, “As Farpas”.

 

Ressalve-se que estas obras naturalistas, por oposição à nostalgia romântica, compõem-se de notáveis páginas descritivas desprovidas do sentimentalismo lânguido da corrente literária antecessora, esboçando com um certo vigor as virtudes rurais. Por outras palavras, a saudade idílica do campo é esquecida em detrimento da descrição pura e simples dos padrões rurais.

 

O Parnasianismo identifica uma poesia essencialmente descritiva, pitoresca, narrativa e, tanto quanto possível, objetiva e impessoal, apelando muito pouco ao belo do Romantismo. Neste cenário literário, Cesário Verde deixa-se conquistar pelas seduções da urbe e, mais tarde, observa o campo, sem bucolismos, mas com uma visão objetiva, saudável e natural.

 

O campo já não tem um aspeto idílico, paradisíaco, bucólico e suscetível de devaneio poético, é antes um espaço real, concreto, autêntico, que lhe confere liberdade. O campo é um espaço de vitalidade, alegria, beleza e vida saudável…

 

"Na cidade, o ambiente físico, cheio de contrastes, apresenta ruas macadamizadas/esburacadas, casas apalaçadas, habitadas pelos burgueses e pelos ociosos, quintalórios velhos, edifícios cinzentos e sujos… O ambiente humano é caracterizado pelos calceteiros, cuja coluna nunca se endireita, pelos padeiros cobertos de farinha, pelas vendedeiras enfezadas, pelas engomadeiras tísicas, pelas burguesinhas…". É assim que Cesário Verde traz para a poesia o real quotidiano do homem citadino.

 

No poema "Da tarde", parte integrante da obra "Em petiz", o tom irónico relativo aos urbanos contrasta com o tom eufórico devotado aos lugares campestres, todos visitados ao lado da sua "companheira".

 

O gosto do poeta pelo campo percebe-se nos poemas "De Verão" e "Nós", nos quais desaparecem a dureza, a doença e a sujidade ligadas à vida urbana e emerge o elogio ao meio rural.

 

Sente-se, não raras vezes, o conflito entre a simpatia pelo povo urbano e pelo rural, explorado, numa flagrante dicotomia cidade/campo, reforçada pela ideia Darwinista de que os fracos, ou decadentes, estão condenados a ser eliminados pelos mais fortes, os mais aptos. À luz de uma paisagem ainda suburbana, Cesário Verde exprime claramente, no seu romance “urbano”, o quotidiano do operário vindo das massas rurais, que engrossava a cidade, num verdadeiro movimento de êxodo rural.
Todavia, com Cesário Verde, a poesia demonstra um entendimento mais realista e impressionista da cidade e do campo. Contrariamente ao campo, a cidade ainda era “doente”, sobretudo quando comparada ao ideal higienista, e projetava ainda a “vil tristeza” dos bairros pobres, das enfermidades, das prisões, dos cães, dos gatos, do peixe podre e das hortaliçeiras que circulavam na “fauna” urbana.

 

Sendo assim, o que não era cidade, entendia-se como campo idílico, saudável, mas numa perspetiva marcadamente anti-urbana, herdada de correntes organicistas da filosofia naturalista e da medicina higienista hipocrática. Trata-se, pois, de uma visão concreta do campo e da terra-mãe, e não da pura abstração da Natureza, ou de venerar tão-somente o espaço urbano.

 

Apesar da inflexão naturalista, a renovação estética do início do século XX, apela a um corte radical com o passado, identificando o espírito crepuscular e decadente do simbolismo, em substituição de uma arte harmonizada com este novo século, o da electricidade e do automóvel.
Esta nova geração, a Decadentista, marcada por um certo cosmopolitismo, foi, num primeiro momento, a do Grupo do Orpheu, com destaque para Fernando Pessoa e, num segundo, a de Aquilino Ribeiro e Miguel Torga, entre outros.

 

Nestes inovadores sobrevivem, ainda, as linhas românticas do sentimentalismo e do historicismo, retocadas pelo gosto decadente ou pelo saudosismo do rural “perdido”.

 

O Guardador de Rebanhos marca o surgimento do heterónimo Alberto Caeiro, o poeta bucólico de Fernando Pessoa. Na realidade, o autor serve-se do pastor para atingir o estado contemplativo da vida, à medida que as estrofes dos poemas vão formando uma sequência que pode ser entendida como um dia na vida do guardador de rebanhos. No relato, não há metafísica nem mistério, somente uma contemplação calma da Natureza, em que o pensar passa pelo sentir.

 

A Pastoral de Pedro de Bernardo Soares do Livro do Desassossego, celebra a vida pacata do campo, a Natureza e o bucolismo, a par de uma subtil nota à efemeridade urbana, no momento em que deixa claro que "Vendo-te recordei que as cidades mudam mas os campos são eternos.".

 

Miguel Torga, outra figura literária de renome, adere igualmente a um ambiente cénico agrário e pastoril, pelo que, nos seus contos, por vezes dramáticos, aponta a dura e simples coragem da vida rural: a semente, a seiva, a colheita, a água, a terra, o vento, o pão e o pastoreio, não como ideal, mas como imagem de uma realidade que não lhe era alheia.

 

Não obstante o modernismo estético, tendencialmente, introspetivo e dramático, o saudosismo ainda perdura neste razoado literário; assim, a vida rural hedonista da literatura romântica é, agora, chamada a terreiro, mas numa consciência clara, mais generalista e mais pessoalista.

 

Verdadeiro narrador rural deste início do século XX, João de Araújo Correia, abrange, na sua obra, a aristocracia duriense: brasileiros, doutores, burgueses, padres aburguesados, caseiros, almocreves e muitos outros populares.

 

A temática dominante passava pelas superstições, lutas pela terra, caça ao lucro e pelo culto dos figurões locais, num qualificado realismo de costumes.

 

Da narrativa deste autor ressalta, ainda, um certo declínio no dinamismo ideológico das camadas populacionais médias e já uma certa polarização social, resultante do lento mas irreversível processo de industrialização.

 

A obra de Aquilino Ribeiro surge com uma construção mais complexa da realidade rural, que se desenrola num tempo politicamente frágil, socialmente polémico e que primava por uma ética de intervenção cultural.

 

Viajando agora até à Literatura Contemporânea, a do século XX – da II Grande Guerra Mundial até à atualidade

 

Em pleno século XX, a ideia de paisagem rural acentua-se como um território visto e sentido, embora cada vez mais subjetivo e elaborado pela mente. A tónica não é posta somente no território, mas também no modo como ele é visto, percebido e sentido.

 

A literatura continua a desempenhar um papel importante na construção de códigos estéticos de descrição e vivenciais da paisagem rural, ou antes, da ruralidade. Consubstancia-se uma certa nostalgia pelo passado e pela ambicionada harmonia das paisagens, ditas rurais, que as pessoas procuram, como refugio à turbulência citadina.

 

Personagens com características muito próprias, fidelizam crenças e valores de uma sociedade rural (de outrora?), traduzindo sentimentos, valores e fantasias que consagram, a todo o momento, uma grande herança cultural e social, que se pretende patrimonial.

 

Talvez o sentido mais luminoso da poesia fosse secundado em detrimento da narrativa, mas por culpa da crescente consciencialização das classes mais desfavorecidas, da preocupação com as injustiças sociais, da luta pela liberdade, da defesa dos oprimidos e da arte ao serviço do Homem, contra a opressão.

 

Recorde-se que nos anos 30 Portugal era um país “sonolento” e alheio aos eventos que agitavam o mundo e que anteviam a inevitável II Grande Guerra Mundial. Apesar deste marasmo ilusório, os que pressentiam o perigo da conjuntura política “forneciam” aos escritores de língua portuguesa o quadro teórico que formalizava o “Realismo Social” como reflexo e reflexão da realidade nacional.

 

Posteriormente, três elementos fundamentais desenharam o universo do Estado Novo rural: a paisagem agrária, a demografia e a estratificação social. O primeiro dividia o país em diversas paisagens: i) O NW, com um povoamento rural disperso sustentado numa propriedade de minifúndio à custa da policultura; ii) O litoral NW, um povoamento aglomerado, com os seus lameiros e a pequena exploração familiar, base da cultura extensiva cerealífera; iii) O Alto Douro, Beira Alta e Trás-os-Montes, os senhores de grandes patrimónios fundiários descontínuos; iv) O Alentejo das grandes herdades, os latifúndios, território de capitalismo agrário com o seu povoamento rural concentrado nos montes e v) O Algarve, da grande propriedade, as quintas muradas ou parcelas dispersas, e o proprietário absentista.

 

Esta oligarquia rural opunha-se a qualquer transformação modernizante, prorrogando o ruralismo miserável que, ilusoriamente, mantinha o camponês no seu simplismo naïf, apesar do sofrimento que a terra e as inconstantes chuvas lhe impunham: a Natureza era hostil e injusta para com estes homens da terra. Neste conformismo latente, o camponês e familiares constituem a família perfeita; o lar rústico e cristão, resignado à condição e destinos divinos; tradicionalista e inculto, onde o jornal ou qualquer presença do mundo industrial ausentam-se, por risco de influências nefastas!

 

José MATTOSO (1994) diz-nos que “era o Portugal profundo das aldeias isoladas, sem estradas, sem água, sem luz, sem esgotos, ainda por muitos anos.”. Soma-se o isolamento do povo rural, como defende MATTOSO, ao referir que “tudo se passa nos limites desse universo geográfico e culturalmente fechado e longínquo que é a comunidade aldeã, onde ainda se queimavam “feiticeiras” nos anos 30, se excomungavam demónios e é vivaz a crença nos Lobisomens.” (Idem), e a vontade evidente de emigrar para o estrangeiro ou para a cidade.

 

Do ponto de vista demográfico, assistiu-se a um dos períodos de maior crescimento populacional, enquanto a agricultura revelava um cariz tradicional, com índices de produção muito baixos e uma industrialização fraca, isto é, vivia-se um “excesso populacional” relativamente às capacidades de oferta de trabalho. Pese embora este condicionalismo demográfico, teciam-se louvores às virtudes e belezas deste idílico mundo rural pequeno-camponês que sobrevivia à custa de uma agricultura patronal ou absentista, precária e produtivamente fraca, resistindo indomitamente à necessária industrialização e urgente reforma agrária.

 

Inserto neste lastro ideológico, Ferreira de Castro enfatiza as condições de vida do camponês na mais crua injustiça social, de modo que este narrador pode ser considerado como um precursor do movimento Neo-Realista.

 

Nas suas narrativas, Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes privilegiam a denúncia das condições precárias de vida dos camponeses e a degradação económica e política do mundo rural.

 

O "Guardador de Vacas e de Sonhos", de Alves Redol, mostra-nos uma aldeia pobre, onde as pessoas são simpáticas e humildes, mas iguais a tantas outras nos seus usos e costumes. Enquanto guarda as vacas, o Constantino sonha em ser serralheiro de navios e fazer um barco que o leve até Lisboa, em busca do seu sonho - a vida citadina - que o curaria da desolação rural.

 

Juntam-se os contistas Fernando Namora e Manuel da Fonseca para realçar a profunda necessidade de “substituir” as imagens falsas que o Estado insistia em defender, pelas imagens nacionais e reais, não numa atitude romântica, mas antes realista e concreta.

 

Retomando léxicos, como a ação, o tempo e o espaço na ficção, este movimento literário identifica o primeiro com a luta contra a violência e a miséria rural e o segundo, com um determinado tempo, sendo que o espaço privilegiado de ação é o Sul latifundiário, narrado por Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes; o Alentejo, contado por Manuel da Fonseca e Fernando Namora e o Alto Douro de Alves Redol, os romances do ciclo Port Wine. Nestes são abordados, despudoradamente, temas como a precariedade do camponês, a implacável Natureza e o absentismo do proprietário rural, incluído numa clara divisão da estrutura fundiária do país. Com todos estes condicionalismos indutores de pobreza, o campo era, naturalmente, associado a sentimentos de angústia e desolação permanentes.

 

O conceito de mutabilidade temporal pode ser introduzido na matriz concetual destes romances que, entretanto, esboçavam um exercício ideológico e personificado, “resgatando” novas atitudes à classe poderosa e à camponesa; a uns, a entrega cabal da liberdade e a outros, o pleno uso dos seus direitos.

 

Neste sentido, estes romances são pontuados por importantes figuras ideológicas, vinculadoras de ideais libertários, como o “Ceifeiro rebelde” dos Gaibéus, escrito por Alves Redol; ou o “Maltês” de Cerromaior, narrado por Manuel da Fonseca; ou, ainda, o “Manuel Caixinhas”, criado por Alves Redol… Será que se pode encarar este romance como o indutor da agitação que se manifestaria a qualquer momento?

 

Efetivamente, o início das agitações sociais, quer sob a forma de greves rurais (1943-45), quer sob a forma de motins, dão conta do grande descontentamento diante da falta crescente de géneros alimentares, do desemprego e dos baixos salários rurais. Parafraseando o deputado Antunes Guimarães (in Diário das Sessões, de 22 de outubro de 1942: 93), verifica-se por todo o país uma “maré crescente de atentados que tornam precário o trabalho rural: roubo de fruta, lenhas e capoeiras; razias de espigueiros e tulhas; desaparece o ferro das ramadas e das noras, somem os carros de água e “nem os portões das quintas ficam””.

 

Certo é que o início dos anos 40 foi varrido pela fome e miséria impostas pelas colheitas fracas que o inverno originou, a que o povo rural, na impossibilidade de encontrar formas de lhe resistir, empreendeu sucessivas manifestações de revolta – o pão e o trabalho faziam parte do grande mote protestativo. Esta vaga de agitações foi-se estendendo, ponto a ponto, por todo o país: marchas de fome, manifestações de mulheres frente às Câmaras Municipais e assaltos a estabelecimentos comerciais, por vezes, liderados(as) pelo pároco ou regedor da aldeia.

 

O norte e centro do país viviam a crise da pequena exploração, porquanto o descontentamento se manifestava contra as operações de açambarcamento pelos grandes lavradores, contra o tabelamento de preços (para o produtor) e contra a exiguidade dos preços da lenha… - era, pois, um terreno fértil à organização de motins, cuja insubordinação se prolongará pelos anos “adentro”.

 

À época, dava-se notícia de que “começava a tocar a sineta da fábrica (…), e o sino da Igreja local a tocar a rebate, começando novamente o povo a juntar-se aos magotes na estrada, principalmente mulheres, em grandes grupos, dizendo que tinham fome e queriam pão.” (ANTT/AGMI, 1941).

 

Por conseguinte, esta natureza política dos movimentos grevistas constituía expressões de franco descontentamento e de resistência contra a falta de alimento e a dureza das condições de vida que o movimento literário vigente tão bem conhecia!

 

No dealbar dos anos 50, o país mantinha-se tradicionalmente dividido, a sul o latifúndio e a norte, o minifúndio, com a consequente fragmentação da terra.

 

Falava-se, portanto, de uma política agrária que fixasse preços e atribuísse subsídios, mas só por pressão de alguns agricultores. Esta política agrária instaurou, também, o chamado projeto “neofisiocrático” (cf. Fernando ROSAS, 1988: 192-193), através do emparcelamento das pequenas propriedades do norte e do parcelamento das grandes extensões do sul, com a instalação de colonos das primeiras nas segundas. Acreditava-se que esta reforma na agricultura poderia impulsionar o desenvolvimento industrial, na tentativa, ainda que cautelosa, de uma modernização global do país. A resistência dos agrários alentejanos não se fez esperar e, rapidamente, denunciaram o seu descontentamento perante a necessidade de partilha das suas terras com os pequenos colonos.

 

Chegados à década de 70, a agricultura portuguesa já havia sofrido alguma transformação, mas não a suficiente para enfrentar as necessidades de uma economia parcialmente industrializada. Recupera, mais do que nunca, a clássica antinomia cidade/ campo, hierarquizando a primeira nos espaços de perdição e o segundo nas terras alheias, numa pretensa alusão ao absentismo rural, que endurece o seu povo camponês, cujo código de leitura rural é bem diferente do estético-romântico: o idílico de Júlio Dinis é substituído, agora, pelo suor, sofrimento e lágrimas do Neo-Realismo.

 

O campo é, antes de mais, um espaço de provas, ora pragmáticas, ora cognitivas. Se as primeiras impelem o trabalhador a enfrentar a fadiga, o desconhecido, a doença e a fome, as segundas obrigam a uma análise de vários símbolos que materializam os mais legítimos princípios da democraticidade, universalmente reconhecidos, como justiça social, equidade e solidariedade, num espaço que é essencialmente coletivo.

 

Realistas, oníricos, otimistas ou desesperados, estes romances da literatura contemporânea pressupõem soberbos condensados da história social e da realidade rural portuguesa na época salazarista, com o mérito de disponibilizarem uma perspetiva puramente sociológica, seja por inspiração estética, seja por manifestação ideológica de um produto social, construído ou a desconstruir.

 

Numa lógica mais regionalista, surge a narrativa de Agustina Bessa-Luís, nas páginas de “Vale Abraão”, inspirada na “Madame Bovary” de Flaubert, ou no “Principio da Incerteza”, ambos adaptados ao cinema por Manoel de Oliveira, e que esmiúçam de uma forma despudorada a experiência vivida e os sentimentos da ruralidade, do campo, da sociedade rural e da paisagem rural, no seu todo.

 

Agustina Bessa-Luís e Saramago, entre outros, enquadram o Realismo histórico dos anos 80, muito preocupado com o sentido histórico, com a dupla realidade/fantasia, com o poético, com o empenho social e interventor e com as preocupações regionais.

 

Talvez por isso, os contos que (re)contam o rural Duriense num sentido de memória coletiva, refletem gostos, valores e aspirações envolvendo uma simbologia codificada que só o ambiente rural conhece.

 

O campo e o rural não foram extintos com o tempo sociológico, nem com o tempo do capitalismo. Vestiram, apenas, diferentes roupagens... que variaram entre o anedótico, o saudosismo, a beleza, a calma, a dureza, a luta, a história e o património construído... cujo valor deve ser reconhecido e preservado porque, como diz Raymond Williams, ‘Campo’ e ‘cidade’ são palavras muito poderosas.

 

Bibliografia

 

ANDRADE, Maria Ivone de Ornellas de - Macedo e Bocage: um duelo de vaidades, in Leituras de Bocage, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, pp. 12-23.

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SANTOS, Carlos – Cinema e Ideologia durante o Estado Novo, Porto.

 

Ana Paula de Nápoles é licenciada em Geografia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e doutora em Geografia Humana (Pré-Bolonha) também pela FLUP.
Professora na Faculdade de Arquitetura da Universidade Lusíada do Norte.

Investigadora residente no Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT) e investigadora colaboradora no Centro de Investigação em Território, Arquitetura e Design (CITAD), inclui nas suas áreas de interesse, na docência e na investigação, o urbanismo e o planeamento.

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