ANO 5 Edição 57 - JUNHO 2017 INÍCIO contactos

Ana Elisa Ribeiro


Poemas inéditos de Ana Elisa Ribeiro

Fonte

 

vou dedicar-lhe
uma rua uma fonte
um edifício:
seu nome completo
em aço escovado
no frontão
sob o número par
desta rua central
um prédio, não
um livro, inteiro
seu nome todo:
na página inicial
livro, não
um poema
de linhas compridas
seu nome inteiro:
primeira letra versal
poema, não
uma fonte serifada
com hastes alongadas
perpetua enriqueta bodoni
garamond qualquer uma
seu nome:
dando forma de letra
a tudo o que há

 

Mãos

 

só vou envelhecer
quando as mãos se mancharem
e se enrugarem
e ganharem pintas de puro desgaste

 

não vou envelhecer
com vincos ao redor dos lábios,
nem com peitos caídos de leve

 

não envelhecerei com fios brancos
no alto da cabeça trêmula

 

nem com pernas sem firmeza
um andar de lentidão
e olhos baixos

 

não serei velha
enquanto as mãos mantiverem
a pele firme e morena

 

não serei velha
apenas se contar os anos
nos dedos endurecidos
doloridos à toa
e nem porque não queira mais
saber de sexo algum

 

por isso olho minhas mãos
com medo
com cuidado
e as investigo

 

quando eu for velha
realmente velha
o avesso das palmas mostrará manchas
e pintas e uma pele transparente

 

e as veias visíveis
contra os dias de sol
me impingirão os anos
que nunca antes
quiseram me convencer

 

de que os anos passam
enquanto simplesmente
desbotamos

 

Breve entrevista imaginária
parte I


O que é preciso para ser poeta?

 

Antes de tudo,
é preciso desligar-se da língua;
e religar-se
daí a um segundo.

 

parte II


O que mais é preciso para ser poeta?

 

É preciso estar no mundo,
reparando-o minuciosamente;
e mais ainda se parecer
tudo resolvido.

 

parte III


E mais alguma recomendação?
Desobedeça.

 

Ele se foi para sempre

 

quanto lhe custa
desacostumar-se
deste jeito de andar
e deste cigarro
que ostentas
na janela

 

- quanto mais
se ostentas o cigarro
o cachimbo o charuto
à beira de qualquer
desalento -

 

quanto lhe custará
desacostumar-se
ao horário em que
o relógio desperta -
a seu mando
e ao banho de bem cedo,
quando ainda
nem ajeitaste os cabelos

 

quanto lhe custará
desacostumar-se
do café escuro
e sem doce
quando caíres em si?

 

Banda

 

escolheu olhar de soslaio
menos sincero, ao menos
ou menos cínico, depois

 

olhar diretamente
poderia queimar-lhe
as retinas as entranhas

 

e se olhasse de cima?
por baixo a visão
parecia-lhe interrompida

 

ajeitou-se no mundo
como que a medir
o tamanho do desvão

 

e mirou de soslaio
as inquietudes todas
que pousaram no parapeito

 

performer

 

A poeta
cansada
da rima
e do verso
passou ao gesto

 

cravos & rosas
d’aprés Henriqueta

 

Terrível notícia
de que o cravo
brigou com a rosa
dessas de que corremos
todos os dias
ao amanhecer, ao anoitecer
ninguém gosta de saber
prestimoso casal
e tão brigados!

 

dessa briga torpe?
das capas de jornais?
dos piores noticiários?
ou apenas um chilique?

 

Rosa, reage
presta queixa
ameaça?

 

os cravos – ou as rosas –
não são mais
os mesmos?

[foto de Rafael F. Carvalho]

 

Poeta brasileira, Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, onde reside. Nascida em 1975. É professora e pesquisadora na área de Letras e Linguagens no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais. Doutora em Linguística, tem se dedicado aos estudos da leitura, da escrita e da edição há vários anos. É autora de mais de duas dezenas de livros, entre eles os mais recentes "Xadrez" (poesia, pela editora Scriptum, 2015), "Por um triz" (poesia, infantojuvenil, pela editora RHJ, 2016), "Pulga atrás da orelha" (infantil, pela editora Gulliver, 2017), além de livros técnicos. Tem poemas publicados em antologias no Brasil e no exterior.

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Revista InComunidade, Edição de JUNHO de 2017


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Colaboradores de JUNHO de 2017:

Henrique Prior, Alexandre Guarnieri, Ana Elisa Ribeiro, Ana Paula de Nápoles, Beatriz Bajo, CAMÕES DA PRISÃO DE GOA A JÚLIO POMAR, Cândido Rolim, Carlos Barbarito, Carlos Orfeu, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Cláudio Parreira, Danyel Guerra, Denise Bottmann, Federico Rivero Scarani, Jorge Vicente, Leandro Rodrigues, Leonora Rosado, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Ngonguita Diogo, Nuno Rau, Ricardo Ramos Filho, Rogério A. Tancredo, Rosa Sampaio Torres, Rui Albuquerque, Rui Miguel Fragas, Tristão José Macedo, Vanessa Dourado, Vasco Rosa


Foto de capa:

Camões, autor anónimo, 1556 e variação sobre aquele retrato por Júlio Pomar


Paginação:

Nuno Baptista


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