ANO 5 Edição 57 - JUNHO 2017 INÍCIO contactos

Alexandre Guarnieri


2 POEMAS COMESTÍVEIS DE ALEXANDRE GUARNIERI

azz  zayt/ azeite

 

o sobro

 

eclodem pérolas verdes e negras
pelas vísceras de ísis, da seiva de árvores
plantadas por milagre em áreas híbridas,
de relativo parentesco com vinhedos,
santuários de bagas de ágata, parques acesos
desde a abundância destas mínimas
engrenagens biológicas fazendo agir
a válvula da clorofila inexplicável;
há a dança muitas vezes tão lenta
da semente à colheita, as raízes fincadas
bem no meio do reino mineral,
mas quando a turbina da maturação
redobra o giro sobre seu próprio eixo,
o clima propicia ritmos agrícolas,
tanto quanto vidas; eis surgidas já maduras
as azeitonas carnudas, que há algo
entre erva e grão, entre jóia e fruta
nas olivas duras, de envelhecidas,
entretanto cruas; só meses em tonéis
de salmoura, mergulhadas ainda nuas,
as farão de densas, a tenras e últimas,
                                                já quase uvas;


 
o goro

 

de um útero túmido, oriundos
do ovário verde da oliveira,
pesando-lhes na extremidade,
pendem dos galhos entre seis e dez
destes futuros bulbos de júbilo e óleo;
pequenos e quase imperfeitos
são só mais espessos na carnadura,
apesar do berço tão seco;
muito embora unitária, é mantida
a estrutura que lhes frutifica,
mas quando cavoucados à dentada,
afundadas com cuidado, à casca
cuja duração atinge um único núcleo
grosso e rugoso, o perigo iminente
de se quebrar qualquer dente
requer à mesa préstimos de sérios alertas
(cuidado que o caroço é pedra!):
ainda assim incauto, um pobre diabo,
na mais faminta das mordidas,
há de quebrar logo o da frente;


 
o gomo

 

pomos de safira e turmalina,
de gotas gordas estas gemas
sob delicada ramagem, são gomos
cujo adubo maturam e sangrarão suor,
dos barris ao lagar, pois são produto puro
da maceração (como sangravam,
do lugar mais alto, as virgens vitimadas
em primitivos altares de sacrifício),
exsudado seu néctar comestível,
do mais puro âmbar ao amarelo
esmaecendo no ácido do seu sangue inigualável,
regala pelo mundo as mais inúmeras gastronomias;
há algo de sagrado entre remédio e alimento, e
quando, na última etapa, do design arrojado
da “descolada” garrafa, passado já do halo
santificado pelo gargalo, escapa seu delicioso olor,
a visão é de um estreito córrego de ouro silencioso
cercado, no ar, por leitos de nada, quando escorre o óleo
sobre o regato de um prato de salada, infiltrando a fibra
da carne mais tenra do planeta, ou ainda regando
as lascas salgadas de um bacalhau largo, guarnecido
por círculos recortados de batatas cozidas, e segue daí
à garganta, onde algo glorioso acorda, do olfato ao olhar,
onde degustá-lo nunca seria menos que
uma das magias mais antigas da cozinha;


 
o logro

 

numa zona adormecida do cérebro
(ou do espírito), pelo continuado mau uso
do apetite (ou do livre arbítrio), pela péssima graxa
rolando as roldanas do paladar (ou da alma),
a ferramenta mais refinada exige o despertar,
no tempero extra virgem, do estrangeiro,
talvez de mirandela, ou do alentejo,
o sétimo céu do sabor agora é no céu da boca, que,
ungindo da fala a moldura da qual escapam todas as palavras,
deste apto palato bem alimentado no panteão do olimpo,
aclara no hálito de todos os seus deuses glutões
as mínimas fragrâncias só apreciáveis com finíssima sintonia,
na soma ao todo dos seus aromas sensivelmente coreografados,
de oleosidades saborosas tão vítreas e coloríficas que,
apresentadas agora por toda a língua,
são livres bailarinas escorregadias
percorrendo o longo baile
das papilas gustativas


 
palmito

 

reservar do talo
(o miolo
                         como alvo)
          apenas a parcela certa
– a medula,
                entremeio tenro –
o suprassumo
                                recheio;

descartar a casca dura,
                          crosta rude,
         da palmeira tão miúda
( ou será da verdadeira,
             imperial,
                         a miniatura );

conservar bem limpas
todas as fibras – feixe –,
que, alinhadas perfeitamente
esperaram
               por uma temporada,
                          de temporãs
        à hora exata
                          de retirá-las;
sobra agora
entregá-los à faca,
            bastonetes torneados
( seriam primos
                          do aspargo,
    fosse este um pouco mais
                   hígido ou largo )
             e dispor
com bastante cuidado
os cilindros raros
                         e salgados
      como o último detalhe
        decorando de branco

o prato

 

 

Alexandre Guarnieri (carioca de 1974) é poeta e historiador da arte. Integra o corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens. “Casa das Máquinas” (Editora da Palavra, 2011) é seu livro de estreia e está disponível online (ISSUU). Seu segundo livro é “Corpo de Festim”, com o qual ganhou o 57o Prêmio Jabuti em 2015. Em 2016, publicou pela Patuá a antologia “Escriptonita” (poemas tematizando super-heróis), do qual foi um dos organizadores. Seu terceiro livro é “Gravidade Zero” (Penalux, 2016).

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Foto de capa:

Camões, autor anónimo, 1556 e variação sobre aquele retrato por Júlio Pomar


Paginação:

Nuno Baptista


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