ANO 4 Edição 56 - MAIO 2017 INÍCIO contactos

Christina Montenegro


OS TEXTOS DE CADA VIDA; A VIDA UM TEXTO

Somos acostumados a usar com frequência o ditado popular que diz:

 

- “O brinquedo da criança é o trabalho dela; já o trabalho é o brinquedo do adulto”.

 

Posso estar enganada, mas me parece que o usamos antes ‘da-boca-para-fora’, retoricamente, que refletindo DE FATO sobre os significados de tudo isso.

 

Vamos então abrir o texto- com o objetivo de focar ainda melhor as reflexões que serão aqui lançadas paulatinamente – com uma pausa.

 

Uma pausa para fecharmos os olhos, e relembrarmos por um minuto alguma brincadeira da infância que – de fato – tenha nos entretido, marcando-nos com alegria suficente para deixá-la até hoje na memória.

 

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Relembraram?.... Então, sigamos.

 

Pensando em foco, embora sem rigidez, gostaria de contar que quando desenvolvo institucionalmente uma Oficina destinada a redescobrir a ‘Capacidade de Assombro (ou Espanto)’ em leitura de textos, especialmente os teatrais, a indispensável apresentação inicial de todos os participantes se dá pelo desenho do ‘perfil de leitor’ da turma.

 

Para isso, fazemos a descrição dos livros marcantes na infância, na adolescência, e na vida atual de cada um.

 

Até o final desse texto creio que ficará mais claro que essa proposta de caminho para a reflexão (como a que fiz acima aqui, e a que faço nas Oficinas) vai além do mero ‘vício profissional’ de uma psicoterapeuta.

 

Não tenho a menor pretensão de “dar respostas” às questões que serão levantadas, nem aqui, como não tenho lá; prefiro o incômodo lugar de mera “provocadora de reflexões”...

 

Cada brincadeira da infância (assim como cada aventura da adolescência) relembrada aqui como lá, poderia se tornar um texto publicável; bastaria que fosse redigido (de preferência com um leve toque de Arte) pelo ‘brincante/aventureiro’, e posteriormente poderia ser aceito até por alguma Editora. Mas se isso não aconteceu ainda (que eu saiba), não ‘rouba’ dos relatos implícitos sua potencialidade textual.

 

Brincar é coisa séria: se conseguiu na pausa lembrar de sua brincadeira, lembrou também que naquele momento aquele brinquedo era uma coisa séria e/ou profunda para você, por mais que fosse simultaneamente divertida.

 

Essa coisa séria tem uma complexa e profunda função no processo que nos constrói e nos humaniza.

 

O brincar serve como uma espécie de ‘RITUAL ELABORATIVO’ para a construção da nossa relação com nosso ‘si mesmo’, com o Outro e com o Mundo.

 

Quando chegamos à vida da Vida, somos seres ainda mais precários do que somos agora, e  continuaremos a ser ao longo de nossa existências.

 

Nossas interioridades estão particularmente desorganizadas, não temos como nominar nada, não temos sequer como pensar usando ‘Sujeito-Verbo-Predicado’, como já o  conseguimos fazer agora; somos antes um vulcão em erupção de surpresas, sustos, pavores, e milkshake de desejos ainda sem nome lançados ao redor...

 

Tudo é novo (e particularmente assustador) , tudo está em ebulição/construção naquele momento:

 

- O Tempo/Ritmo (não temos sequer as primeiras noções de organização/conceituação sobre ‘Início/Duração/Fim’, e no entanto o Tempo/Ritmo está lá);

 

- O Espaço (não temos sequer as primeiras noções de ‘Dentro/Movimento/Fora’, e no entanto o espaço está lá);

 

- A larga e complexa ‘paleta de cores’ que percorre o caminho que vai do ‘Bem’ ao ‘Mal’ se revelará lenta e gradualmente, mas sua instituição já é deflagrada ali;

 

- A larga e complexa ‘paleta de cores’ que percorre o caminho que vai do ‘Belo’ ao  ‘Feio’, se revelará lenta e gradualmente, mas sua instituição já é deflagrada ali); etc.

 

Apesar dessa desorganização já existe dentro de nós uma CENTELHA ÚNICA que um dia nominaremos “EU”, ou “MEU DESEJO”.

 

Thomas Hardy, por exemplo, disse que “O Tempo muda tudo, menos uma coisa dentro de nós que está sempre surpresa com a mudança”...

 

Como psicoterapeuta costumo dizer que a vida e o viver são uma tessitura. Tessitura que inclui a escolha de uma estilística existencial: Ética (e etiqueta) e Estética (e estilística) são inscritas dentro de nós simultaneamente.

 

A tessitura não tem fim; enquanto seres vivos somos seres em movimento.

 

Se trabalhamos sobre nós mesmos, podemos nos manter em movimento de expansão; o único movimento de encolhimento compulsório é o final, que leva à paralização do percurso (ao menos do corpo, do intelecto e dos afetos).

 

Essa experiência/percurso que, tragicamente, sabemos de antemão ser transitório...

 

Numa conversa informal que tive com uma produtora cultural, ela me informou que, em hebraico, há apenas um vocábulo para designar “Vontade” e “Sabor”.

 

Lembro que em alemão apenas uma palavra designa “Dívida” e “Culpa”.

 

Lembro ainda que também “Brincar” e “Representar” são designados por um único vocábulo em ingles, frances, alemão...

 

Vamos guardar também esses dados, para que igualmente alimentem as reflexões que quero deixar aqui.

 

Nascer é ser lançado num mar de DUALIDADES: Viver e Morrer, Natureza e Cultura, Discurso e Prática, Amar e Odiar, etc.

 

O impacto de nos depararmos com dualidades nos acompanha por toda a vida.

 

A proposta de Hannah Arendt para a construção da possibilidade de um reequilíbrio mínimo diante da inevitabilidade desse interminável impacto, para que toleremos a sensação de ‘estarmos divididos’ a cada passo entre as dualidades, é colocar RESPONSABILIDADE como ‘recheio do sanduiche’ de toda dualidade que nos assombre.

 

Acrescento que a nomenclatura ‘diabo’ começa pelo prefixo DI, que significa DOIS, indicando Divisão, o que torna mais compreensíveis expressões populares como por exemplo “estar com o diabo no corpo”, que fala de alguém assolado por alguma dualidade, e do quanto essa sensação é desagradável, ou até perigosa para nossa sanidade mental/emocional.

 

DIVISÃO = ANGÚSTIA, experiência que já nos alcança precocemente, quando estamos fragilmente “verdes”, imersos em sensações não nomináveis.

 

Por essas e outras não acredito em bebês com “cólicas”; acredito em bebês com crise de angústia...

 

Aliás a farmacologia (alopática ou homeopática) conseguiu inventar medicamentos para amenizar a ansiedade.

 

Já para a ANGÚSTIA isso não é possível: angústia é “estar dividido entre isso ou aquilo”; para isso, o único remédio é a ESCOLHA...

 

Quando, mais maduros, usamos a RESPONSABILIDADE recomendada por Hannah Arendt costumamos fazer melhores e mais ágeis escolhas...

 

Quando falamos de MODERNIDADE e PÓS-MODERNIDADE, do ponto de vista do nosso primeiro encontro com as inevitáveis e terríveis angústias do início da vida (onde elas parecem ainda mais perigosas por nossa precariedade, e quando de fato temos menos recursos para lidar com elas), dois fenômenos costumam aparecer associados a elas, e eles têm frequentado os debates humanos contemporâneos insistentemente:

 

Na MODERNIDADE:

 

É como se o quadro da MELANCOLIA ‘imperasse’.

 

É como se predominassem pais omissos, ausentes, displicentes, negligentes.

 

Digo “COMO SE”, pois - para um bebê - o que acontece DE FATO é secundário.

 

A fantasia que ele faz em sua precariedade sobre o que acontece é mais importante, e é – infelizmente – o que vai ficar impresso na memória (independentemente do que se passou na vida ‘real’).

 

Mas quem sabe o comportamente psicosocial da época tenha ‘ajudado’ um pouquinho essa fantasia de ser negligenciado a se fundamentar?

 

A compreensão do que chamamos hoje de ‘infância’ e ‘adolescência’, e a construção de seus conceitos, apenas se desenhava, afinal!...

 

O fato é que a Melancolia é com facilidade associada à Modernidade, e – curiosamente – “os passantes” da poesia de Baudelaire (e os comentários de Walter Benjamim sobre estes poéticos “passantes” baudelairianos e seu tempo) parecem confirmá-lo.

 

O melancólico parece olhar para o Mundo e dizer: “Já que ninguém olha para mim, eu também não vou olhar para nada; já que ninguém me dá a atenção que eu esperava, eu não vou dar atenção a ninguém; já que tudo passa e vai embora, eu vou me limitar a ficar aqui apenas olhando os que passam, deixando-os ir embora sem estabelecer  vínculos significativos com eles”... 

 

Na PÓS-MODERNIDADE:

 

É como se o quadro da DEPRESSÃO ‘imperasse’.

 

É como se predominassem pais invasivos, uma Educação invasiva (com seu furor de discursos politicamente corretos, por exemplo), um mundo midiaticamente invasivo. Repito a questão do uso do “COMO SE” que pontuei acima.

 

Para um bebê o que acontece DE FATO é secundário; a fantasia que ele faz em sua precariedade sobre o que acontece é mais importante, e é – infelizmente – o que vai ficar impresso na memória (independentemente do que se passou na vida ‘real’).

 

Mas o teor invasivo de nossos tempos parece real, e parece andar ‘colaborando’ para que a fantasia de ser privado de exercício de autonomia, e da descoberta da própria SINGULARIDADE, a partir da invasão permanente das interioridades desde o início da vida dos que vão chegando à Vida, alimenta substancialmente a construção dessa fantasia de impotência.

 

O fato é que a Depressão é com facilidade associada à Pós-Modernidade, e lamentavelmente O VAZIO cantado em prosa, verso, e redes sociais parecem confirmá-lo.

 


O depressivo parece olhar para o Mundo e dizer: “Já que todos pensam/sentem/fazem tudo por mim antes que eu possa fazê-lo conforme MEU próprio DESEJO, que mal tenho a oportunidade de DESVENDAR, eu devo ser uma casca inutilmente vazia mesmo; a minha existência (meu futuro eu, meu desejo) não faz(em) sentido algum; quem sabe não exista ou não mereça existir mesmo; vou tentar encher essa casca com a primeira coisa que aparecer, ou – quem sabe – tentar parecer um robô teleguiado, pois é o que - parece - esperam de mim”.



Não é por acaso que os históricos de obesidade, de alcoolismo, de drogadicções lícitas e ilícitas, de sexo compulsivo, de consumo desenfreado, etc. se acumulam, como se – para muitos – fosse mesmo necessário “botar coisas para dentro”, robótica e obedientemente, ao comando de supostas regras escritas nas linhas ou nas entrelinhas do dia a dia dos seres em formação e já formados.



Botar quaisquer coisas para dentro da suposta mera ‘casca’: coisas que aparentem substituir suas INTERIORIDADES, não percebidas a partir da AUSÊNCIA DO EXERCÍCIO DE CONSTRUÍ-LAS E EXERCÊ-LAS SINGULAR e AUTONOMAMENTE.



O sociólogo Robert Castel chega a identificar grande incidência de um fenômeno extremo, que ele chama de “INDIVIDUALISMO NEGATIVO”, que seria a incidência de comportamentos aparente e contradotoriamente individualistas, em sujeitos na verdade incapazes de INTRALOCUÇÃO, incapazes de ‘conversarem consigo mesmos’, já que olham para dentro e não vêem um ‘si mesmo’ lá dentro; se limitam a permanecer “ENCAPSULADOS” no vazio que percebem dentro de si...
Quem é roubado na oportunidade de desenvolver a intralocução (locução consigo mesmo), não tem como desenvolver posteriormente a INTERLOCUÇÃO com o OUTRO e com o Mundo!...



Autoritarismo/Tirania em abundância ao redor, e ausência de AUTORidade (de Autor). Resultado: um contingente assustador de gente que não saberia narrar/escrever o texto de sua própria vida, porque não se percebe como um ser que É uma vida (singular e  autônoma)... 



Em 1928 Walter Benjamim desenvolve textos sobre brinquedos e livros infanto-juvenis.



Ele lembra que os chocalhos dados aos bebês universalmente são um registro da nossa ‘memória xamânica’, que registram a ânsia de ‘espantar os maus espíritos’



Eu acrescentaria que ele se refere (inconscientemente?) aos ‘maus espíritos’ dos primeiros ‘DIabos no corpo’ das primeiras angústias diante das primeiras dualidades que inevitavelmente começam a nos assediar quando ainda somos ‘tão verdinhos’...


Visionariamente ele aponta riscos no modo em que brinquedos e primeiros livros são apresentados às crianças; segundo ele:



- Crianças são apenas pequenas e precárias, mas não são “bobas” ou “incapazes”;



- Logo não há porque aliená-las das imagens (em seus brinquedos e livros) dos afazeres que ocupam regularmente o ser humano (as diversas faces do trabalho humano, por exemplo) e/ou do Pensamento singular e autônomo sobre essas coisas;



- Por outro lado não há porque invadí-las com excesso de normas de
suposto “dever de ser correto” nas orientações tanto lúdicas quanto didáticas; para que a singularidade tenha espaço de expressão e desenvolvimento autônomo é absolutamente fundamental que o ser em desenvolvimento tenha espaço interno para “a humanidade do errar”; (W. Benjamim apenas não usa ainda a expressão que nos é tão familiar, “politicamente correto”, mas é o que ele descreve com perfeição).



Acrescento uma coisa que lembro com frequência no consultório (e fora dele): Vacina contra sentimentos humanos não existe, e jamais será inventada.



Logo, tanto o amor quanto o ódio, tanto a solidariedade quanto o ciúme, tanto a gratidão quanto a inveja (etc) vão nos caracterizar como humanos e ajudar a nos diferenciar de robôs: somos ‘pecáveis’ por natureza; impecabilidade é coisa para os robôs (e – segundo Isaak Asimov em sua brilhante ficção – nem para eles...).



Ele descreve/propõe também estruturas do BRINCAR/JOGAR:



- Gato e rato (como quando se brinca “de pegar”);



- A Mãe que defende o Ninho (como o goleiro no futebol);



- Animais que lutam por comida ou território (como no “pique-bandeira” ou no futebol  americano).



Em 1940 Wittgenstein acrescenta uma importante estrutura:



- Os jogos de autodesafio (como um menino que bate bola sozinho numa parede;  acrescento as meninas que brincam de pular corda sozinhas, ali ocupadas apenas com revesamento –  e não com ‘vencedoras’ – mesmo quando pulam em grupo).


Já em seu texto “O Narrador” de 1936, Walter Benjamim nos leva ainda mais longe em nossas reflexões. Descreve  (nostalgicamente?) um Tempo em que havia tempo para as pessoas narrarem histórias umas para as outras.



Algumas se ocupavam temática e prioritariamente do ESPAÇO: eram os VIAJANTES.



Outras se ocupavam temática e prioritariamente do próprio TEMPO: eram os AGRICULTORES e os ARTESÃOS.



Aí vieram os tempos do coorporativismo que deflagravam novas Instituições; os Narradores ainda sobreviveram por um período, e até se sofisticaram, pois as histórias dos dois grupos iniciais aprenderam a dialogar, gerando novas estruturas narrativas. Observemos mais uma vez a aparição do prefixo DI, em DIalogar: onde dois Pensamentos tentam se compreender, se complementar, interagir.



Com a sofisticação das publicações, o tempo para narrar ficou cada vez mais restrito a poucos que mantinham poderes para fazê-lo: a VOZ foi para o LIVRO.

 

Faltava uma outra narração: a NARRAÇÃO ‘PARA DENTRO’, que Benjamim associa antes ao romance que aos contos, caracterizada por uma solitude, não necessariamente ‘encapsulada’.

 

Voltando ao que falamos no início da palestra, quando alertamos para o fenômeno de que o brincar (na infância) e o aventurar-se (na adolescência) servem como uma espécie de ‘RITUAL ELABORATIVO’ para a construção da nossa relação com nosso ‘si mesmo’, com o Outro e com o Mundo, acabamos por chegar à inevitavel pergunta:
ELABORAR (digerir, absorver, compreender)...elaborar O QUÊ?...
Se lembrarmos uma característica de certas repetições, encontraremos um fio de meada bastante interessante.



Há alguns anos atrás (poucos!) contávamos (por exemplo) com algum adulto que ‘nos contava histórias’; como (felizmente) isso ainda acontece hoje em dia, sabemos que a tendência da criança é pedir para quem lhe contou uma história: - “Conta outra vez!...” E o pedido e a ‘vez’ se repetem; e mais uma, e mais uma...e é pedido para que se conte a história muitas vezes...



Hoje vemos também um imenso contingente infanto-juvenil que vê os mesmos filmes inúmeras vezes, ou joga o mesmo ‘game’ inúmeras vezes em algum aparelho multimídia, etc....: isto é, contam a mesma história para eles mesmos muitas e muitas vezes.



O próprio Walter Benjamim acrescenta que o exercício da sexualidade humana pode representar o mesmo papel do ‘mais-uma-vez’ na vida do adulto.



O ‘mais-uma-vez’ ora de crianças, ora de adolescentes, ora de adultos, TENTANDO PASSAR COISAS DA VIDA ‘A LIMPO’, OU NA ESPERANÇA QUE NA ‘VEZ’ SEGUINTE A COISA VAI SAIR MELHOR, OU TRAZER A MESMA EMOÇÃO DA PRIMEIRA VEZ COM O MESMO ‘FRESCOR’, OU ALGUMA NOVA E PRECIOSA INFORMAÇÃO IGUALMENTE EMOCIONANTE, OU AINDA ALGUMA ESPÉCIE DE ALÍVIO...



Espero que esteja clara a distinção necessária entre repetições retóricas (como pontuamos no início dessa palestra), compulsivas, vazias de envolvimento emocional, meramente como uma agulha diante de um disco arranhado, E as plausíveis/necessárias/produtivas REPETIÇÕES RITUALÍSTICAS, plenas de envolvimento emocional inconsciente ou não, ou – como dizemos tecnicamente – REPETIÇÕES ORGÂNICAS.



Na verdade há uma coisa que precisamos aprender (e desenvolver confiança nela) em prol da sobrevivência de nossas interioridades:  NOSSA CAPACIDADE DE REPARAÇÃO.



É a aprendizagem de que - como somos humanos - somos precários SIM, transitórios SIM, expostos a errar (“pecáveis” e não “impecáveis”), mas que PODEMOS errar (temos o direito de errar), pois somos TAMBÉM CAPAZES DE REPARAR.



Contido NESSE PROCESSO ESTÁ A APRENDIZAGEM DA ESPERANÇA.



Por isso A CAPACIDADE DE REPARAÇÃO É CURATIVA...



A aprendizagem de errar-reparar (e de alimentar a Esperança) é o ‘chocalho’ que se mantém necessário para enfrentarmos os ‘DIabos’ das inevitáveis dualidades, e suportarmos – por exemplo – transitarmos entre as fantasias de Nirvana, as felicidades plausíveis do mundo (dito) real, e mesmo as infelicidades ou tragédias ...



Seu exercício demanda TEMPO.



Temos tempo?...



Nossas crianças e nossos adolescentes ainda têm tempo (e liberdade)  para esse precioso exercício?...


Há uma espécie de ‘máxima’ no universo ‘PSI’ onde trabalho:
“TEMPO É MEMÓRIA; MEMÓRIA É DESEJO; DESEJO É SUJEITO”.
O Tempo pode gerar memórias singulares de experiências autônomas.
Logo, nessa memória estão contidas ‘fotografias’ de expressões singulares dessas experiências autônomas.



Logo, o conjunto dessas ‘fotografias’ exibe quem é o sujeito que vamos nos tornando, e que deixa sua marca (única) no Mundo.



Gostaria de comentar alguns pontos ( que repito à exaustão sempre que posso) para finalizar.


Não parece que vivemos tempos de valores per-vertidos (vertidos para fora do lugar ou da medida apropriada)?


Por exemplo:



- O SILÊNCIO parece valer mais que a FALA (quem nunca ouviu dizer  que “A palavra é prata e o silêncio é ouro”, por exemplo?).



Pergunto por que, se a FALA é a EMISSÁRIA DO DIÁLOGO, das RELAÇÕES DIALÓGICAS?...



- A CIRCUNSPCÇÃO e a PERÍCIA  ESPECIALIZADA parecem valer mais que a CRIATIVIDADE e o HUMOR.



Pergunto por que, já que são apenas TALENTOS DIFERENCIADOS que podem ser buscados em PESSOAS DIVERSAS, e SOMADOS PRODUTIVAMENTE em EQUIPES INTERDISCIPLINARES, para BENEFÍCIO DE TODOS?...


Schiller acreditava na plausibilidade da “Educação Estética do Homem”; eu também.



“...O homem estético (que é também o virtuoso) tem como imperativo aproximar dignidade e felicidade, dever e prazer no Belo ou, sendo genio, na obra de Arte...” diz Márcio Suzuki na introdução de uma edição brasileira da proposta de Schiller, que afirma, (por exemplo), ele mesmo: “...A beleza teria de poder ser mostrada como uma condição necessária da humanidade”... E mais: Além do que chama de ‘impulso sensível” e de “impulso formal”, Schiller reivindica um espaço para o exercício de um ‘IMPULSO LÚDICO’ que ilumine a expansão de um ser humano ético e estético.


 
Nossos tempos por um lado tão aparentemente venais, e simultanea (ou esquizoidemente) ‘sizudos’ prefere regras autoritárias, que são aplicadas tanto no universo da banalidade (por exemplo, as normas sobre “como as pessoas devem se vestir ‘adequadamente’ para ir a tal ou qual lugar”), quanto no universo dito ‘culto’,  como a recente tentativa patética de desqualificar a obra infanto-juvenil de Monteiro Lobato, onde seus detratores curiosamente parecem ter esquecido convenientemente de localizar historicamente a escrita da obra, da mesma forma que parecem ter convenientemente esquecido de ler o esclarecedor conto infanto-juvenil ‘A Violeta Orgulhosa’, ou ainda – convenientemente - parecem ter esquecido de avaliar que toda uma geração que leu Lobato se revelou uma geração preocupada e ocupada com a defesa dos direitos civis/humanos, e não um grupo racista/fascista, se precipitando os detratores a tentar interferir na obra, no melhor estilo fundamentalista!...



Dessa sizudez venal parece emergir uma Academia que tem frequentemente desmentido  sua suposta função: uma Academia monstruosamente sem espaço para a renovação da “CAPACIDADE DE ESPANTO”, sua pedra fundamental, supostamente sua primeira aliada ou “bandeira”; uma Academia que parece esquecer de alimentar a singularidade, o humor, o senso crítico e a autonomia!...



Na Academia os poderes da regra e da formalidade parecem andar superando a Potência da liberdade e da criatividade, além de – claro – ignorar a Luz crítica do Humor, ingrediente essencial para formação de senso crítico singular e individual.



Se até a Academia adota essa “cultura” (ou esse “pathos”?), como criticar as demais instituições (Mercado e Governo) quando o fazem?...
A acadêmica norte-americana Marjorie Garber faz uma leitura psicanalítica disso em seu elogiado livro “Instintos acadêmicos”, que recomendo.



FELIZMENTE há “ilhas” de profissionais a questionar esse perigoso (fundamentalista/fascista/letal) padrão vigente, iluminando a Esperança.



Para que essas reflexões?



Porque em hebraico há apenas um vocábulo para VONTADE e SABOR.
Porque o brinquedo É o trabalho da criança, enquanto que o trabalho PODE ser o brinquedo do adulto.



Quem sabe para que a Vida abra mais e mais janelas que recuperem a Luz da ‘Capacidade de Assombro’, que recuperem sua Vontade, que recuperem seu Sabor, que recuperem seu SENTIDO.
Enquanto há Tempo.

 

 

CHRISTINA MONTENEGRO possui especialização em Sociologia Política e Cultura pela PUC RJ(2002), especialização em Psicologia Clínica e em Psicopedagogia concedidos pelos CFP E CRP 05, assim como seu título de Supervisora em Psicologia Clínica, graduação em Bacharelado em Artes Cênicas pela Universidade do Rio de Janeiro (1983), graduação em Bacharelado em Psicologia pela Universidade Santa Úrsula (1973) e graduação em Licenciatura em Psicologia pela Universidade Santa Úrsula (1972). Seu livro "HOMEM AINDA NÃO EXISTE - Compartilhando Reflexões para que ele exista", 2011 (Editoras Torre/Multifoco). Responsável por uma série de programas sob o mesmo título de seu livro, veiculada no Youtube. Coordenadora de Conteúdo da Campanha Homens Libertem-Se / Men Get Free desde 2014.
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Foto de capa:

Il Quarto Stato - Giuseppe Pellizza da Volpedo, 1901.


Paginação:

Nuno Baptista


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