ANO 4 Edição 56 - MAIO 2017 INÍCIO contactos

Alexandre Brandão


Uma questão estética

É um homem bonito. Tem o corpo bem distribuído, nem gordo nem magro, e boa altura, entre um metro e setenta e cinco e um metro e oitenta. Suas mãos são delicadas e grandes, boas de ver pousadas no braço do sofá, sobre a mesa, folheando um livro — tocando meu corpo. Seus pés poderiam ser mais bem cuidados, coisa de pouca importância, que não compromete o todo tão harmônico do Bento.

 

Desde o primeiro encontro, do que mais gosto no corpo dele é o pênis, peça bonita e, não deixo de dizer, boa fonte de prazer, o que não vem ao caso. Não vem em parte, mas não falo sobre isso, neste momento não. Sou artista plástica e desenho homens e mulheres, nus ou não, e, no fim da primeira noite com Bento, passei a querer desenhar seu pau numa tela. É pequeno, abaixo da média, e ele jamais admitiu tornar público o que para ele é ou parece ser um problema.

 

Qual problema? Anatomicamente, seu pênis cumpre todas as funções: de lá sai sua urina e, quando rijo, age como deve agir. Gostei desde o início de como o pau de Bento me preenchia, de como ocupava minhas mãos. Apesar de belo o desenho de seu pau rígido, do ponto de vista plástico, o encanto está nele em repouso.

 

Nenhum dos meus argumentos fez o Bento recuar. Nunca iria servir de modelo a uma artista, fosse eu essa artista, fosse outra pessoa. A seu ver a questão não estaria em posar, mas em ficar exposto depois. Ninguém precisaria saber que o pênis era dele, bisei enfática. Dizia mais: quantos veriam o quadro? Antes e agora, devo me conformar com o fato de ser uma artista pouco conhecida, elogiada por uma meia dúzia de entendidos, ou tidos como entendidos. Nada disso o sensibilizou. Suas questões são as de todo macho, uma insatisfação com o tamanho, justo com o tamanho. Tenho comigo que ele é feliz sexualmente, mas isso não é tudo, na verdade é nada diante do fato de ter um pênis abaixo da média.

 

Mostrei-lhe desenhos e fotos de mulheres com seios e nádegas grandes e pequenos, bonitas de uma forma ou de outra. Ele não viu sentido na comparação, uma vez que o tamanho dos seios ou das nádegas serviria apenas como atrativo sexual. Alguns homens se estimulavam com as mulheres de formas grandes e outros com as de formas pequenas. Quando o questionei se não aconteceria o mesmo com as mulheres em relação ao tamanho do pênis, ele riu. Não, não riu, mas uma ironia ostentosa tomou conta de sua feição, acusando-me de não entender nada dessas coisas. Não alcançava, e ainda não alcanço, nem mesmo quais coisas seriam essas.

 

Não vivíamos empacados nesse conflito, embora a ele fôssemos lançados com frequência. Algum dia, depois do sexo, elogiei a beleza de seu pau. Ele gostou do elogio, mas, prevenido, insistiu para eu esquecer a ideia de desenhá-lo, que o pau dele era bonito ali, naquele momento, e antes, principalmente antes, quando esteve dentro de mim. Sua beleza era funcional, não teria nada de bonito numa tela, inerte, visto por sabe-se lá quem.

 

Quis saber se haveria problema se eu retratasse outro homem, o pau de outro homem. Não, eu era uma artista, minha inspiração ou sensibilidade ou o que ele não sabia precisar me impulsionariam a desenhar isso ou aquilo. O fato de por alguns dias um homem ficar com seu membro à minha disposição não o incomodava, eu perguntei, tentando jogá-lo contra a parede. Ele disse que o homem não estaria à disposição da minha voracidade sexual, mas apenas de minha capacidade artística, e que as duas coisas, acreditava, não se misturariam. Ele me conhecia bem e confiava em si mesmo, no seu “forte valente”, concluiu com doses alopáticas de sarcasmo. Se, de fato, sua autoconfiança era tão inabalável, por que a sua nudez, aos meus olhos, à minha arte, tanto o incomodava? Mais que incomodava, o paralisava. Bento terminou a discussão com seu velho estribilho de que eu jamais o entenderia. E eu jamais o entendi.

 

Durante uma caminhada na Serra, perguntei a ele se o que sentia era vergonha. Havíamos saído do restaurante e, em vez de voltar para o hotel, fomos andar um pouco, fazer a digestão. Sua resposta foi descer o zíper, abaixar primeiro as calças e, em seguida, a cueca, ficando quase nu na trilha que, de fato, era uma estrada de chão batido, na qual a qualquer hora um carro poderia passar. Eu me espantei e, aos gritos, dei ordens para que se vestisse. Ele riu — ria de tudo. De volta ao hotel, transamos com um certo distanciamento. Na relação, como saldo, uma ferida.

 

Outra ferida para ser sincera. Custei a notar que a recorrência com que eu confrontava meu desejo à sua recusa não passava de uma obsessão. Eu estava obcecada. Eu gostava do tamanho, de saber que o tamanho não significava nada quando aquele pau se avolumava e me cortava por dentro e então eu me via tão completa a ponto de acreditar que me livrara de vez de meus demônios. Outros homens me levaram a essa plenitude, mas com o Bento tudo ganhava intensidade. Talvez pelo fato de meu prazer ter vencido uma descrença, a de que aquele pinto de menino pudesse funcionar como um pau de homem. Não posso tirar certa razão do Bento, recaem sobre o pênis pequeno as piores expectativas. E daí? No quadro, a beleza sepultaria o preconceito, a beleza jogaria para o lado a questão sexual.

 

Diante do quadro, não haveria quem não enxergasse a beleza de um pau sobre a tela, do mesmo modo como se vê a beleza de uma flor sobre a tela. De início, os homens, intuo, resistiriam, fariam piadas sobre o pobre coitado dono daquela merreca, porém, aos poucos, depois de certa catarse, iriam reconhecer que, sendo pau ou não, grande ou não, contemplavam uma bela imagem. As mulheres, por sua vez, logo identificariam algo realmente fora do comum: um pênis bonito ou mais. A beleza é por si mesma.

 

Algumas vezes me afastava da vontade de pintar o quadro, o quadro da minha vida, mas isso passava e eu voltava a insistir com o Bento, na cama, no restaurante, na saída do cinema. Tentei fugir da pura argumentação buscando outras formas de convencimento. No sexo, não havia nada que não houvéssemos feito ou que ele talvez quisesse fazer e eu não. Assim, procurei saciá-lo até o esgotamento, acreditando que, nocauteado pelo prazer, ele cederia. Morto, me diria, faça o que quiser, traga suas tintas, sua tela, estou aqui, sou teu. Eu beirava o ridículo.
 
Em um porre que tomamos em casa, os dois, apenas os dois, ele enfim soltou-se um pouco e, para fazer frente a meu pedido, me perguntou se nós, mulheres, não nos vestíamos mais para sermos vistas por outras mulheres do que para agradar a nós mesmas ou a um homem. A meu ver, uma comparação estúpida, rasteira. Eu disse isso a ele, e ele me mandou à merda. Na dor de cabeça da manhã seguinte, me dei conta de que ele talvez quisesse dizer que sua única preocupação seria servir de chacota a outros homens. Se a questão da mulher vestir-se para si ou para outra é complexa, sobre a qual há inúmeros palpites cheios de obviedades, a do homem não querer tornar público seu pau poderia muito bem ser apenas isso: o orgulho do velho macho alfa, ou, mais ainda, o medo do confronto com um inimigo idealizado.

 

Conheci Décio, um negociante de obras de arte. O pau dele também é bonito, de tamanho mediano, mas nunca eu o pintaria, pois sua beleza não passa daquela aguçada pela atração sexual. O do Bento, ao contrário, era belo em si, sem deixar de ser belo para o sexo. No meu quadro, reforço, o pênis dele representaria a beleza. Décio me roubou por uma ou duas semanas, ausência nunca cobrada. Bento viveu-a como se ausência não fosse, pelo menos assim deu a entender. Colocou em meu lugar preocupações novas. Preocupações e distrações. Séries de televisão, academia de ginástica, uma aposta em um novo negócio. Ele vive de intermediar a compra e a venda de propriedades rurais e, naquele período, se meteu a comprar uma fazenda para cuidar — um risco desmesurado para um homem sem habilidade para plantar ou criar.
Décio não foi o primeiro. Eu e Bento nunca falamos sobre essa possível abertura de nossa relação, mas, de minha parte, só acredito em relações nesses moldes. Ao deixar Décio, Bento me preocupava por estar se metendo em negócios com os quais não tinha intimidade ou traquejo, porém, no fim das contas, ele apenas esquentou a fazenda em suas mãos e a revendeu. Obteve um bom lucro, na realidade mais um bom lucro.

 

Uma vez sepultados meu amante e o negócio arriscado do Bento, consolei-me naquele pau miúdo e belo. Dessa vez, vi ainda com mais força a beleza ao alcance de meus sentidos. Não seria possível não compartilhá-la pela arte, meio purificador de tanta imundície humana. Oscilando entre o impulso artístico e a censura, perguntava-me se sabiam por que pintavam seus modelos nus todos os artistas desde sempre. Uma mera estratégia de conquista sexual? Decerto não. O corpo humano é bonito e ganha uma dignidade para além dele quando um artista o retrata. O pau, por sua vez, sempre esteve associado ao poder e não à beleza. Nunca me conformei com isso. E não me conformo ainda.

 

E o Davi de Michelangelo, provoquei o Bento certa vez. Ali o que se via senão um corpo atlético adornado por um pau pequeno? Bento disse que o pau de Davi, como eu afirmara, não passava de um adorno, assim mesmo digno de riso. Me mandou pensar no que seria um quadro inteiramente tomado por um pau, por um pau pequeno. Pequeno e lindo, emendei. Mas pequeno, ele insistiu. Insistiu e virou as costas. Depois disso, mergulhamos num período amargo de distância.

 

Quando descobri, Bento e Alice tinham um caso havia quase um ano. Senti o golpe, mas tratei de conter minha fúria, meu desejo de posse. Se eu não era fiel, não lhe podia cobrar fidelidade. Fosse lá com sua Alice, era minha vez de me envolver com outras preocupações e descobrir novas distrações.

 

Alice era a primeira mulher a ocupar um espaço definido entre mim e Bento. Houve outras, todas fogo de palha, mas Alice chegou e deu a ele algo que lhe fazia bem, que talvez eu nunca tenha dado: algum conforto distinto, alguma espécie diferente de alegria e, claro, outra experiência de luxúria. Buscamos pessoas fora da relação para provar as diferenças, depois voltamos porque sentimos falta das antigas intimidades, das que, ao fim e ao cabo, sustentam o amor e a nós mesmos. Percebi com facilidade, com o passar do tempo, que Alice não era apenas uma aventura. Sabendo de sua importância, quis saber como ela avaliava a plasticidade do pau do Bento. Uma curiosidade estúpida, mas, para mim, totalmente explicável dentro das circunstâncias de uma artista encantada.

 

Nosso almoço não foi tenso. Alice é, além de bonita, muito bonita até, leve e bem-humorada. Não demorei a tocar no assunto de meu interesse. Alice riu, chegou a engasgar-se com a cerveja que acabara de beber. Depois de refeita, ela me olhou e pediu que eu repetisse a pergunta, o que fiz nos mesmos termos. Em vez de responder, devolveu-me a pergunta, não aquela, mas outra: ele não me satisfazia? Tive vontade de chorar e de não estar naquela mesa, àquela hora. Alice era incapaz de entender uma questão estética, concluí. Para vencer o incômodo, disse-lhe que estava brincando, que eu queria quebrar o gelo para nossa conversa fluir tranquila. Acrescentei que, como Bento gostava muito dela, sem que ele soubesse, eu quis conhecer quem dividia comigo um homem bom. O pinto de Bento, o prazer dele, dela e meu, a minha fome de beleza, tudo isso escorreu para longe dali.

 

Enterrei minha curiosidade, e eu e Alice nos dedicamos a trocar impressões triviais sobre isso e aquilo. É uma mulher engraçada, tão diferente de mim, e o Bento se banha justamente nesse humor.

 

O filme desenrola em minha cabeça enquanto o Bento anuncia nossa separação. Havíamos passado lindos anos juntos, num companheirismo invejável, mas nosso caso de amor chegava ao fim, ele diz. Ao ouvir sua conversa longa, mal preparada, gaguejante, me dou conta de que não foi Alice que o arrancou de mim, eu dei linha para ele — meu papagaio colorido, meu homem sombrio de pau bonito — voar. Sentirei falta daquele pau. Do pau que eu soube acolher. Do pau que eu muitas vezes tomei na mão, provocando o homem sonolento. Do pau que, no meio da noite e em outras tantas vezes, me despertou avolumando-se na minha bunda. Do pau, acima de tudo, bonito. Bonito a ponto de merecer um quadro, o quadro que eu pintaria com minha volúpia artística. O pau que o mundo, além de mim, poderia contemplar, assim como hoje contempla a vulva em “A origem do mundo”, a obra de Gustave Courbet.

 

Abaixo a cabeça, claro sinal de derrota. Bento se aproxima, toca meus cabelos com uma das mãos. Com a outra, num movimento explícito, abre o zíper da calça, tira o pau para fora e me convida a olhá-lo, talvez pela última vez. Eu não olho, de jeito nenhum olharia. Meu instinto cobra que eu tire de Bento seu pau miúdo e, com ele, largado sobre uma gamela, entre frutas viçosas, pinte enfim uma natureza morta.

 

Alexandre Brandão, contista e cronista brasileiro, é autor de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio), entre outros. Mantém o blog No Osso (noosso.blogspot.com.br).

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