ANO 4 Edição 56 - MAIO 2017 INÍCIO contactos

António Ladeira


Dois contos

O Inspector

 

O Inspector franzia o sobrolho enquanto observava o écrã.

 

Conhecia aquela cara. Recostou-se na cadeira, a pensar. Desfranziu o sobrolho e esperou que o programa completasse a identificação. Bem lhe parecia: acompanhada do tlim característico, surgiu uma cara masculina, jovem e inexpressiva, à qual fora sobreposto um diagrama verde-luminoso. O diagrama revelava em micrómetros a distância entre os olhos, a boca e o nariz, as sobrancelhas e a linha do cabelo. Tinha cadastro, o indivíduo. Participara num assalto à mão armada em 2030, dois anos antes instigara uma discussão às três da manhã, numa loja de conveniência, de que resultara confronto físico e destruição de propriedade.

 

Mais uma vez provara que era mais rápido do que o computador mais avançado. Não gostava de se gabar mas os “Serviços” tinham muita sorte em tê-lo na equipa. Claro que as câmaras de vigilância tinham a sua utilidade, os programas de identificação facial eram dos mais avançados do Território, mas os Serviços nunca cometeriam a imprudência de dispensarem a ajuda de um olho treinado como o dele.

 

O Inspector Alves retirou uma pastilha elástica do invólucro e ficou a mastigar. Levantou-se e preparou uma chávena de chá. Voltou a sentar-se. Um por um, vasculhou com o cursor os écrãs à sua frente. Passava um desfile na Avenida Central. O aniversário da fundação da Província Nordeste. Acionou o zoom para observar melhor um rosto. Não seria aquele indivíduo que? Não era. E este grupo de raparigas, obviamente intoxicadas? A da esquerda: mulata, vinte anos, moradora há cinco na zona Norte, Bairro 22. A base de dados não indicava nada de importante. Apenas isto: a rapariga confessara a uma amiga ter roubado um brinquedo aos dez anos de idade. Confirmava-se que o furto, cometido numa papelaria de bairro, hoje desaparecida, nunca fora descoberto. Deveria ter havido detenção imediata, claro, mas tratava-se de um delito com pouca relevância. Pouquíssima relevância. E a amiga, a mais jovem? Raça branca, cabelos ruivos, moradora na zona Leste, Bairro 13. Namorada de um cidadão suspeito de requerer o subsídio de desemprego de forma fraudulenta. Há três anos. Também nada de particularmente interessante.

 

Acionou o zoom sobre um homem que aparentava trinta anos. O bigode, grisalho, parecia suspeito. Estaria disfarçado? Vendo melhor – e correndo os olhos pela história familiar de envelhecimento precoce -- a suspeita inicial não tinha significado. Além disso, ampliando a boca (o indivíduo conversava com amigos) não havia indicações de que o bigode se movesse de forma irregular, o que, a acontecer, poderia sugerir fibra sintética, ou seja, bigode falso. Nada. Adiante.

 

A proeza com que o seu dia começara -- e que dera origem a uma ordem de prisão rapidamente executada -- ocuparia lugar de destaque no relatório semanal. Não podia esquecer-se de dizer ao Director Sobral – por graça, naturalmente -- que mais uma vez tinha vencido o computador! Os superiores dele, Inspector Alves, riam-se francamente destes ditos. E apreciavam-no, ó se apreciavam, o seu a seu dono. E lá necessário aos “Serviços”, reconhecido, valorizado, até razoavelmente compensado, enfim, não se discutia.

 

O Inspector era o oposto dos colegas. Estes preferiam as secções mais tranquilas da cidade; ele, quanto mais complexa fosse a missão, melhor. O Inspector Alves gostava de desafios. Pedia sempre lugares turísticos, problemáticos. Ou então celebrações, comícios, manifestações. Nunca se aborrecia em concertos de música rock. Apesar das barbas compridas, dos cabelos em desalinho, das expressões distorcidas pela bebedeira, pelas drogas ou pela euforia da noite, ele identificava sempre elementos que, por uma razão ou outra, interessariam aos Serviços. Ou porque eram cidadãos capazes de acções violentas. Ou cidadãos com ideias políticas radicais. Ou vendedores de estupefacientes. Ou consumidores de estupefacientes. Ou amigos ou familiares de consumidores de estupefacientes...

 

Desde muito jovem que o grande sonho do Inspector era ser util à sociedade, sendo o seu maior orgulho a dimensão humanitária das funções que desempenhava. Para que vigiava ele a cidade? Para prevenir conflitos, conspirações, ataques. Logo: protegia o cidadão. O Inspector Alves sentia verdadeira consideração e fundo apreço pelas pessoas que ajudava. Quanto mais humildes, frágeis, vulneráveis, maior o apreço e a consideração. E achava que era isso que faltava ao mundo de hoje: consideração e apreço.

 

O Inspector Alves apresentava ainda outra vantagem sobre os colega: residindo há muito na cidade, podia eliminar com segurança muitos dos rostos que o programa transferia erradamente para a lista de suspeitos. Aliviava assim um sistema que – apesar de razoavelmente eficaz -- se encontrava sempre sobrecarregado, sempre em atraso relativamente à realidade, sempre dois passos aquém de algum lugar onde já deveria ter chegado. O Inspector retirava da lista aqueles cidadãos que, por temperamento, se sentiam atraídos por concentrações e que, no entanto, não tinham qualquer predisposição para desordens ou delitos. Pelo contrário: gente decente, boa. Gente que tinha apenas hábitos questionáveis, inclinações para se associarem com quem não deviam, para exibirem comportamentos que, embora dentro dos parâmetros da legalidade, despertavam as suspeitas dos algoritmos. Observava-os nas esplanadas de sempre a beberem cerveja, a estalarem palmadas nas costas dos amigos e, ao fim da noite, a dirigirem-se a casa pelas ruas do costume, o equilíbrio já afectado por algum copo a mais. Por vezes, palavra de honra, até lhe apetecia perguntar-lhes como iam as coisas lá em casa, convidá-los para uma bebida. (Uma bebida simbólica, claro está, porque um Inspector nunca bebe com cidadãos sob vigilância). À sua maneira, correspondiam à simpatia que Alves não chegara a expressar. Antes de irem para casa, acenavam para a câmara mais próxima como quem se despede de um velho amigo, dizendo: “Até para a semana, Inspector”. E ele, Alves, se estivesse de bom humor, até ligava os altifalantes e respondia de viva voz. Numa praça onde havia écrãs de rua, chegou a erguer a sua chávena de chá em resposta a um brinde que alguém propusera.

 

— À saúde dos Serviços!

 

Um dia, ao monitorizar a Avenida Central, o Inspector engasgou-se violentamente e borrifou chá em três dos vinte écrãs da sua estação de trabalho. Abriu muito os olhos. Só não abriu mais os olhos por lhe ser fisicamente impossível retrair mais as pálpebras. Depois, disse-se a si mesmo que era impossível. “Im-po-ssí-vel!” Espreitou o écrã a medo. Desviou o rosto. Voltou a olhar e lá estava: um cidadão cuja cara era igual, mas igualzinha à dele, Inspector Alves! Queixo duplo, bigode negro, cabelo à escovinha, sobrancelhas grossas, quase unidas, lábios carnudos e vermelhos. Tudo indicava que o programa tomara aquele cidadão pelo Inspector Alves e enviara o relatório à Central: “Alves, Januário”, “Inspector-vigilante”, “Número profissional: 334-25”, “Em trânsito na Avenida Central”. E em nota, no lado inferior esquerdo, a letras vermelhas que piscavam: “Durante o horário de trabalho”; “Autorização não-solicitada nem concedida”.

 

Tocou o telefone. Era o Director. Queria saber porque razão se encontrava ele, Inspector Alves, a passear na Avenida Central em vez de estar a trabalhar. A princípio, o Inspector permaneceu em silêncio, muito vermelho. Quis dizer que só podia ser um erro mas as palavras atropelaram-se-lhe e não conseguiu ir além de “S-s-e-n-h-o-r  D-d-d”. Quando recuperou a fala afirmou que o cidadão identificado seria alguém muito parecido com ele, Inspector Alves, absurdamente parecido com ele mas, obviamente, não o mesmo Inspector Alves com quem o Senhor Director conversava naquele momento. Sim, ele sabia que o programa raramente errava, bem sabia que era dos mais avançados do Território, mas como queria o Senhor Director que ele provasse -- de forma ainda mais contundente -- que não se encontrava naquele momento a fazer gazeta na Avenida Central?! E não, não tinha nenhum irmão gémeo. E sim, tinha a certeza absoluta disso!

 

O Director desligou o telefone sem estar convencido da inocência do Inspector. Este não cabia em si de tanta estupefacção, de tanta mágoa, de tanta revolta. Havia de pedir desculpa, o Director. Havia de se retractar, o ingrato! Respirou fundo e tentou ter pensamentos positivos. Gradualmente, sentiu-se acalmar. Preparou outra chávena de chá e voltou aos seus écrãs. Mal se sentou: outro sobressalto. Na Rua do Norte, no outro extremo da cidade, uma segunda câmara assegurava que, mais uma vez, identificara o Inspector Alves. O Inspector observou as imagens com os olhos muito abertos. Era de novo a sua cara: “Rosto identificado, análise conclusiva”. Mas o corpo pareceu-lhe diferente. Sim, era diferente. O Inspector sorriu, feliz com a sagacidade da sua própria observação: era um corpo de criança. Tinha metade da sua estatura e um quarto do peso. O que fazia a sua cara num corpo de criança? Ainda não sabia mas esclareceria tudo, tiraria tudo a limpo ou não se chamasse ele Alves. Pensou em ligar ao Director para reiterar e confirmar que continuava no seu escritório, não a passear pelas ruas durante o horário de trabalho, e dizer que tinha novidades. Num outro écrã, entretanto, tremeluziram de novo as palavras “Inspector Alves”. Desta vez circulavam dois Inspectores, de mãos dadas, na Avenida do Sul. O mais baixo usava saia. Alves esfregou os olhos. Tocou o telefone. O volume no máximo denotava assunto de excepcional importância. Não era o Director, era o Director do Director, o Dr. Guerra:

 

-- Está sentado, homem?  Se não está, sente-se.

 

-- Ia mesmo agora confirmar ao Senhor Director Sobral que estou no meu escritório. Mas o sistema continua a indicar que me encontro na Avenida Central, e na Rua do Norte, e descobri agora que há dois de mim a passearem de mãos dadas na Avenida do Sul! – disse o Inspector Alves...

 

-- Alves, oiça! – disse o Dr. Guerra. – Veja o écrã número 12, veja depois o 32,  o 65 a seguir, e o 44, se puder...

 

O Inspector Alves estudou os écrãs mencionados: viu-se multiplicado na Rua Direita, a sua cara aposta aos corpos de quatro raparigas adolescentes. Viu-se reproduzido na Rua Esquerda: o seu rosto substituído a cada um dos rostos de um grupo de soldados bêbados. Viu-se disseminado na Rua Escondida, a cara enxertada em cada um dos membros de uma família: mãe, pai, dois filhos, avó e avô, este último de bengala.

 

-- Parabéns, Alves! – disse o Dr. Guerra. – Gostam tanto de si que fizeram uma máscara em sua homenagem.

 

Eram máscaras “anti-detecção facial”, explicou o Dr. Guerra, máscaras que já existiam há muito tempo – sublinhou -- embora raramente se observassem nas ruas. Desta vez, não sabia porquê, alguém escolhera o Inspector Alves como modelo para uma campanha subversiva que,  tudo o indicava, seria prolongada e de larga escala.

 

A máscara, construída com materiais sofisticados que simulavam a pele humana, era tão fiel ao original que ludibriava os programas de deteção. O que era exactamente o que se pretendia: enganar, confundir, desacreditar, derrotar o sistema. A verdade é que o modelo vendia-se (ou distribuía-se gratuitamente, não sabia ao certo) com uma rapidez estonteante. Suspeitava-se de algum grupo “Anti-transparência”. O movimento tinha células que se multiplicavam como cogumelos. E esses movimentos, caro Alves, eram tão antigos como as câmaras de vigilância, não se esperava que desaparecessem facilmente. O Dr. Guerra não compreendia porque persistiam os cidadãos em sabotar os Serviços quando a missão destes era precisamente garantir a segurança e o bem estar de todos... Mas seriam detidos, assegurava. Infelizmente, não podiam fazer nada quanto a cidadãos sem antecedentes criminais. Adquirir e/ou utilizar máscaras não constituía crime (como o Inspector bem sabia) mas calculava que no prazo máximo de seis meses seria ilegal fazê-lo. Providências já tinham sido tomadas. Os Serviços, se queria saber, já tinham contactado advogados, deputados, activistas. O próprio Dr. Guerra até já iniciara uma campanha de sensibilização do público. OsServiços, claro está, não podiam mudar as leis por si mesmos, precisavam do apoio dos políticos, dos cidadãos. Até lá, ele que não se preocupasse excessivamente, não deixasse que isso afectasse a sua vida pessoal ou profissional, era ter paciência, amigo Alves, era ter paciência.

 

O Inspector Alves ouviu o Dr. Guerra com enorme apreensão. Terror até. Mas disfarçou. Disse que pela sua parte não se importava, não havia qualquer problema. Tentou até lançar uma chalaça mas a chalaça não saiu de forma suficientemente cómica. Por fim, balbuciou, com um fio de voz, que até era um gesto simpático, quase uma homenagem, uma verdadeira honra ter sido o escolhido.

 

No dia seguinte não foi trabalhar. Não se sentia bem. Pediu baixa médica. Não acreditava que aquilo lhe estivesse a acontecer a ele, logo a ele, Alves, que sempre fora popular, respeitado, até acarinhado, um oásis no deserto de antipatia que separava a população dos inspectores-vigilantes. Para se distrair, ligou a televisão. Procurou o canal das notícias. O pivot falava na vaga Inspectores. Um repórter entrou num autocarro acompanhado de uma equipa de filmagens. No interior não se viam senão Inspectores: sentados, em pé, encostados aos varões e pendurados nas alças, com ar desafiador, insolente, tatuagens nos braços musculados. Os três passageiros que não usavam máscara eram mirados com desprezo pelos restantes; até pelo condutor do autocarro, o qual, naturalmente, também exibia a sua máscara de Inspector Alves. Foram entrevistados três jovens Inspectores que – aproximando-se agressivamente da câmara -- insultaram o Inspector original com palavras ofensivas e gestos obscenos. Alves mudou de canal. Escolheu um programa sobre praias de sonho. Era uma praia de nudistas onde homens, mulheres e crianças tomavam banhos de sol, sem roupa ou adereços de espécie alguma, excepto máscaras de Inspector Alves. Noutro canal, três analistas políticos – usando máscara -- comentavam a onda de dispositivos “anti-deteção facial” perante uma platéia constituída quase exclusivamente por mascarados.

 

No dia seguinte o Inspector saiu de casa bem cedo. Queria apanhar ar. Distrair-se. Dirigiu-se ao café do costume. O café estava apinhado de Inspectores. Numa parede, lia-se o seguinte aviso:

 

“Os clientes sem máscara devem sentar-se na mesa do canto, assinalada para o efeito. No entanto, é obrigatório cederem o lugar aos clientes devidamente mascarados sempre que estes o solicitarem”.

 

O Inspector olhou para a mesa do canto: só clientes mascarados. O empregado, também de máscara, perguntou-lhe se podia serví-lo. Pediu uma cerveja fresca, sentou-se numa mesa próxima da janela e ficou a observar quem passava. A caminho da praia, do mercado, das suas casas; gente descontraída, bem disposta. Velhos, adolescentes, famílias. Crianças saltitando, rindo, outras chorando, mãos pequenas apertando as mãos grandes dos pais, fazendo birras.

 

Todos com máscara.

 

 O Inspector saiu do café. Dirigia-se a casa quando, após descer uma ladeira estreita, viu-se impedido de avançar: à sua frente, uma sólida barreira formada por traves de madeira. Era uma barricada. Olhando para cima, viu que tinham barricado também o início da rua. Um grupo de Inspectores de uniforme azul-escuro (que lembrava a farda do próprio Inspector Alves) pastoreava a multidão em direcção a um largo no centro do qual havia um fontanário. O fontanário -- que expelia três esguichos cansados -- erguia-se a meio de um tanque redondo de pedra. No largo desembocava uma complicada rede de ruas e travessas, por onde se podia entrar mas não sair. Os Inspectores do uniforme azul-escuro movimentavam-se com à-vontade, ordem e propósito. O Inspector Alves não conseguia parar de olhar em volta, rodopiando sobre os calcanhares, a boca muito aberta.

 

A multidão continuava a aumentar.

 

Um dos activistas, com um megafone na mão, subiu para um estrado e disse:

 

-- Amigos da Privacidade, tenho boas notícias. Se ainda não leram os jornais nem viram os programas televisivos, comunico-vos que a operação “Inspector Alves” foi um sucesso estrondoso. Reparem como nem um dos companheiros aqui reunidos se encontra sem máscara.

 

E começou a entoar:

 

-- Pri-va-ci-da-de! Pri-va-ci-da-de!

 

A multidão sem saber o que dizer. O Inspector do megafone insistia:

 

-- Pri-va-ci-da-de! Pri-va-ci-da-de!

 

Entretanto, chegavam mais Inspectores ao largo. Acotovelavam-se, disputavam o espaço a mais uma família surpreendida, a mais um grupo de turistas confusos, a mais uma excursão de idosos transviados; muitos já se amontoavam, e alguns nadavam, no fontanário.

 

Um pequeno Inspector, ao colo de uma maternal Inspectora, começou a choramingar. A Inspectora passou então o pequeno Inspector a um terceiro Inspector que devia ser o pai. O pequeno Inspector chorava a plenos pulmões. 

 

-- Não se assustem... – disse o Inspector do megafone fazendo uma pausa para recuperar o fôlego – ... com esta convocação inesperada. – O movimento evoluiu nestes últimos dias de acção revolucionária e chegou o momento de mostrarmos à cidade o que nos une e o que nos move:

 

-- Pri-va-ci-da-de! Pri-va-ci-da-de! – voltou a gritar.

 

-- Pri-va-ci-da-de! Pri-va-ci-da-de – repetiu um grupo de Inspectores-activistas,  misturados à massa de Inspectores-cidadãos.

 

-- Chegou o momento de tirar a máscara! – disse o líder esboçando o gesto de arrancar a máscara da cara.

 

Os activistas aplaudiram. Pedia-se agora aos cidadãos que, ordeiramente, formassem uma fila – que deveria dirigir-se ao estrado que ali viam -- e que, um a um, se identificassem perante a organização. Iriam ser submetidos a um rápido questionário e esperava-se que respondessem tão honestamente quanto possível. O objectivo era simplesmente ajudar a organização a determinar em que capacidades aqueles cidadãos generosos poderiam auxiliar o movimento em acções futuras. Toda a informação recolhida ficaria sob a custódia exclusiva da organização e não seria utilizada para quaisquer fins que não fossem os de apoio à causa.

 

Com o auxílio dos activistas – que uma vez ou outra tiveram de utilizar os cassetêtes para que prevalecesse a ordem -- a multidão organizou-se numa fila serpenteante, que enchia o largo em anéis cada vez mais apertados. Não cabia mais ninguém e, no entanto, não paravam de chegar mais Inspectores.

 

Sobre o estrado alguém colocara uma mesa com duas cadeiras. Numa das cadeiras sentara-se o líder e na cadeira em frente sentar-se-iam os voluntários. Cada um deles, à vez, retiraria a máscara e diria o que pensava, livre e espontaneamente, sobre a causa da Privacidade. Estes depoimentos seriam gravados com o fim de proporcionarem: a) materiais pedagógicos para a devida formação de futuros activistas; b) um precioso registo daquela acção histórica, porque quem esquece o passado está condenado a repetí-lo. Todo o processso não demoraria mais do que duas ou três horas, no pior dos cenários, demoraria o resto daquela tarde e, se as coisas corressem realmente mal, talvez o dia seguinte. Mas o que eram dois dias quando se preparava a transição para um mundo sem espiões nem Inspectores? Um mundo onde todos vivessem com dignidade, em harmonia e, sobretudo, em total Privacidade?

 

A multidão mantinha-se em silêncio. Algures, a meio da fila, um dos Inspectores suspirou profundamente. 

 

FIM

 

 


 

O Professor

 

Tenho treze anos e quero ser escritor. Foi o professor que me explicou o que significa ser escritor.

 

Tinha dez anos quando conheci o professor. Não gostei dele quando o conheci. Era um homem feio e velho, que olhava para nós como se tivéssemos feito alguma coisa que merecesse castigo. O olhar do professor magoava quando era de raspão e magoava ainda mais quando era fixo. O olhar do professor era quase sempre fixo. Usava uns óculos que escureciam assim que entrava na sala de aula. Por detrás dos óculos escondiam-se uns olhos pequeninos, que mal se deixavam ver. A pele das mãos e dos braços tinha manchas castanhas e era muito fina, quase transparente, com veias grossas. Eu pensava que o professor estava quase a morrer, que morreria antes de terminar a aula. O professor tossia muito e, às vezes, quando tossia mesmo muito, juro que lhe via pequenas lágrimas a saltarem atrás das lentes escurecidas.

 

Fiquei indignado quando os meus pais me pediram para participar num programa-piloto com o professor. Isso significava que não podia ir às aulas de moto-cross. Além disso, eu não sabia o que era um “programa-piloto”. Foi a minha mãe que me explicou que um programa-piloto era uma espécie de experiência científica, uma “experiência pedagógica”, dizia ela. Havia na cidade um professor que tinha ideias curiosas sobre o ensino básico, o secundário, o superior, e assim por diante. O professor procurava alunos para testar essas ideias curiosas.
 
A minha mãe insistiu muito e eu concordei para ela parar de insistir.

 

Na noite anterior ao primeiro dia, não consegui dormir. Diziam-se muitas coisas do professor e do programa-piloto. Por exemplo, dizia-se que o professor ia pedir a todos os alunos que usassem lápis e papel. Eu nunca tinha usado um lápis. Nem papel. Já tinha visto um lápis. A minha mãe guardava um no fundo de uma gaveta mas não deixava que eu ou os meus irmãos brincássemos com ele. Nem sequer o meu pai estava autorizado a usá-lo. A minha mãe dizia que era uma recordação, que era uma antiguidade, que tinha pertencido à avó dela, que já não se vendiam lápis nas lojas, que não se viam em lugar nenhum e que, por essa razão, ninguém estava autorizado a utilizar o lápis lá em casa. Muito menos a afiar o lápis. (Nessa altura não sabia o que significava “afiar um lápis”. Hoje sei.)

 

Com papel também não tinha experiência. Uma vez vi uma folha de papel a voar no ar, num filme. Era uma folha grande e grossa. Do tamanho de um rapaz da minha idade. Por acaso até foi um rapaz da minha idade que apanhou a folha que voava. Deu um salto, agarrou-a no ar, dobrou-a, guardou-a na mochila, e pôs-se a andar pela rua fora, todo contente.

 

O meu amigo Jaime tinha, não uma folha de papel, mas um caderno escondido no sótão de casa. Nem a mãe dele sabia deste caderno. O meu amigo Jaime dizia que escrever em papel era “para sempre”. Por isso era preciso cuidado, era preciso pensarmos bem no que queriamos escrever antes de escrevermos palavras que “ficariam no papel para sempre”. Eu não acreditava em tudo o que dizia o meu amigo Jaime. Não acreditava, por exemplo, que o que se escrevesse ficasse escrito “para sempre”. O Jaime um dia retirou o que tinha dito. Disse que tinha exagerado: “para sempre” era muito tempo, afinal não era “para sempre”. Mas disse que se escrevessemos uma palavra a lápis, no papel, podíamos carregar em todas as teclas que quiséssemos imaginar (o papel não tem teclas reais, apenas as teclas que quisermos imaginar) que as palavras não se apagavam. Podíamos sacudir o papel à vontade, ou até espezinhar o papel, que as palavras não desapareciam. O meu amigo Jaime também dizia, meio a brincar, meio a sério, que podíamos passar anos sem carregar a bateria do papel porque ela não descarregava. E porquê?, perguntava o meu amigo Jaime, começando a rebentar de riso. Porque o papel não precisa de bateria! O meu amigo Jaime riu-se muito depois de dizer estas coisas. O que mais gostei de ouvir o Jaime dizer -- embora não acreditasse em tudo o que dizia -- foi isto: podíamos guardar um papel numa gaveta que, dez anos depois, ainda se podia ler o que lá estivesse escrito. Dez anos depois! Que podíamos enterrar um papel na terra e que se o desenterrássemos quinze anos depois, vinte anos mais tarde, as palavras ainda lá estariam. Nisso acreditei. E a partir desse dia passei a querer muito aprender a escrever em papel. Com um lápis.

 

Havia quatro alunos na sala. Não tinham conseguido mais voluntários para o programa-piloto. Não sei se o professor estava desiludido, não parecia desiludido. A primeira coisa que fez foi perguntar-nos o nome. Com um cilindro fino e branco (chamava-se “giz”) desenhou riscos num quadro negro (que se chamava “ardósia”) e os traços ficaram completamente parados no quadro, sem piscarem, sem deaparecerem, sem se transformarem ou multiplicarem noutros riscos, mais pequenos ou maiores. Os traços não reagiam a quaisquer teclas que premíssemos porque não havia teclas. Não havia cursor. Não havia bateria. Ninguém me disse isto, nem eu disse isto a ninguém, mas concluí o seguinte: se, por alguma razão, ninguém apagasse as letras escritas no quadro -- em vinte, em trinta anos -- os traços desenhados pelo professor ainda lá estariam.

 

Fiquei a pensar nisto.

 

Um dia o professor disse que chegara o momento de escrevermos na folha de papel. (Em cada carteira havia agora um lápis e algumas folhas de papel). Escrever em papel com um lápis não é fácil. É como desenhar letras com um stylus de carvão. (O professor dizia: “grafite”). No início é difícil mas depois habituamo-nos. É necessário ter muita prática. É preciso afiar os lápis muitas vezes e ter cuidado para não carregar com demasiada força e partir o bico.

 

O professor também nos deixou levar para casa alguns livros em papel desde que prometêssemos que tentaríamos ler algumas páginas. Não era fácil ler livros em papel. Era necessário virar a página manualmente. “Virar a página” significava segurar o canto da folha entre o dedo indicador e o dedo polegar, com muito cuidado, e transferir cada página da pilha da direita para a pilha que se vai formando à esquerda. Eu rasguei algumas páginas mas o professor não protestou. É mais fácil ler livros electrónicos porque as histórias estão lá “temporariamente”, ou “por empréstimo” e, por essa razão, ler tem apenas a importância das histórias que existem “temporariamente” ou “por empréstimo”. Nos livros eletrónicos as histórias transformam-se. Transformam-se de dia para dia. De hora para hora. De minuto a minuto. Por vezes até de leitura para leitura, ou mesmo enquanto são lidas. As histórias transformam-se porque mudam “as circunstâncias”, disse o professor. Muda a própria tecnologia. Mudam “os produtos que acabaram de sair”. Mudam os noticiários, mudam os temas que estão na moda, mudam os interesses dos rapazes da minha idade. E os livros devem reflectir “o mundo em rápida mudança” ou “a rápida mudança do mundo”, já não me lembro bem como disse o professor. Por outro lado, é mais fácil ler livros em papel porque o livro em papel não me diz que demorei demasiado tempo para ler uma palavra. Ou que saltei palavras. Não pergunta porque gosto de certas palavras, nem porque não gosto de certas palavras. Nem me diz que acabou de ser inventado um rebuçado feito de extracto de morango, mas sem sabor a morango (com sabor a framboesa...) e que podemos encomendá-lo já no link abaixo. Nem me avisa que já estou atrasado para a escola (para a “outra” escola, não para o programa-piloto) e que, por já estar atrasado, “haveria toda a conveniência em retomar a leitura noutro dia”.

 

Um dia o professor olhou para a folha onde estavam desenhadas as letras dos nossos nomes, das nossas cidades e países, e disse que todos os nomes e cidades e países estavam bem escritos. O professor deve ter ficado satisfeito porque quase não se zangou nesse dia. E disse ainda que, se continuássemos assim, um dia poderíamos fazer duas coisas que poucas pessoas sabiam ou podiam fazer: ler os livros em papel que existem nos museus-bibliotecas e escrever mais dos livros em papel que existem nos museus-bibliotecas. E disse ainda que em papel podíamos escrever o que quiséssemos e não apenas o que os ecrãs dos computadores nos deixassem escrever. Isto era importante, disse o professor. Na altura, não percebi bem o que o professor quis dizer. Hoje percebo.

 

O professor devia estar mesmo feliz nesse dia porque nos apertou a mão a todos no fim da aula e disse: “Até amanhã”.

 

No dia seguinte, além do professor, havia um inspector escolar na sala. No meio da sala. O professor estava sentado na sua secretária, de olhos baixos, como se não soubesse que havia um inspector escolar no meio da sala. O inspector escolar era um homem grande. Parecia ainda maior quando abria os braços e falava alto. E enquanto falava – o inspector falava mesmo muito alto! -- apontava para os alunos, para o quadro negro, para os grandes cartazes de papel com letras pintadas, e, finalmente, para as folhas de papel e para os lápis em cima das carteiras. O inspector escolar nunca tinha visto nada assim. Disse que, com aqueles materiais, os alunos nunca aprenderiam a usar as “ferrramentas pedagógicas adequadas à época em que vivíamos”. As “ferramentas pedagógicas adequadas à época em que vivíamos”, segundo o inspector, eram os materiais digitais. E não aprender a usar bem esses materiais era “prejudicial” aos alunos. (O inspector pronunciou com muito cuidado cada sílaba da palavra “pre-ju-di-ci-al”). Disse que usar papel era péssimo para o meio-ambiente, que dizimava as árvores, que o pó do giz fazia mal aos pulmões, que os alunos iam ficar doentes, se é que não estavam já todos doentes. O inspector teve um enorme acesso de tosse ao dizer “todos doentes”, e disse ainda que “a capacidade de aprendizagem se atrasaria gravemente”, talvez mesmo, acrescentou, “irreversivelmente”.

 

O inspector escolar dizia estas coisas de braços levantados, fazendo rodar o corpo ora na nossa direção, ora na direção do quadro, ora na direção dos cartazes, ora na direção do professor, que continuava de olhos baixos como se não estivesse um inspector escolar no meio da sala. O inspector parecia um sacerdote que assustasse os fiéis em vez de consolar os fiéis. E parecia também um dançarino que tivesse as mãos muito abertas e sacudisse muito os braços. Que tivesse mais energia do que a que podia gastar se começasse a correr com toda a força e só parasse na marca dos dez quilómetros. O inspector escolar disse ainda que assim, com o método do professor, não havia tempo para completar “escola primária”, “escola secundária”, “licenciatura”, “mestrado”, “doutoramento” e “pós-doutoramento” até os trinta e cinco anos. Era necessário completar esses cursos – o inspector chamava-lhe “etapas da vida” --  até os trinta e cinco anos, no máximo. Para que depois houvesse tempo para viver “o resto da vida” em “tranquilidade, harmonia e sabedoria”. O inspector escolar disse que não se devia desperdiçar tempo, que havia que respeitar o tempo, que o tempo era um “bem limitado”.

 

O inspector escolar parou de rodar o corpo e de balançar os ombros e de sacudir os braços. Parou de olhar para nós, para o quadro, para os cartazes, para o professor. Deu uns passos até à secretária -- onde o professor continuava sentado como se não soubesse que havia um inspector no meio da sala -- e disse que tinha muita pena. Mesmo muita pena! Só então o professor olhou o inspector nos olhos e ficou a afiar o lápis, de pernas cruzadas, enquanto as aparas caíam no chão.

 

          Quando o inspector saiu, o professor disse que não havia aulas no dia seguinte, nem no dia que se seguisse, nem em mais dia nenhum. Os alunos ficaram calados, sem saber o que dizer. Eu fiquei calado, sem saber o que dizer. O professor disse que tinha de devolver a chave da sala “amanhã à tarde”. Levantei a mão e perguntei se podia voltar no dia seguinte para aprender a ser escritor. É que eu – como já tinha anunciado à turma -- queria ser escritor. O professor disse que eu ainda não podia ser escritor. O inspector escolar tinha interrompido o ano lectivo antes de ser dada a lição onde se ensinava a ser escritor. E essa lição não podia ser dada “fora de ordem”, ou seja, “fora da sequência de aulas” que preparavam os alunos para a tal aula que ensinava a ser escritor. O professor aproximou-se da minha carteira, inclinou-se, e em vez de me dizer que tinha muita pena, sussurrou-me uma coisa diferente ao ouvido.

 

No dia seguinte, estava na sala à hora do costume. Não havia alunos, só lá estávamos eu e o professor. O professor parecia contente ou, pelo menos, menos zangado do que era costume. Perguntou-me se eu sabia o que era ser escritor. Eu disse que não sabia bem mas que, mesmo assim, nada me faria desistir de ser escritor. O professor explicou que para ser escritor é preciso não gostar de escrever. Não gostar de escrever?, perguntei. Tu gostas mesmo de escrever?, perguntou ele. Respondi que sim. O professor ficou calado uns segundos e depois disse: “Queres ser escritor porque não sabes o que é ser escritor”.

 

O professor disse que ser escritor é acedermos às páginas das editoras na internet e envolvermo-nos em “negociações complicadas” -- eu não sabia o que ele queria dizer com “negociações complicadas” -- com os “programas de assistência ao escritor”. Sabes o que é um “programa de assistência ao escritor?”, perguntou. Eu não sabia mas o professor abriu o computador dele e mostrou-me. Visitámos uma editora para escritores da minha idade. Inscrevi-me colocando os meus dados pessoais nos espaços correspondentes e comecei a escrever uma história: “Visitei a minha avó no Natal”. O programa fez as seguintes perguntas: “Que idade tem a avó?”, “Que coisas cómicas diz a avó?”, “É bondosa como todas as avós?”, “Sorridente como devem ser as avós?”, “Tem muitas rugas como devem ter as avós?”, “Verrugas como devem ter as avós?”. E assim por diante. O programa não me deixava escrever nem mais uma palavra se eu não respondesse às perguntas. Se as respostas dadas não fossem as recomendadas pelo programa, das duas uma: 1) não podia continuar a escrever a frase -- ou o parágrafo, ou a história, ou o livro; ou então 2) teria de convencer o editor automático da “validade das minhas opções”, ou “da relevância dos meus argumentos”. (Eu na altura não sabia o que significava “validade de opções” nem “relevância de argumentos”. Hoje sei.)

 

O editor automático “reconhecia as dificuldades que se colocavam à carreira de um jovem escritor” e até pedia desculpa por estar a causar aquela maçada. O editor automático lembrava aos jovens aspirantes a escritores que escrever era difícil. Muito difícil. Difícil porque era necessário “agarrar” os leitores, “seduzir” os leitores e, sobretudo, “manter os leitores seduzidos”. Dizia que os leitores não eram um “dado adquirido”. (Eu não sabia o que era um “dado adquirido” mas não me atrevi a perguntar). O editor automático acrescentou que não se devia ter a “arrogância” de pensar o contrário do que ele tinha escrito. O editor automático insistiu, dizendo que os leitores gostavam de avós engraçadas, sorridentes, com muitas rugas e verrugas. Tinham mais graça, mais interesse, mais mistério.

 

          O professor disse que já tinha sido escritor e que não tinha gostado. (Hoje percebo que o que ele tinha sido não era bem “escritor”). O professor disse que uma vez tinha escrito “Um rapaz bateu com a cabeça num muro e a cabeça separou-se em duas metades iguais, como as duas metades de uma laranja”. O programa não aceitou aquilo. Justificou a frase o melhor que pôde mas o programa continuou a impedir que a frase se escrevesse. O professor resolveu “acionar todos os mecanismos necessários para defender o que tinha escrito” e pediu uma entrevista com um editor automático mais sofisticado. O professor teve sorte e em vez de um editor automático mais sofisticado, a editora permitiu-lhe conversar com um editor de carne e osso! Este editor de carne e osso rejeitou a frase ainda mais depressa do que tinham feito os programas automáticos. O professor não desanimou e resolveu submeter a mesma frase aos programas de edição automática de outras editoras. As editoras de literatura realista rejeitaram a frase sem qualquer explicação. As editoras de literatura infantil diziam que a frase não era suficientemente infantil. As de literatura de terror diziam que a frase não era suficientemente aterrorizante. As de literatura fantástica, que a frase não era suficientemente fantástica. As de literatura séria, que a frase não era suficientemente séria. E as editoras de livros cómicos e absurdos, que a frase não era suficientemente cómica nem absurda. Uma delas – uma editora com problemas, que precisava de autores com urgência -- recomendou “O rapaz partiu a cabeça”.  Porque não dizer o que pretendia de maneira simples e concisa? Para quê complicar as coisas? Sim, para quê complicar as coisas quando o mundo já era suficientemente complicado?

 

Estes programas, dizia o professor – sem deixar de olhar para mim com o seu ar severo -- eram “demasiado lógicos e sensatos e úteis”. Tão “lógicos e sensatos e úteis” que eram insuportáveis. O professor pôs a mão no meu ombro. A mão dele nunca tinha ficado tanto tempo no meu ombro e eu nunca a tinha sentido tão pesada. Tirou o meu lápis e as minhas folhas de papel da sua secretária e deu-mos. Eram meus. Podia ficar com eles “para sempre”, disse meio a brincar, meio a sério. O professor disse-me que as letras que eu escrevesse naquelas folhas, com aquele lápis, durariam pelo menos o tempo que eu durasse. Talvez mais. Talvez bastante mais. Que eu poderia escrever o que quisesse. Tudo o que quisesse. Coisas complicadas ou simples. Inteligentes ou estúpidas. Aterrorizantes ou tranquilizadoras. Prejudiciais ou edificantes. Cómicas ou sem graça nenhuma. Frases que fossem ilógicas, insensatas ou inúteis. Ou -- porque não? -- lógicas, sensatas e extremamente úteis. Ou ainda, aqui ficou mais sério, frases que fossem todas estas coisas ao mesmo tempo, ou que fossem combinações de todas estas coisas nas proporções que eu desejasse.

 

Disse que podia dirigir as minhas palavras a quem eu quisesse. Aos especialistas ou aos ignorantes. Aos atormentados ou aos felizes. Aos loucos ou aos lúcidos. Ou então, se preferisse, que não as dirigisse a ninguém. Que escrevesse para um leitor que não existisse. Que ainda estivesse por nascer. E que ser escritor era isso. Disse o professor.

 

FIM

 

António Ladeira é professor de literaturas lusófonas na Texas Tech University há mais de quinze anos, tendo ensinado na universidade de Yale e no Middlebury College (EUA). É doutorado em Línguas e Literaturas Hispânicas pela Universidade da California em Santa Bárbara e licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Publicou quatro livros de poesia em Portugal, tendo alguns dos seus textos poéticos saído na revista Colóquio-Letras,Jornal de Letras, Artes e Ideias, revista Relâmpago, etc. Fez crítica literária no Diário de Notícias (sob a direcção de Cecília Barreira) em cujo suplemento para jovens – DNJovem – colaborou com assiduidade. O texto ‘O Inspector’, inédito – escrito há cerca de 4 anos, mas nunca tão actual, dados recentes desenvolvimentos políticos internacionais -- é parte de um conjunto de contos sobre tecnologia e totalitarismos, intitulado Os Monociclistas, a ser publicado em breve por uma editora portuguesa.
O conto ‘O Professor’, parte do mesmo conjunto de contos, foi publicado na seguinte revista online açoriana:

http://www.rtp.pt/acores/comunidades/-o-professor-antonio-ladeira_50413
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Paginação:

Nuno Baptista


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