ANO 4 Edição 56 - MAIO 2017 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


Sete poemas de Caio Junqueira Maciel

INDAGAÇÕES DE UM POBRE TOLO

 


“                            O tolo ri,
Porque se lembra de ter sido Apolo,
Irmão da Primavera, aquela deusa
Que baila com os zéfiros de Abril
(Teixeira de Pascoaes, O pobre tolo, 1924)

 

Dizia o pobre tolo, junto ao Tâmega,
Rio de verdes sombras liquefeitas,
“Sou filho de um Portugal montanhoso,
Minha essência é a mesma da Natureza,
Das abas do Marão fiz moradia,
Daí trazer em mim algo de esfinge,
Quem um dia vai decifrar o enigma
Do embuste que fizeram do Abril?”

 

Iam passando andrajos diante dele,
Esquálidas figuras de outras eras,
Ruínas de esperanças, seres ocos,
Sem alegria, animação ou bulha;
Iam passando pessoas impossíveis
De poemas ou de arte pictórica:
Destroços de sonhos, mera fuligem,
Equívocos de falsas primaveras...

 

Como ninguém dava importância à sua
Pergunta impertinente, enigmática,
O pobre tolo olhou para o abismo
Dentro de si mesmo, e qual possesso
Com relâmpagos iguais a de um Poeta,
De repente floriu em um sorriso
Regressou à infância –  seu paraíso
E fez de si mesmo a Primavera.

 

 

SONETO DE SOLIDÃO

 

As cartas do baralho estão na mesa.
Sozinho, o homem joga paciência.
Mas se julga estúpido. E a desistência
É só questão de tempo, com certeza.
Descartada a esperança, a experiência,
O homem já não crê nem na beleza.
Por isso, já vazios sobre a mesa
O copo, a garrafa e a inocência.
Fechado em copas, mergulhado em caos,
O homem nem pegunta quantos paus
Fizeram a tal canoa naufragada.
Como se fosse no fio de uma espada,
O homem corta o baralho, deixando
Sobre a mesa o rei de ouros, sangrando.

 

 

SONETO DE SÃO FRANCISCO

 

Um dia, São Francisco de Assis, 
Escutando piar um passarinho
Que descuidado caiu de seu ninho, 
Resolveu ajudar o infeliz.
E com suas mãos deu calor à ave
Que imediatamente cessou o pio
Do coraçãozinho voou o frio:
Eis que achara um ninho mais suave.
São Francisco percebendo, então,
Tanto conforto do pequeno ser,
Deixou aquela pluma em sua mão.
Por um bom tempo era de se ver
Aquelas mãos de onde vinha um canto:
Era o pássaro que saudava o santo

 

 

SÍTIO ÍNTIMO


Sinto muito
este sítio íntimo
um lugar camões
só trancado com chavões de soneto
e onde entre inquietos parênteses
(sem olvido ou ovídio, com memórias rumorosas)
felino faço bagonças transcendentais
mirando murilo, com juízo de fora,
com chapéu de dúvidas e bramar de espanha
neste país busco
pacificar minhas mediterrâncias
e nesta rua piso latidos pusilânimes
neste país busco
um bosque
que se chama que se drama
solidão.

 

 

POEMA DESENTRANHADO DE UM FRASE DE SÉRGIO FANTINI
“O Caio, disfarçado em professor de cursinho...” (S.F.)

 

Então esta face falsa exposta à classe
como se lá dentro almanárquica ocultasse,
por mais de trint’anos sem lâmina que a escanhoasse,
a não ser o aço inexorável que bem no fundo cavasse
e, em livro aberto, exata página pusesse fim ao impasse.

 

Então aquelas acrobacias, puro disfarce,
meneios de truão em franca farsa,
vasculhando pelas salas um comparsa,
um cúmplice que pudesse em tom de valsa
afinar enfim o som que se exilava atrás da máscara.

 

Há de haver um modo de se pegar no laço
esta criatura que de boi sonso atua e pasce,
e fazer com que se escreva e não só que lesse,
e fazer com que flameje e não só fingisse,
para que afinal a vida verdadeira aflorasse.

 

Cumpra-se, pois, aquilo que o amigo disse,
sem renegar os passos gastos só na superfície,
sem rasgar com raiva e nem fazer destroços
dos muitos mil dias, túnica para os ossos,
e assim revelar o que sobra no resto deste rosto.

 

 

CACILDA!

 

Que mané tristeza coisa nenhuma:
Não é tão tarde nem inês é morta,
Se a maria foi com as outras, assuma
Sem cercar lourenço em minha porta.


O que dá em chico, dá em francisco,
E você nunca foi um zé ninguém,
Quem pariu mateus é que corre o risco,
Casa de mãe joana não lhe convém...


Se a vida lhe deu tomé, peça ajuda,
Mas jamais aja como mariquinha
Que veio lá do cafundó do judas
Com os trejeitos de maria-chiquinha.


Pra quê viver nessse banho-maria
Com ar de madalena arrependida,
Não seja um joão bobo, vamos, sorria
Pois vai aparecer a margarida...

 

 

 

O ASSASSONHO

 

Assim como o assassino
Merece a punição
Pelo crime tão medonho
Há também o assassonho:
Não deixa sangue na fronha
Mas mata tudo o que sonha
Destrói suas fantasias
Acha que o reles real
Vai encher as vidas vazias.
Entupindo-se de realidade
Ele se torna estúpido
E explode num estampido
Os sonhos que tem vivido.

 

Poeta brasileiro, Mestre em Literatura Brasileira. Publicou vários livros como ensaísta, contista e poeta. É letrista musical. Autor da Coleção Cadernos de Literatura Comentada.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de MAIO de 2017


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Prior       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Prior, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de MAIO de 2017:

Henrique Prior, Alexandre Brandão, António Ladeira, Caio Junqueira Maciel, Carlos Barbarito, Carlos Matos Gomes, Christina Montenegro, Claudio Alexandre de Barros Teixeira / Claudio Daniel, Danyel Guerra, Denise Bottmann, Denise Freitas, Federico Rivero Scarani, Fernanda Fatureto, Geraldo Lima, Henrique Dória, João Rasteiro, José Manuel Morão, Luís Fernando, Maria Toscano, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Natália Nunes Bonnaud, Ngonguita Diogo, Nilo da Silva Lima, Ricardo Ramos Filho, Roberto Cignoni ; Rolando Revagliatii, Rolando Revagliatti, Ronald Augusto, Rubens Zárate, Rui Miguel Fragas, Sandra Poulson, Silas Correa Leite, Tito Leite, Wanda Monteiro, Wender Montenegro


Foto de capa:

Il Quarto Stato - Giuseppe Pellizza da Volpedo, 1901.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR